sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Sobre a memória presente

           

Gostaria de entender melhor o contexto do início do capítulo 29, quando trata da “memória presente”.


                A memória presente é uma referência à lembrança do que é agora. O Texto diz que “estás há tanto tempo a acreditar que a memória guarda apenas o que é passado, que é difícil para ti compreender que ela é uma habilidade capaz de lembrar o agora”. O passado guardado na memória é uma evocação. Não há nenhum passado, mas a memória pode ser ensinada a evocar. Nisto, o sentido de evocar, que é “manda chamar alguém” mostra que o entendimento do ego acerca do uso da memória busca sempre refazer a si mesmo pela reprodução. A evocação do passado reproduzido visa modelar o presente como uma reprodução do passado. Assim, um erro ou a culpa passada são reproduzidos no presente como causa, e o medo do presente é justificado. A memória utilizada desta forma é uma perversão de sua verdadeira propriedade.

                 Dissemos “perversão”, pois verter em perjúrio é trazer algo que não mais existe para perto de ti, com a função de renovar o erro. A memória utilizada pelo ego traz o passado, que não mais existe, para o aqui, e plastifica o agora com uma (ou várias) camadas deste passado. Vejamos agora como isto se dá: se o passado é a causa do presente, então se torna impossível qualquer mudança. A causa do presente está lá atrás, na beira de um continente esquecido, e não podes voltar lá para mudar coisa alguma. Se a causa do presente é um evento passado, que não existe mais, então a mudança no presente é impossível, pois sua causa se foi e é impossível voltar para restaurar. A condenação é certa e o pecado é real, pois como poderás consertar aquele erro do passado, para mudar o agora? Não há mais como voltar no tempo e o que se foi já era.  Veja como esse erro é sobrevalorizado pelas pessoas. Quantos não exercitam a mente em ideias deste tipo: “se eu pudesse mudar isso ou aquilo que fiz...”, “se eu não tivesse dito aquilo...”, “eu poderia ter usado melhor meu tempo...” etc. No absurdo da fantasia, alguns gostariam de voltar no tempo para corrigirem seus pecados irrecuperáveis. Em meio ao que não veem, creem que estão condenados, pois aquilo que lhes foi imputado na infância ou no dia anterior determina a miséria em que vivem. Esta é a plástica da memória ajeitando o nariz do presente.

                O rosto mesmo não se vê. A culpa é sustentada pela memória do pecado. A reiteração do pecado, a sobrevalorização disto, é uma doença, mas tem cura. Algumas teorias psicanalíticas orientam-se baseadas na busca por um pressuposto recalcado que ativou uma neurose atual. Por outra: acredita-se que ao encontrar no passado a causa de determinado efeito negativo no presente há uma possibilidade de trabalhar com essa causa no presente. Isso está certo apenas em parte. Vamos utilizar uma imagem para exemplificar o absurdo desta abordagem. Digamos que você está dirigindo um carro e de repente percebe alguma coisa estranha na dirigibilidade do veículo. Você anda por alguns metros com o carro cambaleante, mas resolve parar. Daí verifica que o pneu furou. A abordagem que busca a causa no passado acredita que o melhor a se fazer nesse caso é descer do carro, caminhar para trás e sair a procurar o prego. Uma abordagem realista não se importa com o prego, pois o problema real é o pneu furado, a causa do problema não é o prego, e sim o carro parado, pois esse é o real problema. Então, troca-se momentaneamente o pneu furado pela ajuda do estepe até chegar à borracharia. Se o borracheiro achar o prego enfiado no pneu, ele tampouco vai ficar idolatrando o prego e deixar o pneu com furo. Pode ser que ele faça um ou dois comentários sobre o prego e o descuido nas ruas, ou sobre como tal prego causou o estrago, etc, mas o conserto do pneu independe totalmente do prego. Para se consertar um pneu, jogue o prego fora.  Limpe o local do furo, aplique cola, adesivo; e se o buraco for grande, faz-se vulcanização, cauteriza-se o buraco, tudo acontecendo na borracharia, mesmo que, depois de pronto, retoma-se o caminho. A não ser que o motorista queira valorizar o seu azar e contar para todos a historia do prego. Muito mais interessante seria atentar para o trabalho do borracheiro: — Rapaz! Sabe como é que um borracheiro conserta um pneu? Etc.

                Não quero refutar nenhum trabalho decente baseado em abordagens do passado, pois não conheço tudo. Pode ser que alguém consiga andar durantes muitos dias com um prego enfiado no pneu do carro sem causar nenhum vazamento. Eu já vi isso acontecer uma vez. Mas o melhor mesmo é saber que o passado não será jamais a causa de um “problema” no presente, pois, se isso fosse possível, o pecado seria real, pois o que caracteriza o pecado como real é a impossibilidade de correção, ou a condenação. Acaso o erro possa ser corrigido, então o pecado não pode ser real. O Espírito Santo pode corrigir todas as coisas para ti. No instante santo, onde não há nenhum passado, tudo pode ser corrigido. Agora, se acreditas mesmo que o passado tem valor de justiça, então não há mais solução e a única coisa a se fazer é velar o prego.

                Vamos mais seriamente agora, no contexto do currículo: o passado não existe mais e o futuro não existe ainda. Tampouco o presente existe em imagens. As imagens do presente são o símbolo de tua situação mental. Se elas — as imagens do presente — não te oferecem nenhum risco imediato, isto é, não há nenhuma imagem te ameaçando em forma faca, e é um lindo dia de verão etc, mas mesmo assim te sentes oprimido por um senso indigno de valor ou um medo oculto de estar aqui, na verdade tal dia está “plastificado” com a memória de um passado que condenou tua vivência. Não podes aproveitar os símbolos do teu presente assim. Muitas vezes, vemos uma pessoa que é muito agradável e boa, que perto dela sempre se sente bem, que traz pra gente muitas coisas valiosas esquecidas, mas que ela mesma não aproveita disso, pois o investimento no passado a cegou. Olha: nada aconteceu, tá bom. Vamos entender isso direitinho.

                Não devemos perder de vista que estamos a fazer um curso em Milagres. Não escrevi aqui o título do Curso, não pus as iniciais em maiúsculas. Disse que estamos a fazer um curso, e este Curso é em Milagres. Não devemos perder de vista isso. O milagre do prego é o ferro que o constitui. Reciclado, dissolvido, pode ser útil para muita coisa. O milagre restaura a vida. Pedimos o milagre para abandonar o julgamento. Quanto menor for o número de camadas a te impedir de ver o amor presente, tanto maior será a sensação de paz que o mundo pode prover mesmo em ilusão de existir. O mundo pode ser um lugar amável. O Papai Noel não existe e é ilusão de Natal, bem como não há ovos de Páscoa, mas vais tu a tiranizar as crianças e sair a dizer: leia aqui, garotinho, neste curso, que explica que tudo é uma ilusão... Isso seria um terrível aclamar! Depois, no tempo, elas mesmas aprenderão que não é assim. Por isso, o mundo — ilusão — pode ser vivido feliz, mas não tem valor. Não foi dito a ti que deverias sofrer no corpo para atestares que o mundo não existe. Não existir não quer dizer que se está morto. A vida vem até mesmo aqui. Por isso, os milagres podem vir aqui e restaurar. O tempo, essa ilusão em sequencia, não vai durar. Teus símbolos de amor não estão amarrados uns aos outros para frente e para trás. Eles estão todos aqui, agora. Buscar imergir-te no instante santo mais frequentemente e disponibilizar-te ... e verás. “O milagre vem em quietude à mente que para um instante e fica quieta”.

                Pois bem: o amor não deve nada ao passado. Uma causa real tem que ter efeitos reais. O que é verdadeiro não pode ser falso. O passado é falso, pois não existe mais. A causa da verdade não pode estar no que é falso. Portanto, a causa da verdade não pode estar no passado. Se quiseres utilizar a memória para vasculhar o passado, estás em busca do falso. Tal busca não terá efeitos reais, serão apenas camadas que esconderão de ti o amor. Pensa que poderias ter nascido agora mesmo. Não queres nascer agora mesmo? Apenas se a memória for evocada podes lembrar de ti a dois segundos atrás. O vento sopra sem saber de seu passado. Palavras de Jesus Cristo: “o vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito"(João 3:8). Não queiras ser o dono de tua história. Tua história é um mito, e é tão falsa quanto o mundo. Pensas que se abandonares a memória perderás a condição de cuidar dos teus, de trabalhar etc. Esses apegos. Mas seria o amor algo irresponsável? Seria a responsabilidade uma irresponsabilidade? A verdade é verdadeira e nada mais é verdadeiro. A história de André Sena é uma fantasia. Quem André Sena? Quem, os planos dele?

                Durante a leitura do Curso, depara-se por oito vezes com a palavra “soltar”. Quatro no Livro Texto ( T-11, VIII, 13:2), (T-16, VI, 7:5), (T-16, VII, 1:1) e ( T-29, V, 5:6) e quatro no Livro de Exercícios (Lições 68, 73, 79 e 102). As lições e contextos nos quais a palavra “soltar” aparece estão sempre ligadas às mágoas. O passado é uma mágoa do presente, é um “relutar”. O instante santo te ajuda a soltar. Não precisas comemorar aqui, não tens que fazer promessas. Nascer de novo é não relutar mais contra o instante santo, a real acepção do agora. Nele, podes ser desvanecido, a meta do curso. Assim, Deus pode dar o passo final e seres salvo. Que importa quem eras antes? E será que não poderás ajudar tantos aqui e trazer amor para todos? Todos! A salvação não é uma construção mental. Soltar é deixar ir o que não é verdadeiro. O passado e o futuro não são verdadeiros. Se olhas apenas para isto, vês apenas o pecado — demônios soltos pelo ar. Tudo estará certo ou errado, entende? Serás o juiz do mundo. Todo ego é juiz do mundo. Não há apelação, não há veredicto. Apenas um eterno e triste tribunal de portas cerradas, punindo, punindo, punindo...

                Não queres isso, pois isso não existe. Solta teu “direito” em analisar, pesar, julgar. Não sabes nada. Quando não sabes nada, tudo é leve. Passarinhos cantam sem partitura. Amém, amado, pelos teus. Não te esqueças de que compraste uma moeda sem valor na feira de antiguidades. Ela não tem mais valor, nem será substituída no futuro. O passado é sem futuro, e respeite o trocadilho! Nisto, é certo. A memória presente é o instante santo, aqui, sem passado, sem futuro, sem medo daquilo que foi feito para ti na verdade. Quisestes substituir teu canto por uma partitura composta por um músico ruim. Agora, chega! Nem todos podem ouvir assim, mas aqueles que podem, entendem. Quem não entende, o Espírito Santo resolve. Acalma-te com o mundo. Vê-se claramente que teu amor não pode mais ser represado. Bom dia! E preserva-te amando.

                 Ainda precisamos entender que para "soltar" é preciso abandonar os relacionamentos especiais. Retomaremos isso. Hoje, despedi-mo-nos com música e essa síntese perfeita do mestre Mooji:

                "É completamente natural para a mente e a atenção permanecerem no Vazio. Em certo momento se torna sem esforço. Mas o nosso condicionamento diz: “Ah, mas eu não sei se isso é bom”, “Manter a minha mente tem algumas vantagens…” Então há alguma confusão, algum medo, porque você está colocando ela no fogo do autoconhecimento, da autorrealização – e esse fogo não vai lhe queimar, ele só vai queimar o que você não é. Mas a mente está dizendo: “Não, eu quero salvar algumas coisas, posso manter isso?”. Mas estar nesse fogo é um estado em que você não está negociando.”

Obrigado por lerem até aqui. São bem vindos aqui. Te amo.



Criolo - O Tempo Todo

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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Sobre disponibilizar-te



Pergunta: Quem és tu, que eu não vejo?

O que “ver”? Como assim “ver”? Será que ainda não entendes que a percepção é uma foice? Se pensas na morte, somente em imagens podes morrer. Não está claro a esta altura? Já deveria estar, ora! A experiência em “saber” é um atraso medonho, busca ancorar. Ficar parado no mesmo lugar não é o mesmo que esperar. “Serena expectativa” não é parar. “Para aí, espera por mim!” Tal é o pedido de ajuda que queres que eu te forneça? Não vou pedir para parar nem vou seguir. Isto é segurança de propósito. Sei onde vou chegar, por isso não vou a lugar algum. A revelação da tua natureza não pode ser partida em duas. Como queres saber Quem Sou? Duas coisas não estão divididas se são a mesma. Parece que te sou diferente por que a volição ainda é para ti um valor. Tens, afinal de contas, planos. Queres chegar a algum lugar. Somente por conta deste equívoco, eu vou contigo; e sou apenas Teu Amigo. Mas não sou o teu amigo em par, embora não estejas sozinho. Não há lugares, não há um “tu” a quem se reportar. Nenhum corpo é um “tu” a quem se reportar. Uma gota d’água, duas gotas d’água, três gotas d’água até virar mar é gostar de conversar com os irmãos. Ouve-os e fala-te. Me verás também neles.

Mas se esperas de mim um sinal em teu irmão, que tal amor, ahn? Que tal bom dia? Que tal obrigado? Que tal menos cerimônia? Não digo em “educar”, não falo assim. Nada está perdido se estás apenas dormindo, não é? Mas o tempo é desperdício. Qualquer tempo, mesmo o melhor tempo aproveitado, dormindo, é relógio de sonho, ponteiro que desafia as horas e não dá a conta do viver. Decerto que não há problema, mas parece muito problemático em tua atual experiência, não é verdade? Crês realmente que é tudo um sonho? Se cresses, não estarias mais aqui, ora! Escolherias certo. Mas podes escolher outra vez. Ah, se podes! E vamos juntos, eu e eu, em ti, vamos lembrar o que não tem nome nem pode ancorar nada, pois o vento é contrário e a noite é alta.

Tá com medo? Claro que está! Não lembra o que faz, então tem medo de criar, e apenas faz. Agora temos certeza nenhuma, mas sabemos quem é João Batista, Aquele Que prepara o caminho. Aprendemos com Mooji, santo seja, sagrado irmão. Agradeço, sempre agradeço. Recomendo. Vamos tentar de novo, André.
Mas não penses que o nome refaz o homem, André. O nome não é sequer o símbolo do homem, rapaz. Advirto: se temes o amor, temes o amor feito e temes o amor que pensas. Temerás então o instante santo, pois terás pudor em parar um pouco para “fazer amor”, no sentido mesmo de um amor que é fabricado. Ora, vamos! Não digas que não entendes! Trato como criança, mas chega a hora em que mesmo a criança precisa fornecer seu debulho no trabalho. Tripalium??? Deveras, mas não subestime a capacidade de uma imagem deste mundo poder simbolizar o certo. Nada é real, confirmo. Mas nem sempre o que ancora desapropria. Vês o barco à deriva? Pois o Curso em Milagres, neste mundo, não é um Livro, não é objeto de papel? As ideias é que não contam nisto. Por isso peço que o trabalho em debulhar venha desvelar o que não está pronto em “verdades certas”. Anzol não ancora barco, André.

Venho. Se pedires para eu vir, venho. Se queres que eu desça a lenha, a gente faz fogueira, ora. Não é bom? Fogueira com os amigos e dia de São João? Sei que gostas do folguedo e dizem até que santo André carregava sempre consigo uma viola de cinco cordas. Não está na Bíblia, mas eu bem me lembro. Ora, se! E fazemos imagens em sonhos para sonhar o despertar. Também se diz em não dizer, entende? Se não entende, não pode entender ainda, e talvez seja cedo. A festa mesmo é mais tarde, apenas daqui a pouco. No enquanto, pode ser viola, poesia, vinho bom e folguedo. Não está errado isto, pelo certo. E o certo eu proponho. Vamos então ao trabalho diurno, enquanto insistes na sesta:

O almejado não pode ser alcançado. Parece que almejar ajuda, mas não é assim. Tal qual a verdade, que não precisa de ajuda para ser verdadeira, aquilo que é certo não precisa ser almejado. Não almejas uma herança que é tua. Podes acreditar que alguém precisa morrer para restar herança. Certo é — precisas mesmo nascer de novo.

Por isso, verifica agora sem medo o que tens a oferecer ao mundo. Não é verdade que tens saudades de teus irmãos? Não é verdade que gostarias de rir com eles? Então, o temor da amizade, o temor do amor em teus irmãos é uma tortura que visa impedir.  Não deixar fluir é represar a água, mas não podes sozinho fazer uma represa desse tamanho e não sentir a pressão da correnteza a bater e solicitar vazão para irrigar a vida ciliar. Do outro lado, fica enchente; e as grossas barreiras de troncos em formato parede rangendo, pulsando, espargindo água, quebrando-se em lascas, não demora o dilúvio a vir! No entanto, estamos ensinando a liberar o córrego. Devagar, que, senão, tirando o tronco errado, é enxurrada e machucado. Isso não precisa ser assim, já falei!

Não tire conclusões aqui. Voltemos ao instante santo. O paradigma do instante santo é não prever o que vai acontecer mesmo sabendo que será feliz. É isso. A entrega ao desconhecido somente pode ser realizada se tiveres certeza de que esse desconhecido é bom. Eu te garanto que é bom. O instante santo é sempre bom, mas não pode ser “planejado”. Ah, se acaso disseres: “agora eu vou ter um instante santo”. Cadê o instante santo? Se queres, não tens...já disse no começo do texto. Mas o instante santo pode ser “disponibilizado”. Repete comigo: disponibilizado. Sem medo agora: dis-po-ni-bi-li-ZA-do. Dispor sem planejar, eis que, deste modo, o instante santo chega fácil, facílimo, como água de batismo. Não precisa dizer o que é o instante santo, nem deseje jamais o instante santo. Nem esperes que ele venha. Apenas pare sem pedir para parar, acalma-te sem pedir para ter calma, sossega mesmo no olho do furacão — e ele é. Santo, como o instante ao qual não se pediu guarida, mas a guarida veio. Certo, como o instante santo ao qual o medo não precisa vir, pois se chegar, já era.

“Qual a diferença entre o instante santo e a noção de “agora”?”

Tal como Eckhart Tolle trata a noção de “agora”, praticamente nenhuma. Mas as noções de “agora” e “instante” ainda trazem em si um pressuposto temporal. É por isso que assumimos o adjetivo “santo” ao instante, pois ele não é um instante como uma “fatia do tempo”, mas um instante que não tem relação alguma com o tempo. O agora parece fugaz, pois se pode dizer, como na música de Arnaldo Antunes, que “agora é outro agora”. Pode-se dizer também o mesmo em relação ao “instante”. Por isso se diz que o instante santo é um instante—santo. Santificado, ele não pode ser tocado pelo temporal, pois ele está em segurança na eternidade, e somente é chamado de instante porque a linguagem não tem nome para a experiência atemporal. “Epifania” não alcança descrevê-lo, pois o instante santo não contém informação. Se contiver, não é uma revelação de causa, pois o instante santo é um efeito do que tu És. Nada é revelado no instante santo, mas nele estão todas as respostas que quiseres.

Portanto, admita mais o instante santo em tua vida. Maior frequência e, principalmente, maior disponibilidade. Já desististe deste mundo há muito tempo! Nada há nele a se perdoar. Ele nem existe, para quê gastar imagens? Olha, vamos vir, vamos embora, e fiquemos, sabendo que podemos ajudar, ajudamos — e festa!
Pai Nosso, que estais nos céus. Santificado seja Vosso Nome. Venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa Vontade, assim na terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, e perdoai as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tem ofendido. Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal — livrai-nos dele, Senhor — amém.

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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Sobre o tempo e o espaço



Gostaria de compreender a seguinte passagem do Livro Texto: “O tempo e o espaço são uma ilusão única, que toma formas diferentes. Se foi projetada além da tua mente, pensas nela como tempo. Quanto mais é trazida para perto de onde está a tua mente, tanto mais pensas nela em termos de espaço.” (T-26, VII, 1:3-4)

Queres saber sobre o funcionamento do nada? Pois bem, vejamos então como se dá a ocorrência entre um pressuposto e seu efeito:

O espaço não é uma distinção natural das coisas. Ele aparenta distinguir, no entanto. Por exemplo, uma coisa que está ali se apresenta tanto ou mais distante de outra coisa que está acolá em relação a um ponto fixo, que neste caso seria um observador, "tu". Então, a parede está atrás da porta, e depois da parede há outra porta. Três coisas estão alinhadas entre si, mas separadas pelo espaço. 

Isto prova que há três coisas no mundo, certo? Então, concluímos facilmente que há mais de uma coisa possível. Nada é um, unitário, ou unido, pois o espaço entre uma coisa e a outra prova que são várias. Sobre a mesa, posta em tantos objetos, quantos eles são? Podes conta-los todos, é claro; mas será a própria contagem algo real? Não te foi dito oportunamente que as palavras são símbolos de símbolos? O que quer simbolizar em símbolo a palavra DOIS? Por outra: se eu sou o teu segundo, então qual o espaço que nos contém? O corpo? Será o corpo o envelope no qual duas coisas ou mais coisas podem caber no mesmo espaço? Isso é impossível, pois o corpo pertence ao mundo da matéria, e as leis da percepção são rígidas como uma pedra newtoniana. O único lugar — que não é absolutamente um lugar — onde é possível solucionar o paradoxo em que dois se tornam um é a mente. Não que a mente reproduza o mundo em termos unitários. Muito desejo metafísico conduz a mais desejos de êxtases místicos. Não estamos em busca disso. Mas a consciência que atravessa a percepção como sendo “uma só imagem” é a resposta que pode ser percebida com a mente certa, em revelação. Quanto mais te aproximas de tua mente certa, mais perceberás o espaço em volta de ti como “uma coisa só”. Não que vejas uma coisa só, mas não vês a separação entre o aqui e o ali. Estás aqui e ali. Por isso é pedido nos exercícios iniciais que primeiro treines a mente com objetos próximos a ti, e depois com objetos mais distantes. Demora um pouco para perceberes que não há dois, ou três, pois estás também aqui, ali e acolá.

Não parece divertido para o aturdido. Realmente, o espaço e o tempo são uma piada. São aquilo a que o Filho de Deus esqueceu de rir. No céu, na roda dos anjos, se riem por conta de os homens acreditarem que poderiam estar confinados em pedacinhos de carne, nomeados corpos. Os anjos não temem mais aos homens, pois há muito aprenderam que Deus tem mais atenção aos homens por conta de sua fragilidade, e é por isso que Deus toma conta deles. Os anjos também velam pelos homens, pois eles querem que eles lembrem. É por isso que Deus tem cuidado de ti e te vela em Espírito Santo, sempre, sempre, demais. Não fostes esquecido por acreditares bobamente que para saíres daqui para o ali precisas de, sei lá, um carro, ou uma bicicleta. Mas não estamos aqui para a propaganda do tele transporte místico. Isso não tem utilidade, não adianta ser super-herói no mundo. No verdadeiro mundo, no Mundo Real, não há distância para a alegria, pois ela não é condicionada por tempo ou espaço. Ela não está aqui ou ali, nem no passado ou futuro. A alegria é apenas estar em si, alegre por estar desperto. E é a felicidade que parece relativa em um mundo no qual o tempo e o espaço tem valor. Por conta disso, precisamos ainda dos milagres. 

A felicidade parece estar aqui, ali, antes ou depois. Às vezes, ela aparece agora; mas — fugidia — logo se vai com os imprevistos que o tempo “traz”, as coisas que o espaço “leva”. Enfim, não há termos precisos para diferenciar as momentâneas ocorrências de dúvidas em considerações precárias nas imagens. Precisavas mesmo era de amor. E isso tiveste em ti, de ti para ti, e nisso aproveitamos para entender mais sobre o tempo e o espaço. Agora, se tu resolveres dar amor, então o mundo se torna muito mais rapidamente um lugar de espaços e tempo elididos em felicidade perene, muito mais inclusiva do que imaginas. Serás amado mesmo no mundo, com o TEU amor. E ensinarás a tantos a lembrar. Então, verás que o amor elide espaço e tempo. Não o amor como uma teoria romântica, de algo que se foi, algo que “pode te salvar” se for encontrado em alguém, ou na justiça etc. Mas  verdadeiramente no amor a tudo, a dois, a três e a mais. Até que o número em amores seja o mesmo, e dois seja igual a três em vias de mil. Assim, o tempo para realizar um ato em amor nos seis bilhões é o mesmo tempo para que esse ato seja ocorrido em um. Disto, podes lembrá-los facilmente, com o teu amor.
Não temas a fragilidade do amor. Não és para ser temido, nem estás em contrassenso com o teu mesmo. Se precisas de preparação para amar, então o tempo e o espaço possuem significado e precisas de cura. Realmente, neste momento precisas de cura. De cura e de cura. Mas o tempo não vai durar mais que a sua precisão. Quanto mais te aproximas de ti mesmo, verás que o aperreio que ocorre ao teu redor não tem mais significado que as bombas na Síria ou em Bagdá. A guerra precisa ter fim, caro irmão. O fim da guerra é o fim do significado do míssil. 

Portanto, não precisas atacar para negar o amor, mas nega-o precisamente quanto atacas. Podes negar o amor com espaço, através do isolamento, e assim atacas a ti mesmo. Mas a mente, que não está confinada, pode não compreender em pensamento a formação dos espaços. “Todo pensamento produz forma em algum nível.” Não está escrito? Pois bem: lembra que a responsabilidade deste mundo é tua! Sejais para eles um anjo. Cuidai deles, em teus pensamentos. Assim, distribuis mais, e acordas mais cedo. Mas não penses que por conta de tua responsabilidade sejas tu culpado de alguma coisa!  Neste mundo separado, nada está acontecendo na realidade, por isso que não tens culpa. Basta apenas a ti que assumas a responsabilidade pelo mundo que vês e ele desaparece em espaço-tempo. Simples assim.

Se não parece simples para ti agora, tens Ajuda. Pede Ajuda. Não é sinal de humildade tentar resolver todas as coisas sozinho. É arrogância, é orgulho. “Pedir ajuda não é um ato covarde” (Criolo). Podes pedir ajuda ao teu irmão, se não a quiseres em ti, pois a ajuda também está nele. Mas, sozinho, estás te acovardando em espaço. Isolado, temeroso, contemplando em cela o mundo que está livre e aberto para ti, por fora de teus pensamentos torturantes — são apenas esses pensamentos que impedem que vejas o que é o mundo em realidade. E o medo do amor em teus irmãos está te fazendo crer-se um imprestável social, uma negação de tua função, um desperdício de talento — tanto parece mesmo que és um cego! Mas apenas por conta de uma venda que amarrastes aos teus olhos. “Estou cego! Estou cego!” Não enganas ninguém... retira a venda, Filho de Deus  e vem ajudar também aos homens. 

“Pai, ajuda o Filho, meu Pai.”  Amém. 

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terça-feira, 26 de novembro de 2013

Sobre a honestidade e a confiança

               
              A confiança é um estabelecimento seguro acerca daquilo que a entrega associa e condiz. Dissemos “condiz”, pois o significado da entrega está ligado ao pressuposto do benefício.  Obviamente, não é uma barganha. Também não se diz que o termo está atrelado ao significado como uma expectativa. Mas confiar é acertadamente um depósito em favor de uma melhoria, mesmo assim.

               Não se espera nada da confiança, somente assim ela pode ser honesta. Falemos de honestidade, então. Quando se É verdadeiramente, quando lembramos Quem Somos, a ilusão de ser uma identidade torna tudo muito falseado pela transparência. Não podemos mais jogar o lance de ilustração da personalidade, da qual o ego muito se compraz. Nada será mais oculto, a visão torna tudo muito claro, e o que era obscuro é agora visto sob a perspectiva da luz. Aquilo que tem valor real permanece.

               Não existem pensamentos privados, mas uma vida privada parece ser o ideal do ego. Uma vida especial, digamos. Estamos, portanto, sonhando em manter. A honestidade comprova rapidamente que o falso não pode ganhar energia, pois não se granjeia a verdade. Tampouco o medo pode substituir a honestidade ao dizer que não. “Esconda isso”, “não deixe ninguém ver isso”, “seja mais assim”, “o importante é o amor” — tudo muito sussurrado, muito à espreita, sorrateiro como um ladrão. Um ladrão pode dar bom dia quando você sai de casa para depois invadi-la. Palavras de alto valor investidas pelo ego fazem um ego “bom”. Mas, obviamente, o ego “mal” não gosta de si mesmo, nem do ego bom, e a guerra contra ti mesmo está em evolução diante da perspectiva dos ocultos pensamentos de medo. Por o isso UCEM adverte que “o que fazes vem do que pensas. Tu não podes separar-te da verdade “dando” autonomia ao comportamento. (T-2, VI, 2:6,7).” Se acreditas que és “dois seres em conflito” então a guerra está lançada. E inimigos precisam esconder coisas uns dos outros, não é verdade?

               Então, o menino bom precisa esconder as travessuras do menino mal. O senhor responsável precisa varrer pra debaixo do tapete sua isenção. As escoras da prudência precisam ser fincadas no sólido terreno do isolamento, para não deixar escapar nenhum equívoco. O certo e o errado não são categorias, diz o censor. O medo é só uma ideia, diz o ego, com a luz apagada e uma arma na mão trêmula e o choroso caminho de solidão é “revelado” como o especialismo de uma “alma sensível”. Tudo terror em noções que não são percebidas claramente, posto que, nestes exemplos, tanto o erro como a correção estão fundidos em uma só ideia, mas vistos separadamente, sob a forma de conselho e prudência.

               O ego se ri de tudo isso. Depois, ele pode te oferecer a culpa como consequência de teus “atos desonestos”, definindo qual a prenda que deves pagar. É uma loucura mesmo! Se ao menos por um instante lembrarmos que a honestidade prescinde de prudência, tudo isso se torna impossível. Como bem observastes, a educação existe para não ser necessária a cerimônia. Aqueles que são desonestos são cerimoniosos, precisam de muita ilustração para viver. Quando são defrontados com as circunstâncias reais, entram para o casco da tartaruga e ali ficam, para viver o sofrimento da paralisação, muitas vezes em tormentos de mal humor e sentimentos profundos de solidão. Ao seu redor, uma plêiade de formas atoleimadas do UCEM são resgatadas para sussurrar-te baixinho: “o salário do pecado é a morte”, “daquilo que queres, Deus não te salva”, com ênfase, obviamente, no “temor a Deus”. O objetivo é que temas a Deus e também o UCEM. Temas a tudo e terás, finalmente, a dádiva da salvação que o ego fornece.

               Não precisamos continuar assim. Por estes poucos exemplos, está claro que o objetivo de todo este estratagema do ego é fazer com que fique patente para ti que és um miserável pecador. Assim, não podes jamais ser como Deus te criou, pois “manchastes” a criação de Deus. Contudo, uma coisa não é colocada jamais em questão: que culpa pode haver em sonhar um sonho? Se sonhares durante a noite que foste roubado, não acordas pela manhã procurando a delegacia. Sabes que as imagens do sonho noturno são símbolos.  Mas como teu investimento neste “sonho lúcido” ao qual chamas mundo é muito alto, precisas pagar a prenda para manter a salvo a tua imagem nele, que neste caso se chama André Sena. Olha, meu caro: tudo nesse mundo roga para derrubar a verdade. Ele é o cenário de um equívoco que não se cumpre em estatísticas.  Enquanto não quiseres assumir a responsabilidade sobre ele, tudo virá na forma desorganizada de uma vida mal vivida. Nada pode ser “arranjado” nele que te traga paz. Fama, dinheiro, poder, inteligência, veneração é tudo a ponta de um oposto. Nada é permanente naquilo que é experienciado sob o domínio do tempo.

               Agora, queres saber se existe uma saída. Se pensares assim, ages como o homem que trancou o carro com a chave dentro, estando ele também dentro do carro. Não podes ver o problema “sendo” o problema. Identificar-se como o problema “é” o problema em si. A saída está em mudar teu modo de pensar.  Para isso, os exercícios do UCEM são tua ferramenta para mudança da mente. A leitura dos textos também. Certamente, já tens agido no mundo de acordo com estas novas ideias em inúmeras situações, mas tais eventos ainda são vistos como separados e, consequentemente, podem ser julgados. Ver em unidade precisa de preparação, pois pode vir a ser um evento muito traumático se não estiveres preparado. Já falamos diversas vezes aqui do caso do alemão chamado de Bruder Klaus, o homem do campo citado no livro Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, do psicanalista Carl Jung. Com ele ocorreu uma revelação direta, Klaus viu a “face de Deus” em uma revelação. Como não compreendera o que viu, voltou com diversas dificuldades para entender o mundo, pois ele não tinha um treinamento anterior que o advertisse que o mundo é um sonho. Suas ideias não estavam estabelecidas nisto. Em sua tribulação, procurou um monastério e passou anos desenhando mandalas, para dar significação mediante a abstração de seus desenhos para aquilo que lhe ocorrera. Finalmente, desenhou uma mandala na qual luzes saiam dos olhos, nariz, boca e testa de um homem coroado como um rei, e assim entendeu que vira a si mesmo como “imagem e semelhança” de Deus. Isto ocorreu também com Paulo dos Evangelhos, que após ouvir a Voz Que Fala por Ele ficou cego por três dias. Estes são exemplos extremos, há inclusive casos contemporâneos como Eckhart Tolle, que leu o UCEM depois, para entender o que lhe ocorrera. Há muitos outros exemplos deste tipo de despertar, mas, como diz o UCEM, isso não precisa ser assim. Um Curso em Milagres veio como uma ferramenta para auxiliar o Filho de Deus a lembrar-Se. Como é dito no texto, “não tenhas medo de ser abruptamente erguido e jogado na realidade. O tempo é benigno e, se o usares em favor da realidade, ele manterá contigo um ritmo gentil na tua transição. (T-6, VI, 8:1,2).”

Mandala de Bruder Klaus
               Portanto, a honestidade não é um valor positivo ou moral, ao qual se dá como paga para uma barganha. O que te importa se não és um homem perfeito? És perfeito tal como Deus te criou e isso basta para qualquer argumentação sobre qualquer pecado que pensas que cometeste. Se acreditas que ages mal com os outros, quê outros? Se todos são perfeitos tal qual Deus os criou! Se vês a miséria no mundo, qual mundo? Se vês a decrepitude da velhice, qual corpo? Se tens problemas financeiros, dai a César — e Trabalho! Se vês o sofrimento da doença, o espírito pode ser em doença? Os milagres surgem de tua negação da mentira, da ilusão. “O mundo que vês tem que ser negado, pois ver isso está te custando um tipo diferente de Visão. (T-13, VII, 1:1).” Isso não significa que serás um insensível, um alheio. Isto seria varrer para debaixo do tapete. Mas, quando fores tentado a ver o pecado em forma de doença, decrepitude, miséria etc, pergunta a questão que o UCEM coloca sobre tua reação a estas coisas: “É isso o que eu quero ver? É isso o que eu quero?” E a tua resposta definirá o tipo de visão de apoias.

               A honestidade está em assumir a posição da verdade, que não priva ninguém de nada. O que escondes, privas. Eis aí uma questão sobre a moral e a ética que pode ser levantada. Mas, te digo: que moral ou ética podem substituir a Certeza? Se estás incerto, não estás em tua mente certa e te balizarás por estas coisas. Fazer o que é belo e bom nunca conflita. Aqueles que sabem a verdade te apoiarão e ficarão felizes contigo. Negar o mundo não é chutar a lombar do mundo. Negar o mundo é ensinar-lhe que o desamor é um equívoco. Para isso, preparemo-nos pedindo o auxílio do Espírito Santo de Deus, Que é Aquele Que ensina conforme precisamos aprender.


               Pai, pedimos aqui o auxílio de Teu Espírito Santo, para que a ponte entre Ti e Teu Filho seja lembrada em Cristo. Ele está pronto, Meu Pai, pelo que pede em honestidade conforme sendo sua herança o Teu Amor. Que a revelação do Teu Reino seja lembrada a Ele pelo Teu Espírito Santo, para que a verdade em amor revele todo um mundo amoroso, para que venha a Ti o Teu Filho Santo, conforme é Tua Vontade, amém. 

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