terça-feira, 30 de julho de 2019

Os Companheiros Escuros

Bouguereau - "lição difícil", novamente.


Os companheiros escuros são os consoladores que estão em busca de equívocos como forma de associação. Buscam relacionamentos especiais ao invés das companhias graciosas de Deus, e não podem ver a luz do sol. 

Os companheiros escuros são vistos como são, e não são “as pessoas”. O teu irmão não pode ser um companheiro escuro. O que nele não é como tu, é parte de sua mente errada, e deve ser visto como é: um erro a ser corrigido, e não um mal a ser punido. Mas não serás acolhido no céu enquanto mantiveres em tua mente ideias que não pertencem ao ceu, pois no céu somente pode entrar aquilo que lhe é igual, o mesmo. Aquilo que não é como o céu, nem mesmo existe. 

Apenas a alegria faz parte dos encontros santos. O que pesa e desarma como função escura é erro, e pedido de ajuda. Tu não tens que te acreditar culpado se não podes ajudar um irmão à tua maneira. Ao Espírito Santo cabe a Expiação. Mas o pacote curativo deriva também de apoio que é recebido, no tempo, por qualquer um que tenha a crença de que é possível ver de forma diferente, pois a crença, como diz o Curso, produz a aceitação da existência; no caso, a crença em outra maneira de ver produz a aceitação da existência de uma alternativa. 

Peçamos outra maneira de ver aos nossos companheiros escuros, e rala pé de lá.

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segunda-feira, 10 de junho de 2019

Sobre ver o erro



"O plano do ego é fazer com que vejas, em primeiro lugar, o erro com clareza e depois não o vejas. Mas como é possível não veres aquilo que fizeste com que fosse real? Vendo-o com clareza, tu fizeste com que fosse real e não podes deixar de vê-lo. É aqui que o ego é forçado a apelar para "mistérios", insistindo que precisas aceitar o que não tem significado para salvar-te." (T-9. IV. 4: 2-6).

O que são os mistérios aos quais o ego apelaria por?

Uma condição nova, apropriada pelo ego como novidade, pode ser a velha forma de enxergar o mundo falsamente renovada. O ego dança com as imagens do mundo como se fosse um com elas, em separação ordenada, julgando tudo o que vê como se fosse dono e juiz. Sendo um com tudo o que vê, mas no formato “dono”, o ego apregoa que o medo de Deus faz todo sentido, pois ver a fonte da "Ameaça" é para ele o mesmo que a morte. Portanto — ainda segundo o ego —, é altamente recomendável ter sempre novas ideias sobre o mundo, com a finalidade de "renovar" a separação.

Já quanto a cura, a benção e o perdão, haverá uma série de mistérios dificultando seu entendimento, pois o ego fará com que penses que é tudo muito difícil de ser entendido, que não é para você, deve ser algo para pessoas especiais e inteligentes, diferentes de você, melhores que você e mais tolices deste tipo, que o ego consegue oferecer com muita habilidade de convencimento. Portanto, é preciso pensar muito bem antes de dar qualquer passo em favor da mente certa, segundo o ego. Seu pressuposto básico é este: cada dia deve julgar o dia anterior, e prosseguir temendo o futuro de acordo com os acontecimentos passados. Para o ego, este é o uso favorável do tempo.

Da mesma forma, para o sistema de pensamento que usa, o medo deve estar sempre dirigindo os atos mais corriqueiros do teu dia, sob a égide da perda. Vivendo em escassez perene, o ego adverte para a necessidade de preservação. Uma forma de fazer isso é dar ao seu fazedor um instinto de reação imediata, provocando um rápido afastamento de tudo aquilo que o Filho de Deus acreditaria correto e justo para se investir.

Assim, o medo surge neste contexto como um sucedâneo para o pensamento construído diante deste erro. Se o medo faz mistérios, diante de uma ocorrência anódina — pois para ele tudo será ameaçador —, o medo também estará propondo uma série de ameaças misteriosas, que divulgam para aquele que visa aplicar o perdão verdadeiro, ou seja, aquele que perdoa meramente vendo o visto, sem antes julgar para só então, depois, perdoar, pois aquele que busca apenas ver o visto, a esse é dito que o medo deve ser percebido como um sinal da interferência correta de teu irmão sobre tua vida. Ele é maravilhoso, sim; um Filho de Deus, sim; tem direito ao Amor? Claro que sim! Mas com reservas, nunca se sabe o que pode vir no futuro. Como podemos confiar em alguém que não etc.


Esse discurso é um velho conhecido. Todos de alguma maneira se engalfinharam nele. É misterioso simplesmente como é misterioso algo que não existe. É muito sedutor falar em termos ficcionais de um planeta ou de outra dimensão, porque para a mente isto tudo se torna muito misterioso. Um irmão pecador é, para o Espírito Santo, um grande mistério, pois isso é algo que Ele nunca viu. Isto está escrito sob a forma de piada, pois o pecado, e, consequentemente, um irmão pecador, não existem de forma alguma. O ego apela para o mistério da existência de pecados mortais, infernos desastrosos, medos inenarráveis, traições e outros termos que sabemos somente existir sob a égide do medo, e o medo é um estado que não existe.

A solução é perdoar o visto, vendo o visto, sem antes julgar para, então, perdoar. Este é o plano do ego, que busca entender o “mistério da vida”. Não há nenhum mistério. Simplesmente, o corpo não existe, esse mundo foi feito para tentar fazer verdadeiro um estado no qual a mente estaria separada em partes e que tudo estaria fora do teu alcance, não fosse as parcas percepções que o corpo provê. Tudo isso parece muito misterioso, assim como é complexo e misterioso tentar tornar uma mentira verdadeira. Tudo que o ego diz sobre o mundo e sobre teu irmão é uma ficção daquilo que ele é. E geralmente é uma ficção bem construída, pois o ego é muito competente em arguir e responder. Ele não teria capacidade para fazer como fazemos aqui, pois ele não defende estas ideias nem as consequências para as quais estas palavras dirigem, mas ele te diz exatamente o que pensar sobre o mundo, sobre teus irmãos, e onde deves investir teu comprometimento, pois há um mistério de punição e medo rondando todo o seu sistema errado de pensamento. Assim, para o ego, perdoar é primeiro ver o erro, e depois tentar não o ver mais. Segundo ele, isso será possível. Faz algum sentido para ti? Uma vez marcado, o teu irmão torna-se pecador. É possível tornar o pecado real e depois perdoá-lo?

Isso daria ao ego o poder de um Deus. Por isso o julgamento é tão importante para ele. É uma ferramenta imprescindível para o aprendizado ao qual o sistema de pensamento da mente errada te dirige.

Mais uma vez: perdoar é ver o visto, e só. Não há mistérios nas coisas de Deus, pois Deus é abundância e dádiva. Acredita nisto e verás novamente.

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terça-feira, 7 de maio de 2019

Sobre a crença em superioridade e inferioridade.



“O teu valor não é estabelecido pelo ensino ou pelo aprendizado. O teu valor é estabelecido por Deus. Enquanto contestares isso, tudo o que fizeres será amedrontador, particularmente qualquer situação que se preste à crença na superioridade e na inferioridade (T-4. I. 7:1-3)”.

Portanto, nosso valor não se depõe em aprender algo sobre nós mesmos, mas na forma em que dispendemos nossa fé. Deus nos ama e isso tem que ser crível no teu coração, de verdade. A disponibilidade para esta crença poderá nos ensinar mais do que qualquer coisa que se tenha “decorado” ou “aprendido”. Memorizar Um Curso em Milagres inteiro pode não oferecer sequer “um grão de amor”, enquanto um exercício feito com fé (portanto, sem decorá-lo), pode ser um provedor do desfazer que o milagre anuncia em nossa imagem mundo, geralmente condizente de maneira indiscutível com o conteúdo do exercício praticado. 

Qual nosso valor, então, diante de um milagre assim? Poderíamos começar pensando sobre nossa mania em querer entender as coisas. No livro “O Idiota” (um ótimo título!), Dostoievsky apresenta esta fala quando o personagem Gánia Ardaliónovitch tentar explicar ao General Ivan Fiódorovitch certa circunstância sobre uma foto que trazia, mediante uma série de especulações que supunha certas. O General tentava dizer-lhe que pensar sobre uma circunstância qualquer pode ser presunçoso. Esta parte não faz parte do enredo do livro, mas podemos entender que o General sabia — intuitivamente ao menos — que uma compreensão geral das coisas foge a nosso propósito, e cabe somente ao Espírito Santo, que sabe tudo sobre nós mesmos e tem ciência do Plano Geral, julgar. Quem pode ter a presunção de acreditar deter para si o futuro sem projetá-lo? O verdadeiro entendimento é dado.   

Mas para receber é preciso que se saiba aonde se quer chegar. A tentativa de Gánia Ardaliónovitch em entender certo acontecimento no enredo do livro, apenas por meio de inferências, mostra-nos que o personagem acreditava no poder da compreensão enviesada que temos diante daquilo que chamamos de livre arbítrio. 

O livre arbítrio permite que o tomador de decisão possa optar por seguir o sistema de pensamento da mente errada quando ele bem entender. Não precisamos sentirmo-nos culpados quanto a isso, simplesmente porque não sabemos distinguir bem entre progresso e retrocesso, como o Livro Texto indica. Se soubéssemos, nunca escolheríamos ser o vetor pelo qual o pensamento do ego engendra neste mundo a aparência de realidade que transparece muito palpável em coisas como a doença e a morte, por exemplo.  Mas até mesmo a famigerada morte não pode ser real, a não ser em um mundo no qual todas as coisas parecem estar separadas umas das outras, inclusive a vida da morte. Como diz muito bem o curso: isso não precisa ser assim. 

Mas para o tomador de decisões parece ser muito sedutora tal aparência de poder que lhe dá a volição, pois tal critério é capaz de fornecer a ilusão de pensar diferentemente de Deus. Sim, aqui nesta pedra, girando em torno de um espaço infinito, podemos escolher pensar diferentemente de Deus. Temos o livre arbítrio a nos dispor para isso. E se você acreditar que pode usar isso a seu favor acionando o modo bel-prazer, saiba que você pode se atrasar o quanto quiser. Mas não esqueça que, ao escolher assim, será preciso lembrar a si mesmo que nos atrasamos somente pelo uso excessivo do sistema de pensamento da mente errada (o Livro Texto afirma que o tempo serve apenas para aprendermos a distinguir bem).  Vou ajudar com uma imagem: tente pensar no domínio consciente que você teve de sua vida até aqui. Resulta em um extenso e constante corredor ou em um labirinto? 

Espero que esteja acompanhando. Para isso, é só não fazer como Gánia Ardaliónovitch, que tentava entender. Basta seguir. Estou seguramente te direcionando através do sistema de pensamento da mente certa, simplesmente porque escolhi assim, pois, ainda segundo o Livro Texto, “o poder de decisão é a única liberdade que te restou como prisioneiro desse mundo (T-12. VII. 9:1).” Nossa liberdade reside em nos livramos da indecisão e escolhermos bem. Mas nossa capacidade de escolha tem sido obnubilada pelo véu do desejo em controlar, entender, sem saber ainda distinguir. Esse era o plano, lembra? Pois é, aparentemente não deu muito certo... 

...aparentemente, pois a boa notícia é que não foi real. E agora podemos sair daqui. Certa vez Jesus disse a Helen Schucman (a escriba de Um Curso em Milagres) que a única coisa a se fazer em um deserto é fugir. Ter fé é simplesmente escolher subir na caravana. 

O meio mais rápido está disponível no teu irmão. Sinto muito te desapontar, mas está nele. Qual deles? Todos. Sinto muito te desapontar outra vez. Neste momento da história parece mesmo muito difícil acreditar em uma afirmação deste tipo, mas muito desta desconfiança surge devido ao que chamarei aqui de espelho ego, ou, segundo nosso currículo, nossa ênfase na projeção. Uma crença em corpos separados com identidades separadas tem necessariamente que hierarquizar o mundo inteiro, dentro de uma noção de divisão, na qual as partes não são iguais, a começar pelo corpo de cada um e dos pensamentos privados que cada um supõe possuir. A crença em nossos irmãos separados tem criado neste mundo todo o tipo de disposição que envolva superioridade ou inferioridade, como já foi dito, pois tais polos surgem diante do medo da Filiação, ou seja, do medo da amorosa unidade que encontramos abundantemente disponível em nossos irmãos santos. 
Ver diferente disso seria reduzir demais a teus irmãos e se colocar em um patamar de inferioridade e/ou superioridade. Não é preciso dizer o quanto isto é cansativo. O que chamo aqui de “espelho ego”, por falta de um nome melhor, é nosso irmão visto ao contrário do que ele realmente é. O espelho ego é a antítese do instante santo, e podemos dizer, repetindo este bordão que tanto gosto de usar (neste momento da história), que no século XXI boa parte dos encontros entre o que chamaremos aqui de seres humanos ocorrem sob o modo espelho ego. 

Nossa esperança pode ser reforçada mediante este lembrete constante no Livro Texto: isto não é assim. As imagens podem auxiliar bastante, e foi apenas devido a isso que viemos por aquele caminho. Pois bem, é isto que temos que nos esforçar em ver em nosso irmão: luz; em qualquer circunstância em que ele surgir, pois ele tem que ser tão santo quanto nós somos, caso queiramos mesmo escapar do deserto. Isso se faz através do perdão. 

Para que isso seja assim, temos que confiar em nosso irmão com total disponibilidade. Basta lembrarmo-nos disto: somos totalmente inocentes. Fomos enlouquecidos pela culpa e agora não queremos mais isso. Temos que nos aproximar de nossos irmãos em completa inocência e confiança, em total certeza, sem relutância alguma, pois “a inocência não é um atributo parcial. Não é real enquanto não é total. Os que são parcialmente inocentes estão aptos a ser bastante tolos, às vezes. Enquanto a sua inocência não se torna um ponto de vista de aplicação universal, não chega a ser sabedoria. A percepção inocente ou verdadeira significa que tu nunca percebes de forma errada e sempre vês verdadeiramente. Em termos mais simples, significa que nunca vês o que não existe e sempre vês o que existe (T-3. II. 2)”.

Nosso irmão só existe para nós se nos apresentarmos diante dele em completa inocência, em total disponibilidade. Isto parece muito difícil, mas o curso garante que somente este primeiro passo é por nossa conta (“para ter, dá tudo a todos”), e mesmo nisto teremos ajuda: 

“esse é um passo muito preliminar e o único que tens que dar por conta própria. Não é nem mesmo necessário que completes esse passo por ti mesmo, mas é necessário que te voltes nesta direção. Tendo escolhido ir por esse caminho, te colocas no comando da jornada onde tu e somente tu tens que permanecer. Esse passo pode aparentar exacerbar o conflito ao invés de resolvê-lo, porque é o passo inicial para reverter a tua percepção e virá-Ia de cabeça para cima. Isso entra em conflito com a percepção invertida que ainda não abandonaste, ou não teria sido necessária a mudança de direção. Algumas pessoas permanecem nesse ponto durante um longo tempo, experimentando um conflito muito agudo. A essa altura, podem tentar aceitar o conflito ao invés de dar o próximo passo para a sua resolução. Tendo dado o primeiro passo, porém, serão ajudadas. Uma vez tendo escolhido o que não podem completar sozinhas, não estão mais sozinhas (T-6. V. A. 6)”.

Pois bem, agora é a hora da mudança de direção do currículo, de uma tentativa de mudança em se exercer em volição e/ou julgamento para uma presença inteira diante de nossos amados irmãos. Eles estão aí e não te decepcionarão. Ao lado d’Eles estão os anjos, que vieram afinal. Se eles pedirem amor, você dá. Se eles derem, você também dá. Esse é o único resultado de soma zero, quando o mundo neutro deixa o amor se estender, pois a matéria não tem poder para coisa alguma (“nada do que vejo tem significado”). 

Por fim, já que começamos falando sobre diferenças, como podemos medir a nós mesmos em relação aos outros? Já dissemos que medir a si mesmo diante de qualquer outro é tomar-se em hierarquias.  Logo, nosso valor unitário somente pode ser definido por Deus, e não por nós mesmos, pois no pensamento separado provido pela mente errada sempre tomamos nosso irmão como um corpo diferente; e se ele é diferente, tal distinção em contraste tem que ser dada em algum grau, ou nível. Este grau ou nível pode ser de ordem familiar, de afinidades (amigos, colegas de trabalho ou partilhas de comunhão em ideais), pode ser que te ocorra que algumas pessoas sejam mais benvindas que outras, e aqui não quero dizer que tal tipo de preferência deveria ser necessariamente negligenciada. Mas a Filiação está em todos e em cada um, pois todo mundo responde por ser “o mesmo”, não existe especialismo de família, classe, raça ou crença para Deus. Tenha fé em todos. Sobre isso, são do escritor argentino Jorge Luís Borges estas palavras: “a preferência pode muito bem ser uma superstição”. 

Ame indistintamente e o mundo será um lugar de puro amor. Antes de despertar, é preciso ver o mundo real. Vamos nos esforçar para isso. 

domingo, 28 de abril de 2019

A prática do instante santo



Falaremos sobre a prática da disponibilidade ao Instante Santo por intermédio do entendimento desta passagem do Curso:

“Um espaço vazio que não é visto como cheio, um intervalo de tempo sem uso, que não é visto como gasto e plenamente ocupado, vêm a ser um convite silencioso para que a verdade entre e faça um lar para si mesma (T-27. III. 4:1).”


A cada vez que encontramos com alguma pessoa, surge uma oportunidade renovada para a cura. Qualquer pessoa, cada encontro, são oportunidades; e como tais não deveriam ser desperdiçadas. Dispor-se ao teu irmão em um tempo visto como não perdido, um tempo dedicado, um tempo sem anseio, mostra-te a verdade sobre a Filiação neste mesmo irmão.

                Este é o perdão verdadeiro, que não está aproximado de um juízo. O abandono do medo que sentes da Unidade está presente em cada encontro santo. O julgamento daquilo que está acontecendo já é distanciamento. Portanto, o encontro santo precisa de total disponibilidade, sem esforço, e o único juízo correto a ser aplicado nos encontros que nos são dados é este: estou aqui e não estou perdendo tempo, pois é impossível para qualquer pessoa viver fora daqui, ainda que seja por um segundo à frente no futuro. Quero estar inteiro diante deste meu irmão, e darei para ele toda a minha atenção.

                Tereza Edim, professora do Curso em Milagres em Belo Horizonte, costuma dizer que a coisa mais importante que você pode dar a qualquer pessoa é sua atenção. A atenção desapegada de propósitos vantajosos retira o sentido utilitário que podemos atribuir às pessoas e, por conseguinte, aos encontros que acontecem diariamente em nossas vidas. Dizendo de maneira bem simples, Um Curso em Milagres é um curso que utiliza os relacionamentos para trazer a mensagem da Filiação Unitária. O Ser Único nos é revelado no instante santo, por intermédio de nosso irmão santo, seja ele quem for. Este é o significado — e o resultado — do perdão.

                Um tempo passado com teu irmão tem que ser visto como uma benção. Toda a tua atenção deve ser voltada para ele, sem que isso seja percebido como um sacrifício. Se tal sensação ocorrer, não estás totalmente disponível e deves considerar que de alguma maneira não estás pronto naquela ocasião. Convém dizer que, até que o encontro santo seja natural para nós, essa flutuação estará presente. Mas uma abordagem de nosso irmão como uma dádiva de Deus para nós pode começar a fazer volver nosso sistema de pensamento em direção à mente certa e à correção da perspectiva prática daquilo que realmente é a Filiação.

                Se todos os egos do mundo fossem desfeitos agora, o que restaria seria o mesmo Cristo.  Os corpos, portanto, passariam a ser bastante desnecessários, pois os corpos estabelecem diferenças, e Cristo é o mesmo. Ver o Cristo em teu irmão significa ver a natureza real dele e, por conseguinte, a tua, pois é impossível ver “fora” o que não estiver “dentro” de você. Os encontros santos são a comprovação desta verdade. Mas para isso é preciso que haja disponibilidade tua para ver ao teu irmão como teu Salvador, aquele que é curado na medida em que te ajuda a ser curado também, pois não existem diferenças para Deus; e se um oferece a cura, os dois tem que ser curados juntos, simplesmente porque Deus não dá para tomar de volta.

                 Vamos ler novamente qual deve ser nossa postura em relação ao tempo que passamos com nossos irmãos, de acordo com o Livro Texto: “um espaço vazio que não é visto como cheio, um intervalo de tempo sem uso, que não é visto como gasto e plenamente ocupado, vêm a ser um convite silencioso para que a verdade entre e faça um lar para si mesma (T-27. III. 4:1).”

                Portanto, existe uma disponibilidade a ser treinada sempre que estivermos diante de nossos irmãos. Uma coisa que pode ajudar é lembrar do julgamento final de Deus sobre nós mesmos, e o julgamento final de Deus é este:

tu és meu amado filho, criado no amor e ao amor pertencente desde sempre e para sempre. Não podes ser julgado diferentemente, a não ser em sonhos. Mas sonhos não são reais e, portanto, sejas tu amor, pois é apenas isso o que és.

Ter essa certeza pode ajudar para que não precises pensar naquilo que pensas que teu irmão pensa sobre ti. A correção da autoestima surge do sentimento de ser amado. Nossa autoestima se engradece diante da lembrança/confiança nesta certeza.

                O instante santo tampouco pode ser induzido pela nossa vontade/volição. A única coisa necessária é disponibilidade. Estar verdadeiramente com uma pessoa é estar ali e só. Momentos assim são julgados como tediosos para o ego, mas lembre-se destas palavras do Curso, no Manual dos Professores: “Tu percebes o mundo e tudo nele como significativo em termos das metas do ego. Essas metas não têm nada a ver com os teus maiores interesses, porque tu não és o ego (L-pI. 25. 2:1)”. Uma das metas mais valorizadas pelo ego é o isolamento.

                O Livro Texto ainda diz que o ego irá apontar os milagres ocorridos nos instantes santos como fantasias (T-17. V. 7:1-14). O aconselhamento do sistema de pensamento da mente errada procura convencer-nos de que os milagres são “insanidade”, excepcionais demais, e que para promover a sanidade é importante, dentre outras coisas, manter distância do instante santo, isto é, de teus irmãos.  Às vezes a aproximação pode até mesmo ser encorajada pelo ego — pois o ego sabe que você não é bobo —, mas uma aproximação cautelosa, cheia de reservas, pois o teu irmão em estado de disponibilidade para o instante santo é um inimigo para o ego.
                O Livro Texto também se refere aos milagres ocorridos nos instantes santos como os momentos em que a Filiação te responde por intermédio de teu irmão. No entanto, adverte que o ego classificará tais atos como fantasias. O ego vai te dizer que a comunicação da Filiação pelo Um é uma fantasia, que estás enlouquecendo, e que deves excluir tais fantasias de teu irmão para salvar tua sanidade diante de “mistérios”. E depois adverte para que não ouças um conselho daquele tipo. Eu tenho um amigo, Marcos Morgado Ribeiro, com quem posso dizer que já tive a oportunidade de confirmar de maneira explícita o fato — pois é um fato — da unidade da Filiação. Já tive inúmeras declarações específicas vinda deste amigo em contextos muito particulares, divulgados como resposta às minhas inquietações através de postagens no facebook, mesmo sem termos conversado sobre nada disso (na verdade, converso muito pouco com meu amigo Marcos e ele sabe muito pouco sobre a minha vida). No entanto, suas mensagens são como balas de prata, pontuais, incisivas e irrefutáveis. Como poderia eu desdizer de especificidades como estas, se não fosse pelo fato de a Filiação ser uma só mente? E o que se dizer de tantos outros acontecimentos sincrônicos, que revelam um aspecto unitário subjacente ao mundo?

                 O conhecido psicanalista Carl G. Jung cunhou para isto um termo: sincronicidade. Quando eventos relativamente destacados de causa e efeito ocorrem diante de “acasos significativos”. Um encontro santo totalmente disposto ao teu irmão tem o poder de produzir acasos assim. No entanto, em nosso currículo, dizemos que os encontros santos revelam o caráter unitário da Filiação, e isso somente pode ser conseguido através do perdão.

                O Livro também nos diz que diante da ocorrência de fatos que comprovem a unidade da Filiação, o ego gosta de falar em “mistérios”. Que não é possível entender como isso pode ter acontecido, deve ser algum tipo de bruxaria etc. Nosso currículo é bastante diferente. Ele nos diz que estamos cegados pelo medo, mas o instante santo amoroso e completamente disponível para os atos ditos surpreendentes são a verdade em sua forma mais pura. Contudo, neste momento da história parece que o instante santo é algo estranho, perturbador, não científico e, portanto, desmerecedor de crédito. Vigora em nosso século a comunicação pelo ego, informativa, mas muito pouco conclusiva, que visa distanciar e produzir encontros não-santos, muitas vezes disfarçados sob a euforia de prazer que o parlatório fugaz e o jogo das ideias engendram. “Ficam no tempo os torneios da voz (Marcelo Jeneci)”.

                Por fim, acho importante uma advertência: nosso irmão não é um oráculo. Não deveríamos entrar no instante santo em busca de respostas objetivas, embora o curso diga que todo irmão tem as respostas de que necessitas. Muitas das vezes, pode ocorrer também de o encontro santo ser silencioso e abranger uma experiência de paz e confiança em alguma pessoa. O instante santo não serve para ganhar coisa alguma. Esse seria o entendimento do ego. O instante santo é um momento no qual ambos estão em serviço comum. No Manual dos Professores isso é explicado assim: “qual serve a quem? Quem ganharia mais somente com orações? Quem precisa apenas de um sorriso, não estando ainda pronto para mais? (M-29. 2:1-4).” Contudo, a experiência de imersão no instante santo produz cada vez maior percepção de seus efeitos, pois: “o plano de estudo é altamente individualizado e todos os aspectos estão sob a orientação e o cuidado particular do Espírito Santo. Pergunta e Ele responderá (M-29. 2:6-7).”

                Tenha fé ao perguntar.

                Obrigado por ler até aqui. Te amo, irmão querido.

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