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domingo, 15 de março de 2026

Sobre preocupar-se com a opinião de outros egos

 


Lembrar-se de Deus não significa que todas as coisas de sua vida entrarão imediatamente em harmonia com o mundo, como um espelho claro da mesma serenidade de pensamentos que irás experimentar. O UCEM não se trata de melhorar o mundo, pois aquilo que não existe não pode deixar de ser uma ilusão. Mas a forma com a qual passarás a enxergar o mundo mudará completamente; ou, melhor dizendo, será recolocada de cabeça para cima. E de tal maneira será assim que a forma com a qual o mundo será reinterpretado para ti terá o efeito de uma redenção; não do mundo, mas em tua mente. A consequência disso é perceber o mundo real.

Os nossos sentimentos “ruins” não devem ser compreendidos como uma forma de punição ou culpa. Tampouco são resultado de uma energia espontânea e autoritária, visando controlar a tua mente. Obviamente, e, no entanto, a impressão que se tem durante tais “crises” é a de que parece ser assim. Parece que estamos sendo tomados por pensamentos e ideias totalmente alheias a nossa vontade, geralmente forcejando sugestões insanas ou ruminando aspectos relegados a uma nova caminhada intragável, uma consequência inevitável, uma queda de valor e amor-próprio etc. Tais ideias tendem a gerar sensações desconfortáveis, que podem tomar a forma de sensações desagradáveis no próprio corpo, bem como na mente; nesta última sob a forma de perturbadoras inquietações.

O amor que salva — e o amor só pode salvar — está sempre disponível, mas pode ser obliterado pela insanidade, ou doença. Por um tempo, enquanto a insanidade for tão valorizada que a única coisa que estiver claudicante como sensação seja o medo ou o terror disso ou daquilo, a ansiedade será reinante. O sujeito de tal experiência pode ter a sensação de que jamais conseguirá sentir-se bem-disposto novamente, em plenitude, e isso pode durar muito tempo. Tal indisponibilidade pode induzir à conclusão equivocada de que se está “condenado irrevogavelmente”, ou que se tenha perdido completamente a capacidade para o bem-estar.

Em casos muito graves, como naquele que se chama de “loucura” neste mundo (refiro-me aqui a loucura de sanatórios), o sujeito da experiência pode se acreditar tão ausente de si mesmo que os seus encantamentos perversos podem tomar a sua mente “por completo”, a ponto de haver um deslocamento da presença do tomador de decisões, entreabrindo a porta para que passem pela brecha resultante quaisquer conteúdos insanos que vigorem em sua mente, caudalosamente, como se jorrassem até sua consciência em um fluxo mal ordenado e contínuo. Uma vez que a consciência se ausente da vigilância ao ponto da suspensão, os conteúdos do inconsciente serão ordenados de acordo com desejos, que podem tomar formas arquetípicas (possessão) ou ainda modelada em contextos os mais diversos, como os apelos sexuais fortemente desordenados, compulsões de todo o tipo, energias vitais voltadas para a pulsão de morte, ou ainda restos de dignidade como uma tentativa malograda de se rever valioso (o louco que conversa com um rei, que se entende como Jesus, que acha que é Napoleão ou o Presidente do Brasil, o marido da princesa, a esposa do Imperador), sensações localizadas no corpo e mente experimentadas como impotência (o mundo que se acabou para ele, a incapacidade de realizar qualquer coisa que preste ou a vontade de acabar com tudo). Quando estas características são projetadas fora, obviamente o mundo não parecerá mais com um lugar de construção, de consecução de seja lá o que for. O mundo parecerá impiedoso e cruel; insano e totalmente voltado contra ele, de tal forma que a aparência irrecuperável da vida aparecerá para si como uma tese firmemente estabelecida pela sua própria existência, embora pouco consiga alcançar em relação ao entendimento são acerca do “como” e “por que” tal tese foi auto estabelecida. Diante de um quadro tão confuso quanto simples de entender, o louco pode se acreditar irrecuperável, mas, vez ou outra, como acontece frequentemente com psiquiatras ou enfermeiras que trabalham em instituições mentais, perceber-se-á neles lapsos de sabedoria, geralmente cifrada em termos simbólicos.  

Óbvia e patologicamente, tal atestação de apenas uma parcela da mente estar disponível é insana. As pessoas que estão do lado de fora das portas de sanatórios também são tomadas pelos mesmos sintomas, em graus menos pronunciados, mas aparentemente existentes e convincentes. Este grupo pode perceber isto: a insanidade é a crença em que se está separado de um todo pleno e amoroso, totalmente compreensivo e estimulante, relacionado ao contexto integral de um estado do ser que aparenta apenas um sonho esquecido de quando ele fora criança ou das ocasiões de indução temporária, quando o sujeito coloca-se à disposição de estados provisórios de êxtase.

Outra forma que a insanidade pode tomar é a preocupação exagerada com as opiniões dos outros egos, ou com a reputação. As pessoas encantadas com a prevalência do ego neste mundo (e em suas próprias mentes) acreditam muito fortemente que a opinião de outros egos podem dizer algo sobre si mesmas. Uma das distorções mais claras acerca disto é a criação equivocada do conceito de fama, ou de alguém famoso. Uma pessoa famosa poderia ter sobre si a opinião mais ilustrada de que um ego é capaz, sendo, portanto, uma ferramenta de poder elevado ao status de cuidado, ou importância. A veneração dos egos, no entanto, é tão flutuante quanto o é instável sua loucura. O “famoso” pode cair em “desuso” para as criações egóicas e se tornar um mero fantoche de projeções insanas, sendo preciso que se consiga dele um pedaço de roupa, um autógrafo, uma foto, alguma coisa material. Certamente, em oposição a tudo isso, falaremos dos professores avançados, mas estes não estão relacionados na lista dos “famosos”, pois suas ideias são estrangeiras ao ego.

O Professor Avançado está no polo oposto do insano. Isso não significa que ele não possa ser sugestionado por seu próprio ego e eventualmente cair em difíceis períodos de confusão, disturbado durante um período muitas vezes sentido como enorme. O UCEM também adverte que “poucos apreciam o poder real da mente e ninguém permanece plenamente ciente dele o tempo todo.” (LT II-VI:9). É possível, portanto, que mesmo um Professor Avançado se veja aparentemente em apuros mentais “contra” seu próprio ego. O processo de despertar é doloroso e acontece mediante uma reversão de valores e perspectivas que realmente não ocorrerá sem alguma dor. Todos os Professores Avançados da história passaram por isso. Mesmo depois de consolidado o despertar, o ego desfeito pode exercer uma tentativa de prevalecer em sua forma múmia. Mas dificilmente, após ter sido experimentado em navegações difíceis, o capitão da embarcação deixará tudo a comando de um marinheiro maluco. Sua apreciação da vida voltar-se-á para ele irremediavelmente, e sua capacidade e clareza estarão disponíveis com retorno certeiro sem que precise para isso fazer grandes esforços, pois o que é verdade não precisa de esforço para ser verdadeiramente Aquilo Que É. Assim, o Professor Avançado mantém sua confiança intacta e esta é uma característica que muitas das vezes reaproxima a cura.

Confiar naquilo que é verdadeiro é a direção máxima da fé. Não como uma instância imaterial e distante com pouca interferência aqui, mas como uma correção. A permissão para a correção vem de uma instância imaterial que não acredita neste mundo, embora possa percebê-lo. Sabemos, então, que falamos aqui do Espírito Santo. Na medida em que Ele não crê na percepção, é-lhe muito fácil percorrer os caminhos que distinguem a ilusão e permitem perceber a ausência de significados de todas as coisas separadas. O Espírito Santo pode conduzir o tomador de decisões a uma nova forma de permitir ver a si mesmo. Assim, sua autoavaliação não precisará mais conferir seu valor por intermédio da positivação de outros egos ou de si mesmo. Ele sabe que seu valor foi estabelecido na Criação pelo próprio Deus. E somente assim ele poderá receber as dádivas de lírios de seus irmãos, por intermédio da comunhão ou Filiação. Ele não precisa de nenhum valor ilusório, embora isso não precise resultar em paralisação. O mundo está aí e existe uma experiência de vida reinante. No entanto, o verdadeiro sábio não espera que sua salvação ou maldição venham deste mundo. Este mundo não pode determinar nada. E como Deus não têm oposto, a Salvação é inevitável. Os Professores Avançados sabem disto e direcionam seus esforços na direção da saúde mental, sem necessariamente desfazer seus desejos legítimos ou seus repertórios salvíficos, para que possam, assim, encurtar tempo.  

domingo, 28 de junho de 2020

Sobre os pesadelos e a realidade das imagens




Pergunta:
em relatos sobe EQM (Experiência de Quase Morte) geralmente há considerações do sujeito que passou pela experiência acerca da presença de níveis “baixos” ou "maus" de energia, vivenciados enquanto esteve além do corpo. Em qual medida há algum pressuposto de verdade nestes depoimentos, disposto que aceitamos que ilusões não podem condenar?

Aqui há uma dúvida sincera. Não existem níveis em milagres. Isso acontece porque não existem níveis de ilusões. Uma ilusão é uma ilusão e não há nada mais a se dizer sobre a sua natureza. Por que, então, existem tantos depoimentos que associam uma presença energética, ou superpondo uma consideração de “energia negativa” versus “energia positiva”, diante dos acontecimentos deste mundo, ou mesmo quando este mundo é observado desde uma perspectiva além-corpo? Isso é muito simples de se entender. O mundo como ilusão permite que coisas que não existam pareçam acontecer. A verdade é que nada está acontecendo de verdade, mas parece que sim. Neste sentido, há coisas feitas e coisas criadas. As coisas feitas são as tais baixas energias, simplesmente porque não são criativas e vibram em acordo com o ego, que não tem poder nenhum e tudo o que faz tem pouca luz. Por outro lado, há coisas que são criadas mesmo aqui, estas estão associadas à Filiação e à mente única, sendo, portanto, sustentadas pelo poder da Própria Criação. Estes eventos criam luz. Isso não significa sobremaneira que sejam reais. Apenas são símbolos da Criação, enquanto outras ilusões são símbolos da “feitura”. Não existindo níveis de ilusão, o único remédio para tudo passa a ser o perdão, quando não há critérios de julgamento, pois ninguém em sua sã consciência vai julgar algo que tenha acontecido durante o sonho noturno como um acontecimento real. É claro que pode ocorrer de um sonho noturno entregue ao Espírito Santo divulgar um motivo criativo mesmo aqui, mas quando isso acontece não temos dúvida sobre a realidade daquilo, pois o que é verdadeiro e criativo é verdadeiro e criativo em qualquer lugar. Agora, a pergunta que você tem que se fazer com verdadeira honestidade é esta: acredito que as imagens que geram tal “energia negativa” sejam ilusões?

O Livro Tibetano dos Mortos é um pequeno manual para ser lido ao moribundo na hora de seu desprendimento do corpo ou um pouco após o falecimento. Este ritual dura certo tempo; alguns dias, se não me engano. Não lembro com exatidão a extensão deste período agora, pois cito de memória e já faz um bom tempo desde que li este maravilho documento pela última vez. Nele é possível encontrar instruções a serem lidas com a intenção de orientar o morto ou, segundo nosso currículo, com a intenção orientar a consciência que acabou de abandonar seu instrumento de aprendizado e encontra-se agora em um ambiente que pode lhe ser totalmente esquecido e estranho. No Livro Tibetano dos Mortos, este ambiente no qual a consciência se vê logo após o encerramento do ciclo de seu instrumento de aprendizado é chamado “Bardo”.

Como estou citando de memória, não lembro exatamente tudo, mas sei que um dos critérios desta orientação ao “morto” é sussurrar-lhe à consciência, através de um ritual no qual orientações lhe são passadas, que tudo o que ele estiver presenciando no Bardo como imagens são ilusões, e que ele deve seguir em direção à luz, sem medo. Segundo o livro, neste momento várias imagens tremendas e associadas aos medos mais profundos do recém-transferido podem surgir, e é neste momento que lhe é citado que tudo o que vê como imagens macabras são ilusões. No entanto, há um segundo momento no qual imagens sagradas que foram associadas durante aquela vida como sendo mais celestiais serão apresentadas também à consciência do “morto”, como, por exemplo, a presença de santos e anjos em lugares incríveis e maravilhosos. O Livro Tibetano dos Mortos relata que esta fase do Bardo também deve ser tratada como ilusória pela consciência, embora ela traga a antessala da luz (perceba como isso parece com a noção de “mundo real” ou “mundo perdoado”, presente em nosso currículo. Segundo essa noção, antes do despertar veremos o “mundo perdoado”).  Acaso o medo surgir em qualquer uma dessas fases, é possível (segundo a crença do livro) que várias cenas de copulações surjam como imagens àquela consciência, um momento no qual ela pode se sentir atraída para aquelas imagens, para ser então absorvida por elas, ao que retornaria por meio deste caminho a encarnar em uma “nova vida”, através de alguma concepção. Salvo engano, a mente é advertida também pelo leitor do Livro Tibetano dos Mortos, como um último esforço simbólico, de que as imagens de copulação são igualmente ilusórias (posto que irão conduzi-lo novamente a um mundo de ilusão).

(De toda forma, e igualmente, se há níveis de ilusão que façam com que uma mente que aprendeu um pouco mais possa ver a copulação de extraterrestres, e então aportar em um planeta mais evoluído, e daí nascer por lá, isso não importa. Pois, de qualquer maneira, nascer em um corpo que precisa de matéria é ilusão e ponto final).

Portanto, imagens vistas em sonho são ilusórias e pertencem ao repertório fantasiado que aquela mente percorreu por aqui, enquanto acreditava habitar um corpo. Essas serão as imagens que fornecerão o escopo de sua experiência em sonhos noturnos, por exemplo. Durante a noite, imagens associadas ao seu modo de ser podem ser direcionadas a fazer com que o sujeito da experiência sinta “satisfação”. Por outro lado, acaso o sujeito da experiência esteja tão iludido de que está afastado de sua realidade e é um sofredor, imagens de terror poderão surgir diante daquilo que ele nomeia pesadelo.

Pergunta: a teoria junguiana diz que os sonhos podem ter efeitos compensatórios. Uma pessoa que sonha com extrema pobreza pode ter uma atitude consciente de esbanjamento. Isto faz algum sentido?

Em um mundo de opostos, o equilíbrio é uma tendência diante das eventualidades de uma característica própria de vai-e-vem (vicissitudes), ou seja, se há trânsito pelos opostos, uma hora este trânsito passará pelo meio-termo entre A e Z. A noção de compensação visa fazer com que o indivíduo possa ater ao seu pressuposto básico uma consideração sobre si mesmo mais apropriada ao que ele realmente é. Em outras palavras, pode ser um chamado à mente certa pela exposição demasiada à mente errada. A cura disto seria corretamente empreendida por alguém que olhasse para as imagens à sua frente e escolhesse questionar sua validade, sabendo que não são reais. Assim, ele perdoa, e pode mais facilmente considerar sua opção pelo oposto sofredor (mente errada) diante de uma nova alternativa (mente certa). Mas para isso é preciso que o sonhador noturno também seja considerado irreal, como é citado no Texto, ou ele vai acreditar que sonhos (noturnos) influenciam sonhos (de vigília), e isso não quer dizer nada verdadeiramente. São estratégias de adiamento do ego e não têm valor real para o despertar. Isso vale também para a noção de uma experiência de quase morte ou extra-corpórea. O mundo real é abstrato. 

domingo, 17 de maio de 2020

Carta aberta de um aprendiz feliz

Fé!



Muitas vezes eu gosto de apresentar ensinamentos sob a forma de curtas sentenças, colocadas em sequência, e com isto busco atingir uma maneira apropriada para fortalecer na mente do estudante o sistema de pensamento que aprecio e sigo. Acredito que esta seja uma característica importante para um professor honesto. Um professor deve ensinar bem o que aprende, mas deve acreditar naquilo que ensina para que ele mesmo possa aprender melhor, como diz o Livro Texto. Acho que algo parecido pode ser encontrado naquela famosa frase do magnifico escritor João Guimarães Rosa: “mestre não é quem ensina, mas quem, de repente, aprende”. Isso não significa, no entanto, que um professor seja perfeito naquilo que ensina ou aprende. O professor que acredita estar acima ou melhor que seus alunos está incorrendo em especialismo para consigo mesmo. De toda forma, o melhor método de ensino é o amor, mas o erro também pode convencer pelo contraste.

Assim, venho dar um relato pessoal diante do panorama que quero desenvolver para minha vida, que é este: ser um trabalhador em milagres em meu cotidiano e um professor de Deus diante do UCEM. Isso não significa que eu não vá cometer erro algum. Como bem diz o Livro Texto, isso apenas significa que não há nenhum deles que eu queira manter privadamente ou conduzindo minha vida para um efeito de culpabilidade, diante de um contexto paralisante.

Isso tampouco quer dizer que vou divulgar meus erros literalmente em um edital. Não se trata disto e não recomendo a ninguém que o faça, a não ser que queira, como disse outro mestre, o psicanalista Carl Jung, atrair para si a ruína moral. No entanto, não quero esconder meus erros mantendo-os sem entregá-los todos para a correção do Único que pode fazer a correção verdadeira de minha percepção equivocada. Em outras palavras, quero entregar tudo ao Espírito Santo para que Ele possa fazer o que é melhor para mim diante do fato cada vez mais claro de que eu nada sei.

E quanto mais percebo esse “não-saber”, mais feliz eu fico e melhor aprendiz me torno. É um paradoxo para o ego dizer que “não-saber” é “saber”, mas tal afirmação está sendo promulgada neste mundo desde os tempos de Sócrates e se consolida cada vez mais em tempos de despertar como uma consideração válida. Tal pressuposição não se perpetuaria por tanto tempo na história se fosse apenas um slogan. E por falar em slogan, gosto de falar que não sou muito favorável a slogans. Afirmações do tipo: “somos todos um”, “nossa mãe terra” ou “precisamos viver em harmonia” não passam de palavras vazias, se não houver repercussão em nossa vida prática.

Demorei para entender que o UCEM é a vida prática. O mais importante é viver os ensinamentos para que eles possam surtir efeito real, mesmo que para isso você tenha que parecer em alguns momentos um tipo desagradável e irritante. Crianças gritam quando lhe tiram uma tesoura que lhes poderia machucar ou quando lhe alertam sobre algum ponto de vista para o qual ainda não estão preparadas para perceber como saudável. Isso acontece comigo também, muitas vezes, por isso é preciso estar vigilante. De toda forma, e ainda diante disto, é importante se ater ao fato de que não sabemos de tudo. Portando, não nos cabe querer dar uma de herói e buscar regular o mundo. Eu sou uma criança também e não entendo nada, como diz a música de Erasmo. Mas já aprendi que cair de um precipício é muito ruim e que não dá para desistir no meio da queda. E não vai adiantar gritar slogans do tipo: “o amor me ama!”, para se salvar.

Meu ensino é duro porque minha vida foi marcada pela dureza. Lidei com isso convertendo este rigor em disciplina, pois tudo o que pude alcançar nesta vida me veio através do estudo. Assim, para mim, um bom estudante é aquele que estuda o conteúdo e não fica apenas preso a considerações intuitivas. Eu não sou perfeito neste tópico também; tampouco acredito que a intuição não tenha imenso valor e não é isso que estou querendo dizer, absolutamente! Mas se há um livro, um texto e um método, eu quero ler o texto para bem aprender o método.

E se eu aprender a ponto de professar, quero professar o método, diante de seu valor e sua consistência. O texto do UCEM é bastante consistente e eu não tenho como me ater a ele sem divulgar sua mensagem. Assim, tudo que faço acredito, e peço ao Espírito Santo que corrija minhas crenças quando estiverem equivocadas.

Finalmente, gostaria de terminar exaltando o valor do estudo para a consolidação do aprendizado. Acho que aprender é estar vivo, mas um apoio “teórico” cai muito bem. Algumas pessoas aprendem o conteúdo do UCEM muito facilmente e eu acredito que isso esteja ligado de alguma forma a uma questão do estabelecimento da crença pela abertura à fé. Existem outras, no entanto, que tem muita dificuldade e precisam de ajuda. Eu ajudo para que eu possa viver melhor e me ajudar também. Eu procuro fazer como faz aquele rio, que é o Milton Nascimento, quando diz: “eu tenho esses peixes e dou — de coração”. Não sou perfeito, mas sou perfeito como Deus me criou e é para lá que tenho que olhar junto com meus irmãos. Obrigado e bom final deste dia!

terça-feira, 30 de julho de 2019

Os Companheiros Escuros

Bouguereau - "lição difícil", novamente.


Os companheiros escuros são os consoladores que estão em busca de equívocos como forma de associação. Buscam relacionamentos especiais ao invés das companhias graciosas de Deus, e não podem ver a luz do sol. 

Os companheiros escuros são vistos como são, e não são “as pessoas”. O teu irmão não pode ser um companheiro escuro. O que nele não é como tu, é parte de sua mente errada, e deve ser visto como é: um erro a ser corrigido, e não um mal a ser punido. Mas não serás acolhido no céu enquanto mantiveres em tua mente ideias que não pertencem ao ceu, pois no céu somente pode entrar aquilo que lhe é igual, o mesmo. Aquilo que não é como o céu, nem mesmo existe. 

Apenas a alegria faz parte dos encontros santos. O que pesa e desarma como função escura é erro, e pedido de ajuda. Tu não tens que te acreditar culpado se não podes ajudar um irmão à tua maneira. Ao Espírito Santo cabe a Expiação. Mas o pacote curativo deriva também de apoio que é recebido, no tempo, por qualquer um que tenha a crença de que é possível ver de forma diferente, pois a crença, como diz o Curso, produz a aceitação da existência; no caso, a crença em outra maneira de ver produz a aceitação da existência de uma alternativa. 

Peçamos outra maneira de ver aos nossos companheiros escuros, e rala pé de lá.

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segunda-feira, 10 de junho de 2019

Sobre ver o erro



"O plano do ego é fazer com que vejas, em primeiro lugar, o erro com clareza e depois não o vejas. Mas como é possível não veres aquilo que fizeste com que fosse real? Vendo-o com clareza, tu fizeste com que fosse real e não podes deixar de vê-lo. É aqui que o ego é forçado a apelar para "mistérios", insistindo que precisas aceitar o que não tem significado para salvar-te." (T-9. IV. 4: 2-6).

O que são os mistérios aos quais o ego apelaria por?

Uma condição nova, apropriada pelo ego como novidade, pode ser a velha forma de enxergar o mundo falsamente renovada. O ego dança com as imagens do mundo como se fosse um com elas, em separação ordenada, julgando tudo o que vê como se fosse dono e juiz. Sendo um com tudo o que vê, mas no formato “dono”, o ego apregoa que o medo de Deus faz todo sentido, pois ver a fonte da "Ameaça" é para ele o mesmo que a morte. Portanto — ainda segundo o ego —, é altamente recomendável ter sempre novas ideias sobre o mundo, com a finalidade de "renovar" a separação.

Já quanto a cura, a benção e o perdão, haverá uma série de mistérios dificultando seu entendimento, pois o ego fará com que penses que é tudo muito difícil de ser entendido, que não é para você, deve ser algo para pessoas especiais e inteligentes, diferentes de você, melhores que você e mais tolices deste tipo, que o ego consegue oferecer com muita habilidade de convencimento. Portanto, é preciso pensar muito bem antes de dar qualquer passo em favor da mente certa, segundo o ego. Seu pressuposto básico é este: cada dia deve julgar o dia anterior, e prosseguir temendo o futuro de acordo com os acontecimentos passados. Para o ego, este é o uso favorável do tempo.

Da mesma forma, para o sistema de pensamento que usa, o medo deve estar sempre dirigindo os atos mais corriqueiros do teu dia, sob a égide da perda. Vivendo em escassez perene, o ego adverte para a necessidade de preservação. Uma forma de fazer isso é dar ao seu fazedor um instinto de reação imediata, provocando um rápido afastamento de tudo aquilo que o Filho de Deus acreditaria correto e justo para se investir.

Assim, o medo surge neste contexto como um sucedâneo para o pensamento construído diante deste erro. Se o medo faz mistérios, diante de uma ocorrência anódina — pois para ele tudo será ameaçador —, o medo também estará propondo uma série de ameaças misteriosas, que divulgam para aquele que visa aplicar o perdão verdadeiro, ou seja, aquele que perdoa meramente vendo o visto, sem antes julgar para só então, depois, perdoar, pois aquele que busca apenas ver o visto, a esse é dito que o medo deve ser percebido como um sinal da interferência correta de teu irmão sobre tua vida. Ele é maravilhoso, sim; um Filho de Deus, sim; tem direito ao Amor? Claro que sim! Mas com reservas, nunca se sabe o que pode vir no futuro. Como podemos confiar em alguém que não etc.


Esse discurso é um velho conhecido. Todos de alguma maneira se engalfinharam nele. É misterioso simplesmente como é misterioso algo que não existe. É muito sedutor falar em termos ficcionais de um planeta ou de outra dimensão, porque para a mente isto tudo se torna muito misterioso. Um irmão pecador é, para o Espírito Santo, um grande mistério, pois isso é algo que Ele nunca viu. Isto está escrito sob a forma de piada, pois o pecado, e, consequentemente, um irmão pecador, não existem de forma alguma. O ego apela para o mistério da existência de pecados mortais, infernos desastrosos, medos inenarráveis, traições e outros termos que sabemos somente existir sob a égide do medo, e o medo é um estado que não existe.

A solução é perdoar o visto, vendo o visto, sem antes julgar para, então, perdoar. Este é o plano do ego, que busca entender o “mistério da vida”. Não há nenhum mistério. Simplesmente, o corpo não existe, esse mundo foi feito para tentar fazer verdadeiro um estado no qual a mente estaria separada em partes e que tudo estaria fora do teu alcance, não fosse as parcas percepções que o corpo provê. Tudo isso parece muito misterioso, assim como é complexo e misterioso tentar tornar uma mentira verdadeira. Tudo que o ego diz sobre o mundo e sobre teu irmão é uma ficção daquilo que ele é. E geralmente é uma ficção bem construída, pois o ego é muito competente em arguir e responder. Ele não teria capacidade para fazer como fazemos aqui, pois ele não defende estas ideias nem as consequências para as quais estas palavras dirigem, mas ele te diz exatamente o que pensar sobre o mundo, sobre teus irmãos, e onde deves investir teu comprometimento, pois há um mistério de punição e medo rondando todo o seu sistema errado de pensamento. Assim, para o ego, perdoar é primeiro ver o erro, e depois tentar não o ver mais. Segundo ele, isso será possível. Faz algum sentido para ti? Uma vez marcado, o teu irmão torna-se pecador. É possível tornar o pecado real e depois perdoá-lo?

Isso daria ao ego o poder de um Deus. Por isso o julgamento é tão importante para ele. É uma ferramenta imprescindível para o aprendizado ao qual o sistema de pensamento da mente errada te dirige.

Mais uma vez: perdoar é ver o visto, e só. Não há mistérios nas coisas de Deus, pois Deus é abundância e dádiva. Acredita nisto e verás novamente.

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terça-feira, 7 de maio de 2019

Sobre a crença em superioridade e inferioridade.



“O teu valor não é estabelecido pelo ensino ou pelo aprendizado. O teu valor é estabelecido por Deus. Enquanto contestares isso, tudo o que fizeres será amedrontador, particularmente qualquer situação que se preste à crença na superioridade e na inferioridade (T-4. I. 7:1-3)”.

Portanto, nosso valor não se depõe em aprender algo sobre nós mesmos, mas na forma em que dispendemos nossa fé. Deus nos ama e isso tem que ser crível no teu coração, de verdade. A disponibilidade para esta crença poderá nos ensinar mais do que qualquer coisa que se tenha “decorado” ou “aprendido”. Memorizar Um Curso em Milagres inteiro pode não oferecer sequer “um grão de amor”, enquanto um exercício feito com fé (portanto, sem decorá-lo), pode ser um provedor do desfazer que o milagre anuncia em nossa imagem mundo, geralmente condizente de maneira indiscutível com o conteúdo do exercício praticado. 

Qual nosso valor, então, diante de um milagre assim? Poderíamos começar pensando sobre nossa mania em querer entender as coisas. No livro “O Idiota” (um ótimo título!), Dostoievsky apresenta esta fala quando o personagem Gánia Ardaliónovitch tentar explicar ao General Ivan Fiódorovitch certa circunstância sobre uma foto que trazia, mediante uma série de especulações que supunha certas. O General tentava dizer-lhe que pensar sobre uma circunstância qualquer pode ser presunçoso. Esta parte não faz parte do enredo do livro, mas podemos entender que o General sabia — intuitivamente ao menos — que uma compreensão geral das coisas foge a nosso propósito, e cabe somente ao Espírito Santo, que sabe tudo sobre nós mesmos e tem ciência do Plano Geral, julgar. Quem pode ter a presunção de acreditar deter para si o futuro sem projetá-lo? O verdadeiro entendimento é dado.   

Mas para receber é preciso que se saiba aonde se quer chegar. A tentativa de Gánia Ardaliónovitch em entender certo acontecimento no enredo do livro, apenas por meio de inferências, mostra-nos que o personagem acreditava no poder da compreensão enviesada que temos diante daquilo que chamamos de livre arbítrio. 

O livre arbítrio permite que o tomador de decisão possa optar por seguir o sistema de pensamento da mente errada quando ele bem entender. Não precisamos sentirmo-nos culpados quanto a isso, simplesmente porque não sabemos distinguir bem entre progresso e retrocesso, como o Livro Texto indica. Se soubéssemos, nunca escolheríamos ser o vetor pelo qual o pensamento do ego engendra neste mundo a aparência de realidade que transparece muito palpável em coisas como a doença e a morte, por exemplo.  Mas até mesmo a famigerada morte não pode ser real, a não ser em um mundo no qual todas as coisas parecem estar separadas umas das outras, inclusive a vida da morte. Como diz muito bem o curso: isso não precisa ser assim. 

Mas para o tomador de decisões parece ser muito sedutora tal aparência de poder que lhe dá a volição, pois tal critério é capaz de fornecer a ilusão de pensar diferentemente de Deus. Sim, aqui nesta pedra, girando em torno de um espaço infinito, podemos escolher pensar diferentemente de Deus. Temos o livre arbítrio a nos dispor para isso. E se você acreditar que pode usar isso a seu favor acionando o modo bel-prazer, saiba que você pode se atrasar o quanto quiser. Mas não esqueça que, ao escolher assim, será preciso lembrar a si mesmo que nos atrasamos somente pelo uso excessivo do sistema de pensamento da mente errada (o Livro Texto afirma que o tempo serve apenas para aprendermos a distinguir bem).  Vou ajudar com uma imagem: tente pensar no domínio consciente que você teve de sua vida até aqui. Resulta em um extenso e constante corredor ou em um labirinto? 

Espero que esteja acompanhando. Para isso, é só não fazer como Gánia Ardaliónovitch, que tentava entender. Basta seguir. Estou seguramente te direcionando através do sistema de pensamento da mente certa, simplesmente porque escolhi assim, pois, ainda segundo o Livro Texto, “o poder de decisão é a única liberdade que te restou como prisioneiro desse mundo (T-12. VII. 9:1).” Nossa liberdade reside em nos livramos da indecisão e escolhermos bem. Mas nossa capacidade de escolha tem sido obnubilada pelo véu do desejo em controlar, entender, sem saber ainda distinguir. Esse era o plano, lembra? Pois é, aparentemente não deu muito certo... 

...aparentemente, pois a boa notícia é que não foi real. E agora podemos sair daqui. Certa vez Jesus disse a Helen Schucman (a escriba de Um Curso em Milagres) que a única coisa a se fazer em um deserto é fugir. Ter fé é simplesmente escolher subir na caravana. 

O meio mais rápido está disponível no teu irmão. Sinto muito te desapontar, mas está nele. Qual deles? Todos. Sinto muito te desapontar outra vez. Neste momento da história parece mesmo muito difícil acreditar em uma afirmação deste tipo, mas muito desta desconfiança surge devido ao que chamarei aqui de espelho ego, ou, segundo nosso currículo, nossa ênfase na projeção. Uma crença em corpos separados com identidades separadas tem necessariamente que hierarquizar o mundo inteiro, dentro de uma noção de divisão, na qual as partes não são iguais, a começar pelo corpo de cada um e dos pensamentos privados que cada um supõe possuir. A crença em nossos irmãos separados tem criado neste mundo todo o tipo de disposição que envolva superioridade ou inferioridade, como já foi dito, pois tais polos surgem diante do medo da Filiação, ou seja, do medo da amorosa unidade que encontramos abundantemente disponível em nossos irmãos santos. 
Ver diferente disso seria reduzir demais a teus irmãos e se colocar em um patamar de inferioridade e/ou superioridade. Não é preciso dizer o quanto isto é cansativo. O que chamo aqui de “espelho ego”, por falta de um nome melhor, é nosso irmão visto ao contrário do que ele realmente é. O espelho ego é a antítese do instante santo, e podemos dizer, repetindo este bordão que tanto gosto de usar (neste momento da história), que no século XXI boa parte dos encontros entre o que chamaremos aqui de seres humanos ocorrem sob o modo espelho ego. 

Nossa esperança pode ser reforçada mediante este lembrete constante no Livro Texto: isto não é assim. As imagens podem auxiliar bastante, e foi apenas devido a isso que viemos por aquele caminho. Pois bem, é isto que temos que nos esforçar em ver em nosso irmão: luz; em qualquer circunstância em que ele surgir, pois ele tem que ser tão santo quanto nós somos, caso queiramos mesmo escapar do deserto. Isso se faz através do perdão. 

Para que isso seja assim, temos que confiar em nosso irmão com total disponibilidade. Basta lembrarmo-nos disto: somos totalmente inocentes. Fomos enlouquecidos pela culpa e agora não queremos mais isso. Temos que nos aproximar de nossos irmãos em completa inocência e confiança, em total certeza, sem relutância alguma, pois “a inocência não é um atributo parcial. Não é real enquanto não é total. Os que são parcialmente inocentes estão aptos a ser bastante tolos, às vezes. Enquanto a sua inocência não se torna um ponto de vista de aplicação universal, não chega a ser sabedoria. A percepção inocente ou verdadeira significa que tu nunca percebes de forma errada e sempre vês verdadeiramente. Em termos mais simples, significa que nunca vês o que não existe e sempre vês o que existe (T-3. II. 2)”.

Nosso irmão só existe para nós se nos apresentarmos diante dele em completa inocência, em total disponibilidade. Isto parece muito difícil, mas o curso garante que somente este primeiro passo é por nossa conta (“para ter, dá tudo a todos”), e mesmo nisto teremos ajuda: 

“esse é um passo muito preliminar e o único que tens que dar por conta própria. Não é nem mesmo necessário que completes esse passo por ti mesmo, mas é necessário que te voltes nesta direção. Tendo escolhido ir por esse caminho, te colocas no comando da jornada onde tu e somente tu tens que permanecer. Esse passo pode aparentar exacerbar o conflito ao invés de resolvê-lo, porque é o passo inicial para reverter a tua percepção e virá-Ia de cabeça para cima. Isso entra em conflito com a percepção invertida que ainda não abandonaste, ou não teria sido necessária a mudança de direção. Algumas pessoas permanecem nesse ponto durante um longo tempo, experimentando um conflito muito agudo. A essa altura, podem tentar aceitar o conflito ao invés de dar o próximo passo para a sua resolução. Tendo dado o primeiro passo, porém, serão ajudadas. Uma vez tendo escolhido o que não podem completar sozinhas, não estão mais sozinhas (T-6. V. A. 6)”.

Pois bem, agora é a hora da mudança de direção do currículo, de uma tentativa de mudança em se exercer em volição e/ou julgamento para uma presença inteira diante de nossos amados irmãos. Eles estão aí e não te decepcionarão. Ao lado d’Eles estão os anjos, que vieram afinal. Se eles pedirem amor, você dá. Se eles derem, você também dá. Esse é o único resultado de soma zero, quando o mundo neutro deixa o amor se estender, pois a matéria não tem poder para coisa alguma (“nada do que vejo tem significado”). 

Por fim, já que começamos falando sobre diferenças, como podemos medir a nós mesmos em relação aos outros? Já dissemos que medir a si mesmo diante de qualquer outro é tomar-se em hierarquias.  Logo, nosso valor unitário somente pode ser definido por Deus, e não por nós mesmos, pois no pensamento separado provido pela mente errada sempre tomamos nosso irmão como um corpo diferente; e se ele é diferente, tal distinção em contraste tem que ser dada em algum grau, ou nível. Este grau ou nível pode ser de ordem familiar, de afinidades (amigos, colegas de trabalho ou partilhas de comunhão em ideais), pode ser que te ocorra que algumas pessoas sejam mais benvindas que outras, e aqui não quero dizer que tal tipo de preferência deveria ser necessariamente negligenciada. Mas a Filiação está em todos e em cada um, pois todo mundo responde por ser “o mesmo”, não existe especialismo de família, classe, raça ou crença para Deus. Tenha fé em todos. Sobre isso, são do escritor argentino Jorge Luís Borges estas palavras: “a preferência pode muito bem ser uma superstição”. 

Ame indistintamente e o mundo será um lugar de puro amor. Antes de despertar, é preciso ver o mundo real. Vamos nos esforçar para isso. 

domingo, 28 de abril de 2019

A prática do instante santo



Falaremos sobre a prática da disponibilidade ao Instante Santo por intermédio do entendimento desta passagem do Curso:

“Um espaço vazio que não é visto como cheio, um intervalo de tempo sem uso, que não é visto como gasto e plenamente ocupado, vêm a ser um convite silencioso para que a verdade entre e faça um lar para si mesma (T-27. III. 4:1).”


A cada vez que encontramos com alguma pessoa, surge uma oportunidade renovada para a cura. Qualquer pessoa, cada encontro, são oportunidades; e como tais não deveriam ser desperdiçadas. Dispor-se ao teu irmão em um tempo visto como não perdido, um tempo dedicado, um tempo sem anseio, mostra-te a verdade sobre a Filiação neste mesmo irmão.

                Este é o perdão verdadeiro, que não está aproximado de um juízo. O abandono do medo que sentes da Unidade está presente em cada encontro santo. O julgamento daquilo que está acontecendo já é distanciamento. Portanto, o encontro santo precisa de total disponibilidade, sem esforço, e o único juízo correto a ser aplicado nos encontros que nos são dados é este: estou aqui e não estou perdendo tempo, pois é impossível para qualquer pessoa viver fora daqui, ainda que seja por um segundo à frente no futuro. Quero estar inteiro diante deste meu irmão, e darei para ele toda a minha atenção.

                Tereza Edim, professora do Curso em Milagres em Belo Horizonte, costuma dizer que a coisa mais importante que você pode dar a qualquer pessoa é sua atenção. A atenção desapegada de propósitos vantajosos retira o sentido utilitário que podemos atribuir às pessoas e, por conseguinte, aos encontros que acontecem diariamente em nossas vidas. Dizendo de maneira bem simples, Um Curso em Milagres é um curso que utiliza os relacionamentos para trazer a mensagem da Filiação Unitária. O Ser Único nos é revelado no instante santo, por intermédio de nosso irmão santo, seja ele quem for. Este é o significado — e o resultado — do perdão.

                Um tempo passado com teu irmão tem que ser visto como uma benção. Toda a tua atenção deve ser voltada para ele, sem que isso seja percebido como um sacrifício. Se tal sensação ocorrer, não estás totalmente disponível e deves considerar que de alguma maneira não estás pronto naquela ocasião. Convém dizer que, até que o encontro santo seja natural para nós, essa flutuação estará presente. Mas uma abordagem de nosso irmão como uma dádiva de Deus para nós pode começar a fazer volver nosso sistema de pensamento em direção à mente certa e à correção da perspectiva prática daquilo que realmente é a Filiação.

                Se todos os egos do mundo fossem desfeitos agora, o que restaria seria o mesmo Cristo.  Os corpos, portanto, passariam a ser bastante desnecessários, pois os corpos estabelecem diferenças, e Cristo é o mesmo. Ver o Cristo em teu irmão significa ver a natureza real dele e, por conseguinte, a tua, pois é impossível ver “fora” o que não estiver “dentro” de você. Os encontros santos são a comprovação desta verdade. Mas para isso é preciso que haja disponibilidade tua para ver ao teu irmão como teu Salvador, aquele que é curado na medida em que te ajuda a ser curado também, pois não existem diferenças para Deus; e se um oferece a cura, os dois tem que ser curados juntos, simplesmente porque Deus não dá para tomar de volta.

                 Vamos ler novamente qual deve ser nossa postura em relação ao tempo que passamos com nossos irmãos, de acordo com o Livro Texto: “um espaço vazio que não é visto como cheio, um intervalo de tempo sem uso, que não é visto como gasto e plenamente ocupado, vêm a ser um convite silencioso para que a verdade entre e faça um lar para si mesma (T-27. III. 4:1).”

                Portanto, existe uma disponibilidade a ser treinada sempre que estivermos diante de nossos irmãos. Uma coisa que pode ajudar é lembrar do julgamento final de Deus sobre nós mesmos, e o julgamento final de Deus é este:

tu és meu amado filho, criado no amor e ao amor pertencente desde sempre e para sempre. Não podes ser julgado diferentemente, a não ser em sonhos. Mas sonhos não são reais e, portanto, sejas tu amor, pois é apenas isso o que és.

Ter essa certeza pode ajudar para que não precises pensar naquilo que pensas que teu irmão pensa sobre ti. A correção da autoestima surge do sentimento de ser amado. Nossa autoestima se engradece diante da lembrança/confiança nesta certeza.

                O instante santo tampouco pode ser induzido pela nossa vontade/volição. A única coisa necessária é disponibilidade. Estar verdadeiramente com uma pessoa é estar ali e só. Momentos assim são julgados como tediosos para o ego, mas lembre-se destas palavras do Curso, no Manual dos Professores: “Tu percebes o mundo e tudo nele como significativo em termos das metas do ego. Essas metas não têm nada a ver com os teus maiores interesses, porque tu não és o ego (L-pI. 25. 2:1)”. Uma das metas mais valorizadas pelo ego é o isolamento.

                O Livro Texto ainda diz que o ego irá apontar os milagres ocorridos nos instantes santos como fantasias (T-17. V. 7:1-14). O aconselhamento do sistema de pensamento da mente errada procura convencer-nos de que os milagres são “insanidade”, excepcionais demais, e que para promover a sanidade é importante, dentre outras coisas, manter distância do instante santo, isto é, de teus irmãos.  Às vezes a aproximação pode até mesmo ser encorajada pelo ego — pois o ego sabe que você não é bobo —, mas uma aproximação cautelosa, cheia de reservas, pois o teu irmão em estado de disponibilidade para o instante santo é um inimigo para o ego.
                O Livro Texto também se refere aos milagres ocorridos nos instantes santos como os momentos em que a Filiação te responde por intermédio de teu irmão. No entanto, adverte que o ego classificará tais atos como fantasias. O ego vai te dizer que a comunicação da Filiação pelo Um é uma fantasia, que estás enlouquecendo, e que deves excluir tais fantasias de teu irmão para salvar tua sanidade diante de “mistérios”. E depois adverte para que não ouças um conselho daquele tipo. Eu tenho um amigo, Marcos Morgado Ribeiro, com quem posso dizer que já tive a oportunidade de confirmar de maneira explícita o fato — pois é um fato — da unidade da Filiação. Já tive inúmeras declarações específicas vinda deste amigo em contextos muito particulares, divulgados como resposta às minhas inquietações através de postagens no facebook, mesmo sem termos conversado sobre nada disso (na verdade, converso muito pouco com meu amigo Marcos e ele sabe muito pouco sobre a minha vida). No entanto, suas mensagens são como balas de prata, pontuais, incisivas e irrefutáveis. Como poderia eu desdizer de especificidades como estas, se não fosse pelo fato de a Filiação ser uma só mente? E o que se dizer de tantos outros acontecimentos sincrônicos, que revelam um aspecto unitário subjacente ao mundo?

                 O conhecido psicanalista Carl G. Jung cunhou para isto um termo: sincronicidade. Quando eventos relativamente destacados de causa e efeito ocorrem diante de “acasos significativos”. Um encontro santo totalmente disposto ao teu irmão tem o poder de produzir acasos assim. No entanto, em nosso currículo, dizemos que os encontros santos revelam o caráter unitário da Filiação, e isso somente pode ser conseguido através do perdão.

                O Livro também nos diz que diante da ocorrência de fatos que comprovem a unidade da Filiação, o ego gosta de falar em “mistérios”. Que não é possível entender como isso pode ter acontecido, deve ser algum tipo de bruxaria etc. Nosso currículo é bastante diferente. Ele nos diz que estamos cegados pelo medo, mas o instante santo amoroso e completamente disponível para os atos ditos surpreendentes são a verdade em sua forma mais pura. Contudo, neste momento da história parece que o instante santo é algo estranho, perturbador, não científico e, portanto, desmerecedor de crédito. Vigora em nosso século a comunicação pelo ego, informativa, mas muito pouco conclusiva, que visa distanciar e produzir encontros não-santos, muitas vezes disfarçados sob a euforia de prazer que o parlatório fugaz e o jogo das ideias engendram. “Ficam no tempo os torneios da voz (Marcelo Jeneci)”.

                Por fim, acho importante uma advertência: nosso irmão não é um oráculo. Não deveríamos entrar no instante santo em busca de respostas objetivas, embora o curso diga que todo irmão tem as respostas de que necessitas. Muitas das vezes, pode ocorrer também de o encontro santo ser silencioso e abranger uma experiência de paz e confiança em alguma pessoa. O instante santo não serve para ganhar coisa alguma. Esse seria o entendimento do ego. O instante santo é um momento no qual ambos estão em serviço comum. No Manual dos Professores isso é explicado assim: “qual serve a quem? Quem ganharia mais somente com orações? Quem precisa apenas de um sorriso, não estando ainda pronto para mais? (M-29. 2:1-4).” Contudo, a experiência de imersão no instante santo produz cada vez maior percepção de seus efeitos, pois: “o plano de estudo é altamente individualizado e todos os aspectos estão sob a orientação e o cuidado particular do Espírito Santo. Pergunta e Ele responderá (M-29. 2:6-7).”

                Tenha fé ao perguntar.

                Obrigado por ler até aqui. Te amo, irmão querido.

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domingo, 3 de fevereiro de 2019

Sobre a brecha





O corpo tem valor pelo que traz. Esse pensamento tem em si toda uma tese divulgada sobre o que significa a brecha da qual tanto se fala no UCEM. Já dissemos em outra oportunidade que não há nada de errado com o corpo, e que tal entendimento seria algo como um desvio de significado. O que precisa ser entendido com muita urgência é que o corpo pode ser utilizado equivocadamente, como um bloqueio, ou brecha, na comunicação.

Falemos, então, e primeiramente, sobre a comunicação. A mente é única e se comunica através deste um, em um princípio simbólico e unitário, que no UCEM é chamado de filiação. A filiação não é nada mais nada menos que o reconhecimento integral desta mesma mente em todos os teus irmãos. Muito simplesmente, os instantes santos podem te reafirmar isto, a cada vez que for percebido, e tal percepção ocorre mediante a tua disponibilidade em comunicar “pelo um”.

Presta atenção às palavras de teus irmãos, perdoando seja o que for que te digam. Nem sempre eles estarão na consciência da filiação, e neste caso, deves mesmo tomar a decisão correta, mas o teu amor por eles pode facilitar bastante esta ocorrência. Não pense que por estarem em corpos separados suas mentes estão separadas igualmente. Isso não faz nenhum sentido. O mundo pensa em termos de pensamentos privados e acredita firmemente nisso. Tal crença dá realidade a um mundo de corpos separados, e corpos assim separados seriam “brechas”, nas quais poder-se-ia manter os pensamentos privados, isoladamente.

Mas se todo pensamento cria forma em algum nível, então é impossível que o mundo como um todo esteja separado do pensamento coletivo da humanidade. A noção de que “uma andorinha só não faz verão” está bem representada pela forma com a qual todo tipo de ocorrência que se vê no mundo não é nada mais nada menos que uma construção coletiva, embora ainda bastante inconsciente neste momento da história. O mundo é uma construção simbólica, mas muito útil, mesmo quando usada diretivamente. No entanto, não é real.

O investimento nos pensamentos privados — e por essa expressão não queremos dizer apenas dos pensamentos que julgas indignos, ou daqueles que gostarias de ocultar, mas de todo o pensamento possível —, repetindo, o investimento na possibilidade de haver pensamentos privados é uma decorrência da crença do corpo como uma cápsula para a mente. Isso provocaria uma brecha na comunicação, e a ocorrência firme da separação como um esteio para o pensamento próprio, motivado pelo ego, seria comprovada, caso os pensamentos pudessem manter-se privados.

De modo bastante diferente, a mente única pode se comunicar “pelo um” direta ou simbolicamente. “Sinal amarelo”, por exemplo, “é atenção”. Pois não tem essa música, que diz: “no Novo Mundo / nada passa desapercebido. / E não existe mais sabido, / tá tudo aí.” Mas, se olharmos diretamente para isso, veremos os símbolos da mente única, para o bem ou mal, pois estarás preparando a si mesmo para que vejas a Cristo em todos os teus irmãos, ao que a brecha será, assim, desfeita. Para isso, no entanto, a disponibilidade deve ser total. A entrega ao instante santo não deve ser entendida tampouco como um atributo a ser realizado mediante a presença de pessoas especiais. Quantas vezes será preciso repetir que não existe tal coisa como o especialismo? Cristo está em todos e em cada um, e nesse paradoxo está revelada a unidade da mente. Negar o perdão na presença de qualquer um que seja é negar o instante santo, e consequentemente reforçar o significado da brecha, tendo o corpo reforçado como uma cápsula que te dá uma ideia de personalidade.

Jung criou na psicologia a expressão “complexo”. Existem os “complexos de superioridade e inferioridade” e vários outros que foram determinados utilizando esta expressão, como o “complexo Materno e Paterno”. No entanto, um estudioso das obras de Jung, chamado Edward Whitmont, atentou para um caso específico desta distorção: ele recolheu das obras do psicólogo o conceito de que o ego é apenas mais um complexo, o “complexo de personalidade”. E esta definição deixa claro que o ego é apenas uma crença em uma personalidade que pode fazer coisas.

Na verdade, a filiação se une nas criações de Deus, que não podem ser concebidas através da mágica. “A união faz a força” nem sempre parece dar certo. Porque será?

Pede para ver e verás. É muito simples! É muito mais simples do que sempre pensas. Não existe nada mágico nisso. A mágica quer fazer crer que existe unidade em coincidências fortuitas, na medida em que nega o instante santo ao falar de amor exterior, amor pelo próximo, amor pelas pessoas, pela humanidade, em ser sempre bom e de bem, em estar amoroso em vias de se dizer gestor de tal tipo de amor. O ego escolhe a quem amar de acordo com as vantagens que vê ou não. E até uma mesma pessoa pode ser vista por ele hora como boa, hora como má. Isso traz o conceito de distanciamento, pois é preciso se precaver contra os momentos em que teu irmão irá atacar. Para isso, muitas vezes é necessário, em nome de tal amor, contra-atacar para preservar tua segurança. Não parece loucura tudo isso, diante de nosso aprendizado?

E é bem isso que é! Certamente, neste momento da história, um despertar coletivo não parece possível. O sistema de pensamento que reforça o corpo como cápsula é sobrevalorizado, e quando surgem histórias de pessoas que se comunicam “pelo um”, isto é dito como um fenômeno paranormal, reservado a algumas pessoas especiais.

A verdade é que não existem pensamentos privados. Existem escolhas. Nisso podemos seguir por um caminho bastante familiar: parece que não sabemos decidir direito, e por isso a união “pelo um” pode muito bem ser mal compreendida como repreensão. Na verdade, o mal e o bem são categorias que podem ser vistas de cima do campo de batalha como sendo irreais. Então, como poderia surgir a culpa? Houve o erro na escolha? O equívoco na decisão? Pois escuta o que o livro te diz: escolhe outra vez. É simples. No entanto, reserva-te no que Jung dizia sobre a realização do arquétipo de si-mesmo: ao se perceber a característica da unidade, é preciso ter ética. O que se quer dizer com tal ética? O que poderia ser, senão o perdão ao outro, e consequentemente a si mesmo?

Todos temos que tomar decisões aqui. Isso nos leva a uma questão fundamental, e a questão é essa: quem é você? Ora, muito simplesmente você é a instância que toma as decisões, enquanto assiste a esse corpo mitar em ego ou se comunicar pelo um. Você é o observador, o tomador de decisão, apenas isso, enquanto se pensa encapsulado neste fenômeno corpo. O ego ou o Espírito Santo atuam em corpo, enquanto dormes. Mas sempre é um ou outro que está atuando neste teatro mundo, e você vai perceber isso, quando quiser parar de jogar o jogo do bem versus o mal.

Portanto, e muito simplesmente, a comunicação não se dá pelas palavras “em estado de dicionário”, como diz Drummond. Às vezes, algo é dito em sentido completamente diferente das sequencias de palavras, acaso isoladas em significação unicamente racional. Muitas vezes, o que se fala não condiz com o que se diz, e a resposta não está nas entrelinhas, está na comunicação “pelo um”, que sempre deixa seus claros sinais.
Falamos sobre o tempo como sendo irreal e isso parece que não pode deixar de ser assim, pois uma coisa sempre parece surgir depois da outra. Mas é justamente por conta disso que podemos ver sua irrealidade, pois o tic-tac do tempo não é nada mais que uma ilusão de mudança nas formas. De onde estamos, não temos nada a ver com essas coisas que vemos mudar. Lembra disso, pede apenas para lembrar disso por ti mesmo.

Então, do ponto onde somos um, o mundo se torna o símbolo da união “pelo um”. E o corpo perde o significado de trincheira contra a unidade, ao que o perdão se torna a única resposta possível. Há ajuda nisso. Pede, mas pede com certeza. Usa os exercícios para isso.  “No começo é difícil / eu sei que é / mas depois não é mais não.”



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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Sobre a firmeza da crença diante das dúvidas



A firmeza da crença estabelece a direção. Caso um estudante acredite firmemente que algo de ruim acontecerá, isso será transmutado em forma, mas tal coisa não se dá por conta de o “universo conspirar” contra ele. Na verdade, houve um erro de pensamento e isso realizou-se na matéria como equívoco em ato. Da mesma forma, e através de um efeito semelhante, não existe tal coisa de o “universo conspirar a teu favor”. Certamente, a Ajuda existe e está sempre a teu lado, mas isso não ocorre ao acaso. Assim, é preciso direcionar correta e favoravelmente as crenças nas quais investe teu pensar.

Um mundo claro se descortinará a partir de um único pensamento correto. O mundo é efeito e o pensamento é o meio através do qual a causa pode ser controlada. No momento em que o ego se torna o construtor das causas pelas quais pensas que pensas, os efeitos tornam-se destrutivos, embora possam ocorrer inicialmente sob o disfarce benfazejo. Mas o tempo é o liame entre os efeitos e suas causas, e terrivelmente os efeitos de pensamentos errados mostram em ato os erros em formato mundo. A depressão, por exemplo, é efeito de um acúmulo destes tipos de pensamentos. “A solidão é uma forma de egoísmo.” (Arnaldo Antunes).

Então a pergunta lógica que surge deste preâmbulo é esta: como ter somente pensamentos corretos, que possam mostrar em ato as imagens de um mundo amoroso? Inicialmente, a mente precisa ser treinada nesta direção. O mundo não fornece este tipo de treinamento em abundância, pelo menos não neste momento da história. Uma alternativa te foi dada e a gratidão por leres até aqui somente surge porque de alguma maneira reconheces um sistema de pensamento consistente, e tal pensamento se baseia nos ensinamentos de Um Curso em Milagres. Posto, então, que nosso Curso é uma benção, vejamos algo baseado na compreensão dos erros surgidos do especialismo, que pode fazer-nos convencer de nossa mente certa.

O especialismo, como sabemos, é uma tentativa de distinção. De alguma maneira, o ego quer se distinguir. Não importa a direção da distinção. Como o Curso mesmo diz, pode ser mais prestígio, mais razão, mais certezas, mais posses, mais cultura, ou até mesmo mais dor, mais miséria, mais sofrimento que outros, qualquer coisa que aponte para uma distinção. De alguma forma, precisa ser “mais”. A igualdade para o ego é morte, pois quando dois estão a dizer do mesmo, sabemos a Quem chamamos, nestes casos. Mas o especialismo difere e aponta para o isolamento, que pode certamente acontecer em um cume de glorificação para o mundo. Veja o caso de famosos como Marilyn Monroe ou Kurt Cobain e seus trágicos destinos. Por outro lado, alguém pode se pensar “humilde”, o menor de todos, equivocadamente tomando isso como um “especialismo para baixo”. O menor de todos é o sem-ego, mas isto não se diz “menor” em uma escala comparativa. Portanto, as garantias que o ego provê de distinções especiais são o escudo contra a união.

Vejamos, então, como podemos realizar um processo prático para evitar a compulsão para a distinção que o ego provê.

A primeira distinção é teorizada por um corpo. Se eu sou um corpo, logo eu sou diferente daquele outro corpo ali. Essa crença em ser um corpo já é distinção. Não existe qualquer problema com o corpo, como pensam tolamente alguns estudantes do Curso. Mas o ensinamento de que ele é apenas um instrumento de aprendizado não pode ser bem compreendido se o corpo for visto como um fim em si mesmo. Vocês sabem o que dizem por aí: o meio é a mensagem. Se o corpo for o meio, a mensagem é material, carne, ossos e, futuramente, morte. Mas o corpo certamente morre, então como nos vemos diante do ensinamento de que não existe morte? Somente se nossa crença for direcionada firmemente para o fato — e isto realmente é um fato — de que não somos o que cremos corpos, poderemos escapar da ideia de que existe morte. Isso dificilmente ocorrerá do dia para noite. Ocorreu com Paulo dos Evangelhos e mais modernamente com Eckhart Tolle, mas sabemos que o processo de Buda, por exemplo, foi paulatino. Ele percebeu que os desejos apegavam o corpo às coisas, e a mente ao corpo. Isso não quer dizer absolutamente que você não possa saborear um bom prato em uma ilusão de satisfação, mas você precisa saber que se trata de uma ilusão. Descrer na matrix ainda dentro da matrix desfaz o desejo insano daquele que preferiu a ilusão de sabor como verdade amnesiada. Portanto, as coisas que o corpo sente através de suas percepções são ilusórias, mas não são amaldiçoadas. No entanto, favorece em direção à mente certa pensar em tais oferendas do corpo como ilusões, e não se apegar ao “mais”.

Um dia depois de outro dia. É assim que se faz. Muitas vezes, o desejo por ter mais luz é uma forma enganosa de se acreditar “espiritualizado”. É uma falácia em direção ao que o Curso ensina acerca de buscar e não achar. Ter uma crença firmemente estabelecida, mesmo quando os efeitos não são visíveis, é o mesmo que fé. A fé não deseja nada mais. No entanto, a fé é um passo preliminar. A liberdade surge mesmo é do conhecimento.

Como o Curso define conhecimento? Na verdade, ele não define, pois “Deus é indelineável” (Guimarães Rosa). O conhecimento surge na mente daquele que tem fé. Ver para crer é a crença daqueles que buscam “algo mais”. Crer ainda que não se veja é a crença daqueles que seguem a esperança balizada em um fato concreto. O conhecimento é um fato, o corpo não.

“Mas como assim o corpo não é um fato? Ora, eu estou até doente!” Eis uma questão típica. Você pode sentir coisas, mas a percepção é ilusão. Se você ainda não sabe fazer passar sua dor de cabeça através de um processo mental, não existe erro em tomar uma aspirina, mas você deve ter em mente que a ciência é feita por homens que tem a mente voltada para o fato de que acharam a cura em pílulas e comprimidos. É por isso que os medicamentos dão certo. Há todo um sistema de crenças que favorecem a cura através de meios físicos, e neste momento da história isso tem nos atendido, e muito bem.

Mas você deve saber que aquele comprimido um dia foi uma ideia na cabeça de alguém. Assim, sua cura está sendo indiretamente abençoada por meio de uma associação de duas crenças amáveis: aquele que creu na cura e aquele que crê no efeito. “Tudo é uma ideia” (T-5. I. 4:2). “Todo pensamento produz forma em algum nível” (T-2. VI. 9:14).

Então, quem pode estar doente, senão a mente? O corpo fornece a tese, a mente teoriza. Ninguém pode morrer se não for sua própria decisão, isto o Curso deixa claro. Uma outra coisa que o Curso deixa igualmente manifesto é que “daquilo que tu queres, Deus não te salva” (T-12. VII. 14:6). Deus não pode invadir tua mente e te fazer crer. Isso seria uma violação do teu poder e Deus não é um invasor. O ego, por outro lado, é totalmente oposto a essa ideia, entra sem pedir licença e tenta de convencer de que você é fraco, doente, escasso, miserável, infeliz, solitário e outros etc que muitas vezes divertem a mente voltada para a fé no especialismo.

Sim! A fé pode ser mal direcionada. Cura a ti mesmo associando tua fé aos pensamentos certos de Deus. Tens que treinar tua mente nesta direção, pois sozinho não vais conseguir. Pede para ouvir o Espírito Santo, pois ele é um fato, e um fato amigo, um amigo indicado. Pede, mas pede com fé, e não esperes nada nem acredites que a aparente ausência de resposta seja motivo para desmotivação. Mantenha firmeza em tua crença mesmo diante da dúvida, e se uma tese de especialismo se apresentar para ti, lembra que você não precisa de nada para experenciar o nascer ou o pôr do sol. “O melhor da vida é de graça” (Marcelo Jeneci).

Ama, mesmo que seja sangrando. Até que o amor — e a dor que o amor verdadeiro aparentemente traz — seja para ti o mesmo que a benção do corpo desacostumado com o que amansa e reconforta, e parece um incômodo, traduzido em um espelho claro de efeitos que passarão a surgir no mundo a partir da causa real: a mente certa. Mas para isso é preciso empenho de tua parte. A  fé pode ser mal direcionada, mesmo diante de tua boa vontade, pois a boa vontade, por si só, diz muito pouco.

Ama o teu corpo, mas não pares nele. Nem te ilhes. O Curso diz: te insere entre teus irmãos com alegria. Eles não precisam que tu dês a festa, se não quiseres; alegria é para contigo mesmo, e é mais que suficiente. Isto será sentido, não é necessário nenhum esforço se estiveres satisfeito consigo mesmo. Leste até aqui e entendestes, então como poderias não estar satisfeito consigo mesmo e com teu aprendizado? Como poderias não ter acesso aos pensamentos da mente certa, se entendes?

Mas logo virão as tais “dúvidas”. Vamos chutar as dúvidas para longe! Outra hora a gente tenta tirar as dúvidas. Basta, por enquanto, saber que querer mais de qualquer coisa é uma bobagem e fé no especialismo. E que o corpo é um instrumento de aprendizado que pode ser muito útil. E vamos brindar a isso com uma ilusão de vinho!

“Onde está, ó Morte, a tua vitória?
Onde está, ó Tumba, o teu aguilhão?” (1 Coríntios 15:55).

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domingo, 18 de novembro de 2018

Sobre considerar as coisas deste mundo.



Considerar algo é pesar e valer. Logo, envolve julgamento. As considerações feitas acerca de qualquer atributo da separação dá-lhe valor e peso, e, portanto, justifica-o, fazendo de tal atributo algo real. Este é o valor da consideração conforme o mundo vê: algo agora possui nome, significado e valor.  Diante das considerações sobre os eventos do mundo, aquilo que não tem significado recebe distinção.

Os desejos, por exemplo, são considerações sobre adquirir algo. Corretamente atribuído, o desejo somente pode ser direcionado para tua disponibilidade à salvação. O desejo de salvar-se é a única escolha apropriada para o querer.

Considerar algo, então, é o mesmo que julgar; e, até certo ponto, desejar. Mesmo que o desejo seja em negativo, através de uma consideração que denigre ou busca evitar. O ego adora considerações equivocadas, pois, através delas, se apropria do mundo conforme o vê. O Espírito Santo também é capaz de tecer considerações, mas apenas para o correto julgamento, que não deixa a sua Fonte e é sempre o mesmo: tudo o que vês não tem significado.

Mas, se nada tem significado, como poderei viver neste mundo? Esta é uma consideração típica, mas caso seja corretamente compreendida, possui resposta diante dos parâmetros da mente certa, pois as coisas que vês são símbolos. Mesmo as coisas mais concretas, como um ônibus, por exemplo, podem ser compreendidas simbolicamente, diante de um julgamento que o classifica como um meio de transporte lento, útil, caro, desconfortável, necessário, valioso, dispendioso, poluente e por aí se vai aos milhares e contraditórios, dependendo do ponto de vista de quem considera. Assim, um significado por si só, o ônibus não possui, mas simbolicamente ele representa algo para quem o considera. A única forma de considerá-lo corretamente é no momento em que se o usa, sem precisar para isso pormenorizar mais que sua aparição em determinado instante.

Podes considerar, no entanto, alguma coisa a mais: um ministro dos transportes, por exemplo, não precisaria considerar o ônibus para além de sua aparição imediata, diante das necessidades em gerenciar sua função? Obviamente, sim. Mas a aparição imediata, neste caso, seria uma abstração de uma malha rodoviária na qual todos os ônibus da cidade estariam envolvidos; e um único ônibus, neste caso, seria algo não considerável.  Planejar corretamente é não perceber as coisas separadamente de seus usos. A função de um ministro é servir ao povo. E a melhor forma de servir é considerar corretamente: tudo o que vejo não tem significado.

(Não entendo. Desta forma, seria o caos. E veja aí que o mundo, com suas deficiências, possui alguma ordem.)

Para o pensamento orientado pelo ego, a ausência de ego seria o caos. No entanto, o homem Jesus tinha uma profissão. E certamente ele era muito bom naquilo que fazia. Posso dizer isso sem nenhuma dúvida, pois ele cumpria sua função aqui, orientado diante dos símbolos em disponibilidade integral. Um homem que precisa fazer algo vai lá e faz, não permanece apenas considerando. Aquele que demais considera é um charlatão; mas, para este mundo, pode ser visto como um homem de projetos, um profissional devotado, um sonhador, uma mente empenhada etc.

O que não se quer lembrar, oculta-se de si mesmo. É simples assim. Um homem que vê seus projetos irem por água a baixo pode não ter se disponibilizado suficientemente para uma realidade que lhe era própria e, em certa medida, pode ser até um invejoso. Assim, pode certamente atribuir a si mesmo vontades que não lhes são próprias, e justamente por ter empregado nisto um empenho valoroso, investirá no erro através de diversas considerações.

A cura para tal processo não está em procurar o erro original e trabalhar em cima disso, mas procurar o ato que separou o Filho de Deus de Seu Pai. A cura reside em perdoar o presente, para assim estender um futuro diferente do passado. As imagens-mundo que aparecem a tua frente são formas de pensamento materializadas, que ocorrem por duas vias: ou são criações tuas, ou necessitam de teu perdão. Assim, na medida em que consideras (julgas) as imagens como sendo sem significado, deixas de considerá-las em absoluto, e começas a ver a cura se manifestando como livramento, pois estás perdoando o passado no presente, e estendendo o futuro a partir do presente, e não retomando o passado.  Enquanto o método egóico de buscar uma desculpa para se manter afastado das imagens que te disturbam for atraente para ti, na mesma medida estarás preso, pois precisas perdoá-las para escapar delas.

Portanto, a única forma correta de considerar algo é perdoar. A honraria que se dá aos eventos que se sucedem é uma boa prática para isso. Nada é execrável, nada é louvável. Certamente, deve-se guardar o louvor unicamente a Deus e aos Seus atributos óbvios, que se manifestam neste mundo como tuas criações. Para saber se são tuas criações reais, mede, avalia e julga o que vês baseado em teus sentimentos. Se o medo não estiver presente, já há grande indício de valia. Porém, o Curso também diz: venha a Deus ainda que temendo-O, pois pode ocorrer igualmente que, diante de tuas criações, tenhas medo de tua verdade. Em casos assim, o perdão fica adiado, pois tuas criações não podem desaparecer de tua vista.

Abençoa a tudo e a todos. Traz a tua benção sob os aspectos do medo. Tu não precisas dizer isso literalmente ao mundo, mas pode fazer isso para ti mesmo, diante de pensamentos como esses: não sou condenado pelo mundo que vejo; o mundo que vejo não contém nada que eu quero; além desse mundo, há um mundo que eu quero; sou completo, curado, perdoado e íntegro. Qualquer pensamento assim, traz consigo o perdão e, ao mesmo tempo, honra tuas criações. Seja aquele que se preocupa com o mundo diante de sua ineficácia em significar qualquer coisa que seja, pois teu significado não reside neste mundo, mas habita em Deus. As tuas criações aqui te demonstrarão isto, fazendo com que vejas alegria — muita alegria — mesmo aqui. Apressa-te em perdoar, e sejas tu a liberdade que esperas em teus irmãos.

Pai, viemos neste momento pedir para lembrar de nossas criações, estendidas por Ti diante de Teus Pensamentos. Teu Filho precisa lembrar de Ti, meu Pai. E, assim, pedimos neste momento que revele-Se a Teu Filho, para que Tua memória presente possa ser lembrada por Ti diante Dele. Amém. 


terça-feira, 28 de agosto de 2018

Sobre a preocupação



O aparente terror causado pela entrega total ao sistema de pensamento da mente errada favorece uma série de ocorrências baseadas no medo. O investimento nas ocorrências tomadas como causas favorecedoras do medo adverte sobre a necessidade em se punir, fazendo o tomador de decisões sentir um grande arrepio diante do terror causado pelo medo. A única saída em circunstâncias assim é buscar a ajuda do Espírito Santo, que pode trazer até o sonhador alguma experiência acerca da consciência da verdade, notadamente como um apelo em sentido oposto ao sentimentalismo altamente valorizado por aquele que busca criar fantasias onde possa concretizar a punição e merecida.

Tudo isso é a loucura posta em prática. Alguém pode pensar, por exemplo, que tem uma doença mortal, ou que se lançou em um investimento de risco e pode perder tudo, ou ainda que existe entre sua situação de vida e a experiência de Deus algo mais valioso por aqui, mesmo que seja uma tragédia. E isso pode ocorrer diante de um belo dia de sol, quando nenhuma destas coisas realmente aconteceram, basta que o filho de Deus esteja inclinado a querer obedecer e investir pesadamente no sistema de pensamento da mente errada para que acredite que está em grande perigo, mesmo diante de cenários totalmente favoráveis a ele. Isso se chama entrega a insanidade, e é um efeito da  disponibilidade mal dirigida.

A preocupação é uma forma egótica de evitar o presente e, em casos críticos, pode levar o sujeito da experiência a sentir incomodado com a própria vida. Obviamente, ninguém tolera um estado de coisas no qual o próximo passo será a tragédia. Isso é o que busca antecipar a preocupação. O ego adora preocupações, ele se alimenta muito bem delas.

Não importa para o ego se as preocupações são reais ou não; se são plausíveis ou meras fantasias, pois ele fará transparecer o medo com tanta ênfase que o sonho terrível tornar-se-á uma tese, abonada por fantasias que a apoiem, todas criadas na mente do sonhador, ainda que haja evidencias diretas contrárias a tal tese, pois o que se busca diante da preocupação é manter o medo ativo, custe o que custar, doa a quem doer.

Isso pode ocorrer mediante um ataque, por exemplo, em ocasiões nas quais o tomador de decisões escolhe mal e procura se antecipar à dor diante de uma exposição direta de suas fantasias projetadas em alguém.  Essa forma de alívio é típica e um sintoma tão óbvio que somente alguém muito comprometido com o sistema de pensamento da mente errada poderia admitir para si mesmo alívio a partir da culpa projetada em outros. No entanto, como a completa insatisfação causada pelo medo é intolerável, a saída “ouvida” por aqueles que “dão ouvidos” aos conselhos do ego visa “compartilhar” a dor, e assim surge a necessidade em se “dividir” a preocupação.

A projeção da preocupação pode tomar formas políticas, por exemplo, mediante o apontamento de injustiças sociais. Ou pode ainda ser aderida a uma causa dita humanitária, quando alguém busca aliviar o sofrimento de terceiros a partir da experiência de seu próprio sofrimento, desde que a ênfase no sofrimento recaia sobre o outro. O ego regozija-se em ver o sofrimento, pois acredita nele.

O Espírito Santo, de maneira completamente oposta a tal insanidade, não vê o sofrimento de modo algum, pois não acredita nele. Sua ajuda verdadeira busca demonstrar ao sonhador que suas preocupações são irreais, mesmo quando possuem “testemunhas” ou “evidências”, pois ao Espírito Santo vale relembrar ao sonhador que nada do que é visto em sonho é real. No entanto, muitas vezes as fantasias do ego são tão exacerbadas e dirigidas para sua interpretação dos fatos, que uma medida exterior de contemporização pode ser aceita como um veio para a cura, através de um médico que auxilia um paciente, por exemplo. Neste caso, a cura teve que ser dividida, e tomou neste mundo a forma de seu oposto, a doença. O médico e o paciente também fazem parte de um sistema de opostos, assim como o a preocupação e a "solução de um problema". No Mundo Real não existem problemas, pois a paz não pode ser dividida em duas: problema e solução. Tampouco estamos a dizer se tais coisas são boas ou ruins. Seria a mesma armadilha dos opostos em forma de julgamento. Apenas atestamos um fato: a verdade não precisa de opostos.  

Assim, a preocupação não deve ser levada tão a sério, pois algo pode ser feito em sonhos. Algo sempre pode ser feito. Se você estiver diante de uma tragédia, mova-se adiante, e tente buscar a reparação. Com a ajuda do Espírito Santo, essa sempre será sua postura diante das adversidades da vida, pois o Espírito Santo olha para o sonho, mas não acredita nele. Ele crê apenas no amor, e busca trazer para você um sonho de amor, onde as coisas belas e agradáveis podem habitar em paz contigo, diante de simples declarações como as do início deste parágrafo. Simples ações e simples decisões desfazem toda e qualquer preocupação. A escolha em favor da mente certa segue sempre nesta direção: você é responsável pelo que vê, portanto, é o único vetor da mudança. Assuma a responsabilidade e caminhe para diante.

O Espírito Santo quer favorecer a escolha ao tomador de decisão em favor da mente certa e de suas evidências também diretas. Toda e qualquer situação apresentada no sonho pode ser avaliada segundo estes dois parâmetros: mente certa e mente errada. Teu Verdadeiro Amigo quer que você esteja nos braços da paz, diante de uma clareza de pensamento que julga em favor da verdade. Você não só pode escolher pelo sistema de pensamento da mente certa como tem Ajuda para isso. Não é uma grande benção?

Já o ego gosta de encontrar imagens de ataque para todo o lado, fantasiando diante de cenas complemente inocentes algures formas nas quais possa interpretar — e assim projetar — o medo. O medo não está lá. Ninguém precisa ser temerário para se encontrar diante de uma tempestade verdadeira e dormir, como fez Jesus no episódio bíblico, mas pode com a ajuda do Espírito Santo chegar mesmo a dormir diante de uma contrariedade qualquer, ainda mais se tal contrariedade se passa apenas na imaginação fértil de uma fantasia febril mal dirigida.

Superar dificuldades e assumi-las é uma forma óbvia de partir para a frente, com a coragem do navegador que não interfere na meteorologia, mas sabe muito bem manejar o barco. No episódio bíblico, Jesus interferiu inclusive na meteorologia. Entregue-se ao Espirito Santo de forma total e você nunca terá preocupações. Os milagres significam preocupação zero diante da assunção total da responsabilidade por este mundo. Aquele que age de modo irresponsável não presencia milagres.

 “A única responsabilidade do trabalhador em milagres é aceitar a Expiação para si mesmo”. Ajustamentos não vão resolver nenhum problema. Coragem significar “agir com”. Agir com o auxílio do Espírito Santo é o mesmo que não ver nenhum problema, pois se para todo problema existe uma solução, o par “problema-solução” é visto pelo Espírito Santo como uma única coisa, não separada, enquanto o ego busca separar o mais possível estas duas pontas do mesmo caso. A partir de então, busca ajustar o problema às suas soluções insanas, como no caso da projeção e do ataque, já discutidos anteriormente. Como é fácil caminhar com o Espírito Santo, que te diz apenas isto: “eu não tenho medo de coisa alguma!”, e então te convida para segui-Lo. Aceita o convite, meu irmão. Basta tomar a decisão correta, que começa com esse primeiro passo: sou responsável por tudo o que vejo. Daí em diante, tudo se resolve por si mesmo.

Pai, viemos te pedir pela tua Resolução Final em favor de Teu Filho. Ele quer se lembrar de Ti, meu Pai, ao que Te pedimos a redenção de seus pensamentos insanos através da experiência que apenas Tu podes lhe dar. Viemos pedir-Te a experiência da alegria que o Teu reino provê ao Teu Filho Santo. Ele é Teu Filho, e aguarda por Tua intervenção amorosa. Amém.

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