Mostrando postagens com marcador Poemas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poemas. Mostrar todas as postagens

sábado, 12 de outubro de 2013

Poema sem título

Em não me entender,
Lancei-me ao caos;
E quis entender todo o caos.

Em não entendê-lo,
Achei-me como ele;
E perdi metade dos dentes.

Ó fruta maldita,
Que jamais saibo ler:
Tomé acredita,
O corpo quer ver.

Perdidos no vulto do tempo,
(Donde vim?  Pron’ vou?)
Metade de mim é resposta:
Não sei — Eu Sou.

sábado, 21 de julho de 2012

Balada do homem bom à procura de seu nojo

Na rua, encontrou-se o homem bom virando a esquina.
Trazia no bolso memórias e duas caixas de isopor.
O homem bom refazia um trajeto passante
E trazia os olhos marejados de luz.

Em sua vida, nunca se viu o homem bom a errar 
no claro.
Leia-se: pátina, avenca, sedução.
O homem bom sabe assobiar canófaros!
Mas quase não canta metáfora, se aguilhoada em flor.

(Moço:
Não terá por aí o senhor
Uma máquina de desfazer homens bons?
Devolvo limpa.)

Mas coragem para ser a si mesmo
O homem bom não tem.
Passa por bom em meio a outros
que são como ele
E trocam amabilidades em noites como o Natal.

(Conheci-o
Há tempos,
Quando se o via a fabricar esmolas
Em muita mansão e casas de moedas.
Tornou-se importante em não ser lembrado.
Mas ninguém tem por ele piedade.
Dizem, apenas:
— cuidado: ele é muito bom!)

Pedia socorro invertido.
Nunca ninguém o ouvia,
Pois onde pedia socorro
Figurava um lindo jardim,
Cuidado em flores e abismos,
Riscado em parede caiada
De tempos imemoriais
Para ele inacessíveis.

Finalmente, a Fundação Para o Homem Bom o acolheu.
Passa as tardes a jogar xadrez sozinho
Ou com a máquina de computador.
Teme a vida e a morte,
Mas sempre tem algo de bom a dizer.

E apenas nisso pode ser, finalmente, terrível.

.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Escolhe outra vez

Irmão:
tu que errastes,
que jogaste pedra na mãe,
que fizeste o triste enredo,
que pediste por misericórdia,
irmão: escolhe outra vez.

Tu,
que perdeste a dignidade,
que fizeste o feio, o errado;
 que tiveste na mão a ganância,
que sonhaste com glórias espúrias,
irmão: escolhe outra vez!

Tu,
que viste o enleio do medo,
que pediste esmola ao pobre,
que tiveste demais escondido,
que contou um segredo ao diabo
— irmão: escolhe outra vez.

Tu,
que fizeste o melhor de nada,
 que já sabe de tudo o engodo,
que pediu demais à mentira,
que viste excentricidades
 irmão: ainda temos chance!

Investe na tua coragem,
Desiste de tua perfídia,
Encosta essa cara à verdade
E confessa apenas assim:
– Quero acordar deste sonho!
Assim serás nova gente,
Com cara de mera verdade.

(E dirá de ti todo o mundo
Que foste redimido ao invés.
E que sabes mistério profundo
Da graça de ser o que És).


.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

(Poemas que escrevi) - Criação

O vento cria um monte de areia.
Duas molas sustendo um eixo criam movimento.
Toda a criação é ineludível.

A música é a criação do ar.
O sopro é uma criação do ser.

O ser percebe a praia;
mas a água,
que marulha sua existência,
cria.

(O homem que vê o visto,
percebe,
mas  não cria).

O homem que vê o visto É.

O homem que vê o vento
criar o monte de areia
pode compor teoria.

Ele mesmo não pode ser o vento que cria.

(Um homem pode juntar um monte de areia
com a mão ou com o pé)

E cria.


Panorama

            No nordeste, existe uma espécie infantil não isolada de fêmea humana que entrega seu corpo por cinqüenta centavos. Ontem, fotografaram no Rio de Janeiro, em férias, o jacaré do pantanal que equilibra varas no circo. No sul do país, isolado entre trezentos arbustos, um homem muito velho, caquético, raspa o musgo das árvores e ainda inscreve nos troncos, com canivetes suíços, mensagens revolucionárias de conspiração. Não se encontra, em nenhuma tabuleta, a inscrição: “vai-se por aqui”, e um mineiro come quieto seu queijo radioativo enquanto vê sociólogos e filósofos conjecturarem sobre, sobre, sobre, sobre.  A miss nacional eleita em 1825 retornou às passarelas. Um senador recebeu duas mães para escrever discursos encomiásticos sobre a honestidade. Em São Paulo, um policial faz cafuné num homicida. A Procissão de Fé que saiu em dezembro para Brasília entoando cânticos já se encontra em Moçambique, mas não se aperceberam ainda. Artistas aprendem com a trapezista Nariel a inacreditável arte de esmolar. Janaína trancafiou-se há tanto tempo no quarto que a porta cicatrizou. Pacientes entraram em greve no Pará. Vinícius luta desesperadamente contra os moinhos. Um homem empunha uma mandioca e pede votos na televisão. O apocalipse aconteceu ontem, as três e quarenta e cinco da manhã; não será hora, agora, de procurar alguma luz?

(Poemas que escrevi) - As Forças

As forças, o contato, a terra, o apoio do chão
Convidaram-me a sentir o seu sabor de fixo
E me aproveitei deste regalo.
Quis provar de uma raiz em um jantar natural,
Sentir o mesmo sabor da Raiz que um dia eu comi
Numa distante ceia que ainda me apetece e chama.

Pois no dia, que fora de festa,
— Falsa festa em que chovia —
Convidei os meus amigos a entrar e jantar comigo,
Pois era tempo de fome.
Pareciam desnutridos, os sonhos de meus amigos.

Cozinheiro não havia nessa estranha refeição.
A raiz — imaginei-a brotando imenso tubérculo
Cozido em formas de amarelo morto
Jamais nascido do chão, com mil olhos a me ver
imponderável em sua sina
Pois seu fascínio era o terror
De uma angústia laboriosa.
Não era raiz de colheita
— batatas que se vence —
Era raiz inventada,
Sabor defeito de vento.

Aproximei da panela
Que flutuava sobre a mesa
A doze palmos do chão.
Apanhei uma porção, amassei as suas formas,
Pus no prato, fiz purê.
Mas a colher que me trazia a massa à boca
Insistia em flectir seu retorno
Em estranhas torções metálicas
Retornando a massa de nada
ao imenso nada que era.
Eu e meus amigos, todos com fome e ânsia,
Congratulávamos  apoios tímidos,
Pois era ceia de Natal.

Não é que em tanto esforço
Nenhum percebia nada?
Parecia fosse festa!
Todos acreditavam,
Diziam lindas canções,
Trocavam presentes estranhos
Diziam adivinhações.
Tudo era susto e enleio,
Pois sob nossas cabeças
Pairava a imensa ameaça
Julgando com tantos olhos
—alguns injetados de ódio —
Os nossos belos jardins.

Pois que ao lado da mesa
Enraizada na terra
— Essa nesga de verdade —
Via-se ali um jardim
Perene em sua existência
Jardim de pomar de flores
Muitas, muitas davam frutos.

Mas eu e os meus amigos
Jamais ousávamos tanto.
Era a ilusão flutuante
Com mil olhos sobre nós
Quem atirava um julgamento
Com voz marcante de fúria:
Fruta é mentira inventada!

Em meio ao medo de tudo
Cantávamos canções de fuga.
E uns aos outros desejávamos qualquer sorte de Natal.


(Poemas que escrevi) - Interroga-te

Acordo do sonho dentro do sonho.
Adquiro metade da consciência.
O vento que bate em meu rosto
Não é o vento que bate em meu rosto.
A água que corre em meu sonho faz o barulho de trem.

O sonho é a porta da noite,
Não da noite deste dia,
Mas da noite que é a outra casa-velha-de-morada.

No sonho sou outro mim.
 Modelo mental de mim.
Se acordo dentro do sonho
Acordo par’outra caverna.

E vejo uma festa vibrante
E dois insetos brigando
E uma menina em carmesim.

E há também o porteiro
O homem de capuz e terno
Um jogo de futebol.

No sonho, uma vela preta
É de se comer ou vestir.
Ou há ainda a moeda
Que compra outros sentidos.

Mas, no sonho, haverá perigos?
No sonho uma teia de aranhas é feita pra passear?

(Acordo no meio do sonho e não sei da linguagem do sonho)

No sonho, será domingo?
Que tempo será o do sonho?
Que horas, no relógio do tempo,
Agora acordado, serão?

Encontro uma estrada no sonho
enorme, gigante, infinita.
Quanto tempo até chegar
à outra ponta
Ou à esquina?

E seu trajeto infinito dura o tempo da pergunta.


domingo, 9 de janeiro de 2011

Se Deus pudesse com asas




Se Deus pudesse com asas
Seriam voos diários
Escala em meus corações?

Se Deus pudesse com asas
E fossemos nós aviões
Seria de Deus a memória
De um céu cheinho de nuvens
E Jesus conosco, balão?

Se Deus pudesse com asas
Seria de novo a memória
De velhos antanhos espaços
Dos céus que brilharam em Esparta
Do tempo que é a historia
Seria comigo este tempo
Que é o agora, no chão?

Se Deus pudesse com asas
Saberia o que é a vitoria?
Quereria melhor trajetória?
Em ti, em mim, coração?