segunda-feira, 25 de março de 2013

A Verdadeira Autoridade


               
               
               O problema da autoridade não existe em conformidade com o pressuposto mandatório ou a aniquilação da vontade mediante coerção. Uma autoridade tirana não pode ser nada além de autoritária. A Verdadeira Autoridade demanda desígnio em amor — uma resposta direta da Fonte àquele que está sob Sua benção.

               A benção da Autoridade previne a tirania. Ela conduz mediante os indícios do amor, e não através de ordens diretivas baseadas na separação. A noção de ganho ou perda é sem significado para a Verdadeira Autoridade. O problema da autoridade é simplesmente uma questão de autoria, conforme aprendemos no UCEM: “Quando tens um problema de autoridade, é sempre porque acreditas que és o autor de ti mesmo e projetas este equívoco nos outros (T-3. VI. 8:2)”. Se és o autor de ti mesmo, então os outros devem responder em relação direta à autoridade que criastes. A projeção, neste caso, surge do empenho em devotar crença à tua “feitura”, pois se "outros" vierem a crer na autoridade que fizestes, então há “testemunhas” de sua existência.
               No entanto, assim como uma legião, as autoridades criadas odeiam umas às outras, pois vivem em eterna luta pelo predomínio. Obviamente, conforme aprendemos, a noção de triunfo nada tem a ver com o amor verdadeiro, pois a certeza é impossível sem compartilhar. Mas a autoridade que te destes busca apenas escravizar para manter, ou ter para conseguir. Isso é muito debilitante, e altamente insatisfatório. A Verdadeira Autoridade abençoa em primeiro lugar, para depois guiar. Ela não está nem um pouco preocupada com o predomínio, pois suas ideias são compartilhadas. Sendo assim, são da mesma natureza, e não podem contradizer a si, pois o mesmo é igual ao mesmo. A autoridade que quer fazer “diferente e maior/menor” precisa ser questionadas.
               A benção da Autoridade é, portanto, o indício seguro de que o amor está dirigindo. A segurança disto ocorre ao se perceber que a ausência de tirania elimina totalmente o medo. Apenas aquele que busca testemunhas da autoridade que construiu pode querer o medo, pois o próprio medo garante que a tirania está presente. Contudo, e persistentemente, gostaria que lembrasses que a Verdadeira Autoridade promove, através da lembrança em benção, que o amor é a Única Autoridade capaz de compartilhar. Portanto, e mais uma vez, precisas lembrar que és invulnerável. Se és invulnerável, como poderias querer o medo? O invulnerável não teme, pois é invulnerável! Contudo, se sentes medos, a que autoridades estás obedecendo?  — e neste indício plural, eis que o ego é legião.
               Mas tu podes — e deves — responder apenas a uma Autoridade, pois existe apenas Uma. Exercícios que visam fazer com que treines a tua mente em favor da Autoridade são constantes no Livro de Exercícios. Tu não tens controle sobre nada, a não ser sonhos. Mas enquanto brincas de controlar os sonhos, podes também verificar que o medo de Deus é uma falácia muito bem elaborada, através de conceitos construídos unicamente para separar. Separar-se de Deus pode fornecer a ilusão de autonomia e controle, princípios em égide na tirania. Mas ao preço do medo, que é aquele que segura o escudo. Blindando o filho de Deus em uma feitura — ou ego — tal autoridade agora é quem guia e controla através do medo, para o medo e com medo. O objetivo é a autonomia, palavra que neste contexto pode ser substituída por isolamento, ou separação. Obviamente, em tal cenário, a função guardada para ti pela Verdadeira Autoridade jamais poderá ser lembrada, pois seria a traição máxima à autoridade tirana, pois tua função somente pode ser compartilhada. O ego quer que acredites que compartilhar é perder, e perder é morrer. Mas apenas o amor quer que entendas que apenas compartilhando podes realmente ter, pois é bem verdade que “só é seu aquilo que você dá”, ou compartilha.
               Repartir não é compartilhar, e aqui voltamos à diferença discutida anteriormente sobre doar e dar. Doação é caridade e benção, mas ainda visa apenas repartir, ou tirar de si uma porção para ajudar. Obviamente, há um princípio de certeza neste ato, pois doar apoia, no contexto da segmentação, um desapego ou livramento. No entanto, compartilhar não visa nenhum tipo de segmentação, pois a parte que é dada permanece. No “doar”, o alvo é suprir. No “dar”, é garantir.
               A Autoridade somente dá, pois sabe que apenas assim pode suprir e restaurar. Ela não mantém nada para si, tampouco perde alguma coisa para “conceder uma parte”. Na verdade, podemos ver isto até mesmo nas formas, pois um pedaço de alguma coisa no mundo que foi “doada” saiu de um lugar e foi parar em outro. Se eliminarmos deste trajeto o conceito de “dono”, a mudança de lugar não pressupõe mudança nenhuma, pois o deslocamento não existe na Unidade. É por isso que quando as coisas mudam de lugar apenas podes ver a bagunça se ativeres a isto uma noção de pertencimento, ou um sujeito. A responsabilidade pela coisa atirada passa a ser de alguém, e agora não há mais um deslocamento, mas uma variação entre dois. Isto é partir.
               É difícil de entender a Unidade em exemplo de formas, pois não há garantias de elisão, e cada aspecto tomado como exemplo vivifica seu oposto. No exemplo acima, uma coisa sem dono pode ser lixo, abandono, perda, desdém, quinquilharia, apenas imagem, objeto, coisa, algo, pronome, menção. Menciona-se: o que é aquilo? E se “aquilo” não tem dono, aquilo “não é nada”.  O predicado é pressuposto na separação.
               A Verdadeira Autoridade não predica. Ela não tem adjetivos para si. A linguagem e seus compartimentos visam separar em sintaxe para elidir em semântica, mas nem todos são poetas, e mesmo a melhor poesia está dividida em linguagem e imagem. A autoridade surge inicialmente como uma “suposição” de Guia, mas sem nenhuma separação. Tu és predicado por este Guia, mas ele não tiraniza teus caminhos, pois tu não és para Ele um “sujeito”. Apenas assim poderás saber da elisão na linguagem de teus dias, conforme falares de Deus confiando Nele. Conforme fazes com a palavra escrita, convém antecipar em amor tal disponibilidade em teus encontros diários com teus irmãos amáveis. Não precisa ser em assunto ilustrado, mas o mero bom dia Guiado em elisão já é um começo bom, pelo qual a própria elisão surge ao dar amor nas palavras. Não podes temer falar de Deus, mas não precisas colocar Deus como assunto em tuas conversas para fazer Seu trabalho santo. “Amar” é o Verdadeiro trabalho.
               Pai, queremos lembrar do amor em nossos irmãos. Estamos sozinhos em sonhos, mas estamos bem em Ti. Lembrar-se de Ti é tudo que queremos. Para isso, estamos dispostos a dar, a assumir a responsabilidade por este mundo. Nossos sonhos e fantasias tem nos tomado tempo em ilusão neste mundo bobo. Queremos voltar para Ti, meu Pai. Pedimos tua graça de libertação agora, pois estamos prontos para o amor. Em fé te pedimos, amém. 

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sábado, 23 de março de 2013

Por que Jesus secou a figueira na Bíblia?




               Pergunta: Na Bíblia, numa ocasião em que estava com fome, Jesus foi até uma figueira para alimentar-se. Ao perceber que não tinha frutos, disse à figueira que secasse e não mais frutificasse. O que isto quer dizer?
              
               No UCEM encontra-se uma advertência acerca do esforço empregado nas mitologias em revelar o caráter do conhecimento. Sempre que uma narrativa está envolvida, a particularidade dos opostos está presente. Assim, neste contexto, toda narrativa está passível de julgamento. É possível quase todo o tipo de interpretação referente a um texto altamente simbólico, como é o caso da Bíblia, e o caso da passagem acerca da figueira é muito mal interpretada desde sempre. 


               Um Jesus irascível é a primeira das opções a que os incautos se referem para emendar em uma argumentação a favor da separação, ou da posição temerosa de um Jesus cruel. No entanto, outras interpretações alcançaram uma ponta de verdade ao buscar elencar valores entre a fome de Jesus e a ausência de frutos, e assim metaforizaram a questão, e chamaram a “árvore” de “mundo”, e os “frutos” de “homens”, ao que a “secagem” da figueira seria uma espécie de premonição apocalíptica. As duas interpretações possuem elementos demais para gerarem um posicionamento maduro acerca da simbólica. Portanto, não recorreremos a nenhuma delas para tentar explicar seu significado, mas faremos uma apropriação da historia para seu uso dentro de nosso currículo. 


               A fome de Jesus é uma ocorrência em seu corpo, que dificilmente seria desesperadora, já que o Jesus dos evangelhos podia multiplicar os pães e peixes, e que seu alimento era espiritual, como se vê no episódio bíblico dos quarenta dias e das tentações. Ir até a figueira buscar os frutos significa uma colheita, e apenas neste sentido se deve entender o ato como uma busca material. Daqui, a simbologia presente é a da entrega. Uma árvore deve entregar-se ao ato de ser frutífera. Se ela não está no tempo adequado, deve estar em flor, e se não estiver em flor, não está no tempo de colheita. Se Jesus viu a árvore e entendeu assim, por que então desejou que ela secasse e não forneceu a si um milagre, como a frutificação? Simplesmente porque a secagem da figueira representa o intransitório, um apontamento para o que não pode estar em direta comunicação o tempo todo, que não pode fornecer o tempo todos os seus frutos, e assim não produz o milagre da entrega e do fornecimento.


               Pergunta: não entendi. Não há resposta aí. Por que então secar a figueira?


                Se algo não dá frutos, não pode multiplicar. Se a figueira não deu seus frutos na presença de Jesus, que é a natureza da vida, a figueira não podia prosseguir. A metáfora aqui, para o nosso currículo, é a de que a natureza não advoga pelo egoísmo, embora não estejamos falando que a figueira seja egoísta. Por isso se diz que há perigos na interpretação simbólica, pois ela alcança diversos significados. A ira de Jesus é apenas a acepção diferenciada da lei segundo a qual aquilo que não dás, não recebes. Se a figueira não deu frutos, não recebeu a vida. Mas a “vida” e os “frutos” aqui não têm interpretações diretivas, como “filhos” ou “amor”. Na verdade, apenas aponta para a lei segundo a qual o que dás, recebes. Se a árvores está seca, isto é, sem frutos, ela é apenas uma árvore seca. 


               Pergunta: Tudo bem. Mas daí a matar a árvore? 


               Nenhuma árvore foi morta. Isto é uma história! Não precisas levar tudo ao pé da letra quando se trata de histórias. A linguagem é simbólica. Portanto, uma história em linguagem é uma concepção em símbolos. No entanto, vamos direto ao que queres saber:


               Mais tarde, depois que a figueira secou, Pedro e os apóstolos maravilharam-se com aquilo. Naquela ocasião, eu lhes disse que não deveriam estar maravilhados, pois as montanhas que viam ao redor poderiam ser atiradas ao mar, caso algum tivesse fé para fazê-lo. Isso ainda é assim, pois esta é uma verdade eterna. “Não existe níveis de dificuldades em milagres” quer dizer isso. A figueira sem frutos é o ego, aquele que não dará nunca de comer a Cristo. Cristo desfez a figueira, assim como te ajudará a desfazer teu ego. Teus irmãos acreditarão no desfazer de teu ego como algo maravilhoso. Portanto, deves dizer-lhes nesta ocasião que a montanha pode ser movida facilmente. Aliás, tu mesmo poderás fazê-lo, mas dificilmente a bagunça resultante em poeira e estrondo em torno disto vale a pena para gerir a experiência em sabedoria, pois o exemplo em imagens seria um gerador de medo. Um homem que se lembrou de Deus ao nível deste conhecimento, sabe que não precisa de espetáculos para induzir a crença, e sabe certamente também da espécie de figueira ele pode desfazer, pois esta tal figueira que se diz na Bíblia, esta certamente secará. Fica contente!


               Obrigado.


               Amo-te, pelo que te agradeço em aceite. 

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De que se trata os níveis dos quais Jesus fala no Curso?




               Os níveis podem ser comparados às camadas entre diferentes escalas de valores. Uma coisa que é comparada à outra está afastada desta por algum valor, ou nível. A graduação da escala não importa. Não estamos a falar de diferenças em termos dos “continentes” destas diferenças. A Unidade não pode ser dividida em nenhum nível; não existem diferenças de valores na Unidade, pois não há em Si divisões ou partes a serem escalonadas.

               O amor não obedece a nenhuma escala, pois ele não distingue. A distinção em níveis é uma característica da separação. Os níveis a que se reporta o milagre são impossíveis, pois a Fonte dos milagres não está escalonada. Portanto, não há milagres maiores, ou especiais. Quando lês a palavra “nível” no Curso isto deve ser entendido como “uma parte” ou um “pedaço” separado de outro, ou seja, está-se referindo à ilusão em separação. Se um milagre pudesse ser dado em um lugar em vez de outro, ou em outro lugar simultaneamente, os milagres poderiam ser diferenciados entre si como mais ou menos benéficos. Contudo, lembremos que “o milagre nada faz. Tudo o que ele faz é desfazer (T-27. I. 1:1)”. Sendo assim, como poderia um "desfazer" de uma coisa igual acontecer de uma maneira diferente aqui ou ali? Se o desfazer propõe uma mesma resposta, ou um objetivo comum, como é o caso dos milagres, então a diferença entre dois “desfazeres” que angariam diferentes objetivos é impossível. A cura do cego e a multiplicação dos peixes é a mesma coisa sob o ponto de vista da cura da escassez. Nada falta ao Filho de Deus. O Milagre é a proposta em perceber a abundância através do desfazer da noção de escassez.

               Os milagres não são eventos associados à forma, mas podem ter seu pressuposto em desfazer aplicado à forma, de modo que cada um perceba o que vê como verdadeiramente um milagre. Mas os milagres não são espetáculos (v. princípios dos milagres); se o vires, precisas saber que algo foi desfeito em direção à Unidade, em pressuposto de expiação. Obviamente, a expiação e o milagre trabalham juntos, e um pressupõe o outro. Não pode haver milagre sem a graça de Deus, assim como a expiação é um milagre da graça. Ambos estão divulgados como forma se parecem surgir como imagens neste mundo. Mas muitos dos milagres que acontecem são realmente uma forma de te fazer ver o mundo real, ou em favor de direcionar o teu empenho em direção à mente certa.

               Quando pensas que um milagre precisa se manifestar extraordinariamente, podes estar associando o milagre ao medo. Um empenho fortemente associado ao medo pode querer ter para si uma “prova” do desfazer, sendo que esta prova executa uma noção de diferenças em níveis, pois agora um milagre não surge para desfazer, mas para “dar uma resposta”, ou “reforçar uma opinião”. Ora, isso é impossível quanto aos milagres, pois eles vem para dar, e dar é receber! Como poderiam então estender, se fossem meramente a prova de alguma coisa? O espetáculo de cura não é a cura, pois se acreditas que ao te curares estarás devendo algo a Deus ou ao Espírito Santo, estás enganado quanto ao primeiro princípio dos milagres, que dita que não há diferenças nas expressões de amor. Como poderia Deus aguardar alguma coisa de Seu Filho como um pagamento? A gratidão não é um pagamento, pois é expressada em oração. Então, se o milagre é dado, ele é recebido onde é dado, e não há para isso nenhum tipo de “mistério” ou “compreensão simbólica”, pois os símbolos são artefatos da Visão em percepção.

A verdadeira Visão não vê nos milagres excentricidade. O natural não pode ser especial. Se vires a um doente e acreditares fortemente que podes dar a este doente o milagre da cura, estás querendo "adicionar algo" a ele. Não vês que isso contraria o milagre como algo que vem apenas para desfazer? Desfazer a doença somente pode ocorrer no contexto da anulação da crença em escassez. Na Bíblia, Jesus Cristo repete em diversas ocasiões expressões tais como: “levanta-te e anda!” “ A tua fé te curou” e tantas outras que apontam para o fato de Ele não ver escassez naquelas pessoas.  Realmente, se crermos que a vida é um sonho em imagens — e é bem isto o que ela é — se acreditamos verdadeiramente nisto, então as imagens que surgem do contexto da escassez são aquelas nas quais se provaria que separação é cruel. No entanto, se admitires diante de teu avanço no aprendizado que as imagens que vês são de tua própria fabricação ("meus pensamentos são imagens que eu tenho feito"), então poderás dizer que a crueldade em imagens somente pode surgir para aquele que se crê punível. Ora, claro que um milagre surgido neste contexto temeroso estará totalmente divergido de qualquer propósito de cura, pois o nível no qual ele venha a surgir como efeito estará dissociado de sua Causa. O nível no qual o medo atua é o nível da percepção. Se o milagre em percepção atua como ação, a reação do observador somente será amedrontada. Por isso que Jesus, ao divulgar milagres, ressalvava aos seus irmãos aquelas expressões de ênfase, pois eles precisavam restaurar em suas mentes a certeza, ou seja, precisavam perceber que Jesus Lhes relembrara de suas mentes certas em Si Mesmos, pois eles, curados, não poderiam manter a cura, acaso caíssem em idolatria ao homem Jesus. E é também por isso que se diz no UCEM que uma pessoa pode “emprestar” sua fé a outra, pois àquela não haverá mais dúvidas quanto à verdadeira abundância. Crer na abundância é confiança, o primeiro atributo dos professores de Deus.

Jesus afirma no UCEM que não Lhe devemos reverências. A reverência deve ser reservada a Deus. Tampouco os milagres devem ser reverenciados. “Milagres devem inspirar gratidão, não reverência. Deves agradecer a Deus pelo que realmente és (T-1. I. 31:1-2).” Devemos a Jesus o respeito, por ser um irmão mais velho e amoroso, e a obediência, por sua maior sabedoria, conforme Ele mesmo deixa claro no UCEM (T-1. II. 3: 7-8). No entanto, isto está distante da noção de idolatria, pois um Jesus idolatrado seria um ídolo e não o exemplo do Mesmo. O mesmo não pode ser idolatrado, pois a natureza indistinguível da igualdade elide a possibilidade de idolatria. Quando Jesus afirma: “tu és o Filho de Deus”, ele reitera a Ti Mesmo como Si Mesmo, sendo ambos apenas Um. O curador cura o curador  não curado.

O fato de não haver níveis de dificuldades em milagres abrange uma grande associação de fatores que não podem ser expostos. Como poderíamos classificar todos os milagres como iguais, se levantarmos os exemplos de suas ocorrências diferentes no mundo das imagens? “A tua fé te salvou” quer dizer isto: a fé, que abrange uma expectativa em algo “além deste mundo”, é a resposta ao fato de que o milagre desfaz uma crença. Ele não prova nada. Ele apenas restaura na mente daquele que o recebe a certeza de sua mente certa e da abundância do Filho de Deus. Ademais, o milagre não é apenas passível de ser visto nas imagens. Como já dissemos, o fator preponderante no milagre é a sua capacidade de fazer com que o Filho de Deus se lembre de Casa. Para isso, o amor recebe em vias de alegria o repertório da ocorrência de milagres, e o amado filho sente-se reconfortado por lembrar-se de si mesmo como amado, querido, requisitado com a urgência que se dá àquele que está distante — mas apenas sonha-se que alguém assim está.

Pai, lembramo-nos de Ti pelos milagres que nos destes. Agradecemos a Ti por todos os milagres nos quais recordamos Tua graça. Pedimos a nossa herança em milagres conforme prometeste ao teu filho, que se lembra de ti isento de petição, em herança, conforme sendo o mesmo dar e receber. Dai-me, Pai, a graça de retornar à minha consciência os milagres que dei como recebidos, pelo que lembrarei do mesmo e de minhas criações, pelo que é Tua Vontade, o despertar de Teu Filho, amém. 

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sexta-feira, 22 de março de 2013

A Inquietude durante o sono noturno.




               O sono ao qual chamas vida parece variar continuamente de acordo com suas baixas e altas em expectativas. Deveras, aquele que não tem expectativas não pode se alterar em digressões e esperanças de mudanças. A vicissitude surge em um contexto de investimento em escassez. Somente o oposto da escassez, que é a volúpia ( a eternidade não cumpre opostos ), poderia admitir uma associação entre o que se diz verdadeiro e o que é ilustração. O amor é invariável. Seria impossível que a variação conformasse em si mesma qualquer tipo de glória ou divulgação de ameaças, pois seu pressuposto é a mudança, e não ater a classificação a um único estado. A vida em sonho é sempre digressiva.
               No caso do sonho noturno, o que ocorre é uma generalização dos pressupostos da variação em acordo com o tempo. Obviamente, o tempo pode ser “suprimido” ou alterado durante o sonho noturno, conforme o sabemos. Quando o sonho noturno e o sonho diurno buscam “competir” pela realidade do sonhador, há um conflito geralmente estabelecido pela insônia ou inquietude durante o sono, pois nenhum destes dois estados parece “agradar” ao sonhador. O alto grau de hipnotismo não parece favorecer seu estado de atenção, e aquele sonho que melhor o seduzir, vence.
               Um pode sonhar que naquilo a que chama vida, há uma torneira pingando, ou uma cigarra em estrídulo, o impedindo de dormir. Este sonho configura sua escassez em sono e comprova sua des-espiritualização em fadiga. Por outro lado, o sonho noturno ao qual consegue se entregar, “comprova” em imagens de terror que o sonhador do sonho é uma mente aturdida, e que não há escapatória para ele, pois as imagens que surgem neste contexto atribuem a si mesmo um débito em relação ao cotidiano do sonhador, e aparentam ser mensagens que “não o deixam dormir”.
               Obviamente, tal estado ocorre mediante uma grande devastação, ou cisão, na qual o sonhador prefere alternar seu estado consciente entre sonhos, para divulgar sua fadiga em termos experimentáveis. Na verdade, o sonhador não quer dormir, pois ele precisa divulgar que o sono é necessário e lhe falta, tanto que seu corpo em escassez admite o cansaço, e todos os atributos do corpo parecerão falhar, pois ele teve uma noite ruim.
               No entanto, não é possível que se peça ao separado para sonhar com estas coisas em sua consciência. Ele não pode sabê-las. Seu total alheamento em relação aos pressupostos do despertar é tão inconsciente que somente através de uma revelação da verdadeira natureza do corpo ele poderia entender sobre o cansaço físico. No entanto, e adicionalmente, o homem que vê a si mesmo como corpo precisará de descanso, pois tal investimento demanda muito gasto em energia.
               A noite vem para estabelecer — como oposto — a denúncia acerca daquilo que foi vivido — através de opostos — durante o dia. O sono passa a ser o oposto da vigília, e o pressuposto desta em “descanso”. O sono noturno são teus pensamentos em imagens, não formatados pelo tempo, em variáveis sucessivas e diferenciações de conceitos. Não temes os absurdos do sonho noturno, pois criastes regras para dizer a ti mesmo que durante a noite “é assim”.
               Quando não consegues adormecer, significa que estás fadigado em fadiga. Algo semelhante em apropriação ao próprio cansaço em estar cansado. Parece um absurdo? Pois é para se rir mesmo, conforme a separação só engendre absurdos. O ego, em cansaço, pede ao corpo, em cansaço, que descanse em sono, enquanto ele mesmo — o ego — satisfaz a si em autômatos de sonho em vigília. No entanto, para isso acontecer, o corpo precisa estar acordado, e se o ego quer sempre “mais”, não podes dormir enquanto ele continuar a “fazer”. O empenho do ego em gerir conceitos em imagens é interminável, mas durante o sonho noturno, seu predomínio pode ser obliterado por um que esteja em vias de despertar. Assim, esta estratégia em insônia visa confundir o sonhador entre sonhos, e dificultar a percepção da ilusão de ambos os estados. Tanto o sonho noturno quanto o sonho em vigília são irreais. A alternância entre estes dois estados em várias vezes durante uma mesma noite pode ser entendida como o empenho do ego em demonstrar que somente podes acordar de um sonho para cair em outro.
               Isso não é assim. A ocorrência da insônia pode ser curada meramente entregando o teu sono em confiança ao Espírito Santo. Como se faz isso? É muito simples: quando fores dormir, lembre com amor de uma situação na qual o dia “te forneceu” amor. Isto fará com que te lembres de ti mesmo amável. Tenta lembrar-se de como és amável. Busca, depois, livrar-se da imagem que suscitou tal pensamento, e te entrega unicamente à sensação. Isto fornecerá para ti uma compreensão do corpo como um instrumento de aprendizado para o amor. Não é uma libertação, pois as sensações são percepções; mas é um empenho em direção à cura do corpo como autômato em jogo de sonhos. Ao chegar a este estado, que já sabes como experimentar, pede ao Espírito Santo que vele pelo teu sono, enquanto ainda dormes. Ele compreenderá isso como tua disponibilidade, e não falhará em admitir para si um indulto para conciliar o sono noturno com teu empenho em despertar.
               Na verdade, “dormir direito” é uma expressão contraditória, pois ninguém pode verdadeiramente dormir. Apenas o sonho em “dormir” assume para o sonhador a possibilidade de encontrar no sonho noturno um oposto à vida real. Tudo lá pode ser obliterado, variado, ressignificado enfim, qualquer empenho em gerar salvação através de um oposto pelo mesmo, causa uma diferenciação neste “mesmo” fabricado. Explicando novamente: o sonho noturno não pode repetir a vigília, assim como as imagens da fantasia não antecipam o evento fantasiado. Sonhar é reproduzir fantasias, e fantasiar é sonhar reproduções.
               Se não consegues dormir direito, és agora alguém que pode definir a si mesmo como “aquele que não consegue dormir direito”, e isso é uma limitação. Tampouco podes definir teu sono sem definir a ti mesmo em auto-julgamento. Como farás então a diferenciação? Apenas encontrando o meio termo entre o que é dormir e o que é realmente descanso. O descanso real está em dormir sossegadamente, não em matérias de impulso ao sono do sono. Dormir bem é apenas dormir, e nada mais. Se quiseres não te inquietar à noite, procura devotar teu dia aos encontros santos e aos instantes santos. Na medida em que aprenderes a ter apenas isso, teu sono noturno será também um sono santificado. 

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