A imaginação é um contexto
baseado em imagens, como a própria etimologia da palavra sugere. Uma sequência
de imagens gera um contexto imaginário que pode ou não ter relação com a
realidade imediata dos acontecimentos. Como tal, a imaginação é o terreno
fértil da projeção.
Já o pensamento está baseado em
ideias. Uma sequência de ideias produz um sistema, um sistema de pensamento, e
sua acepção em forma pode produzir um contexto construtivo e regulador da
realidade, como ao se pensar em uma receita de bolo, por exemplo, feita passo a
passo, mas que, inadvertidamente, adquire nuances de sabores diferentes,
dependendo “da mão de quem faz” o bolo.
O pensamento imaginário não pode
ser entendido como uma forma de associar ideias aos seus conteúdos diretos.
Explico melhor: uma ideia não é necessariamente uma imagem. Mas na experiência
cotidiana dos acontecimentos, a imagem-mundo está totalmente impregnada por
nossas ideias e pode ser “continuada” pela imaginação, como em uma fantasia,
por exemplo. Com nossa mente errada, podemos apenas imaginar o futuro; e todo o
passado é também impregnado pela imaginação.
Imaginar é muito fácil, pois não
pede mais que a pronta associação de imagens. É uma perversão do pensamento,
por assim dizer. Isso não quer dizer em absoluto que a imaginação seja algo
“mau”. Sem imaginação, não haveria parábola, símbolo, metáfora, rito, nem mesmo
boa parte da linguagem religiosa. Mas esta questão sugere que a nossa distinção
entre realidade e fantasias possa ser dificultada pelo uso imperioso e
equivocado da imaginação, principalmente quando estamos confundindo pensamento
com imaginação.
Certamente, na experiência
cotidiana, a imaginação e pensamento não são faculdades tão separáveis assim.
Grande parte do pensamento humano opera com imagens, analogias, cenas, esquemas
espaciais, metáforas e simulações. E, do outro lado, a imaginação não é só
desfile de figuras: ela pode organizar hipóteses, antecipar possibilidades,
explorar relações e até servir ao conhecimento. No entanto, o mais importante
para o nosso raciocínio aqui é a ideia de que os pensamentos que julgamos como
próprios são na verdade imagens que fizemos, ou imaginações de pensamento.
Muitas vezes, quando pensamos que estamos exercendo o pensamento, estamos
apenas a imaginar coisas, eventos, situações, contextos etc. A associação entre
todos estes elementos imaginários produz uma forma de ver o mundo que é a base
da projeção.
Portanto, imaginar não é o mesmo pensar;
e pensar corretamente é um aprendizado esquecido por muitas pessoas, que preferiram
ouvir ao ego. E o pensamento que produz sistemas também não é contexto de
mundo, mas apenas associação de ideias que podem ou não estar certas. O
pensamento verdadeiro é o pensamento da mente certa, que surge de uma
disponibilidade do pensador em ceder espaço ou ser disponível ao verdadeiro
Sistema de Pensamento, que surge do conhecimento. Assim, a única maneira de
pensar corretamente é pensar com o Espírito Santo. Como fazemos isso? A
resposta é óbvia: entregando nossa mente a Ele.
Certamente, o ego pode muito bem
aqui imaginar um certo espírito santo que ele crê verdadeiro, que pode tomar
qualquer nome, e assim dar vigor ao seu sistema de pensamento vigente, baseando
seus novos pressupostos em diretivas salvíficas, morais ou, por outra,
prazerosas e plenas de poder. Assim surgem os líderes de seitas, por exemplo;
ou os viciados em transmitir “a mensagem”, ensinar “os conceitos” etc.
Imaginar não é pensar, e fazer
ideias também não o é. Produzir construções mentais não equivale ainda a pensar
verdadeiramente. Fantasias não são a realidade, e o próprio mundo é uma ilusão
de formas, embora a vida aconteça nele e isto seja de fato inegável. Nefelibata é
o nome dado aos que vivem nas nuvens. Dizer que o mundo é uma ilusão enquanto
não se sabe exatamente o que se quer dizer por ilusão pode ser apenas mais uma
ferramenta de imaginação, vã fantasia.
O despertar para a verdadeira
natureza do pensamento surge de uma imersão na tática mais inteligente: o
óbvio. Já foi dito aqui em outra oportunidade que “inteligência é entrega.
Toda conclusão inteligente surge de uma obviedade, pois inteligência é a
simplicidade em estado puro. A mente certa é de uma obviedade fantástica. Em
breve saberás disto pela tua própria experiência.” E aqui paremos um pouco e
façamos um pedido.
A obviedade e a clareza do
pensamento certo são patentes para qualquer um que tiver ouvidos para ouvir. O
próprio Curso diz, quanto discute sobre a questão do problema e a resposta, que
“esse não é um curso sobre o jogo das ideias, mas sobre suas aplicações
práticas” (T-11. VIII. 5:3). Então, como nós poderemos observar o mundo real,
se tudo o que fazemos é imaginá-lo? Fantasiar sobre o mundo, sobre os pecados
cometidos ou injustiças sofridas, sobre sistemas perversos criados por homens
loucos dificilmente é um retrato fiel da imagem cristalina que queremos
enxergar despertos. No entanto, imaginar é muito mais fácil, ou, melhor
dizendo, convence.
O quarto exercício do Livro de
Exercícios diz que “estes pensamentos não significam nada”. Depois,
atribui os pensamentos ao seu fazedor, ao personificar a ideia com a seguinte
construção: “meus pensamentos não significam nada”. Por fim, mas
não definitivamente, o Livro de Exercícios apresenta a ideia de que “Meus
pensamentos são imagens que fiz”.
Olha para o mundo sem imaginar o
mundo. Os acontecimentos que vemos são neutros, embora todos queiram dar
opinião, classificar, imaginar, fantasiar, condenar, julgar. A mente está
viciada em julgar, em classificar, em imaginar algo que não existe absolutamente
e assim criar mundos particulares. Esta é a meta do ego. E o que é finalmente o
perdão, neste contexto? “o perdão diz que os erros que teu irmão (e o mundo)
cometeu não são reais”. Isso não quer dizer que você deva acreditar que as
coisas feias são bonitas ou que haja certezas sobre quaisquer coisas que tenham
sido feitas a ti. "Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas tu
não serás atingido", diz a Bíblia. Para que isto aconteça, tens que saber
sobre a realidade das ilusões. Diante disto, o ponto de vista torna-se o ponto
da questão (fantasias) e o perdão como ele realmente foi concebido e pensado
passa a ser um lugar de apoio para o pensamento certo.
É claro que não parece fácil,
pois não é um contexto moral, mas de natureza. O perdão sempre foi considerado
como um problema moral, mas é na verdade um problema de natureza, vindo
verdadeiramente da tua própria natureza abstrata. O ser humano tem em suas mãos
uma ferramenta poderosíssima chamada consciência, mas não sabe como usá-la. Não
sabe o que fazer com sua própria consciência, então o ego surge com uma solução
típica: passe seus dias a imaginar. Assim, o sujeito da experiência imagina que
pensa, ou pensa que pensa. Chega a conclusões complexas e complicadas e todo o
dia quer mais disso, mais de especulações, sendo a principal delas a seguinte:
quem sou eu? Há milênios o homem está a se fazer esta pergunta e não houve um
sequer para dar a resposta. Será então que já não é hora de perceber que o
cenário não muda nem vai mudar? Ilusões servem apenas para criar contextos
ilusórios. Você é simplesmente aquele que nada sabe sobre coisa alguma. Assume
isto. É um passo importante.
Você nada sabe simplesmente
porque não é necessário saber. Quem sou eu? Que tal ter a experiência de Quem
És? Não estou falando aqui de viagens à 13ª dimensão ou experiencias
extrassensoriais. Tais coisas podem acontecer, não há problema, e podem ser engrandecedoras,
mas o que somos está no Céu, este “lugar” ou “estado” que somente pode ser
simbolizado pela ideia de algo que está acima de nós todos os dias e nos traz a
chuva e o sol, o dia e a noite, a nutrição e o embelezamento; ou o terrível
supor da tempestade, o dilúvio e o renascimento. A palavra "Céu" foi
um símbolo utilizado para que assim possamos entender algo que está muito além
da consciência mesquinha do ego, pois no estado em que nos encontramos como
humanidade somente alcançamos entender o que se quer dizer realmente com isto
através de símbolos. Mas, na consciência assustada, a experiência direta foi
substituída pela imaginação, que sonha com dimensões extraterrestres, a paz
mundial, experiências com drogas, enfim, tudo o que pode ser verdadeiro também,
em direção à Verdade Última, da qual todas estas coisas, quer você acredite
nelas ou não, são recursos valiosos se observadas com perdão. No entanto, a
verdadeira experiência de saber o Que se É pode começar com um passo muito mais
simples:
“eu não sei o que sou e,
portanto, não sei o que estou fazendo, onde estou ou como olhar para o mundo ou
para mim mesmo.
Entretanto, é aprendendo isso que
nasce a salvação. E o Que
tu és te falará de Si
Mesmo.” (T-31; V. 17:7-9).
