Lembrar-se de
Deus não significa que todas as coisas de sua vida entrarão imediatamente em harmonia
com o mundo, como um espelho claro da mesma serenidade de pensamentos que irás
experimentar. O UCEM não se trata de melhorar o mundo, pois aquilo que não
existe não pode deixar de ser uma ilusão. Mas a forma com a qual passarás a enxergar
o mundo mudará completamente; ou, melhor dizendo, será recolocada de cabeça
para cima. E de tal maneira será assim que a forma com a qual o mundo será
reinterpretado para ti terá o efeito de uma redenção; não do mundo, mas em tua
mente. A consequência disso é perceber o mundo real.
Os nossos
sentimentos “ruins” não devem ser compreendidos como uma forma de punição ou
culpa. Tampouco são resultado de uma energia espontânea e autoritária, visando controlar
a tua mente. Obviamente, e, no entanto, a impressão que se tem durante tais “crises”
é a de que parece ser assim. Parece que estamos sendo tomados por pensamentos e
ideias totalmente alheias a nossa vontade, geralmente forcejando sugestões
insanas ou ruminando aspectos relegados a uma nova caminhada intragável, uma consequência
inevitável, uma queda de valor e amor-próprio etc. Tais ideias tendem a gerar
sensações desconfortáveis, que podem tomar a forma de sensações desagradáveis no
próprio corpo, bem como na mente; nesta última sob a forma de perturbadoras inquietações.
O amor que
salva — e o amor só pode salvar — está sempre disponível, mas pode ser
obliterado pela insanidade, ou doença. Por um tempo, enquanto a insanidade for
tão valorizada que a única coisa que estiver claudicante como sensação seja o
medo ou o terror disso ou daquilo, a ansiedade será reinante. O sujeito de tal
experiência pode ter a sensação de que jamais conseguirá sentir-se bem-disposto
novamente, em plenitude, e isso pode durar muito tempo. Tal indisponibilidade
pode induzir à conclusão equivocada de que se está “condenado irrevogavelmente”,
ou que se tenha perdido completamente a capacidade para o bem-estar.
Em casos muito
graves, como naquele que se chama de “loucura” neste mundo (refiro-me aqui a
loucura de sanatórios), o sujeito da experiência pode se acreditar tão ausente de
si mesmo que os seus encantamentos perversos podem tomar a sua mente “por completo”,
a ponto de haver um deslocamento da presença do tomador de decisões,
entreabrindo a porta para que passem pela brecha resultante quaisquer conteúdos
insanos que vigorem em sua mente, caudalosamente, como se jorrassem até sua consciência
em um fluxo mal ordenado e contínuo. Uma vez que a consciência se ausente da
vigilância ao ponto da suspensão, os conteúdos do inconsciente serão ordenados
de acordo com desejos, que podem tomar formas arquetípicas (possessão) ou ainda
modelada em contextos os mais diversos, como os apelos sexuais fortemente
desordenados, compulsões de todo o tipo, energias vitais voltadas para a pulsão
de morte, ou ainda restos de dignidade como uma tentativa malograda de se rever
valioso (o louco que conversa com um rei, que se entende como Jesus, que acha
que é Napoleão ou o Presidente do Brasil, o marido da princesa, a esposa do
Imperador), sensações localizadas no corpo e mente experimentadas como impotência
(o mundo que se acabou para ele, a incapacidade de realizar qualquer coisa que
preste ou a vontade de acabar com tudo). Quando estas características são
projetadas fora, obviamente o mundo não parecerá mais com um lugar de
construção, de consecução de seja lá o que for. O mundo parecerá impiedoso e
cruel; insano e totalmente voltado contra ele, de tal forma que a aparência irrecuperável
da vida aparecerá para si como uma tese firmemente estabelecida pela sua
própria existência, embora pouco consiga alcançar em relação ao entendimento
são acerca do “como” e “por que” tal tese foi auto estabelecida. Diante de um
quadro tão confuso quanto simples de entender, o louco pode se acreditar irrecuperável,
mas, vez ou outra, como acontece frequentemente com psiquiatras ou enfermeiras
que trabalham em instituições mentais, perceber-se-á neles lapsos de sabedoria,
geralmente cifrada em termos simbólicos.
Óbvia e patologicamente,
tal atestação de apenas uma parcela da mente estar disponível é insana. As
pessoas que estão do lado de fora das portas de sanatórios também são tomadas
pelos mesmos sintomas, em graus menos pronunciados, mas aparentemente
existentes e convincentes. Este grupo pode perceber isto: a insanidade é a
crença em que se está separado de um todo pleno e amoroso, totalmente compreensivo
e estimulante, relacionado ao contexto integral de um estado do ser que aparenta
apenas um sonho esquecido de quando ele fora criança ou das ocasiões de indução
temporária, quando o sujeito coloca-se à disposição de estados provisórios de êxtase.
Outra forma
que a insanidade pode tomar é a preocupação exagerada com as opiniões dos outros
egos, ou com a reputação. As pessoas encantadas com a prevalência do ego neste mundo
(e em suas próprias mentes) acreditam muito fortemente que a opinião de outros
egos podem dizer algo sobre si mesmas. Uma das distorções mais claras acerca disto
é a criação equivocada do conceito de fama, ou de alguém famoso. Uma pessoa
famosa poderia ter sobre si a opinião mais ilustrada de que um ego é capaz, sendo,
portanto, uma ferramenta de poder elevado ao status de cuidado, ou importância.
A veneração dos egos, no entanto, é tão flutuante quanto o é instável sua
loucura. O “famoso” pode cair em “desuso” para as criações egóicas e se tornar
um mero fantoche de projeções insanas, sendo preciso que se consiga dele um
pedaço de roupa, um autógrafo, uma foto, alguma coisa material. Certamente, em
oposição a tudo isso, falaremos dos professores avançados, mas estes não estão
relacionados na lista dos “famosos”, pois suas ideias são estrangeiras ao ego.
Vejamos: nem
sempre a história de vida de um Grande Homem coincide com o apelo das
reputações as quais o ego propicia por meio de outros egos. Podemos até mesmo
pensar em Grande Homem como sinônimo de Professor Avançado. O Professor
Avançado está no polo oposto do insano. Isso não significa que ele não possa
ser sugestionado por seu próprio ego e eventualmente cair em difíceis períodos
de confusão, disturbado durante um período muitas vezes sentido como enorme. O
UCEM também adverte que “poucos apreciam o poder real da mente e ninguém
permanece plenamente ciente dele o tempo todo.” (LT II-VI:9). É possível,
portanto, que mesmo um Professor Avançado se veja aparentemente em apuros
mentais “contra” seu próprio ego. O processo de despertar é doloroso e acontece
mediante uma reversão de valores e perspectivas que realmente não ocorrerá sem alguma
dor. Todos os Professores Avançados da história passaram por isso. Mesmo depois
de consolidado o despertar, o ego desfeito pode exercer uma tentativa de prevalecer
em sua forma múmia. Mas dificilmente, após ter sido experimentado em navegações
difíceis, o capitão da embarcação deixará tudo a comando de um marinheiro maluco.
Sua apreciação da vida voltar-se-á para ele irremediavelmente, e sua capacidade
e clareza estarão disponíveis com retorno certeiro sem que precise para isso fazer
grandes esforços, pois o que é verdade não precisa de esforço para ser
verdadeiramente Aquilo Que É. Assim, o Professor Avançado mantém sua confiança
intacta e esta é uma característica que muitas das vezes reaproxima a cura.
Confiar naquilo
que é verdadeiro é a direção máxima da fé. Não como uma instância imaterial e
distante com pouca interferência aqui, mas como uma correção. A permissão para a
correção vem de uma instância imaterial que não acredita neste mundo, embora
possa percebê-lo. Sabemos, então, que falamos aqui do Espírito Santo. Na medida
em que Ele não crê na percepção, é-lhe muito fácil percorrer os caminhos que
distinguem a ilusão e permitem perceber a ausência de significados de todas as
coisas separadas. O Espírito Santo pode conduzir o tomador de decisões a uma
nova forma de permitir ver a si mesmo. Assim, sua autoavaliação não precisará
mais conferir seu valor por intermédio da positivação de outros egos ou de si
mesmo. Ele sabe que seu valor foi estabelecido na Criação pelo próprio Deus. E
somente assim ele poderá receber as dádivas de lírios de seus irmãos, por
intermédio da comunhão ou Filiação. Ele não precisa de nenhum valor ilusório,
embora isso não precise resultar em paralisação. O mundo está aí e existe uma experiência
de vida reinante. No entanto, o verdadeiro sábio não espera que sua salvação ou
maldição venham deste mundo. Este mundo não pode determinar nada. E como Deus
não têm oposto, a Salvação é inevitável. Os Professores Avançados sabem disto e
direcionam seus esforços na direção da saúde mental, sem necessariamente
desfazer seus desejos legítimos ou seus repertórios salvíficos, para que possam,
assim, encurtar tempo.

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