terça-feira, 15 de maio de 2012

A natureza amorosa dos irmãos


Obrigado a Ti!


     Gostaria de saber o significado desta passagem do Livro Texto:  “Se o pagamento é equiparado ao ganho, estabelecerás um preço baixo, mas pedirás um alto retorno.” (UCEM, Cap. 9, II - §10).
    Adicionalmente, também preciso saber mais sobre isso: “Não confiarás na orientação do Espírito Santo, nem acreditarás que ela é para ti, a não ser que a ouças em outros.” (UCEM, Cap. 9, II - §6).


               Duas premissas interessantes, que visam ainda a estabelecer certa tendência a buscar uma prerrogativa mais honesta, na busca que estabelece parâmetros verdadeiros. Nunca desistirei de ti, pois não posso desistir de mim mesmo, mas quando temes a teus irmãos, tu estás desistindo de ti mesmo. Assim, o preço que se paga não pode ser equiparado ao ganho.
Digamos que, em um encontro casual com um “desconhecido”, tu estabeleces o que queres dar e o que queres receber. Mesmo que estabeleças o amor como objeto de tal barganha, o custo não será proporcional, pois o que pensas que estás “dando” na verdade pode ser uma negação do doar. A gentileza não tensiona. Portanto, em um encontro em que não há plena alegria, a tensão estará presente, e certamente o “dar” será convertido em “doar”. 
               Para entendermos esta diferenciação, precisamos relembrar que a gentileza não faz barganhas, e que a caridade é diferente do amor, pois a caridade ainda vê diferenças em níveis. Como o próprio Livro Texto ensina, a caridade ainda percebe alguém “maior” ajudando alguém menos consciente. Assim, a acepção da doação aproxima-se da caridade, mas não é o verdadeiro “dar”. “Doar” implica em “ganhar”, mas “dar” não estabelece nenhuma relação, pois o dar é o desapego. Quem recebeu aquilo que já era seu, mesmo que inconsciente, não recebeu nada realmente, apenas esteve em alinhamento com o que já era seu. Da mesma maneira, aquele que doa se relaciona com o objeto da doação em termos caridosos, enquanto o dar realinha com o desapego. Quando há um encontro santo, não há um encontro “caridoso”. Se encontrares a um amigo ou a um desconhecido na rua e de repente acreditas que tens que ser amoroso para com ele, tens aí um pensamento que está na direção correta, mas não é ainda um inteiramente “dar-se”. O Espírito Santo pode utilizar teu empenho em doar amor para que tu entendas que não precisas doar algo a alguém que já o possui. É possível doar coisas, mas o amor, por seu caráter imanente em cada ser, não pode ser doado; pode ser apenas estendido, e seu aumento se dá pelo reconhecimento, não pelo recebimento.
               Assim, é impossível “dar amor”. Como poderias dar água ao mar? No entanto, é possível adicionar água ao mar, e mesmo sendo de água doce, o mar a transmuta em água salgada, assim como rio o faz com a água salgada em doce. Não podes ajudar a Deus a ser “mais Deus”. No entanto, podes fazer com que Ele se alegre e receba tua doação como sendo um reconhecimento de que a água é mar em quaisquer circunstâncias, pois toda água vai dar ao mar. Queremos dizer com isso que água do mar não pode ser coincidida com outra coisa. Não podes fazer uma praia com um balde de água e um pacote de sal. Portanto, o teu amigo é apenas um reconhecimento do amor, não uma doação estabelecida como um bônus.
               Dar não significa que serás destituído. Assim, não haverá estabelecimentos como valores. A serventia em dar é não estabelecer diferenças. Respondendo finalmente à tua pergunta, dizemos que se estabeleces um preço para algo, estás em vias de estabelecer diferenças, e esta diferença será paga por ti, que doas. Se em um encontro não santo queres imaginar um encontro santo, a diferença entre eles será dada pela tua inconsciência do que acontece. Assim, mesmo que acredites que estás vivenciando um encontro santo, a ausência de alegria subjacente em tal encontro demonstra o troco que mal recebes.
               Isso não será assim para sempre. Na medida em que cada irmão desperta, o mundo torna-se um “lugar melhor”. Colocamos a expressão anterior entre aspas por não existir nenhum mundo. No entanto, o instante santo se tornará mais presente e a acepção do “dar” tornar-se-á mais clara para todos. A expressão “mais clara” implica que algo foi reconhecido. Isso significa também que a realização do “dar” já está disponível, apenas não está sendo percebida. Por isso deves ter bom ânimo. A tua linguagem não está disponível para todos, mas o amor que há em ti está disponível para todos. Assim, tu mesmo estás disponível para todos. É por isso que apenas nos teus irmãos podes encontrar o amor. Os “outros” não são outros absolutamente. Os outros demonstram tua impossibilidade em dar ou tua disponibilidade para isso. Eles representam o estado mental a que aderes.


A vida em seus métodos diz: calma.
Aquele que apenas vê o ego em outros, atesta para si mesmo, no panorama representativo de suas relações, a que sistema de pensamento adere. Se acreditar que pode realinhar-se, ou reconhecer em si o amor, verá um retrato gentil do mundo — numa tela inventada, certamente; mas puramente santa, pois reverbera o ser em sua plenitude nas relações. Assim, quando confias em teu irmão, confias também nisto, e permites o relacionamento santo, bem como a vinda do Espírito Santo a ti através dos teus irmãos. Podes ouvir coisas surpreendentes de teus irmãos sobre ti mesmo, se permitires o amor adentrar nas tuas relações. E se estiveres disposto a não julgar nada, a não querer “doar amor”, a não querer “melhorar” o que já é perfeito, a aceitares a imagem que chega de teu irmão a ti com amor, seja em suas formas lustrosas, seja em suas formas mendigas — ambas ilusões — se o vires com amor, o ajudas; e recebes por isso o valor exato em retorno, que é a também ajuda. E ouvirá ao Espírito Santo falar através do teu irmão, literalmente. Tu não precisarás confessar tua vida a ele para provar que ele está sendo o vetor do Espírito Santo para ti. Não é assim que fazes isso! Basta que o ames, e o Espírito Santo em ti fará para ele o Seu trabalho santo. Assim, não há barganha, há reconhecimento de uma igualdade. E nem sempre o que o Espírito Santo te dirá será utilitário, nos termos que o mundo aplica esta palavra. Se buscares apenas informação, não receberás o que queres receber, sequer o que tens para reconhecer, que é apenas amor.
Pode ser que um irmão te diga coisas surpreendentes, mas não é isso que esperas dele. Teu irmão não é um oráculo. O Espírito Santo demonstrará para ti em teus irmãos que tu és apenas amor. O que mais queres saber? Não terias a ajuda de qualquer irmão que percebesse em ti isso? De que precisas a mais? Querer mais que o amor é querer que teu irmão agora “doe” algo para ti, o que é apenas trocar o erro de lugar. O teu irmão também só pode te dar, pois caso contrário, estabelecerias para ele o valor do ganho, e ambos pagariam o alto preço da perda da consciência da natureza real da relação humana, que é amor.
Adicionalmente, a orientação do Espirito Santo é a mesma para todos: dá apenas amor, pois é isso que tu és. Ouvirás em teus irmãos o que permitires ouvir, e será sempre amoroso para ti, se o vires com amor. Informação não é necessariamente amor. Informações são dadas e, como tal, são altamente passíveis de julgamentos. Espera que o Espírito Santo cante o amor para ti, e Ele certamente o fará.
Não temas, filho de Deus, não temas ao teu irmão. Ele não te fará nenhum mal se o quiseres bem. Tu, que queres bem aos teus irmãos em segredo, por que então fazes segredo do que é divulgável? Por que não amar como queres? Se não fores correspondido, e isso certamente ocorrerá, apenas significa que teu irmão não entendeu o teu amor, e está te pedindo ajuda. Negarias ajuda a quem sofre? Pois se deres amor e não receberes amor, é apenas isso que está ocorrendo:  o teu irmão não está permitindo o encontro santo. Mas para chegares até essa conclusão, que pode muito bem ser interpretada insanamente, precisas dar amor irrestritamente, seja para o rei, seja para o mendigo, como o fazes quase sempre em pensamento. Porque, então, não o fazes agora? Porque não amas como gostarias? Não precisa se emocionar com um pensamento apenas óbvio. Melhor seria rir disto. Assim, és mais honesto, e te aproximas do reconhecimento de ti mesmo. Escreves imitando ao Curso, e assim fazes bem o que escondes. Mas porque não alcanças a tua própria mão? Estão aí os teus irmãos para ajudar, se os vires com amor. Eu responderei para ti neles, se permitires. Nada está errado, nada está certo. Acima do certo e do erro estamos em Deus, e Nele o certo e o errado se elidem em perdão. Pai, escuta ao teu filho santo em memória de mim. Ele ama aos seus irmãos e repete para si mesmo que ainda é como Tu o criastes. Ele lembra, Pai, de Ti, e assere seus sentidos em direção à percepção certa. Está determinado a ver, e se compadece de Teus santos filhos no verdadeiro definir do Mesmo, amém.




Ponto de Equilíbrio - Eu




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terça-feira, 1 de maio de 2012

Sobre o pensamento relativista


Arnaldo Antunes (acima);
Foto do letreiro de Arnaldo Chaveiro
no centro da cidade de Várzea Grande-MT (abaixo).
Esses dados compuseram uma significativa sincronicidade para mim.




“É impossível que o Filho de Deus seja simplesmente
conduzido por eventos exteriores a ele. É impossível que os acontecimentos
que vêm a ele não tenham sido sua escolha. Seu poder de decisão é o determinante de toda situação na qual ele parece se achar por acaso ou por acidente.”
(UCEM Cap. 21, II, §3)





Os pensamentos relativos são “informações”? Eles contêm alguma coisa plausível em si?

A “teoria” mais básica do UCEM é que não existe nenhum tipo de ocorrência no mundo que não seja testemunhada por uma percepção, e sendo testemunhada por uma percepção, não pode ser verdadeira. Portanto, as relações simbólicas que realizas entre as imagens e sons que ouves não podem ser tomadas como exemplos de avisos, caso entendas tais avisos como “mensagens que vem de fora”. Não existe tal coisa. Quando há comunicação entre a Filiação, tal fato se dá entre o que é Um, ou através d’Aquele Que comunica pelo Um. Associações não são comunicações, se entendidas literalmente. São desvios simbólicos do significado, e visam abranger uma totalidade através de medidas ou conceitos correlativos.
 Jung falava em sincronicidade. Pois bem, a sincronicidade ocorre quando eventos totalmente não relacionados ganham significado através de uma leitura atemporal de seus conteúdos. Se não fosse assim, o conceito de sincronicidade não se desviaria da apenas coincidência. Quando duas pessoas pensam a mesma coisa, ou intencionam certo objetivo, com uma relação muito próxima no tempo, isto é, quando pensam praticamente juntos em uma ideia, então temos constelada uma coincidência. Isto ocorre unicamente por conta de afinidades, eletivas ou não. No entanto, se duas pessoas pensam na mesma coisa e a “pronunciam” ao mesmo tempo, neste caso ocorre não apenas uma “empatia”, mas uma relação incomum, significativa, que está associada ao fato de a mente certa ser afim à União entre os dois. Assim, quando duas pessoas pensam na mesma coisa, ao mesmo tempo, e repetem oralmente tal coincidência, a tradição popular solicita que se “toque” no verde, uma cor que está associada a feitiços e bruxarias em suas implicações simbólicas, pois o “tocar” no verde garante simbolicamente que a pessoa “lembrou” primeiro que não estava totalmente consciente da união das mentes, e a isto se associa boa sorte.
O fato de veres nas ocorrências dos teus dias relações não diretivas, ou de fazeres associações, está ligada ao teu empenho em entender o mundo esteticamente. Isto é uma prerrogativa daqueles que entendem as mensagens do inconsciente, mas é muito importante saber distinguir as “coincidências” das “sincronicidades”, sob a pena de caíres no reino fantástico que o teu ego certamente criará, de modo invariavelmente assustador. Isso não quer dizer nada, contudo. “A vida em seus métodos diz: calma”.
A consciência é a ferramenta do significado. É através dela que o Espírito Santo busca fazer com que entendas a mensagem do Reino, que é apenas esta: não estás aqui, onde percebes a ti mesmo como um corpo. Este mensagem será repetida por Ele de todas as maneiras que puder, angariando tua consciência para voltar-se nesta direção. Tais eventos, quando se tornam mais intensos, geram medo, pois o ego está tornando-se assustado com as mensagens óbvias que te são enviadas. Ele te diz que aquilo que percebes como sendo amor, é o terror de uma mensagem exterior, que visa te atacar, e que, portanto, precisas imediatamente pensar sobre isso. Assim, ele ganha tempo, enquanto tenta impor novos significados, pois os símbolos são inesgotáveis em significação, até que um destes significados se alie à sua condição miserável, e é justamente a esta infeliz interpretação que escolherás, por agora, pois estás terrivelmente assustado com teu despertar. Amigo querido, amável, tão admirável em teu empenho, digo que estás muito seguro, pois não serás desperto  já estás desperto há muito tempo. A Revelação é um “reconhecimento”. Quando vires algo que te assuste, e este algo for deste mundo, isto é, for algo perceptível, guarde disto apenas a impressão amorosa, pois do contrário estás interpretando em favor de teu ego, e será mais difícil para ti mesmo permitir a expiação, pois é ela que retorna a tua mente à condição de estender o Reino.
É muito claro que interpretas em favor do Reino até mesmo as coisas mais abjetas. Mas não precisas chegar a tanto para entender sobre a natureza inclassificável do perdão. Para tanto, tu contas com milhões, bilhões de irmãos, aparentemente separados, cada qual realizando sua função, embora permitam ou não que o Espírito Santo o faça, pois, pela natureza de Sua Origem, Ele o fez. Assim, cada vez que vês a um irmão, fazendo seja lá o que for, saiba que ele faz aquilo pelo bem do Reino, mas pode estar certamente equivocado na interpretação disto, e assim surgem os erros e a noção infeliz de pecado. Ninguém jamais pecou, sendo filho de Deus; e ninguém jamais pode pecar, pois o pecado não existe. O erro, quando visto, pede por correção e, às vezes, uma pessoa em sua mente errada precisa de algum tipo de contenção temporária, pela própria natureza assustadora dela, e no próprio Livro Texto é dito que pessoas assustadas podem ser cruéis às vezes. Mas isso não se aplica a ti nos termos que te assustam, pois não são as contenções sociais que te atrasam, mas aquelas que tu mesmo aplicastes como “trincheiras” contra o Amor.
Mas não tenhas medo do amor. Nem o confundas com suas formas divulgadas. Muitas das coisas que o mundo chama de “amor” não passa de “medo” disfarçado em belas melodias de palavras ou sinceras declarações temporárias de afeto ou apoios divergidos de propósito. O verdadeiro amor não espera por conveniências para se manifestar. Ele não é oportunista. Ele apenas é. E isso é sempre sentido como amável e acolhedor, e não suporta, isto é, não comporta dúvidas.
Ademais, Arnaldo Antunes é um excelente artista, mas mesmo suas obras não estão blindadas contra interpretações amedrontadoras, se forem ouvidas/lidas sem amor. Nele, encontrastes uma das “dez mil formas” de tua linguagem. Quanto ao resto, saiba que a inocência não pode ser judiada, e ela não será adquirida pelo tempo, em uma idade específica ou em uma cena ou comportamento específico. A inocência está unicamente associada ao perdão; e por ser totalmente pura, é criativa. Os adultos são criativos e não deixam de sê-lo pelo fato de o tempo passar, pois subjacente ao tempo, e “por fora” dele, numa dimensão que não é deste mundo, a criatividade é uma fruta madura, disponível em caráter de sempre, distante de ti apenas pelo intervalo de um espirro.
(“EUCRIDES”, FALA PRA MÃE: QUE NUNCA LI NUM LIVRO QUE UM ESPIRRO FOSSE UM VíRUS SEM CURA!)
               Bem lembrado.
               (E onde fica o conceito de idolatria neste contexto?)
            Como dito acima, não há idolatria se interpretas as imagens como sendo inexistentes, ou seja, como sendo apenas símbolos. Mesmo as pessoas, em termos muito extremados, são símbolos de seus egos, ou símbolos da separação. No entanto, por estarem vivas, e habitarem em si o Espirito Santo de Deus, são passíveis de Amor e capazes de transmiti-Lo. Idolatrar uma pessoa é não saber o que essa pessoa é. Mas o amor elide a idolatria em respeito, e abrange apenas o amor, por deixar nosso tolo conceito dos outros de lado, e assim apenas apreciar as criações da filiação, que podem ou não ser divulgadas amplamente. No entanto, isso não deve ser colocado em uma escala de valor. Mesmo o que é divulgado pode ser mal interpretado e vice-versa. Certo, mesmo, só Deus, e Ele é teu único Objetivo, por ser o Único Que Há. Esteja sempre em sintonia com o Espírito Santo, aberto à sua interpretação correta de tuas percepções equivocadas. Quando a verdade não te parecer gentil, isto se dá porque estás com medo, e o medo apenas evoca o ataque.
               Pai, pedimos a Ti que nos faça entender que somos apenas um. Que a Filiação e o Reino são totalmente unificados, e que possamos perceber a natureza una da filiação ao vermos Cristo em nosso irmão. Pai, pedimos para que possamos ver, pois estamos determinados a ver, amém.

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terça-feira, 24 de abril de 2012

Desfazer o acusador

Todo mundo quer amor
           


"O papel do acusador aparecerá 
em muitos lugares e sob muitas formas. 
E cada uma parecerá estar acusando a ti. 
Entretanto, não tenhas medo de que ele não seja desfeito."
(UCEM, Cap. 31. V, §16)






           O que significa ver o “acusador” em todas as formas?

Ver o acusador significa que em algum momento escolhestes ver a função de tua mente fora de ti. Assim, o que parecia te iludir gerenciando amor em ilusões de grandeza, e parecia te mostrar um mundo inofensivo, agora não tem mais que esconder-se atrás do manto da inocência, que é apenas uma fraude consistida, como bem dizes, ou ingenuidade. O acusador não existe em si. Ele é a tua mente errada apontando para ti seu dedo de fogo, exprimido em auto ódio e em laivos direcionados de autocomiseração. Enquanto escondias de ti mesmo esse fato, parecia que eras inocente em um mundo odioso, que apenas aparentava esconder de ti o amor que tinhas por ele, e que no final das contas era o lugar dos pobres diabos que nele caminhavam sem saber da glória que era ser tão “santo”. Agora, quando vistes que o ego nada tem de santidade, o mundo passa a ser o projeto de sua afirmação, e tudo o que ele apontava para si, como fosse fogo em ti, passa a ser o mundo de Nero, seu imenso caos ordenado em misérias para as quais o ego introduz seu pensar errático evocando um mundo terrível.
Ver o acusador significa que ao menos tivestes a nesga de lucidez em ver “fora de ti” aquilo que era teu próprio caos interno. As projeções tornaram-se intensas, e agora o dedo de fogo parece real, e te aponta em cada caminho uma forma diferente de medo e de afastamento, e é isso o que o teu ego busca, através de teu isolamento. No entanto, é dito que não deves temer, que certamente isso será desfeito para ti, e certamente o será, desde que estejas disposto a ajudar. Ajudar significa apenas estares disponível ao Espírito Santo, para que Ele possa trazer para ti a Expiação, que é teu direito e tua única possibilidade de cura. Novos caminhos te iludem a todo o momento, te solicitando empenho em teu sonho insano. Veja bem: o que parece ser a acusação do mundo? Parece que és vítima de uma série de enganos e azares que te foram ocasionados aleatoriamente, sem ordenação, e a isso chamas “vida”, ou a “tua historia”.  Diremos no UCEM que isso é o sonho mau que te destes, mas agora esse sonho se revela mau de maneira diferente, um pouco mais lúcido, pelo menos; mas isso quer dizer apenas que, embora ainda haja no sonho a figura do acusador, ele se tornou levemente menos insano, conforme explicaremos.
Poderias conjecturar, com razão, que ver a “face do acusador” em todos os lugares não pode significar que algo melhorou. Mas insisto em te dizer que agora podes ver a tal “face” projetada, e não vês mais a toleima de inocência que era o teu recusar em crer-se violentamente sádico, sendo que a mais bela inocência era apenas julgamento, e o que se via em tua vida era a devastação masoquista, em um jogo tão desesperado que quase não sobraria nada para prover de novo o teu esteio, não fosse tua piedade genuína em buscar ajuda. Não vieste para apanhar e bater, para a luta diária que sonhaste em miséria, mas para apenas amar e amar, e a soma de amar e amar é viver verdadeiramente, amor com amor não ilude, não engana, não imita, amor com amor deixa viver.
Se tens teu talento? Isso é uma pergunta que somente pode ser feita por um que não vê a palmo de seu nariz. No entanto, em teu estado atual, precisas escrever para ti mesmo como se fosses pobre coitado agora, sendo o mundo então muito mal, muito difícil de se viver, e são imperativas grandes mudanças para o ajuste pela “novidade”. Talvez uma “novidade” traga garantias de mudança, afinal de contas o novo possui este caráter: ele transmuta, renova, reacende chamas e revigora as tentativas. No entanto, o novo de hoje é o velho de amanhã, e o caráter de desapontamento que o tal novo traz consigo é o de olhar para trás e acreditar que bom mesmo era a vida de antes etc. Assim, o novo e o velho são extremos que se aliam em busca de “esticar” o tempo para frente e para trás, em uma dialética infinita, de síntese improvável, pois o que o futuro imaginado mostra não é um projeto, e sim uma fantasia.
Portanto, muita coisa há que se fazer para poder “mudar” o futuro para “melhor”. Mas todas elas se resumem na Expiação. Expiar é meramente não querer mudar nada, e deixar que a face do acusador se transforme lentamente na face do amor, que é o indício mais claro que a cura está se aproximando. A beleza que tu procuras em teus atos ingênuos está guardada para ti aonde ainda nem sequer pensaste em buscar. As tais “armadilhas” do ego são trilhas que pretendes enveredar para novas experiências em termos de trabalho, relacionamentos, caminhos, diversões etc. São meios para que tenhas sucesso ou para que obtenhas satisfação. São vários nadas abstraídos de tua mente, que não podem satisfazer, pois não deixaram sua fonte, que é o ego. Sendo assim, o sonho egótico apenas traz consigo vislumbres de futuras reparações. Ele te diz que tudo agora dói, mas se fizeres isto ou aquilo tudo vai mudar. Seu arquétipo nesta manifestação é o do titereiro, e tu és para ele a marionete. Assim, ele traz para ti o seu “mundo” amarrando-te em seus cordões de aço, arrastando tua mão direita para cima e teu pé esquerdo para trás, fornecendo muitas vezes uma aparência cômica ao teu estar-no-mundo. No entanto, anjos pairam ao teu lado, e piram a teu favor, pois falam em tua linguagem, e são apenas o que tu vês como sendo a “loucura certa” do mundo. Apenas nisso teu senso estético está bem preservado. O caos do mundo é uma obra de arte em elaboração. Para ti, muito de Basquiat parece linguagem. Muito de Miró são expectativas justas. Muito de Magritte ainda certamente virá.
(Isso não deve ser interpretado).

Todo mundo quer amor
Portanto, ver a face do acusador significa realmente um avanço. Ao menos estás experimentando o papel de “vítima” com consciência, e apenas assim poderás perdoar. A Expiação serve bem a este propósito. Expiar significa que a “face do acusador” será desfeita a teu favor. Anjos estão aí para te demonstrar que não estás sozinho. E quando o mal parecer invadir tua “realidade” lembra que estás blindado, literalmente. Nenhum mal pode atingir o Filho de Deus, pois não há crueldade nem Nele nem em Ti. Assim, o que é então a crueldade que vês no mundo em termos definitivos? O mal que vês no mundo é tua projeção de tua auto acusação e teu auto ódio. És uma criança de Deus tão amável que teus problemas não parecem sequer tomar forma de problemas para a ilusão a que se chama “sociedade”. Teu sonho ainda é tão gentil em tua vida verdadeira que não se pode sequer dizer que és um malfeitor, embora para ti mesmo não pareça assim. Para ti, melhor seria te chamares “sádico” ou “masoquista”, em termos extremados ilustrativos. Pois aquilo que imitas e guardas, tu transformas em maneira de te deludir. No entanto, como um mago incrível, um que consegue incrivelmente manipular estas coisas que são as imagens, ou a percepção, a que chamas “formas”, tu vês aqui em um belíssimo jogo estético que transforma o que tocas em ouro puro; mas em forma de Midas, sem aproveitamento quase nenhum. Daí pedimos para ti a verdadeira comiseração, que é permitir que a Expiação te mostre o caminho da alegria, pois tu és um que consegue ver alegria demais aqui, ainda nesse estado em que estás, o que é um feito realmente incrível. Quando puderes ver a alegria que há em ti brotar como água que segue curso acima, curso abaixo, alargando margens até ao mar, continentes, serás o doador universal, assim como o sangue tipo “o” negativo vem para dizer o que é apenas doar, sendo negativo pelo que é de amável, sendo que é apenas o que é, pois o sangue “negativo” não é sangue ruim, pois sendo tipo “o”, é para todos. O artista verdadeiro é como o sangue “negativo”. Ele não tem fator que responda ao que lhe é de direito, mas pela própria natureza de sua constituição é adequado a todo o tipo de transplante. Tipo “o” são os grandes artistas. E os grandes artistas não temem sua “negatividade”.
No entanto, ser um “grande artista” não significa que o mundo virá aos teus pés, ou que agora sabes bem qual é tua função aqui etc. Cuidado com essas palavras, pois no estado em que te encontras quase não sabes o que fazer, e não deves empreender coisa alguma sem perguntar ao Espírito Santo como fazer para alcançar a Expiação. Após esse período em que ver ao acusador significa entender sobre as projeções, a tua própria consciência será capaz de perceber os caminhos, e dificilmente conseguirás obliterar tuas escolhas certas. O sonho de sucesso, status etc, nada tem a ver com o “grande artista”. A palavra “grande” aqui é até mesmo inadequada, pois ela promove excelentes meios de julgar. Melhor seria a palavra feliz. És um feliz artista, da arte melhor, que vem de Deus. E quererias algo maior que Seu Aplauso?
No entanto, como dissemos, o que é teu está em seu lugar. Não há sonhos que digam o que és. Deixa o tempo fluir seus espantos enquanto solicita de ti mesmo o empenho em ver. Por enquanto, basta isso: disponibilidade em aceitar a expiação para ti mesmo. Essa é a única responsabilidade de um professor de Deus. Paciência, pois és jovem em termos do mundo, e és jovem também em tua maneira de pensar. Amadurecer significar tornar-se pronto, mas lembra que a prontidão é do espírito, que é perfeito. Portanto, és perfeito como és, pois tu és espírito.
Pedimos, ó Pai, que o teu filho possa novamente ver. Aqui dizemos que nosso empenho é devotado, e não teremos mais vingança em nossas mentes para desdizer de Teu Propósito. Para todos os nossos irmãos guardamos Vossa gentileza, e queremos compartilhar em nossos corações e mentes o que Tu queres que seja doado aos Teus Filhos. Teu Filho é Santo, meu Deus, assim como são santos os Seus Irmãos. Ajuda-lhe a ver, meu Pai, pela glória de Teu Nome, amém. 



Todo mundo quer amor. 
Titãs, na voz de Arnaldo Antunes



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domingo, 19 de fevereiro de 2012

Sobre a neutralidade

Obrigado a Ti!



                1.
                Uma coisa não pode ser neutra, pois possui em si possibilidades. Quando dizemos “possibilidades”, queremos dizer “capacidade para algo”. Assim, se entendermos como conceito de “coisa” qualquer elemento passível de ser nomeado, diremos que a neutralidade é impossível, pois até mesmo o nome de uma coisa já lhe confere atributo. Ora, se podemos dizer sobre “aquela coisa” que ela se chama “isto”, como poderia esta mesma coisa ser neutra? O mesmo pode ser dito sobre as ideias.
                No entanto, não falamos aqui sobre o “valor” de algo. Isto já é outra discussão. Se dermos a alguma coisa um “valor”, esta coisa precisa ser comparada a outra, ou posta em uma escala. Esta escala, ou grau de comparação, necessariamente precisaria estar graduada em valores máximos e mínimos, ou em valores opostos, como “bonito/feio, agradável/tedioso, alegre/infeliz etc.” Logicamente, e pela mesma razão, não é possível neutralidade através de julgamentos.
                Se ainda aqui há dúvidas, lembra-te destas palavras de Cristo: “Essa é a nota mestra da salvação: o que vejo reflete um processo em minha mente, que se inicia com a minha idéia do que quero.” E assim encerramos a discussão com este axioma: a “vida”, e tudo o mais que se vê no mundo, é uma projeção, e não pode ser neutra, pois foi apenas posta aí fora por ti, e é o resultado de um processo equivocado de pensamento. Damos aqui Graças a Deus, pois um equívoco pode ser corrigido, e mesmo aquilo que não é neutro pode ser totalmente inofensivo.
                Lembremos, no entanto, que o fato de algo não ser neutro não lhe confere realidade, conforme estudamos. Uma xícara não existe no Reino, mas seu atributo de “conter” reflete uma ideia, que aqui pode ser o atributo de xícaras, potes, copos, buracos ou recipientes de qualquer espécie. A mesma noção pode ainda ser estendida ao útero, à noção religiosa da Grande Mãe, a qualquer meio de transporte, ou ao estado de transição que se dá entre uma aparente coincidência e a atestação de um fato, que revela motivos que contém plausibilidade, ou ainda eventos relacionados a qualquer tipo de transição em geral, que traduz em si um atributo, permanente ou não, de conter “mensagens”, como nas premonições ou em certos tipos de sonhos. Portanto, a noção de “conter”, existindo como ideia, será atribuída a um sem-número de objetos no mundo físico, ou através do simbolismo de tais ideias. No caso da xícara, ela pode conter café ou chá. Se continuarmos este tipo de raciocínio com apenas estes três elementos, encheremos linhas e mais linhas de especulação simbólica.
                Não é possível esgotar um símbolo. Nem o valor de algo pode ser universal. O dinheiro que vale em um país tem valor diferente em outro, e pode não ser sequer aceito em um terceiro. Não existem coisas neutras, ou coisas sem valor. Existem apenas as coisas, seus nomes e atributos, e algum uso.

                2.
                Convém lembrar que o “desapego” procura elidir o valor das coisas ao desvincular o objeto ao desejo. Este processo nada tem a ver com neutralidade. Apenas um insano desapegaria do uso sadio das coisas enquanto estiver neste mundo em um corpo, ou — já que estamos indo tão profundamente na metafísica — como imagem. É correto lembrar que o amor é a unidade de medida da sanidade. Quando amas verdadeiramente a um irmão, lembra-te de Deus. A noção de unidade se refaz em qualquer pensamento amoroso que tiveres, mesmo em relação aos ambientes. Já foi dito em outro lugar neste blog das sábias palavras de Chico Science: “deixar que os fatos sejam fatos naturalmente/ sem que sejam forjados para acontecer/ deixar que as coisas que lhe circundem estejam sempre inertes/como móveis inofensivos/para nunca lhe causar danos/sejam eles morais, físicos, ou psicológicos.” E eis aqui tudo demonstrado. Deixar os fatos “serem” é liberdade. O vento que beija teu rosto na praia, ou a criança que te dá abraços no jardim jamais serão neutros, mas são amorosos. Assim, o desapego é uma noção de relevância. O que é relevante para ti, neste mundo insano? Nada? Então continues a estender neste mundo o amor. Se “o que vejo reflete um processo em minha mente”, nada pode ser neutro, mas tudo pode ser apenas o estender do amor de Deus aqui neste mundo. Portanto, pense apenas com amor.
               
3.
                E agora perguntamos: existe alguma coisa neutra? Ora, para que algo seja neutro, este algo não pode ser representado por nenhum tipo de ideia. A palavra portuguesa “neutro” vem do latim ne [nem]+uter, utra, utrum [um ou outro]. Ou seja, neutro seria “nem um, nem outro”. Este homem é feliz? Nem uma coisa, nem outra. Este carro é novo? Nem uma coisa, nem outra. Agora, diga: das coisas que experimentas em tua percepção diária, para quais podes dizer: “nem um, nem outro?”, a menos que seja um erro?
Há uma maneira de isso ser assim: devote indiferença àquilo que não existe, isto é, a tudo o que vês no mundo da percepção. No entanto, guarda para ti os pensamentos de amor, pois a pouco já ficaste com raiva também. Assim, eis o mundo retornado pacífico À Tua Santa Mente. E pedimos a Nosso Pai que venha até nós, para nos transportar pela “brecha”, esta “estreita fenda” que nos separa do Reino, e pedimos que seja para logo a compreensão empírica disto. Amém. 



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