segunda-feira, 30 de junho de 2014

Em resposta ao meu amigo Vitor Meireles, que perguntou sobre a diferença entre “extensão” e “projeção”


            Pergunta: Como posso distinguir entre “extensão” e “projeção”?

Resposta: A projeção é o medo atuando em decalques e adesivagem, mas o atributo está em ti. Então, o atributo que vai “lá fora” é o mesmo, mas agora está em outro ou em outro lugar, outro grupo etc. A projeção “acontece” separadamente daquele que projeta. Portanto, podes agora julgar aquele que “recebeu” a projeção. Igualmente, podes dizer qual o valor que tens de ti mesmo, mas desviado em outro, para não perceberes o “mal” em ti. Agora, o mal está lá fora e podes, finalmente, eliminá-lo. Para o ego isto seria perdoar, ou seja, eliminar o mal. A causa finalmente está descoberta: o maldito é aquele que contém o mal.

               É muito fácil perceber o autoengano no qual está envolvido aquele que utiliza a projeção. É como se não gostasses da cor azul. Então, para extirpar o mal em si, ao vir um carro azul, poderias muito bem desdizer do carro, ou da empresa, ou mesmo daquele que comprou o carro. “Nunca que eu compraria um carro dessa cor!” e vai-se por aí a separar de si o mesmo, pois o azul é uma cor “maldita”. Muitas das vezes, nem isso aparece, pois a projeção já ocorreu, e pode ser que o sujeito esteja tão temeroso em relação a cor azul que pode projetar bonzinho, dizendo: “este é um excelente carro, só não gostei da cor”. O importante é que o atributo agora está “lá fora”, pode ser atacado sem te ferir.

               Por outro lado, a extensão de Deus não separa. Ela não está “lá fora”, pois, sendo onipresente, é a extensão do todo, ela não pode ser “colocada em algum lugar”. Sendo igualmente simbólica, não pode ser categorizada, como a projeção. Seu atributo é união. Queres unir àquilo que está dentro o mesmo. O amor se estende para abranger e não tem nenhum atributo perceptivo, pois não precisa de justificativas para “ir lá fora”, pois não existe “fora”. A extensão revela o caráter do mesmo e pode ser percebida simbolicamente, geralmente como um ato abençoado. Em nosso caso, pode ser percebida nos milagres, nas manifestações distintivas da Filiação que nomeamos “acaso”, por exemplo. Um irmão te relembra que tens que apagar o fogo de um bule de água que deixaste no fogão, simplesmente porque falava de futebol e te disse: “aquele time é fogo!”. Um amigo te presenteia com um livro, e era o livro que você tanto queria e “ninguém sabia”. Uma pessoa te diz “bom dia” e você responde e eis que surge um dia bom. Estes são exemplos de como os símbolos da extensão podem surgir, mas eles são percebidos sem julgamento. É bom lembrar-te disto para evitar enganos, pois podes projetar inclusive tua descrença nisso e dizer, de bonzinho: “o mundo é cheio de acasos positivos” e isto é apenas um belo modo de apagar/julgar o amor.

               Não preciso dizer que a extensão não tem atributos perceptíveis em julgamento. Por isso que é difícil falar sobre a extensão em exemplos, pois envolve a experiência direta de quem a percebeu na própria consciência. Geralmente, apelamos para uma história, um mito pessoal: “certo dia, quando eu etc”. E funciona bem, pois pode ser um generoso alerta. Mas a sensação que se tem sobre os atributos criativos da extensão são muito claros, pois envolvem sempre a clareza. Já a projeção é um enredo separatista, ela sempre joga o significado para longe. Basta xingar, mesmo que seja “xingar bonito”.

É preciso dizer ainda que é possível também projetar coisas boas que não queres ver em ti mesmo, mas geralmente como um elogio ao outro, com o sufrágio para evitar que percebas algum valor dentro de ti. (Aqui a palavra sufrágio foi utilizada com o significado de rogo, por meio de oração ou obra pia, pela alma de um morto. Tal projeção visa “matar em ti”, ou “dar-te em esquecimento” o que seja de bom).

               Para perceber somente as extensões de Deus, vigie e ore em favor da unidade da Filiação. Não há separação. Dificilmente cairá nas armadilhas do ego se lembrares que és um com todos os teus irmãos. Como podes desdizer de algum deles? Decerto, se eles errarem, uma atitude pode ser tomada para que a correção se faça, mas tu não defines isso. A polícia não é o julgamento pessoal do policial. Por isso Jesus disse sobre Madalena que aquele que não tivesse pecado que atirasse a primeira pedra, pois ele sabia que a lei em si era impessoal, mas sua aplicação no contexto do ódio era projetora, pois a própria lei tinha nascido da projeção. Mas a projeção coletiva é a grande projeção. Quando se diz no UCEM “contempla a grande projeção” se quer dizer isso.

               Por enquanto, não nos ateremos às projeções coletivas. Nosso foco é o individuo que se crê separado da Filiação. Quando compreenderes a natureza totalmente inclusiva da Filiação, compreenderás sobre a projeção coletiva — ou a grande projeção — e as imagens nas quais parecem ocorrer.

               Em suma, a projeção separa, demonstrando o erro, e a extensão une, revelando a união. Por ser separada, a projeção pode ser julgada e é realizável pela mente errada com muita presteza, pois seus símbolos são destacados do todo. Podem ser julgados. Na extensão, os símbolos sempre apontam na mesma direção. E mesmo quando aparentam ser “males”, revelam seu verdadeiro propósito de modo valioso diante da compreensão do seu significado, que pode não ser imediato. Lembra-te do que diz o UCEM sobre o ego sempre fornecer suas “dádivas” imediatamente.

               “A oração é o veículos dos milagres”. Para ver a natureza toda inclusiva da Filiação em sua gloriosa extensão, a oração com o coração em Deus é um bom caminho. Adicionalmente, sugiro a leitura integral do capítulo 7 do livro texto, para melhor compreensão da “crença inacreditável”.

                    Que Deus nos ajude em nosso aprendizado. Amém.


               (Adicionalmente, a própria etimologia das palavras “extensão” e “projeção” apontam para a verdade, pois a palavra “projeção” vem do Latim PROJICERE, formada pelo prefixo “pro-, “à frente”, aglutinado à JACERE, “lançar, atirar”, ou seja, lançar/atirar à frente. Por sua vez, a palavra extensão vem do Latim EXTENDERE, junção do prefixo EX-, “fora”, mais TENDERE, “esticar”, isto é, esticar/abranger até fora). Estes dados foram recolhidos no site referência sobre etimologia http://origemdapalavra.com.br, no dia 30/06/2014, às 15:47.

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sábado, 14 de junho de 2014

Sobre as crenças e as ideias

Obrigado!


“Essa é a nota mestra da salvação: 
o que vejo reflete um processo em minha mente, 
que se inicia com a minha ideia do que quero.”
(Lição 325) 


               Pergunta:
O UCEM diz: “Só no momento em que as crenças se fixam é que as percepções se estabilizam. Com efeito, então, de fato vês aquilo em que acreditas (T-11, VI, 3-4).” Disto compreendi que, se tenho uma crença fixa, a percepção derivada desta crença surgirá para mim como uma vivência no mundo. Como, então, ter somente as vivências felizes? Compreendi corretamente?

               Resposta: A organização das ideias é fundamental para o iniciante. Decerto, apreendestes bem o conceito acerca das ideias como noções formadoras da percepção, mas isto não te parece muito verdadeiro no momento. Ainda preferes a mágica e a consequente nomeação do mundo de acordo com suas ocorrências como acasos, sorte, azar, afazeres, revoluções, conservadorismo etc. Para ti, o mundo ainda “acontece” e possui uma certa “mecânica”. Mesmo as evidências mais claras acerca do fato de que o mundo é a xerox do teu pensamento, para ti são transformadas em pré-conceitos (os acasos e etc’s).

               (Claro que o mundo acontece, mas ele não é dado! Vamos compreender isto de uma vez por todas, pois é preciso crescer e divulgar).

Sem entendimento, as ideias são caóticas. São como referências que emitem apenas opiniões, sem relação entre si. Uma mente desordenada é caótica. Como poderia uma mente assim “projetar corretamente (estender)”? Para que isso aconteça é necessário ver o mundo perdoado, André. Não há meios de se dizer isso em termos da mente se não verificarmos primeiramente o que significa o medo. Portanto, falaremos sobre o teu medo de tudo, para que possamos entender mais à frente sobre a percepção e a real natureza do teu “mundo”, bem como da maneira de organizar corretamente as ideias.

               O medo é uma ferramenta bastante aprazível àquela ideia influente que apreendestes sob o nome de diabo. Mas o diabo é o pai da confusão. A ideia confusa, portanto, é o instrumento para a confusão. Se não compreenderes algo, como podes apreendê-lo? Decerto que a intuição te vale, mas um mundo puramente intuitivo é um mundo mágico e isto ainda é separação. É o sonho de um mundo “dado” que pode ser benigno; o sonho de um mundo mágico que determina o que te acontece, embora de maneira “inconsciente” para ti. Como és “intuitivo”, sabes “ler o mundo”. Realmente, o Espírito Santo parece uma ideia inconsciente para ti, apenas por enquanto. Mas precisas das ideias Dele, pois é Ele Quem sabe Quem Tu És.

O medo é a confusão das ideias. Não podes ter segurança se não tens clareza. Ora, se não sabes o que queres, nem sequer como fazer para chegar a algum lugar ou que caminho tomar e para tudo precisas de oráculos ou de um texto que te oriente, isto significa que estás perdido. Se chegastes a esta consciência, estás no caminho certo! Realmente, não sabes o que fazes aqui. Isto gera medo. “Um mundo sem significado gera medo”. Então acreditas agora que é preciso significar o mundo urgentemente. Eis o círculo vicioso que é a confusão. Uma necessidade urgente de algum “mais”. Mais significados, por exemplo. Talvez entender melhor o Curso em Milagres. Isto te fará crer que precisas entender melhor sobre “essa coisa das ideias”, “a relação entre as ideias e as projeções” e isto vai te atrasar, pois não se trata de entender sempre, mas de experimentar em ato. Entrega o entendimento Àquele Que já o tem. Tua única contribuição nisto é ser feliz, e sair do caminho, pois Ele tem as respostas.

Portanto, se Ele tem as respostas, decerto também sabe quais são as ideias certas. Mas enquanto quiseres fabricar ideias serás imitador de outros, ou defensor dos fracos, defensor dos fortes, pobre coitado de esmolinha, o futuro rico de alguma fama, um cara muito gente boa, um canalha, um artista sem arte, um pensador de opiniões, geralmente optando entre dois lados de uma ponte que leva de volta a lugar nenhum, até chegares aqui: à falta de sentido sobre tudo.

Então te apressarás em ressignificar para compreender novamente. Percebes o engodo? Quantos planos ainda tens à mão? Quantos acreditas que conseguirás gerenciar sem Ajuda?

O medo é a suprema crença na autonomia egótica. Não precisas mais nem de amigos, se não quiseres, pois tens “teus planos”, e “quando eu chegar lá, eles finalmente reconhecerão o meu valor”. Podes, no entremeio, aderir cumplices às tuas variantes de pensamento, como a ilustração moral ou o comedimento nos atos e a opinião política, geralmente contrária e, principalmente, vilipendiosa. Disto decorrem amizades sem fruto, conversas sem rumo, desagravos sem motivo e tudo o mais o que a desordem pronuncia. Claro que não é sempre assim, pois o ego não é bobo, ele sempre te oferece suas “dádivas”. Principalmente, ele te dá “esperança”. Urgh, que estranho! Ter esperança no futuro é a maior doença que há, pois ter a mente no futuro é o eterno adiar. A esperança é sempre esperar, mas o otimismo é real e é agora. Saímos deste entrecho pessimista neste momento, pois não queremos mais viver na ilustração. Viste em emoção como o medo é terrível e sua ocorrência vigora na expectativa de que o impossível, isto é, tua autonomia completa, vai ocorrer favoravelmente.

Agora, que vimos que o medo é o caos projetado no mundo pelo teu desejo insano de autonomia, podemos responder à pergunta inicial, sobre as ideias certas. Pois bem: sem ordem, tudo é desordem. A ordem surge da ordenação das ideias e da clareza de se saber o que fazer, para onde ir e o que se quer. Estabelecer a meta é a solução. Vejamos este trecho do Cap. 17 sobre estabelecer a meta:

Em qualquer situação na qual estejas incerto, a primeira coisa a considerar, muito simplesmente, é “O que eu quero que resulte disso? Para quê serve isso?” O esclarecimento da meta tem que estar no início, pois é isso o que vai determinar o resultado. No procedimento do ego, isso é revertido. A situação vem a ser o que determina o resultado, que pode ser qualquer coisa. A razão dessa abordagem desorganizada é evidente. O ego não sabe o que quer que resulte da situação. Ele está ciente do que não quer, mas somente disso. Ele não tem absolutamente nenhuma meta positiva (T-17, VI, 2).”  



E “positiva” neste contexto quer dizer “clara”. Neste momento também parece que não sabes o que fazer. Pois bem, já dissemos que tens ajuda nisto, mas precisas sair do caminho. Enquanto ainda lutas para manter tua autonomia, minas as capacidades claras que possuis e crias preconceitos sobre coisas que genuinamente aprecias, pois temes a opinião dos outros, mas a opinião dos outros é apenas a tua projeção voltando. O medo dos outros é o medo do amor. O medo do amor em teus irmãos ainda te parece terrível, pois a libertação te parece terrível. Caro irmão, querido amigo, teu irmão és tu mesmo. Se estiveres em algum lugar com outros dois, e eles estiverem em alegria, e não consegues te inserir no contexto daquela alegria, é mais fácil julgar os dois irmãos como egoístas e sectários, mas és tu quem tem medo deles, e a reação deles a ti é parte do teu sonho, pois não és um mero personagem no sonho de ninguém. Outra opção insana seria introjetar e dizer que eles não gostam de ti porque és um miserável sem graça que etc. No entanto, isto é apenas masoquismo representativo do teu desejo de ser odiado, para provar coisas espúrias que pensas sobre ti mesmo.

Mas — não és o que pensas sobre ti mesmo. Não és a ideia que te destes. A ideia de ti mesmo habita imutável em Deus e a tua opinião não conta nisto. Se odeias a ti mesmo, quem odeia a ti mesmo? E isto não é apenas uma crença em ti mesmo como odiado? Como o mundo seria diferente se cresses em ti mesmo como merecedor de amor!

As ideias formatam as crenças. Elas são o inicio do pensamento, e as ideias a que dás valor formam a tua crença. Se "a projeção faz a percepção", tua crença em ti mesmo como um ser odioso precisa de muita resposta em termos de solidão no mundo, quando não de violência, para te ajudar a manter tua crença projetada por aí. O mundo é o resultado de tuas crenças; crenças surgem de ideias e ideias não deixam sua fonte. 

Há uma Fonte segura, que estabelece ideias seguras e um mundo perdoado, ao invés de uma tela da projeção dos teus medos, o teu filme de terror e solidão. Já é hora de estabelecer a meta firmemente. Agora, nossa meta é Deus. Nossa meta é ser feliz. Nossa meta é reencontrar verdadeiramente com nossos irmãos. Nossa meta é a honestidade. Temos Auxílios para cumprir nossa meta. Podemos aderir, realmente, na forma, aos símbolos das nossas metas. Ser honesto requer os símbolos da honestidade, ser feliz requer os símbolos da real alegria, mas se não sabes como atingir a isto, peça Ajuda, lembrando sempre com otimismo que és Filho de Deus, que és Amado pelo próprio Deus, que independente de qualquer coisa que penses ou que acreditas que outros pensem a teu respeito, tu és tão valioso para Deus que Ele se sente incompleto sem ti. Volta, irmão. Vem com as mãos vazias de julgamento para Casa. Deus te chama e é a Ele que escutas quando abres mão de teus sonhos de autonomia e realizas a entrega ao Espírito Santo. A união com Ele agora é a tua meta. O caminho para as ideias verdadeiras estão estabelecidas para ti nos exercícios. A oração também é uma meta favorável agora. A verdadeira oração é na forma que tu quiseres,  naquilo que acreditas, com ou sem palavras, mas o coração sempre estando em Deus, tudo é feliz. Amém.




Medo - Titãs. 


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domingo, 27 de abril de 2014

Sobre "Dar Certo"

             


               Não existe nenhuma garantia de que a vida “dê certo”. Tudo aquilo que em determinado momento na vida aparece como certo pode ser erro em outro, e vice e versa. Mesmo assim, buscamos em altos esforços fazer a vida dar certo nos termos que queremos. Pode ser até que alguém escolha uma forma mundana na qual insiste, enquanto apenas se atrasa, pois ninguém sabe verdadeiramente o que significa “dar certo”.

                Primeiramente, é o medo que desfaz todas as perspectivas favoráveis no mundo. Não se sabe de onde vem o medo, mas o percebemos como uma disposição desfavorável em relação ao mundo. Às vezes, parece que os mecanismos do mundo desfazem a toda hora, sob a forma de medo, nosso aprendizado mais feliz. No entanto, isso ocorre simplesmente porque não queremos um aprendizado realmente feliz, amoroso e sem temor. Ora, não é verdade que muitos dizem estar em busca de amor em um mundo sem amor? Como encontrá-lo, baseando-se em ideias conflitadas? Se não há amor no mundo, como encontrá-lo? Não se acha o caminho para o Oeste seguindo em direção ao Leste. Mesmo se deres a volta ao mundo, estarás caminhando sempre para o Leste.

                Esta dicotomia — ou dissociação — na qual se busca encontrar algo onde não está surge de uma tentativa em ser “diferente”. Não é o amor que realmente se busca, mas o “sucesso”, o êxito em encontrar. Geralmente, isto é confundido a tal ponto que ser feliz no mundo em contratos sociais passa a ser o objetivo para ter paz. Portanto, se não podemos encontrar o amor no mundo, podemos projetá-lo no sucesso. Jesus venceu o mundo, mas não o fez pelo meio ilusório. Jesus não foi exatamente um “homem de sucesso”. Dar certo não é uma prerrogativa da forma, mas ser feliz, isto sim, nisto Jesus sucedeu, desfez o desamor e soube-se a Quem Ele Respondia. Na verdade, qualquer um que queira realmente experimentar o que seja “dar certo” tem que ser feliz. O amor infeliz é impossível. Quem “sofre por amor” está enganado.

A partir do momento em que se deseja ser feliz, não se pode mais pensar em sucesso. A chegada do amor é a escolha em ser feliz. Tampouco seja o caso em que se projete esse amor nas coisas, crendo que apenas o bonito é o certo. Ou que “perdoar o feio” é o certo. Ser feliz não é uma escolha estética. Na verdade, ser feliz não é uma escolha, mas um estado de graça que surge de uma verdadeira disposição ao mundo. Ver tudo com os olhos de Cristo significa isso. Não abençoas apenas o que dá certo ou o que é belo. Teu olhar deve ser sempre benção. Nisto se é puro.

Mas não deves esconder nada de ninguém. É isto que se diz “disponibilidade ao Espírito Santo”. Aquilo que dá certo não é um meio garantido, mas olhar para o certo ou o incerto com amor abre as portas pelas quais Ele Mesmo verifica os meios. Como diz a música do Pato Fu: “conte o teu angélico segredo”, pois “quando algo sai do seu controle / o mundo volta a respirar”.

                Agora falemos sobre o domínio do medo sobre o mundo. O mundo precisa da ideia da superação como o medo precisa de mais terror. A ideia de superar-se garante o sucesso no futuro, enquanto o presente será sempre indigno. O desamor garantirá o teu olhar de desejo e verás no sucesso a garantia de superar a si mesmo. Geralmente, como o sucesso tem a outros como modelo, a ideia de superação é a própria inveja, pois tudo o Que Se É permanece obscuro, sob os auspícios do “bom exemplo”. A moral não entra nisso, pois o “bom exemplo” é criado em cima do desejo do sonhador. Se estiver em conflito com os ideais do mundo, o sonhador pode até crer que é revolucionário. Se estiver em favor, será um guardião de algo. Por conta disso se diz que o desejo somente pode surgir do conflito.

                No entanto, o desejo em si não é um erro. A questão deste texto é: quem pode garantir que está desejando o que é melhor para si? Cada passo parece incerto demais e as garantias são tão poucas que qualquer ideia pode fazer com que o individuo busque ancorar suas expectativas no que não faz sentido. Há pessoas tão vazias de si, que qualquer ideal lhe serve como tampa, desde a simples visão de si mesmo como melhor que os outros — geralmente através da fofoca e da maledicência — até assumir ideias que não lhe cabem em absoluto, enquanto crê que caminha.

                Como saber se estás agindo assim? Simples. Estás feliz? Realmente feliz? Acordas feliz para fazer o que fazes? Então estás atuando no caminho certo. Caso contrário, não entre na armadilha da autoavaliação. A autoavaliação pode fazer surgir o desejo de se superar. Teu papel é sair do caminho. Olha para tudo com benção, e a resposta surgirá. Deixa que os meios sejam avaliados para ti, mas não por ti. Não precisa ser religioso para se fazer isso. Mais uma vez: teu papel é sair do caminho. Como se faz isso? Busca a Deus não como um objetivo de sucesso, ou uma superação da tua falta de fé, mas busca Deus no Amor, pois Lá certamente O encontrarás, mesmo que seja “por amor às causas perdidas”, pois uma causa nunca é perdida se é para ti.

Todos os dias lembra de dizer a ti mesmo: “Ainda sou como Deus me criou”, ou “ Deus me ama independentemente do que eu pense sobre mim mesmo”, ou ainda “sou feliz, pois sou amado pelo próprio Deus”, ou qualquer outra frase com o sentido de que és amado, pois deves lembrar de que és amado, que és digno, e que o erro e o acerto são categorias e que Deus não é categorizador. Deus é perdão e amor. No Amor que dás, Deus está ali. Ama e és livre, pois Deus é amor. Essa consciência abre espaço para uma nova consciência que pode te mostrar algo favorável. Não desejas ser feliz? Então lembra que és amado. Deus te ama independentemente de tuas ações, pois Deus é Amor e o amor não categoriza em certo e errado. Quem faz isso são os homens, com medo e julgamento. Faz o que é certo no mundo, para não naufragar, para viver uma vida boa, mas se errastes, o que tem se errastes? Se acertastes, o que isso te dá na verdade? Seja feliz, e largue mão do controle sobre quem merece ou não ser amado por ti. Todos são filhos de Deus. Todos merecem teu olhar de benção. Sucesso verdadeiro é amar e ser amado.

Isso, sim, dá certo. E o certo virá para ti na forma que é para ti. Amém.



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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Sobre a natureza da função em perdoar.



                A expressão “temer a Deus” não está associada a um temor real. No mundo, isto parece ser um elogio, e é interpretado como obediência. Será obediência desde que a compreensão de Deus figurada em uma potência terrível e temível seja real. Por outro lado, “ser santo” também não está associado a santificar ações, pois o ato gratuito, puramente ético, pode estar ou não em consonância com tua real vontade. Como guiar-se para a ação neste contexto no qual o medo de Deus tornou-se a realidade da vontade?

                Na verdade, aparenta ser urgente apreciar o medo em casos assim. O indivíduo diz que o medo pode ser destituído de suas influências através da observação do próprio medo. Claro que ver o ego “em ato” é muito benéfico, no sentido de favorecer uma forte disposição contrária à manutenção dele, através de vivências de loucuras que não serão mais apreciadas após uma observação lúcida. Mas, desta forma, precisarás de muitas eras até alcançar viver todos os erros dos quais o ego é capaz, escolhendo favorecer os erros até acertar o conserto. Será que esse “atalho espinhoso” é favorável e condizente com tua vontade verdadeira?

          Uma possibilidade muito pouco considerada em relação à observação do ego é uma contextualização de suas ações como veículos do medo em ato. Podemos, através disto, reduzir todas as ações do ego a um denominador comum: o medo. O curso ensina isto de modo muito seguro, a partir das considerações sobre o instante santo, que desfaz o medo por intermédio da disponibilidade. Adiante, em favorável expectativa, o momento em que a farsa do medo será percebida não ocorrerá através dos atos do ego, de sua “sombra”, ou seja lá o nome que deres àquilo que dele tu não quiseres mais aderir. Mas perceba que o engenho em fornecer nomes ao ego em torno de si mesmo, como uma órbita psicológica e inconsciente, é apenas “mais do mesmo” em termos de algo que não vês, e dizes que é o inconsciente, pois te é dado em esquecimento.

                Não falamos em tecer mentiras como fossem teorias adequadas! A dor da doença é passível de grande compaixão. Um ego santo pode ser muito maldoso. Sua constituição em duplo, em um mundo de opostos, provoca justamente aquilo a que a condição oposta ao santo se refere, por isso afasta a Deus e o teme. Cuidado com a bondade nestas tolas condições! O santo jogando xadrez com o diabo é uma amplitude técnica no mundo dos opostos, psicologicamente falando, nas engrenagens positivas da ciência. Em ti, é muito sofrimento e ilusão em formas de ser ou não ser, sendo e não sendo. O santo não se santificou, por isso não atribua a si nenhuma toleima em santificação. Melhor nesse caso um aparte honesto, vislumbrando tudo o que não é correto com honestidade e, se possível, com humor. Este é o modo com o qual te aproximas do que fizestes com equidade.

                Bem fizestes um ego, construístes uma pessoa, viestes até aqui para essa diversão com o lego de ossos, carne e sangue. Pois bem, está aí o corpo, disposto ao teu uso, e até mente isto tem. Então: És ou não és como Deus Nosso Pai? Capaz de criar? Mas preferes manter ele aposto à tua vida até que compres novas peças? Podem se montar vários deles.

                Portanto, ao sinal de medo, o santo se esconde novamente em forma de grande vetor de sabedoria. Agora, ele percebe que isto é uma carta, de si para si. Ajuda nisto é favorável também a todos, pois ele é todos, não em hipótese psicológica, mas na Mente Uma, que apenas a verdadeira experiência fornece dela o sentido. Não se pode aprender sobre a Mente Uma. O Curso não ensina como fazer isto, ele ensina apenas a desfazer, não é? Mas pode-se estudar sobre a psicologia ordinária desta mente que fizeram, em lego de população. Aliás, não existem as palavras, você bem sabe disso; mesmo a literatura fantástica é apenas uma contraparte existencial complementar, que visa apenas a tentar suprir a ausência da experiência; a psicologia busca consertar e aliviar, a medicina visa curar etc.

                Não temas agora, pois perceber o falso é sempre favorável. Ajuda a desfazer. Também há agora o temor de o santo acreditar que descobriu a verdade última das coisas e pode-se, portanto, demitir os médicos e fechar as faculdades de psicologia, pois o André escreveu uma carta que ensina tudo. Quanta asneira observável em riso! Não é de se rir que um dia alguém viu o falso sendo ainda falseado? No entanto, quantos dispostos ao caminho de Tomé? Pois digo: São Tomé é o padroeiro dos arquitetos, geógrafos, engenheiros e das pessoas em dúvida.

                Temer a Deus é uma expressão contraditória, é só pode ser corretamente compreendida em seu corpus simbólico. Temer, neste caso, vem à acepção de perda, solicitude à perda, receio. Por extensão de sentido, Temer a Deus significar andar com esperança de que Ele venha àqueles que seguem "Suas Ordens", àqueles que O agradam. É uma coisa do velho testamento, admitida em lei. A boa nova é diferente: Deus é amor. Decerto, alguns evitam o naufrágio seguindo as leis. Não há garantia nenhuma em se tratando deste mundo separado que estamos a dizer alguma coisa certa. No entanto, para nossa salvação, há ideias derivadas da Mente Certa. Estas são seguras. Temer a Deus seria como Temer estar sem Ele. Mas mesmo essa ideia é impossível, embora seja ela o motor e o ideal da separação.

                Para nossa prática, bastam os exercícios e muita disponibilidade em vendo. As imagens estão aí para auxiliar de volta. A tua criação em ego se assemelha a historia do homem que estava isolado em uma ilha e criou uma jangada para sair de lá. Ele precisou usar o material disponível na ilha, que era toda a realidade que ele percebia e da qual dispunha para construir a jangada. Assim, este mundo com suas imagens e formas será a maneira pela qual vais descobrir que podes sair daqui. Mas Jangada boa lembre-se, é abstrata e é amar. Não vês o amor estendido ainda aqui? Pois monta nesta jangada e eis o mar!

                Assim, dizemos que ver o ego em ato é útil apenas em princípio. Por isso o Curso diz que o ego aprova a iniciativa dos alunos em analisá-lo. Uma primeira abordagem neste sentido é verdadeiramente útil, mas não pode gerar o circunlóquio da acepção reiterada em “quem sou eu?” , “como me melhorar?” etc. Não sabemos nada sobre o mundo separado, pois ele figura para nós como uma “coisa em si”, sem sabermos nada sobre elas. Quando fizestes este mundo, tivestes este cuidado de não lhe dar realidade, e nisto o Espírito Santo figurou em tua mente separada para fornecer a ti mesmo os cuidados e a memória do perdão. Não poderias te separar de todo, pois Deus não pode perder uma parte de Si Mesmo. Por isso, é hora de ouvir, de voltar, suave, feliz.


                Pai Nosso, pedimos ao Teu Espírito Santo que nos guie em disponibilidade de linguagem para que nos seja dada a melhor forma de compreender. Nós, que pedimos por este meio, pedimos em dúvida, Pai; ao que sabemos, no entanto, grande Teu Amor por nós, Que não olha para esse mal feito como feito, mas bem nos quer, e a isso devotamos nossa maior fé em esperança de que possamos levar conosco os nossos, e pedimos nisto que apareças com a face da esperança novamente, conforme esquecemos, mas lembramos em todos os atos amorosos e felizes ao quais dispomos, e nisto cremos, pelo bem de teu filho que feliz se alegra em Teu Nome, e mesmo em medo vela pela imagem da amizade e amor entre os Teus Filhos santos. Peço-te diante de Tua Vontade a luz da revelação, meu Pai. Amém.


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