A verdade é verdadeira e nada
mais é verdadeiro. A determinação em despertar é um dispositivo prático de
conduta. De conduta! Na madrugada de hoje tive um sonho tremendo, cheio de
personagens e cenas mirabolantes. Acordei com um sentimento no corpo provocado
pelo sonho. O sonho aconteceu dentro da minha cabeça, mas enquanto eu estava lá
vivendo aquelas aventuras insanas, tudo parecia constituir um mundo, fora de
mim, e eu era literalmente o sonhador daquele sonho.
As personagens sorriam para mim
enquanto me traíam, e eu percebi que trouxe para dentro do sonho noturno o relacionamento
especial. Eu não conseguia pensar assim durante o sonho, mas agora tomei uma
determinação. Toda noite, antes de dormir, vou me concentrar para perceber que
tudo aquilo que vier a experenciar no sonho noturno é tão somente fabricação
minha, que eu estou “dentro da minha cabeça”, e vou despertar para um sonho lúcido.
Vou perceber aquela realidade inventada como um Show de Truman dentro da minha
própria mente. Depois, vou transladar esse mesmo propósito para o sonho de
vigília, para a vida irreal a que chamamos vida, e vou despertar deste sonho.
Eu quero ver. Acima de tudo eu quero ver. E vai funcionar! A verdade é verdadeira e nada mais é verdadeiro.
“O teu valor não é estabelecido pelo ensino ou pelo aprendizado. O teu valor é estabelecido por Deus. Enquanto contestares isso, tudo o que fizeres será amedrontador, particularmente qualquer situação que se preste à crença na superioridade e na inferioridade (T-4. I. 7:1-3)”.
Portanto, nosso valor não se depõe em aprender algo sobre nós mesmos, mas na forma em que dispendemos nossa fé. Deus nos ama e isso tem que ser crível no teu coração, de verdade. A disponibilidade para esta crença poderá nos ensinar mais do que qualquer coisa que se tenha “decorado” ou “aprendido”. Memorizar Um Curso em Milagres inteiro pode não oferecer sequer “um grão de amor”, enquanto um exercício feito com fé (portanto, sem decorá-lo), pode ser um provedor do desfazer que o milagre anuncia em nossa imagem mundo, geralmente condizente de maneira indiscutível com o conteúdo do exercício praticado.
Qual nosso valor, então, diante de um milagre assim? Poderíamos começar pensando sobre nossa mania em querer entender as coisas. No livro “O Idiota” (um ótimo título!), Dostoievsky apresenta esta fala quando o personagem Gánia Ardaliónovitch tentar explicar ao General Ivan Fiódorovitch certa circunstância sobre uma foto que trazia, mediante uma série de especulações que supunha certas. O General tentava dizer-lhe que pensar sobre uma circunstância qualquer pode ser presunçoso. Esta parte não faz parte do enredo do livro, mas podemos entender que o General sabia — intuitivamente ao menos — que uma compreensão geral das coisas foge a nosso propósito, e cabe somente ao Espírito Santo, que sabe tudo sobre nós mesmos e tem ciência do Plano Geral, julgar. Quem pode ter a presunção de acreditar deter para si o futuro sem projetá-lo? O verdadeiro entendimento é dado.
Mas para receber é preciso que se saiba aonde se quer chegar. A tentativa de Gánia Ardaliónovitch em entender certo acontecimento no enredo do livro, apenas por meio de inferências, mostra-nos que o personagem acreditava no poder da compreensão enviesada que temos diante daquilo que chamamos de livre arbítrio.
O livre arbítrio permite que o tomador de decisão possa optar por seguir o sistema de pensamento da mente errada quando ele bem entender. Não precisamos sentirmo-nos culpados quanto a isso, simplesmente porque não sabemos distinguir bem entre progresso e retrocesso, como o Livro Texto indica. Se soubéssemos, nunca escolheríamos ser o vetor pelo qual o pensamento do ego engendra neste mundo a aparência de realidade que transparece muito palpável em coisas como a doença e a morte, por exemplo. Mas até mesmo a famigerada morte não pode ser real, a não ser em um mundo no qual todas as coisas parecem estar separadas umas das outras, inclusive a vida da morte. Como diz muito bem o curso: isso não precisa ser assim.
Mas para o tomador de decisões parece ser muito sedutora tal aparência de poder que lhe dá a volição, pois tal critério é capaz de fornecer a ilusão de pensar diferentemente de Deus. Sim, aqui nesta pedra, girando em torno de um espaço infinito, podemos escolher pensar diferentemente de Deus. Temos o livre arbítrio a nos dispor para isso. E se você acreditar que pode usar isso a seu favor acionando o modo bel-prazer, saiba que você pode se atrasar o quanto quiser. Mas não esqueça que, ao escolher assim, será preciso lembrar a si mesmo que nos atrasamos somente pelo uso excessivo do sistema de pensamento da mente errada (o Livro Texto afirma que o tempo serve apenas para aprendermos a distinguir bem). Vou ajudar com uma imagem: tente pensar no domínio consciente que você teve de sua vida até aqui. Resulta em um extenso e constante corredor ou em um labirinto?
Espero que esteja acompanhando. Para isso, é só não fazer como Gánia Ardaliónovitch, que tentava entender. Basta seguir. Estou seguramente te direcionando através do sistema de pensamento da mente certa, simplesmente porque escolhi assim, pois, ainda segundo o Livro Texto, “o poder de decisão é a única liberdade que te restou como prisioneiro desse mundo (T-12. VII. 9:1).” Nossa liberdade reside em nos livramos da indecisão e escolhermos bem. Mas nossa capacidade de escolha tem sido obnubilada pelo véu do desejo em controlar, entender, sem saber ainda distinguir. Esse era o plano, lembra? Pois é, aparentemente não deu muito certo...
...aparentemente, pois a boa notícia é que não foi real. E agora podemos sair daqui. Certa vez Jesus disse a Helen Schucman (a escriba de Um Curso em Milagres) que a única coisa a se fazer em um deserto é fugir. Ter fé é simplesmente escolher subir na caravana.
O meio mais rápido está disponível no teu irmão. Sinto muito te desapontar, mas está nele. Qual deles? Todos. Sinto muito te desapontar outra vez. Neste momento da história parece mesmo muito difícil acreditar em uma afirmação deste tipo, mas muito desta desconfiança surge devido ao que chamarei aqui de espelho ego, ou, segundo nosso currículo, nossa ênfase na projeção. Uma crença em corpos separados com identidades separadas tem necessariamente que hierarquizar o mundo inteiro, dentro de uma noção de divisão, na qual as partes não são iguais, a começar pelo corpo de cada um e dos pensamentos privados que cada um supõe possuir. A crença em nossos irmãos separados tem criado neste mundo todo o tipo de disposição que envolva superioridade ou inferioridade, como já foi dito, pois tais polos surgem diante do medo da Filiação, ou seja, do medo da amorosa unidade que encontramos abundantemente disponível em nossos irmãos santos.
Ver diferente disso seria reduzir demais a teus irmãos e se colocar em um patamar de inferioridade e/ou superioridade. Não é preciso dizer o quanto isto é cansativo. O que chamo aqui de “espelho ego”, por falta de um nome melhor, é nosso irmão visto ao contrário do que ele realmente é. O espelho ego é a antítese do instante santo, e podemos dizer, repetindo este bordão que tanto gosto de usar (neste momento da história), que no século XXI boa parte dos encontros entre o que chamaremos aqui de seres humanos ocorrem sob o modo espelho ego.
Nossa esperança pode ser reforçada mediante este lembrete constante no Livro Texto: isto não é assim. As imagens podem auxiliar bastante, e foi apenas devido a isso que viemos por aquele caminho. Pois bem, é isto que temos que nos esforçar em ver em nosso irmão: luz; em qualquer circunstância em que ele surgir, pois ele tem que ser tão santo quanto nós somos, caso queiramos mesmo escapar do deserto. Isso se faz através do perdão.
Para que isso seja assim, temos que confiar em nosso irmão com total disponibilidade. Basta lembrarmo-nos disto: somos totalmente inocentes. Fomos enlouquecidos pela culpa e agora não queremos mais isso. Temos que nos aproximar de nossos irmãos em completa inocência e confiança, em total certeza, sem relutância alguma, pois “a inocência não é um atributo parcial. Não é real enquanto não é total. Os que são parcialmente inocentes estão aptos a ser bastante tolos, às vezes. Enquanto a sua inocência não se torna um ponto de vista de aplicação universal, não chega a ser sabedoria. A percepção inocente ou verdadeira significa que tu nunca percebes de forma errada e sempre vês verdadeiramente. Em termos mais simples, significa que nunca vês o que não existe e sempre vês o que existe (T-3. II. 2)”.
Nosso irmão só existe para nós se nos apresentarmos diante dele em completa inocência, em total disponibilidade. Isto parece muito difícil, mas o curso garante que somente este primeiro passo é por nossa conta (“para ter, dá tudo a todos”), e mesmo nisto teremos ajuda:
“esse é um passo muito preliminar e o único que tens que dar por conta própria. Não é nem mesmo necessário que completes esse passo por ti mesmo, mas é necessário que te voltes nesta direção. Tendo escolhido ir por esse caminho, te colocas no comando da jornada onde tu e somente tu tens que permanecer. Esse passo pode aparentar exacerbar o conflito ao invés de resolvê-lo, porque é o passo inicial para reverter a tua percepção e virá-Ia de cabeça para cima. Isso entra em conflito com a percepção invertida que ainda não abandonaste, ou não teria sido necessária a mudança de direção. Algumas pessoas permanecem nesse ponto durante um longo tempo, experimentando um conflito muito agudo. A essa altura, podem tentar aceitar o conflito ao invés de dar o próximo passo para a sua resolução. Tendo dado o primeiro passo, porém, serão ajudadas. Uma vez tendo escolhido o que não podem completar sozinhas, não estão mais sozinhas (T-6. V. A. 6)”.
Pois bem, agora é a hora da mudança de direção do currículo, de uma tentativa de mudança em se exercer em volição e/ou julgamento para uma presença inteira diante de nossos amados irmãos. Eles estão aí e não te decepcionarão. Ao lado d’Eles estão os anjos, que vieram afinal. Se eles pedirem amor, você dá. Se eles derem, você também dá. Esse é o único resultado de soma zero, quando o mundo neutro deixa o amor se estender, pois a matéria não tem poder para coisa alguma (“nada do que vejo tem significado”).
Por fim, já que começamos falando sobre diferenças, como podemos medir a nós mesmos em relação aos outros? Já dissemos que medir a si mesmo diante de qualquer outro é tomar-se em hierarquias. Logo, nosso valor unitário somente pode ser definido por Deus, e não por nós mesmos, pois no pensamento separado provido pela mente errada sempre tomamos nosso irmão como um corpo diferente; e se ele é diferente, tal distinção em contraste tem que ser dada em algum grau, ou nível. Este grau ou nível pode ser de ordem familiar, de afinidades (amigos, colegas de trabalho ou partilhas de comunhão em ideais), pode ser que te ocorra que algumas pessoas sejam mais benvindas que outras, e aqui não quero dizer que tal tipo de preferência deveria ser necessariamente negligenciada. Mas a Filiação está em todos e em cada um, pois todo mundo responde por ser “o mesmo”, não existe especialismo de família, classe, raça ou crença para Deus. Tenha fé em todos. Sobre isso, são do escritor argentino Jorge Luís Borges estas palavras: “a preferência pode muito bem ser uma superstição”.
Ame indistintamente e o mundo será um lugar de puro amor. Antes de despertar, é preciso ver o mundo real. Vamos nos esforçar para isso.
Sinta a dor do
instante. A dor do instante pura, sem subterfúgio de alívios imediatos. Preste
atenção neste pedido urgente: você precisa de alguma maneira verificar a dor do
instante como é. Fugir é para quem anda em desertos. Sinta este instante como é,
totalmente, sem precisão de fuga. Apresse a si mesmo nisto. Sinta a dor do “instante
este”, imerso naquilo que se diz vida, diante daquilo que se diz vida, sem
querer escapar para outra coisa “maior” que a vida. Viver dói.
A vida pura, a
vida imediata e urgente das questões não resolvidas que, imersas na dor, não se
resolvem como cimento de cova e paralisação. Frente a frente com o que parece
ser morte, mas é vida viva e pura, conforme se estabelece diante daquilo que o
medo paralisa ante um verdadeiro ato sincero e honesto, a vida pode ser,
finalmente, vivida.
Um suspiro, um
vulto, o medo de estar imerso em si mesmo aparenta morte. Mas, na verdade, aquilo
que o medo chama “vida” é que é na verdade morte, formato zumbilândia mundo. Diante
do ato grave em que algo verdadeiro se apresenta assim, diante deste ato grave,
pouco conta se alguém se dá como famoso, rico, esteta, bem quisto, necessário,
competente, pois tudo isso apenas finge vida zumbi.
“Nunca há de
se falar o que se sente” dentro da prudência que acovarda. Se prudência for
virtude, então o caminho é pé atrás, sempre adiante o futuro que virá, trazendo
de presente a vida lá depois da curva que acertará o caminho. Qual é? Como
assim? E cada caminho traçado na imersão pura e simples de um único instante
não é o total? Você gostaria de somar “mais”? Deveríamos rir disto tudo, irmão.
Tens saudades do
teu tempo de criança? Queres tirar água do poço com peneira? A criança é puro
instante, experiência de vida pura, esquecida, retomada em um retrato em preto
e branco totalmente distorcido. Vais querer mesmo procurar aquele caminho aonde
morava teu coração esquecido? E aquela criança não é você mesmo, que cresceu?
Então aquela criança agora tem medo de quê?
Retrovisores
apontam para o cuidado em se dirigir atento para frente, mas mão no volante é
aqui, agora, o instante este, total, abarcando os erros, percebendo as placas
de cuidado, atenção e pare, quando for de parar, pois o carro acelera e anda sob
comandos, ele não tem outro destino que não seja o do motorista. Mas alguém
pode dizer que o acidente não deixa de ser uma experiência. Imerso na vida,
sim. Por fora dela, é só um pouco mais de ação no teatro zumbi.
A dor da vida
não se resolve interpretando simbolicamente o que mundo apresenta como sendo “seus
atos”. Uma espetada aqui e ali não há como se evitar, e tudo o que você pode
ter é o controle do carro, você não pode refazer a estrada a seu bel-prazer.
Mas pode andar por trilhas no Cerrado, caminhar caminhos diferentes, soprar o
vento na vela das barcas, o caminho está aí para ser percorrido, e nunca está
limitado por coisa nenhuma que não seja o medo.
Mas o
engraçado disso tudo é que advogamos pelo medo, não queremos vida viva de jeito
nenhum. Viver se assemelha à morte no projeto zumbi. O mundo zumbilândia te
oferece este prazer: viva a vida aguardando o futuro, imaginando-o em formas e
atos na mente, vida viva na mente, até que o “instante este” seja súbito e
instantâneo, diante do game over que se
diz ser a única certeza.
A única certeza do carro é mesmo o ferro-velho,
mas com o motorista o negócio é muito diferente, não é mesmo? Cada respiração
pede pela vida, mas o medo diz: “pare, cuidado, prudência, só se vive uma vez”,
e até mesmo esta advertência o projeto zumbi distorce, em favor de um ato em pé
atrás, para sempre por fora da vida, dentro da mente, pensamentos suicidas e algum
julgamento para apaziguar a loucura diante de certezas e razões.
Eu tô
precisando mesmo é viver. Não sei o que você vai fazer para se virar no projeto
zumbi, diante do que está aí, posto; mas eu estou querendo sentir a dor de
viver, irmão. Jogado no laço do vento, diante de expectativas que se constroem,
mas que eu mesmo não domino. Meu amigo Marcos Morgado diz: a fé pode mover montanhas,
mas nunca se sabe o lado do tombo. O projeto zumbi foi muito bem arquitetado, mano
velho. Agradeço aqui ao meu amigo, que me ensinou isto.
Mas sempre haverá
os defensores do projeto zumbi. Muitas vezes, seremos nós mesmos estes
traidores. Por isso é preciso vigilância. “Vigia, vigia aí, não deixa ele te
engabelar”. Como dizia Waly Salomão: “nada que se aproxima me é estranho”. Quero
correr o risco de viver, este é meu desabafo. Espero forças para ver e refutar
o projeto zumbi. Uma porta aberta, escancarada para o que vier, sem buscar
prudência comprada na feira da luta pela sobrevivência. Eu ando morto há alguns
anos. Sou um zumbi refletindo sobre minha própria condição, e haja saúde! Mas
nisto já existe liberdade em enxergar, embora eu concorde totalmente que olhos
há muito tempo acostumados com o escuro tem dificuldades em enxergar na luz. Eu
vi a réstia. Quero caminhar para fora. Quem sabe a gente não se encontra por lá
e participa da festa que deve estar rolando? Pois, para mim, quero apenas isto.
Quero tudo o que é direito de quem é total, feliz, íntegro. Coitado é para quem
coitado. Luz para nós todos, irmão, pois luz é para todos, senão é só lanterna
em meio a escuridão. Eu não quero mais isso. Quero ser convidado para a festa,
pois sei que agora mesmo tem uma galera lá. E festa boa mesmo é assim.
Após um evento no qual
mergulhaste na luz e durante alguns dias estiveste em estado de graça e depois
pensou que se foi — como assim se foi? Se a graça é eterna, como pode ter-se ido?
A não ser que a escolha em deixar ir não fosse tua. Mas sabemos que estavas
querendo demais voltar, para assim aderir novamente teus vícios.
Tição queima; quando vê,
corrobora o mundo. E o mundo volta de com força, para pegar de volta o que era
teu: um sistema de pensamento distorcido, em busca de fazer valer o irreal,
custe o que custar.
Como proceder diante da aparente invencibilidade
do irreal? É certo que alguma coisa se diz quando se pede para voltar, quando
se sabe que há um lugar muito melhor. Se nada irreal existe, e nada real pode
ser ameaçado, qual é o princípio da entrega, senão abrir mão das ilusões?
Ah! Mas eis que então surge o
verdadeiro motivo: o vício em mundo. O mundo é vício. E não dizemos aqui o mundano
em adjetivo de perfídias que atraem; dizemos o mundo mesmo, com suas imagens e
mágicas, truques de convencer. De repente, tudo é muito verdadeiro, e a atenção
volta-se para fora com o sentido de agarrar o princípio do mundo, que é sobreviver.
A sobrevivência, diante de estratégias em pensamento.
Assim, o mundo se torna o projeto
em pensá-lo. Adiar a guarda de um estado interior parece ser justo, diante da
impossibilidade em se querer demais de tanta coisa que está aí, disponível.
Melhor então divagar pelos pensamentos, tarântulas de discernimento, teias
gigantes nas quais o pensamento tece enquanto pesa, mede, quantifica, e prende,
ao que dita as regras entre dois e dois.
Dois é o nascimento do oposto. Entre
o um e o dois, nada existe. O três atrai a atenção ao tempo, quando dirá
1. Começo
2. Meio e
3. Fim
certamente, o quatro divulga o
retorno de algo, uma quadrimensão voltada para as ferramentas de ensino que não
estão divulgadas nem em opostos, nem em narrativas do tempo. Quatro é o recurso
que te revela o retorno. Olhas para ali (1), no tempo (2) pensas uma coisa e
outra (3) e apenas se abrires mão destes três passos tristes, verás o (4).
Lembra que está dentro de ti. Que
não existe para fora de ti. Que a projeção faz a percepção. Lembrar o que te
faz feliz, independente de fatos, é (4).
No final das contas, o pensamento
quer dominar a vida, ao dizer o que cada coisa é. Kant já previu que a coisa em
si não é possível. Tudo é uma projeção. Então dizer que o mundo é um mundo de
ideias é o mesmo que trazer para nossa vivência um conceito sobre as próprias
ideias, mas adicionando o fundamento da noção de ideia como base para tudo que conhecemos.
O dia-a-dia favorece diversas ideias
diferentes, traduzindo assim o mundo exterior como uma recorrência, isto é,
algo que precisa ser analisado para ser entendido. Mas tu criastes o mundo como
vês, não precisas de nenhuma ideia para entendê-lo, e sim de uma ideia
totalmente nova que o refaça (4).
Estar em si mesmo significa
entender que o processo de desfazer é uma entrega voluntária ao Espírito Santo,
mediante uma total disponibilidade em deixar que Ele atue. Não existe nenhum
tipo de conhecimento que possa ser adquirido e desenvolvido senão por intermédio
Dele, que sabe ao que cabe tua experiência. Uma vontade mal dirigida pode ser
humilhante, mas nenhum tipo de determinação em contrário à Dele prevalecerá.
Reza. “Enquanto houver percepção há
lugar para oração”. Rezar com petição em salvar-se, apenas, sem pedir por
coisas específicas, pois tudo te será dado se isto for realizado. Esta é a
única realização necessária.
Pai, pedimos a lembrança do Reino
e da alegria em compartilhar o Reino conscientemente. Queremos fazer de Tua paz
a realidade de vida. Pedimos que lembre de nossa vontade que é a Tua, para que
possamos lembrar da alegria em estar permanentemente em Tua Companhia feliz,
amém.
A melhor maneira de expressar a noção de alguma coisa diretamente parece se dar através de imagens. O mundo é imagem e, portanto, ideia. Veja-se os ditados, por exemplo. São imagens, simbolizando situações limites em expressões diretas ("água mole em pedra dura...", "melhor um pássaro na mão..."). Imagens diretas. Goethe dizia que "a ideia, na imagem, torna-se inexaurível". Utilizaremos, portanto, uma imagem para expressar justamente a noção de ideia.
Digamos que alguém nos questionasse algo nos seguintes termos: " — você faz ideia do que está acontecendo nesta sala neste momento?". Ora, a questão remete diretamente à expressão de um contexto imediato. Donde podemos concluir que a ideia de um momento pode ser confundida com o contexto dele. E nem sempre serão a mesma coisa.
A ideia é uma noção abstrata de uma concretização no pensar. Uma boa ideia pode mudar o (teu) mundo para melhor. Ideas certas te conduzem à certeza.
O
homossexualismo pode ser compreendido como especialismo para alguns, que se
viram como “diferentes”. Do mesmo modo, aqueles que são heterossexuais podem se
contrapor aos homossexuais e acreditar que são “diferentes”, pois são “normais”.
Na verdade, a ideia de contraposição, na qual alguém se crê diferente e se
percebe em luta para ser igual ou defender-se fundamenta todo tipo de ódio e separação.
O
Curso em Milagres não é moralista, não fundamenta um comportamento único no
qual a certeza da salvação estaria garantida na forma. Na verdade, diz que a
forma não existe em si, algo já descoberto há muitos anos pela filosofia de
Kant e por pensadores como Platão e Diógenes; mas nem mesmo essas ideias, que
fundamentaram a existência de ideias e, portanto, de livros, podem ser
compreendidas sem uma base, mesmo rudimentar, de aplicação. Neste sentido, o
UCEM fornece uma via nova, com o Livro de Exercícios. Nele é possível encontrar um modo de treinar a mente em direção à compreensão de que
a mente superior, ou a mente certa, não está divulgando caminhos diretivos na
forma. Ninguém está certo ou errado. No entanto, quando alguém procura “forçar”
uma certeza, numa aplicação totalizadora, como no intuito em se dizer que todos
são homossexuais ou todos são heterossexuais, há produção de diretivas em forma
de defesa. Ou seja, cada um gostaria que a “sua verdade” fosse a verdade de
todos, para assim justificá-la. Somente alguém que busca justificativas para
seu posicionamento precisa forçar verdades, e forçar verdades é totalitarismo.
Já vi declarações de gays que diziam não gostar da parada do orgulho gay, pois não
é preciso ter orgulho do que se é realmente; e também já vi declarações de
heterossexuais que diziam nunca ter se preocupado muito com esse assunto.
Não
é preciso forçar a verdade para que ela seja tal como é. Nem há garantias de
que exista uma propaganda capaz de dignificar o ser humano em tendência justa,
isto é, sendo como ele é na verdade. Chico Science dizia que “não há mistério
em se descobrir, o que você tem, e o que você gosta”. E é bem verdade que a
própria natureza apresenta formas diferentes de ser que nada tem a ver com
comportamentos diretivos.
O
perdão não é a busca por certezas, mas a certeza de que tudo que é buscado já
tem em si o código de algum erro. Ame seu irmão, estando certo ou errado em sua
composição de vida, e você sempre será benefícios. Deus é amor e é só isso que Ele
tem para dar através de todos nós.
Pergunta:
se tudo o que comemos é vivo, ou foi vivo, como pode o vegetarianismo ser uma
condição que preserva a vida?
Resposta:
Jesus comia peixes. Ele também dizia: “o que contamina o homem não é o que
entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem.” (Mateus
15:11). Entendemos mal a circunstância da vida neste planeta e, embora classifiquemos
a vida em gradações, o seu pressuposto em sofrimento está mais aparente nos
animais. Isto não quer dizer que há uma “conduta” na alimentação que “salva”. No
entanto, cada vez que se pressupõe um alimento como morte, uma ideia é aderida
a este pressupor; e ideias são as bases da constituição do aprendizado.
Somente
pode se alimentar verdadeiramente quem está fazendo o que faz por vontade
própria. Não há pressupostos condicionais ou ideológicos que garantam o
corrigir da mente. Se alguém se apropria da carne ou de um bom churrasco
enquanto congraça com seus irmãos no amor, bendito seja tal churrasco. Enquanto outros
na mesa podem muito bem resistir à ideia de ser carnívoro pressupondo, no entanto,
uma conduta alternativa que, baseada numa mentira, pode vir a ser muito
prejudicial.
Tampouco
o vegetariano está a “preservar a vida”. O caso é evitar maior sofrimento. Os
vegetais são seres sencientes, mas não conscientes. Eles não podem adicionar ao campo
das ideias a noção de sofrimento. Por isso dizemos que preservar os animais da
dor é uma atmosfera bastante favorável à ideia de sofrimento que produz o afã
do comércio alimentício no mundo. No entanto, um vegetariano “forçado” seria
ainda um pequeno equívoco neste momento da história, pois ele poderia recusar a
compreensão disto e se ater a uma neurose em “fazer” ao invés de “criar” em sua
alimentação. Não estamos prontos ainda para uma preservação da vida no planeta
como um todoe há muitas pessoas realmente amáveis que se alimentam de carne, pois a noção deste tipo de alimentação ainda vigora como ideia e não pode ser suprimida à força por comportamentos. No entanto, já há para além dos vegetarianos os veganos, fornecendo uma outra forma de pensar; e para
além destes há os que se alimentam de água e luz, somente de luz, e alguns poucos que
já se alimentam somente de ideias de alimentação, pois “tudo é uma ideia.”
(UCEM, Texto, Cap 5, I, 2:4).
Muito me desagrada ouvir pessoas
desatentas comentarem sua desatenção como uma sentença. Certo dia desses, disseram-me
de Zé Ramalho que suas músicas pareciam búzios, jogo de Búzios, sendo a
desordem. “Não dá pra entender quase nada do que ele diz.” Realmente, curioso
é: como então tanto êxito? E há tanto tempo? Não pode ser apenas o nada; ou, em
melhor hipótese, talvez seja mesmo por isso. Portanto, sendo tal “nada”
meramente simbólico, diremos dele coisas capazes de aproximar.
Na verdade, se estiveres a ler até
aqui, pode ser que já alcances entender a música de Zé Ramalho, pois não fostes
embora ainda. De toda forma, emprego mal o verbo “entender”, pois não é este o
caso, embora seja exatamente este o engano: não se pode alcançar entender — na
acepção que se compreende algo como sendo o exato igual — as composições do
poeta místico Zé Ramalho. Em suas músicas nada corresponde ao exato igual. Uma
pedra pode ser tudo, mas nunca deixará de ser fundamento. Portanto, é nas
imagens que reside o sagrado “segredo” das mensagens de Zé Ramalho. Tentaremos esboçar
aqui uma aproximação a algumas delas.
As músicas de Zé Ramalho sugerem as
imagens em potência estética capazes de traduzir para a consciência mensagens
de alta importância para o indivíduo. Quando se diz, por exemplo: “se eu disser
que é meio sabido / você diz que é meio pior”, no meio de uma canção que trata
de um homem e seu avô-pai (Avohai), percebe-se claramente uma acepção plausível
nas conversas entre homens, onde o “sabido” é desfeito no meio de uma conversa
sincera. Você diz a bobagem de sabido e o amigo demonstra amavelmente o erro e já
emenda no acerto. Geralmente, disso se ri, pois percebe igualmente a si mesmo
como um “planeta quando perde o girassol”, isto é, como alguém que saiu da
órbita do sol, que perdeu a linha, saiu do foco etc, ou como diz o UCEM: “aquele
que for o mais são no momento em que a ameaça é percebida, deve lembrar-se de
quanto é profundo o seu débito para com o outro e de quanta gratidão lhe é
devida e deve alegrar-se por poder pagar a sua dívida trazendo felicidade a
ambos" (Texto: Cap 18, V, 7:1).
Em “A Peleja do Diabo com o Dono
do Céu” o embate dos opostos é clarificado desde o título. Nosso apego em
imaginar o mundo como sendo o simulacro do céu, numa espécie benevolente de
platonismo, é desfigurado pelo ‘diabo’ da música com argumentos em favor da
relatividade do bem e do mal. Certo é que a leitura unilateral do platonismo
como o bem “bonzinho” desfigurou a sociedade a tal ponto que a neurose coletiva
hoje em dia parece residir na crença em que o acerto pode vir a ser o errado
acertado, ou a correção pela culpa, ou ainda a crucificação pela vida afora, no
que se afirma como algo natural e justo que “cada um carregue sua cruz”. Nisto,
nenhuma moral nos valha. Já sabemos pelos ensinamentos do UCEM que não há motivo
para se carregar nem cruz nem culpa. Mas gostaríamos que a cruz (ou o medo) fosse
o paraíso. Entanto, adverte o artista:
“Com tanto
dinheiro girando no mundo,
quem tem pede
muito, quem não tem: pede mais.
Cobiçam a
terra e toda a riqueza
do reino dos
homens e dos animais.
Cobiçam até a
planície dos sonhos,
lugares
eternos para descansar,
a terra do
verde que foi prometido,
até que se
canse de tanto esperar,
que eu não
vim de longe para me enganar”.
E na terra o homem vem a cobiçar
até “a planície dos sonhos / lugares eternos para descansar”. Bem, se o intuito
do homem é se enganar com o platonismo de bonzinho, vá lá! Mas aqueles que não
vieram “de longe” para se enganar sabem que a cruz de bonzinho é o mesmo que a
cruz de culpa e mal, sendo ambas engodo e ilusão, nada tendo nada a oferecer a
não ser artifícios que apontam na direção ora de um, ora de outro. Nisto, o
mundo gira, eternamente, neste embate de opostos. Então, na cobiça por riqueza “no
reino dos homens e dos animais”, os homens buscam “lugares eternos para descansar”.
Terra “do verde” prometida como sendo um lugar físico ou espiritual que se compra,
com dinheiro ou com barganha de bonzinho. E o dinheiro é símbolo capital
daquilo que se diz: “quem tem pede muito, quem não tem: pede mais”.
No entanto, é no rio que se vê o
restolho destes embates. Basta ver a poluição de qualquer rio que corta uma
cidade. No rio, pode-se ver a correnteza a arrastar de tudo: desde os peixes
que deslizam suaves nas profundezas aos troncos e outras coisas flutuantes que passam
acima, na superfície. O psicólogo suíço Carl Jung falava que no rio próximo a
sua casa de infância era comum aparecerem corpos de afogados, desavisadamente. Mas,
dizendo simplesmente, o rio nada tem a ver com o que é jogado nele. Como julgaríamos
o rio, então? O rio é bom ou mal? Na verdade, nada podemos dizer a respeito do
rio. Portanto:
"A nau
que flutua no leito do rio,
conduz à
velhice, conduz à moral.
Assim como Deus, parabéns o mal”.
Pois que, no rio de tempo, que é
a vida, tanto faz o deus de bonzinho, de dono do céu, como o deus do mal de malzinho.
É tudo a mesma brincadeira, os tais “jogos de enganar”. Podemos até rir disto
tudo, se quisermos. Aliás, no UCEM se diz que "na eternidade, onde tudo é um, introduziu-se uma ideia diminuta e louca, da qual o Filho de Deus não se lembrou de rir. Em seu esquecimento, esse pensamento passou a ser uma ideia séria, capaz de ser realizada e de ter efeitos reais" (Texto: Cap. 27, VIII, 6:2-3). Portanto, trabalharemos, cumpriremos nossos compromissos, caso
queiramos, sem jamais carregar nenhuma cruz. Não há nenhuma necessidade disso.
Finalmente, mesmo sobre este texto podemos dizer que
“O tom da
conversa que ouço me criva
de setas, e
facas, e favos de mel:
é a peleja do
diabo com o dono do céu”.
Traçamos aqui um panorama ilustrado
utilizando pequenos trechos de duas músicas de Zé Ramalho (“Avohai” e “A Peleja
do Diabo com o Dono do Céu”), já por si capazes de demonstrar a riqueza simbólica
que se vê por toda sua obra. Utilizamos no início do texto a palavra “sagrado” em relação às
músicas de Zé Ramalho, mas tal coisa não se deu por conta da sagração àquilo
que se devota em altares, pois lugar santo de Zé Ramalho é função, é palco e festa. No
entanto, agradecemos à arte e seu cumprimento em desfazer nossas doiduras. Um
pintor pode encontrar no Livro do Apocalipse imagens capazes de extasiar
quaisquer de seus afetos, desde que ele mesmo as compreenda e tenha talento
para traduzir. Nisto, pode ser que seu quadro ilustre uma igreja. A arte aponta
em direção a uma compreensão imediata, se realizada com perfeição. Perfeição
não se trata de uma técnica perfeita ou de um ponto fechado ao qual se chega.
Todo artista sabe que a perfeição estética é impossível. Mas o verdadeiro
artista igualmente percebe quando “vibrou a corda da poesia”, no dizer do Poeta
Adélia Prado. Nisto, pode-se dizer que o artista realizou uma obra de arte.
Adicionalmente, a tradição do
trabalho de Zé Ramalho se faz pela linha simbolista que por vezes encontra pontos
de contato em Raul Seixas, mas não tão notadamente simbolista como naquele, pois com Raul Seixas se aprende muito sobre a “lei”
e a “doutrina”, mas com Zé Ramalho vai-se à “liturgia”.
Faço aqui meu voto de gratidão ao trabalho e de admiração à obra deste
admirável artista brasileiro, da Paraíba, o Senhor Zé Ramalho. Salve, nosso querido
Zé!
Pergunta: o ego do meu irmão é o que eu temo nele?
Resposta: Não. Temes na verdade o Cristo nele.
Pergunta: Hoje vi uma senhora em um banco na praça e não consegui
sequer o bom dia. Um homem corria seu cooper e eu não consegui acenar em um
cruzamento na corrida. Tive medo de mim?
Resposta: Na verdade, tens medo de sofrer alguma punição por parte
do teu irmão. Veja só o que é a loucura do medo de teu irmão: ele parece
caminhar em um corpo, que é outro corpo, ele tem neste corpo outro cérebro e
outra “mente”, então ele pode pensar de modo diferente do teu. Esta é a lógica
do mundo, certo?
SIM.
Ok. No entanto, vejamos a
perspectiva de nosso currículo: não existe nenhuma lógica no caos. Não há o que
determinar. Se tiveste medo de teu irmão, o que determinastes no caos?
QUE ELE É DIFERENTE E PODE REAGIR
DE FORMA DIFERENTE.
Exatamente. Isto só é verdadeiro
para o medo, que advoga pela ganancia em manter a si mesmo enquanto assume seus
atributos “para sempre”. A defesa é o organismo principal para a manutenção do
caos. Podes te nomear tímido ou precavido, mas isto não é verdadeiro. Tens medo
de receber ajuda ou amor. A tua irresponsabilidade em relação ao mundo está
definida nisto. Se queres mesmo amar a teu irmão, tens que começar amando. Ele não
vai te ferir, ele te espera de braços abertos, mas enquanto temes a ele, pode
haver uma resposta temerosa realmente, e isso seria falta de educação. A tua
responsabilidade em relação a tua própria educação remete à noção de cerimônia,
ou de ser cerimonioso.
Portanto,
queres gerir o teu apoio em relação ao mundo como uma ferramenta de discórdia
na qual és sempre tímido e com isso passível de ser “perdoado”. Qual é, homem! Não
existe medo em ser responsável! Ser amável é recorrer ao teu mesmo com
confiança e sem temeridade. Se ele te pedir ajuda, dá a ajuda, ora bolas — eis tudo.
Sonhei que estava à procura de um estúdio para ensaiar música em Natal. Encontrei-o, e logo me vi sentado, conversando com uma jornalista, que estava toda de branco, em um vestido todo branco. Perguntei-a se não havia em Natal um Centro de Artes ou um Complexo Cultural, ao que ela respondeu que sim e admirou-se que eu nunca reparara. Então, fomos até uma bela encosta, com certo estilo vitoriano na mobília dos banquinhos que se via por lá. Em esplanada dava para ver um pedaço de mar, donde havia uma ilhota de recifes no meio; e toda a imagem brilhava em água prateada pelo luar de uma lua que não lembro ao certo se estava visível.
Estávamos sentados eu, ela e minha esposa, quando, de repente, uma torção de serpente marinha revelou um trecho do corpo do animal emergindo do mar em partes, pois se via apenas uma alça deslizante. Ainda apontei para lá e disse: ‘olha! Uma baleia!’ Mas a mulher de branco logo desceu a encosta por uma escada que por ali havia e começou a enfrentar a tal serpente, que tinha cabeça de dragão e era enorme. A serpente veio até a costa e comeu a cabeça da mulher. Então, seu corpo sem cabeça se transformou em dezenas de caranguejos. Neste ponto, acordei.
O sonho, segundo a perspectiva de nosso currículo,
é o lugar no qual o ego define o mundo à sua maneira, extrapolando em formas
seus intuitos não realizados. Obviamente, mesmo em tal contexto, os símbolos
podem ser interpretados como uma evocação da mente certa, quando instituídos em
certeza de propósito, pois o inconsciente é uma vasta ilusão em pensamento, sendo
ele mesmo imagem e produtor de forma, quando alcança o pensamento. Assim,
podemos resumir que o sonho noturno é uma reverberação da separação, pois suas
imagens ocorrem também através de formas. Quase tudo o que ocorre no sonho
noturno tem a ver com a separação em si, e símbolos apenas apontam para a
direção do sonho no formato “mundo”, revividos no formato “sonho noturno”.
Quando tens um
sonho, interpretá-lo é uma busca pelo significado do símbolo, empenho pelo qual
não se atém nenhum tipo de garantia. O sonho, enquanto é sonhado, ocorre no “agora”
do sonhar, e não quer dizer que este “agora” tenha algo a ver com o tempo, pois
já discutimos anteriormente que o tempo nos sonhos noturnos é obliterado em
favor da pulsão ou ressonância das imagens em potência. Assim, a cada vez que
um pressuposto do sonho é interpretado depois,
o que se está a fazer é julgar o
sonho, pois nem tu mesmo possuis garantias de que o sonho ocorreu exatamente
tal como está narrado acima.
No entanto, em
favor de tua mente certa, faremos disto um apêndice ao teu exercício de hoje,
pelo qual diremos algo acerca deste sonho.
A serpente
marinha, ou dragão pluvial, atende às expectativas da mudança, pois o que está
inconsciente foi “percebido”. No entanto, ainda em uma forma terrível. O fato de o teu “eu” perceber o dragão como
baleia remete ao mito de Jonas, que fala de alguém que ainda está inconsciente
e é “levado” pelo mar através de outra vida. Neste caso, os exercícios cumprem
o papel da baleia para ti.
Logicamente,
teu impulso estético surge derivado de um fortíssimo investimento na
subjetividade, conforme ocorre com todo artista. Tal investimento não deve ser
julgado como ruim ou negativo, pois a subjetividade quer dizer um empenho
pessoal em relação a algo, mas este empenho pode ser corrigido. Por isso se diz
que a arte é uma sublimação da mente errada em mente certa. Nesse mundo é
realmente um trabalho de alquimia.
Não podes
ainda julgar que teu ego tem alguma coisa a ver com isso. Há de se ver que a
mulher de branco, jornalista, atende em favor disto; posto que, em ego, ela
busca o sonho de fama e conquistas de tarimba; mas, pelo certo, ela divulga em
branco o processo de transmutação, pois o branco revela o todo, sendo ele cor e
ausência de cor. Não há porque buscar presságios em sonhos, pois se quiseres
sonhar o sonho do mundo, basta quereres algo com convicção em mente certa, e
isto ocorrerá. Este não é um sonho em presságio, mas aponta para teus gostos
verdadeiros com valor em amor e candura genuínos. Podes contemporizar acerca de
suas imagens terríveis, mas isto se deve ao fato de teres medo de Ti Mesmo.
Assim, pode-se
perceber que um empenho em direção aos teus desejos e em ponto de uma correção
estão elididos na figura da mulher de branco. Ela pode ser compreendida como
tua mente errada em branco, símbolo alquímico da transformação. O fato de o
dragão pluvial lhe arrancar a cabeça aponta para a interrupção da mente errada
em cérebro, pelo que o corpo, assim destituído, transforma-se em caranguejos,
que em seu duplo significado em símbolo aponta para uma mutação daquilo que “anda
enviesado” para o simbolismo do signo de Câncer, que evoca o “mistério” da
ressureição. A pluralidade de caranguejos, isto é, a quantidade abundante deles
no teu sonho, indica que uma total desordem pode ocorrer diante deste processo
do desfazer da “cabeça”, mas a garantia da certeza está no simbolismo do ser crustáceo,
aqui definido como uma forma que é “levada dentro de outra”. Isto implica ainda
na simbólica da disponibilidade à condução do Espírito Santo. A “desordem” no
movimento do caranguejo está explicada nas palavras de Jesus na Bíblia, quando
Se diz: “O vento sopra onde quer. Você o
escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com
todos os nascidos do Espírito (João 3:8)”
Obviamente,
outras interpretações diferentes caberiam aqui. Sonhos são simbólicos, assim
como as palavras, que são os “símbolos de símbolos”. Portanto, temos pelo menos
três níveis simbólicos neste texto para divergir-lhe do real. Pedimos então que
não te atenhas a isso como uma verdade em sonho de tua disponibilidade, mas
certamente as figuras de teu sonho são reafirmações de teu cotidiano em direção
ao despertar.
O
sono ao qual chamas vida parece variar continuamente de acordo com suas baixas
e altas em expectativas. Deveras, aquele que não tem expectativas não pode se
alterar em digressões e esperanças de mudanças. A vicissitude surge em um
contexto de investimento em escassez. Somente o oposto da escassez, que é a
volúpia ( a eternidade não cumpre opostos ), poderia admitir uma associação entre o que se diz verdadeiro e o que é
ilustração. O amor é invariável. Seria impossível que a variação conformasse em
si mesma qualquer tipo de glória ou divulgação de ameaças, pois seu pressuposto
é a mudança, e não ater a classificação a um único estado. A vida em sonho é
sempre digressiva.
No
caso do sonho noturno, o que ocorre é uma generalização dos pressupostos da
variação em acordo com o tempo. Obviamente, o tempo pode ser “suprimido” ou alterado
durante o sonho noturno, conforme o sabemos. Quando o sonho noturno e o sonho
diurno buscam “competir” pela realidade do sonhador, há um conflito geralmente
estabelecido pela insônia ou inquietude durante o sono, pois nenhum destes dois
estados parece “agradar” ao sonhador. O alto grau de hipnotismo não parece
favorecer seu estado de atenção, e aquele sonho que melhor o seduzir, vence.
Um
pode sonhar que naquilo a que chama vida, há uma torneira pingando, ou uma
cigarra em estrídulo, o impedindo de dormir. Este sonho configura sua escassez
em sono e comprova sua des-espiritualização em fadiga. Por outro lado, o sonho
noturno ao qual consegue se entregar, “comprova” em imagens de terror que o
sonhador do sonho é uma mente aturdida, e que não há escapatória para ele, pois
as imagens que surgem neste contexto atribuem a si mesmo um débito em relação
ao cotidiano do sonhador, e aparentam ser mensagens que “não o deixam dormir”.
Obviamente,
tal estado ocorre mediante uma grande devastação, ou cisão, na qual o sonhador
prefere alternar seu estado consciente entre sonhos, para divulgar sua fadiga
em termos experimentáveis. Na verdade, o sonhador não quer dormir, pois ele
precisa divulgar que o sono é necessário e lhe falta, tanto que seu corpo em
escassez admite o cansaço, e todos os atributos do corpo parecerão falhar, pois
ele teve uma noite ruim.
No
entanto, não é possível que se peça ao separado para sonhar com estas coisas em
sua consciência. Ele não pode sabê-las. Seu total alheamento em relação aos pressupostos
do despertar é tão inconsciente que somente através de uma revelação da
verdadeira natureza do corpo ele poderia entender sobre o cansaço físico. No
entanto, e adicionalmente, o homem que vê a si mesmo como corpo precisará de
descanso, pois tal investimento demanda muito gasto em energia.
A
noite vem para estabelecer — como oposto — a denúncia acerca daquilo que foi
vivido — através de opostos — durante o dia. O sono passa a ser o oposto da vigília,
e o pressuposto desta em “descanso”. O sono noturno são teus pensamentos em
imagens, não formatados pelo tempo, em variáveis sucessivas e diferenciações de
conceitos. Não temes os absurdos do sonho noturno, pois criastes regras para
dizer a ti mesmo que durante a noite “é assim”.
Quando
não consegues adormecer, significa que estás fadigado em fadiga. Algo
semelhante em apropriação ao próprio cansaço em estar cansado. Parece um
absurdo? Pois é para se rir mesmo, conforme a separação só engendre absurdos. O
ego, em cansaço, pede ao corpo, em cansaço, que descanse em sono, enquanto ele
mesmo — o ego — satisfaz a si em autômatos de sonho em vigília. No entanto,
para isso acontecer, o corpo precisa estar acordado, e se o ego quer sempre “mais”,
não podes dormir enquanto ele continuar a “fazer”. O empenho do ego em gerir
conceitos em imagens é interminável, mas durante o sonho noturno, seu
predomínio pode ser obliterado por um que esteja em vias de despertar. Assim,
esta estratégia em insônia visa confundir o sonhador entre sonhos, e dificultar
a percepção da ilusão de ambos os estados. Tanto o sonho noturno quanto o sonho
em vigília são irreais. A alternância entre estes dois estados em várias vezes
durante uma mesma noite pode ser entendida como o empenho do ego em demonstrar
que somente podes acordar de um sonho para cair em outro.
Isso
não é assim. A ocorrência da insônia pode ser curada meramente entregando o teu
sono em confiança ao Espírito Santo. Como se faz isso? É muito simples: quando
fores dormir, lembre com amor de uma situação na qual o dia “te forneceu” amor.
Isto fará com que te lembres de ti mesmo amável. Tenta lembrar-se de como és
amável. Busca, depois, livrar-se da imagem que suscitou tal pensamento, e te
entrega unicamente à sensação. Isto fornecerá para ti uma compreensão do corpo
como um instrumento de aprendizado para o amor. Não é uma libertação, pois as
sensações são percepções; mas é um empenho em direção à cura do corpo como
autômato em jogo de sonhos. Ao chegar a este estado, que já sabes como
experimentar, pede ao Espírito Santo que vele pelo teu sono, enquanto ainda
dormes. Ele compreenderá isso como tua disponibilidade, e não falhará em admitir
para si um indulto para conciliar o sono noturno com teu empenho em despertar.
Na
verdade, “dormir direito” é uma expressão contraditória, pois ninguém pode verdadeiramente
dormir. Apenas o sonho em “dormir” assume para o sonhador a possibilidade de
encontrar no sonho noturno um oposto à vida real. Tudo lá pode ser obliterado,
variado, ressignificado enfim, qualquer empenho em gerar salvação através de um
oposto pelo mesmo, causa uma diferenciação neste “mesmo” fabricado. Explicando
novamente: o sonho noturno não pode repetir a vigília, assim como as imagens da
fantasia não antecipam o evento fantasiado. Sonhar é reproduzir fantasias, e
fantasiar é sonhar reproduções.
Se
não consegues dormir direito, és agora alguém que pode definir a si mesmo como “aquele
que não consegue dormir direito”, e isso é uma limitação. Tampouco podes
definir teu sono sem definir a ti mesmo em auto-julgamento. Como farás então a
diferenciação? Apenas encontrando o meio termo entre o que é dormir e o que é
realmente descanso. O descanso real está em dormir sossegadamente, não em matérias
de impulso ao sono do sono. Dormir bem é apenas dormir, e nada mais. Se
quiseres não te inquietar à noite, procura devotar teu dia aos encontros santos
e aos instantes santos. Na medida em que aprenderes a ter apenas isso, teu sono
noturno será também um sono santificado.
Tenho recolhido alguns vídeos no You Tube relacionados ao UCEM. Há uma série nomeada “Curtas de Um Curso em Milagres”, na qual pessoas de todo o mundo tecem depoimentos sobre a experiência do despertar. Desta série, apresentarei aqui algunsdepoimentos, e tecerei comentários sobre o tema central do vídeo em questão. No primeiro vídeo desta série, apresento o depoimento generoso e amável de nossa irmã Regina.
Ademais, agradeço por estares Aqui. És bem vindo a este blog. Te Amo.
A imagem de mim mesmo.
“Soltar” significa o mesmo que a noção de “desapego”. No entanto, a abrange, pois o desapego ainda lida com o desejo e as formas. O “soltar” está ligado a abrir mão inclusive do sentido das coisas, que ocorre através da ansiosa busca por respostas. “Soltar” é uma experiência que aproxima o filho de Deus do significado das coisas.
Por isso, dizemos que o sentido das coisas apenas é capaz de fornecer respostas significativas quando estamos no estado natural. “Soltar” aproxima a mente do estado de abstração. Já a “identidade” está apegada a uma noção que se tem de si mesmo. Assim, esta noção não pode ser divulgada de maneira unívoca, pois cada um cria uma imagem de si mesmo. Esta imagem é única e pertence àquele que a criou, pois foi ele quem a criou. No entanto, o intuito em desfazer empreende aqui uma noção lógica: se o filho criou o ego, quem criou o Filho? Assim, lembramos de Nosso Pai, que nos ama com a qualidade do infinito. Isso eu digo, e atesto.
No entanto, o “eu” é apenas uma noção, uma referência. Por exemplo, eu tenho uma referência de amizade que se chama Vitor Meirelles. Mas Vitor Meirelles é uma referência ao nome do meu amigo, que é como experimento sua existência no mundo da percepção através do nome do seu corpo. E o corpo de meu amigo me lhe dá uma noção de sua existência. Assim, diz-se no filme “Waking Life” — que muito recomendo — que a coisa mais incrível deste mundo é estarmos uns diante dos outros. Isso já é motivo suficiente para a experiência do amor surgir para ti, quando qualquer irmão se apresentar na tua frente.
“Se tenho que recordar quem eu sou, o que tenho que fazer realmente é deixar ir essa imagem de mim mesma”. Aqui há a referência real ao ato de despertar. Para recordar quem eu sou é necessário esquecer o ego. Deixar ir essa imagem que criei e entregar-se definitivamente à experiência do significado, que está ao encargo do Espírito Santo.
Obviamente, essa experiência é experimentada por nós como sendo muito difícil. Mas busco fortificar a minha fé através de duas coisas:
1 – tenho fé perfeita no UCEM, quando diz: “O caminho não é difícil, mas é muito diferente”. (UCEM – Cap. 11, Subtítulo três, §11).
2 -Acredito que a Expiação se encarregará em realizar tudo aquilo que não sou capaz mediante meu estado atual de aprendizado. Assim, entrego nas mãos do Espírito Santo minha condução, embora seja eu mesmo também um bastante demais aprendiz.
Tatuei em meu ombro esquerdo a palavra “paciência”. Assim, busquei a ilusão da matéria que naquele momento me apreendia significado. Mas minha tatuagem é imagem, pode existir ou não nos corpos, mas é ilusão, e deve ser assim entendida, pois isto provoca o bom desapego.
Então, como lidar com a aparente existência das coisas e ainda assim apreender a abstração? A resposta é: soltando, pois a “cada vez que retorna a minha própria imagem, me faz esquecer quem eu sou realmente”. Portanto, a cada vez que a imagem que me dei retorna a mim como sendo o que sou definitivamente, me desconecto da capacidade abstrata da mente, que não precisa da imagem de mim mesmo para existir. Por isso se fala em desfazer. A imagem de mim mesmo é um julgamento que me dei, e partir dele acreditei que era eu quem estava no mundo, muito vitimado por ele, pois a minha imagem não detém o controle das coisas, e para sobreviver precisa de muita projeção, muita tentativa de fazer do mundo também uma imagem construída, jamais dada.
Mas disso falarei com maiores detalhes no próximo vídeo, da irmã Adriana. Por enquanto, nos ateremos à noção de soltar. Como, então, soltar? Começa com
deixar ir, soltar as nossas próprias ideias, as minhas próprias ideias, e cair nesse instante santo, puro, de inocência, de nada, onde sua mente está totalmente fora de controle, e seus pensamentos..........a sua mente está num estado natural, a nossa mente está num estado de nada, num estado de abstração, que é a verdadeira natureza da mente. Aí você soltou tudo, você deixou ir, você recebe; sempre, sempre eu vou receber algo divino, algo real
.
O estado de pura abstração é o vazio. Ocorre sempre que não queres ser o dono do que pensas. Ocorre quando as conclusões a que queres chegar não estão atreladas a um objetivo que as levem unicamente ao sentido, mas a um significado. Acaso pensas em falar, mas não falas por ti mesmo. Tu te entregas a experiência de ser conduzido pelas palavras, até que percebes tuas palavras revolvendo a Fonte e te trazendo uma noção por vezes muito diferente do teu habitual modo de pensar. E te sentes gratificado por isso. Ocorre também com os gestos do corpo e com os sinais da experiência cotidiana. Guimarães Rosa dizia que há sempre um milagre que não estamos vendo. Assim, podes acreditar que o contrário de soltar é deixar, mas lembremos que todos os opostos se elidem no perdão. Desta forma, deixar também ajuda, e não me ocorre nada no momento melhor para criar que citar as sábias palavras de Chico Science, que estendeamavelmente em uma de suas músicas um belíssimo discurso, pelo qual entendo que soltar é o mesmo que “deixar que os fatos sejam fatos naturalmente, sem que sejam forjados para acontecer. Deixar que os olhos vejam os pequenos detalhes lentamente. Deixar que as coisas que lhe circundam estejam sempre inertes, como móveis inofensivos, para lhe servir quando for preciso, sem nunca lhe causar danos, sejam eles morais, físicos ou psicológicos.” Deixar as coisas, as pessoas, os eventos serem, é soltar. Soltar é perdoar tudo que te circunda, tudo o que vês como sendo o mundo, e o mundo são coisas, pessoas, eventos, imagens, que não são o que tu és, mas insistes em criá-las.
Assim, nada te contenta. Pode-se perguntar a qualquer pessoa ainda ativa em seu experimentar do ego algo mais que ela queira, e ela sempre acreditará que precisa de algo. Irmão querido, isso não é assim. Os eventos se sucedem e acreditas que deves ser levados com eles. Soltar é deixar pra lá. Isso não significa que lançarás a ética ao espaço e farás loucuras, te perderás no que é tua vontade e serás finalmente lançado ao fogo do sei lá o que. Irmão, doidice total. Se te entregas a Deus, como assim não dará certo? Lembre-se do que diz o UCEM: não estás sozinho em tua jornada. Irmão, lembra-te agora do exercício 18: eu não estou sozinho ao experimentar os efeitos do que vejo. Então, lembra-te do exercício posterior: eu não estou sozinho ao experimentar os efeitos dos meus pensamentos. Isso é suficiente para teres calma. Não terás que fazer nada! Isso não é incrível? Não queres viver livre, tendo para si todos os teus pensamentos motivados por Deus? Pois “soltar” te levará inevitavelmente a isso, pois quando soltas, sempre vais receber “algo divino, algo real”. E “as coisas reais vão se apresentar na tua vida.” Não queres isso? Sei que queres, e o terás. Nesse momento dizemos a Ti, Espírito Santo, que estamos dispostos a atender o teu chamado e aceitar as tuas palavras como nosso guia. Queremos Te ouvir, e estamos dispostos a soltar todos nossos auto conceitos pelo Teu entendimento, que é o nosso. Assim, nos libertamos de toda nossa louca vontade de comandar, e soltamos as imagens, as palavras, as ações, para que nos guies àquilo que é nossa vontade, como é a Tua. Obrigado a Ti! Amém.
Sugiro agora que o leitor reveja o vídeo da irmã Regina. Obrigado por leres até aqui. És bem vindo aqui. Te amo.
"Estás por demais preso à forma e não ao conteúdo." (UCEM - Cap. XIV - § 7)
Este vídeo, no futuro, será compreendido com clareza, pois seu discurso é consistente. Apenas aparenta ser empolado e labiríntico por conta de seu caráter altamente simbólico. Realmente, a mensagem atrelada à fala da garota é derivável de uma concepção apenas passível de ser compreendida neste momento da história com o apoio de uma lógica baseada em simbolismos.
Para tanto, tentaremos aqui uma aproximação daquilo que nos parece ser o conteúdo significativo da mensagem. Indicações disto podem ser percebidas logo no início do vídeo, quando a garota diz que vai “chorar”, isto é, protestar, por não poder prever seu futuro “além do ponto final se tornando uma outra língua brasileira”. E, assim, entendemos que o discurso emitido acede às limitações da língua. Somente através de uma outra língua brasileira, através de outro código, talvez fosse possível emitir tal mensagem neste momento da história com clareza. Estamos diante de uma daquelas mensagens caracterizadas por um “quem tiver ouvidos para ouvir, ouça”. Vejamos: o tema do discurso da garota é o Ponto Aton. Pois bem: Aton era o nome dado pelo faraó egípcio Akhenaton a um Deus único, simbolizado pelo sol. Akhenaton procurou substituir a cultura politeísta egípcia que cultivava vários deuses, como Amon, Ísis, Thoth e Rá. O faraó argumentava em favor da Unidade, e esta é a primeira ocorrência histórica de uma tentativa de se estabelecer um Deus único em uma cultura.[1]
No ano 1353 a.C., Akhenaton proferia suas orações já nestes termos:
“Ó Aton vivo, princípio da vida (...) Ó Deus único, sem par! (...) Criais a Terra conforme vosso desejo(...) Estais em meu coração e ninguém além de vosso filho Vos conhece”.
Dizer que “o futuro pertence ao Ponto Aton” é o mesmo que afirmar que todos nós estamos indo ao encontro da Unidade, da consciência do Ponto Aton, isto é, caminhamos rumo a um ponto em que o Deus único (Pai) será conhecido pelo Seu Filho (Consciência do Pai). Por conta disso, se diz no vídeo que "nosso futuro é muito reluzente".
Outro ponto levantado pelo discurso no vídeos são as inferências às réplicas e tréplicas. É dito pela garota que “as réplicas são constantes”. Depois desta advertência, a garota prossegue e diz que “no futuro, a gente pira. Não vai ter mais a que se reportar. Então, as réplicas, elas são constantes”. Poderíamos dizer que "as réplicas de Deus", ou as imagens de nós mesmos em corpos, elas são constantes, ou seja, são todas "a mesma". Somos todos irmanados na mesma natureza, mas como "réplicas" estamos voluntariamente sujeitos a uma aparência de separação. Por isso é dito que “você não pode adequar que a sua réplica um dia foi uma inocência, né?”, e por isso se quer dizer que a inocência deste fato seria não estar consciente da própria unidade, agindo como um "inocente" ou "ingênuo", isento de qualquer responsabilidade em perceber a unidade. Dizer que a imagem que criaste é inocente é o mesmo que dizer que o corpo — ou o ego — é inocente. E você não pode mesmo “adequar que a sua réplica um dia foi uma inocência”.
Por outra: a réplica da Unidade são os corpos. Não há uma categoria passível de unidade nos corpos e, portanto, a réplica à Unidade foi a separação. Não há inocência nisso. Você não pode adequar sua réplica (corpo) a uma inocência (inconsciência do caráter unitário da mente). Aqueles que não alegam "inocência" (inconsciência), serão os treplicantes: “os treplicantes vão ser aquelas crianças que vão defender o futuro Aton”. Tréplica é uma resposta dada a uma réplica. Uma réplica de Deus, de Seu Filho, reduzida a uma imagem, é um corpo. Treplicar seria, portanto, o mesmo que "estar em si", advogando pelo retorno ao conhecimento, ao seguro apoio de Deus. Aqueles que possuem o “seguro apoio de Deus” serão os treplicantes, os que deram uma resposta às limitações do corpo, e são as crianças (conscientes) que defenderão o futuro Aton.
A garota prossegue: “Ai eu vou explicar o porquê [de] Aton: você nunca sabe de onde vem a morte. Às vezes, você pode estar numa cozinha junto com um cara, e achar que aquele lugar não existe mais, porque você não pode voltar; mas esse lugar existe, ninguém vai derrubá-lo. Então você nunca sabe de onde vem a morte.
Agora entramos em uma relação entre o futuro e a morte. O tempo já se foi, conforme sabemos pelo Curso. Então, as coisas que acontecem no tempo são ilusões aparentemente estáveis, que se configuram diferentes apenas pela ilusão de mudança nas formas. Isto é quase impossível de explicar. Quando vemos a hora no relógio, por exemplo, estamos contando a mudança da forma do ponteiro, mas não estamos prosseguindo junto com o ponteiro, pois de onde nós realmente estamos o tempo não existe. Por que então ‘vemos’ a ilusão de movimento do ponteiro do relógio, e por que esse movimento ‘conta’ o tempo? Porque o andamento da mudança das formas permite que o ponteiro mude de lugar, e a regularidade disto adverte um ritmo, o próprio ritmo da separação, que é o tempo. Mas a Unidade é coesa, não pode mudar, então não há em Si uma variação. Portanto, todos os lugares no tempo, ou seja, na separação, estão apenas demonstrando uma ilusão, um estado invariável de imagens que se sucedem. Se você estiver num lugar, “numa cozinha junto com um cara”, como no caso da garota, pode achar que aquele lugar não existe mais agora, hoje, depois de já ter passado o suposto encontro, mas esse lugar, no tempo, existe, ninguém vai derrubá-lo, pois todo o passado e todo o futuro estão ocorrendo agora, no momento este. O fluxo da vida advoga pela ocorrência simultânea de uma percepção certa e do conhecimento, cujo caráter não pode ser explicado. Essas duas ocorrências se encontram no tempo através de Deus, que as aparelha com Seus Dons e atribui ao tempo um caráter delusório, e isto é mesmo uma revelação. Contudo, tentaremos uma imagem poética para alcançar dizer o que significa não saber de onde vem a morte.
A morte é um evento no tempo, portanto, assim como o próprio tempo, é uma ilusão. O caráter unitário da vida não permite haver a morte do Filho de Deus, pois a unidade da Filiação garante que haja sempre ‘réplicas’ constantes. Essa unidade da Filiação não pode ser quebrada por algo que ocorre no tempo, pois o tempo é a sequência das imagens percebidas na matéria, portanto, não faz parte do conhecimento, isto é, da realidade. Se todos os olhos dos habitantes do mundo olhassem ao mesmo tempo em conjunto, ou seja, sendo todos uma só consciência, o que surgiria seria a imagem completa do mundo, uma quadrimensão da mente de Deus. Nesta dimensão, o todo seria imagético, mas não perceptível, pois a imagem estaria configurada no todo, e não nas partes. Assim, se um destes olhos de corpo viesse a parar de emitir suas informações de vista, o tempo permaneceria estável em sua ilusão, pois a imagem que ele deixaria de emitir seria apenas a imagem que era percebida por ele. Contudo, ninguém pode “derrubar” uma imagem que o Filho de Deus percebeu, pois o tempo é todo o tempo no agora. Por isso se diz que um ato corrigido do Filho de Deus no presente modifica tanto o passado quanto o futuro, desfazendo aquele para liberar este. Portanto, pode-se dizer que não se sabe de onde vem a morte, pois ela não vem do ‘fim das coisas’, isto é, do fim da percepção. Na verdade, a morte não existe, ninguém vai “derrubar” as criações dos Filhos de Deus.
Entretanto, “o futuro reside em relutar”. E por isso se quer dizer que a presentificação do passado é o seu desfazer, e que relutar, isto é, resistir ao que é, resistir ao conhecimento é o mesmo que produzir futuro. O 13º princípio dos milagres diz: “Milagres são tanto princípios como fins, e assim alteram a ordem temporal. São sempre afirmações de renascimento, que parecem retroceder mas realmente avançam. Eles desfazem o passado no presente e assim liberam o futuro”. O desfazer passa a ser uma recordação imediata da memória intemporal da Unidade, e assim o futuro reside em relutar, em manter-se em contato, pois o inconsciente será liberado do tempo por conta disto. Caso contrário, o passado determinará o futuro sob os auspícios da projeção.
E a conclusão é que o futuro reside “em fazer uma revolução interna e conduzir até as urnas todo esse sacolejo dos anos que vem”. E se o tempo todo já existe, é necessária a revolução interna — a cura — e conduzir todo o ‘sacolejo’, todos os eventos dos anos que virão, até o abandono do corpo, às urnas. Isso estendido a toda Filiação significa que a cura terá ainda um espaçamento no tempo para ocorrer, uma espécie de arranjo teleológico que aponta para uma unidade inevitável, que será reluzente neste futuro o qual temos que aguentar de si o sacolejo, os eventos densos desta ilusão de corpo.
Contudo, por enquanto, há a “decadência”; e por conta disso “digo nada”.
Assim, a mensagem da garota pode ser “traduzida” da seguinte maneira:
“— Olha, eu queria “chorar” porque eu não tenho — assim — a condição de prever o meu futuro além do “ponto final” se tornando uma Outra Língua Brasileira.
Quero lamentar a inexistência de uma linguagem suficiente para exprimir condições argumentativas ideais sobre o futuro.
“Porque eu acho que o futuro a Deus pertence — e Aton — então o futuro pertence ao Ponto Aton. Porque eu acho que o nosso futuro é muito reluzente.
O futuro pertence à Unidade, e por conta disso é bastante promissor.
“No futuro, a gente pira. Não vai ter mais a que se reportar. Então, as réplicas, elas são constantes. Você não pode adequar[2] que a sua réplica um dia foi uma inocência, né? Então, os treplicantes são aquelas crianças que vão defender o futuro Aton.
No futuro, não há referentes, todos os seres serão irmãos em UM, ou numa única mente. Embora constantes na Unidade, todos serão replicados na tentativa enganosa do ego em adequar a inocência através de seus meios, contudo serão também treplicados pelo retorno ao alcance do conhecimento. Ninguém alegará desconhecimento disto. Assim, no futuro, todos defenderão a Unidade.
“Ai eu vou explicar o porquê [de] Aton: você nunca sabe de onde vem a morte. Às vezes você pode estar numa cozinha junto com um cara, e achar que aquele lugar não existe mais, porque você não pode voltar; mas esse lugar existe, ninguém vai derrubá-lo. Então você nunca sabe de onde vem a morte.
A morte não existe. As imagens "perceptíveis" são recorrências do instante que existe, ou seja, o “momento este”, o agora. O passado é desfeito na conscientização de que ninguém pode derrubar o intemporal agora, nem as imagens criadas nele, pois ninguém vai derrubar a consciência da Filiação.
“O futuro reside em relutar. Em fazer uma revolução interna e conduzir até as urnas todo esse sacolejo dos anos que vem.
Assim, o futuro é o próprio presente liberado na consciência. Convém promover rapidamente a cura a fim de conduzir com menor dificuldade o ‘sacolejo’ do transitar denso da matéria através do tempo.
“Por enquanto a decadência, digo nada."
No entanto, neste momento da história, há uma suposição de decadência, e não se pode dizer quase nada sobre isso.
Adeus.”
E com esse Adeus a mensagem retorna ao Lugar Sagrado de onde veio. Salve a garota, que disponibilizou este proceder, salve ao Espírito Santo, que nos ajuda sempre, e que continuemos sempre em nossa mente certa, nesta intenção em ouvi-Lo. Amém.
[1] Obviamente, há controvérsias a esse respeito, mas caso se queira trocar daqui por diante “Akhenaton” por “Abraão”, “Arameus” ou “Medianitas”, a discussão permanecerá essencialmente a mesma, pois palavras são “símbolos de símbolos”. Elegeremos continuar com Akhenaton apenas por conta do conteúdo da mensagem que analisamos.
[2] Aqui provavelmente usado no sentido de tornar conveniente (Dic. HOUAISS, acepção 2).