sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Sobre o exercício 14 "meus pensamentos são imagens que fiz"



Por que é dito que “meus pensamentos são imagens que fiz?”.

Os pensamentos são imagens imateriais. Todo pensamento é imagem ou gera imagem. Mesmo o pensamento abstrato é imagem, em termos acertados do que garante perceptivelmente. Assim: se o pensamento sobre democracia não gera imagem direta, pois o conceito de democracia é em si abstrato, por outro lado, o conceito em si perdura na mente em forma de estrutura passível de “imaginar”, no que se refere a: o povo, os eleitos, a partilha, a divisão, a justiça, a fome, a saciedade, a igualitariedade, o mesmo. Neste último exemplo, a elisão e a verdadeira democracia. Portanto, em abstrato, tal termo [democracia] alcança vigência em pressuposto imagético de outras abstrações ou termos que o significam. De certa forma, tudo são imagens em extensão. Ao pensar em democracia um roteiro simples e possível é pensar em igualdade — justiça — harmonia — felicidade — uma flor.

               No entanto, nem todos são poetas e não digo que as coisas no mundo se resolvam assim. Como seria então o mundo uma significação explícita de teus pensamentos se não fossem estes mesmo os diretores do teu mundo? Especulação metafísica não vai gerar muito entendimento. Portanto, vejamos os pressupostos do espírito como uma ferramenta de significação do mundo, sem medo de compreender somente por que é “diferente”. Aquilo que vem “de igual” para ti, na bagunça que virge em tua vida, nunca foi democrático.

               Vamos à prática: esse relógio que está a tua frente, ele é um pensamento?
               r- Não parece ser.

               Pois bem, o que ele é, então?
               r- Ele é um objeto útil. Eu posso pegar nele, mas não posso pegar em um pensamento. Um pensamento também não me dá as horas.

               Certo. Ele é um símbolo, então?
               r- Pode ser. Mas não me parece ser um “pensamento”.

               Mas existe o pensamento sobre horas, sobre o tempo,  e eis um relógio a tua frente. O que podes dizer sobre isso, levando em consideração o Curso?
               r- Ele é o símbolo de meu pensamento sobre tempo?

               Ou sobre correias, ou ataduras, ou ainda sobre estéticas e atavios, ou ser for um relógio caro, sobre status e por aí podemos dizer então que ele simboliza muitas coisas além da simples marcação das horas, não é mesmo?
               r- Sim. Certamente. Então não posso dizer quase nada sobre ele?

               Na verdade, não. No entanto, em todas essas figuras a que chamas objetos destes nomes e considerasses como sendo verdadeiro e que o nome que deste era certo. Adão nomeou todos os animais por desígnio de Deus, pois o poder criativo de Adão, em unidade, era o mesmo poder Dele. Depois da separação, o homem passou a projetar nomes. A abstração, que era o estado da unidade, são os pensamentos abstratos. Eles representam em ato a abstração no mundo, como a ocorrência de um Estado Democrático, o Amor Romântico, o Livre Arbítrio etc. Mesmo assim, essas coisas se conjugam como imagens muito facilmente, pois o estado democrático, por exemplo, precisa de “representantes”.

               As imagens que vês não devem ser temidas nem veneradas. Pessoas são imagens e símbolos de seus egos ou da mente certa. O que vês depende deles? É claro que eles podem representar o equívoco de suas mentes, mas a prontidão é de Cristo, portanto, não julgues e tudo o que surgirá serão imagens certas. Isso pode mesmo te levar ao medo, como diz o Curso, mas não será assim por muito tempo. Quanto aos objetos (como, por exemplo, um gato ronronando, uma flor dançando ao vento, um carro colidindo com outro etc) isto é, a dinâmica dos objetos, não há culpa no que vês. Se o que vês é terrível isto não significa que constelastes o terror, mas que estás a ver terror com muita dúvida. Vemos que isso é assim pois, em momento terrível, queres mesmo é te livrar do terror. A não ser quando acontece com “os outros”. Neste caso, pode ser que um pare o carro no trânsito para ver cadáveres. Isto significa que viram sua própria morte? Sabes que não é assim. Portanto, não existe associação direta entre os símbolos e seus significados, mas podes ter certeza de que os pensamentos são imagens que fiz. E o mundo é pensamento.

               Se quiseres harmonizar as imagens de “teu mundo” basta não interpretar nada e, ausente de todas as defesas, siga a vida. O que te aparecer à frente é responsabilidade tua, pois são teus pensamentos de volta, mas isso não significa que a sua aparição imediata é uma “leitura” de tua mente. O mundo não é oráculo. Se fores a bater em termos de “bom” ou “mal” decerto julgaràs errado em muitas ocasiões, pois a correção do pensamento pode apresentar necessidades de correção do mundo não apenas em comportamento, mas em atos graves nos quais as constelações, isto é, as várias combinações de símbolos possíveis podem aparecer hora como grave ocorrência, hora como evento aprazível, mas nunca há um “fim” nas imagens, uma imagem decisiva, que aponte certa crise como “finada”. O que acontece é que, de repente, o nó se desata, e eis tudo. O navegador busca o porto, apenas isso. A ocorrência das marés ele pode prever, mas não pode controlar os fenômenos que partem de contextos dos quais ele mesmo não está consciente. Neste caso, o melhor a fazer é prosseguir navegando nos termos mais práticos possíveis, pois se, por capricho, um comandante quiser encerrar a navegação para tentar "entender" o simbolismo da tempestade, pode acabar encontrando uma referência em naufrágio, pois todo pensamento gera imagens em algum nível, e toda dúvida é emergência. Melhor será, sempre, trabalhar firme, com fé em Deus; relembrando aqui que Deus é a força na qual confio. Não se pode ler o mundo como símbolo sem medo, a não ser com a ajuda do Espírito Santo, que interpreta sempre corretamente.


               Portanto, medo é falta de responsabilidade. O covarde é, de certo modo, um irresponsável, pois está a não assumir diante de si seus pensamentos. Esteja aberto a tudo que vês. Aberto não significa estar atento ao que vês como se tudo fosse favorável. Aberto é assumir responsabilidade sobre o mundo como ele é, com suas tristezas e alegrias, como se tudo de certa forma favorecesse. Não há meios de categorizar o tempo em suas ocorrências em conceitos e objetos e dizer com garantias: isso é bom, aquilo é ruim; pois o tempo transita virando ao avesso essas categorias de modo muito frequente, postos estarmos sempre a mudar nossos pensamentos inquietos. Amar “o que é” é amar "como é", até que mudes definitivamente tua maneira de pensar. O medo dos pensamentos livres produz um mundo acorrentado. Ausência de defesas é a chave para o relacionamento acertado com o mundo.


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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Sobre a sensação de estar sendo advertido



Por que sinto sempre a sensação de “estar sendo advertido” nas entrelinhas do que vejo e ouço?

R: A advertência visa corrigir ou educar no sentido de um melhoramento, ao menos assim supõe aquele que adverte. Quem tem garantias do que adverte? O que se pode advertir que não esteja ligado ao futuro? Poderemos responder estas questões simplesmente, com uma única resposta. Para isso, vejamos algo sobre os relacionamentos especiais.

Especialismo é idolatria também. Há pressuposição de níveis no especialismo. Com tempo de estudo, podemos adquirir a crença de que o especialismo está restrito aos relacionamentos. Contudo, não é apenas neste nível que ocorre especialismo. Acontece que, entre nossos irmãos, o especialismo ocorre de modo mais ou menos explícito, pois vemos que há “hierarquias sociais” (familiares, profissionais, de afinidade etc) que nos colocam em bom termo para julgar os outros, para o ‘bem’ ou para o ‘mal’. Decerto, o especialismo entre nós e nossos irmãos trará o importante conceito do relacionamento especial, que vimos abranger os conceitos de amor e ódio especiais. Tudo isso para cumprir o teatro do mundo. Ver o irmão em igualdade, sem ressignificá-lo socialmente, é um contexto da lição que diz: “hoje quero ver meu irmão como a mim mesmo”.

Dois juízos não podem ocupar dois irmãos unidos em um.  Portanto, eles terão que desfazer-se de seus juízos durante o instante santo. Já dissemos que o instante santo é um conceito aproximado à noção de agora, pois o agora é o instante, e se ele é um instante disposto ao Espírito Santo, tal instante só pode ser santo. O agora santo, o instante santo, o tempo santificado. Isso pode ser percebido e sentido muito literalmente, como diz o Curso. Claro que ter medo de teus irmãos é um investimento bom para o ego. O medo sempre especializa o que percebe. Ele precisa de categorias, pois só vais elevar tuas defesas contra outras categorias. O que é visto como o mesmo não pode gerar temor, pois é a mesma coisa, e pode-se confiar em algo que é o mesmo. Mas cada ator no teatro do mundo é um ego “diferente”, visto em uma personalidade “diferente”. Como ter confiança em um cenário assim?

Realmente, parece impossível. A intuição do mesmo não é suficiente, nem a teorização da mesmidade. É preciso confiança em que não há dois irmãos ocupando o mesmo espaço em espírito. Não há dois. O número dois causou a separação porque trouxe consigo o conceito de opostos. Tu acreditas em duas — ou mais — coisas quando vês com tua visão física. Há, por exemplo, uma caneta ali, um lápis acolá, mais a frente uma mesa etc. Mas tudo é uma imagem só. Isso pode ser compreendido facilmente, mas não será de grande utilidade se visto com os olhos do corpo, pois será apenas a confirmação erudita de uma solicitação em espírito. Podes ser um erudito espiritual e logo estarás apto a ser rotulado dentro dos “graus”. Decerto, o próprio Curso fala em professores avançados, e aqui no mundo isso ainda é visto assim. No entanto, quem alcança o “avançar” sabe que regressa na medida em que avança, como diz o Curso. Todo paradoxo alimenta o desfazimento da lógica especial. Não adianta saber os conceitos do Curso. Nem mesmo todo o papel legítimo de ensinar está atribuído a uma erudição. Tudo o que precisa ser ensinado está disponível através do Espírito Santo. Ele está em todos. Ninguém precisa estudar para ser professor de amor.

Mas pode ser que sejas iludido de tal forma que para ti a busca pela tua herança natural se torne significativa. Neste caso, precisas aprender a desfazer o que aprendeste erradamente. Este é o papel do professor. Ele apenas desfaz o que não é necessário. O professor avançado é, na verdade, uma pessoa que já desfez o tanto que o capacita a ajudar melhor. Ele não é especial de forma alguma, já não mais aceita para si diferenças que inflam egos. Ele nem divulga o que não é perguntado ou mesmo não se atina apenas a terminologias específicas, pois aprendeu sobre especialismo para lembrar-se do amor, e aprendeu sobre o perdão para lembrar-se do amor, e aprendeu sobre para lembrar-se do amor.

Quando te sentes advertido, parece que o significado do mundo trouxe para ti uma reprimenda. Mas quem é o responsável por significar o mundo? Quem se entrega ao martírio da perene correção? Já dissemos aqui que o professor avançado aprendeu a seguir em direção do retorno. Isso pode ser ilustrado por uma viagem de volta. Na viagem de volta, o caminho passa a ser mais fácil, pois na medida em que chegas mais perto de casa, a estrada passa a ser relembrada com bastante familiaridade. Nem precisas mais ficar procurando placas ou sinais para achar o caminho, pois o caminho agora é novamente claro para ti, quando voltas.

Se estás a te sentir advertido pelos “sinais”, lembra-te do caráter simbólico do mundo. Não há garantias nos símbolos, não sabes ainda ver a harmonia diretamente. Quando julgas os símbolos, perdestes todo o mana, isto é, a energia vital daquela espécie de “informação”. Será que ainda crês que o Espírito Santo gostaria de te advertir com punição? Certamente, o Curso diz que as crianças choram quando lhe retiram um canivete ou uma tesoura. Não sabes o que são tesouras no mundo dos símbolos. O que pode te ferir? Será que sabes? Se soubesses, não precisarias de Um Curso em Milagres.

Os milagres são respostas claras a necessidades específicas. Eles são percebidos de modo muito claro por aqueles que deles participam. Podem não ser conscientes em algumas ocasiões, como muito bem diz o curso. Não sabes quando estás operando milagre. Ao falar banalidades aparentes em alguma espécie de brincadeira, podes estar a emitir algo muito importante para alguém, mas não sabes disto. Às vezes, nem a pessoa que ouviu percebe, mas há nele Alguém Que sabe. Por isso é tão necessário que disponibilizes também por fora da gravidade. O ato grave, da imposição de um milagre, não é possível em atos temerosos. Quando é assim, o sujeito que participa da experiência pode ter graves dificuldades em se recuperar, e tudo o que não precisamos é de aumentar o medo em pessoa nenhuma.

Portanto, a advertência que percebes vem de uma necessidade tua em “procurar milagres”. Existe por parte do ego uma ganância por experiências, digamos, espirituais. Ele precisa de tua disponibilidade em achar o maravilhoso, o fantástico, para nisso dispor novos significados. O mago, o guru, o médium, o santo, o professor avançado, o estudante, o revelador, o profeta, tudo são especialismos espirituais daqueles que entendem os “segredos do mundo” e estão atentos às suas mensagens. Ora, se o mundo é uma fabricação tua  e se estás a ler até aqui de alguma forma sabes disto  então o mundo pode trazer para ti sinais de ti mesmo. Se estiveres temporariamente obliterado pela mente errada, receberás respostas indignas. Se a mente errada “joga contra ti”, então o mundo parecerá sempre contrário, te advertindo sobre erros e punições, geralmente sem apontar nenhuma forma de desfazê-las ou, pior, insuflando formas ultrajantes. 

Por isso Jesus nos diz no UCEM que somente podes estar seguro quando estás “completamente despreocupado com a tua prontidão, mas manténs uma confiança consistente na minha”. A prontidão do ego para garimpar milagres é pífia e totalmente obliterada pelo medo. O que ele sai a procurar são fragmentos do fantástico, por vezes muito atraentes, como na malícia que há por trás dos truques de mágica. Se fores a se dizer responsável por todo tipo de predição, certamente assumes um poder mágico para guiar tua vida.

Tudo que o Espirito Santo transmite é fácil, seguro e amoroso. Ele não quer jogar xadrez contigo, nem pretende que montes um quebra-cabeça de dez mil peças para saber o que é o mundo. Muito menos vai a fabricar um "especialismo espiritual" para as imagens. Mais à frente vai se dizer no mesmo texto citado acima, do UCEM, que tua dificuldade em trabalhar em milagres está associada ao teu não aceitar da Expiação. Não precisas mudar o teu comportamento, já falamos aqui sobre a ilusão de bonzinho. Educação não é cerimônia, isto é certo, mas não tens que amar o mundo em comportamento, pois o comportamento é da personalidade e a personalidade é máscara e ego. A individualidade do espírito na união em instante santo mostra que mesmo duas personalidades muito diferentes, com opiniões bastante divergentes, parecem estar sempre de acordo, pois estes são amados e percebem a si mesmo como disponíveis. Isso é a elisão da personalidade em espírito. Não podes “fazer” isso em comportamento.


Quanto às perguntas iniciais, sobre advertência acerca do futuro e garantias de certeza, podemos dizer que já respondemos ao dizer que a prontidão é de Jesus, e não do ego, que busca construir um reino fantástico e enigmático. Podem ocorrer no teu dia coisas maravilhosas e realmente miraculosas, mas essas são sempre totalmente amorosas e seus significados são tão claros e imediatos que nem se precisa pensar sobre elas. Tudo que é enigmático é do ego. Tudo o que visa confundir não ajuda. 

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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

UCEM e a Arte - (Zé Ramalho)

      

            Muito me desagrada ouvir pessoas desatentas comentarem sua desatenção como uma sentença. Certo dia desses, disseram-me de Zé Ramalho que suas músicas pareciam búzios, jogo de Búzios, sendo a desordem. “Não dá pra entender quase nada do que ele diz.” Realmente, curioso é: como então tanto êxito? E há tanto tempo? Não pode ser apenas o nada; ou, em melhor hipótese, talvez seja mesmo por isso. Portanto, sendo tal “nada” meramente simbólico, diremos dele coisas capazes de aproximar.

               Na verdade, se estiveres a ler até aqui, pode ser que já alcances entender a música de Zé Ramalho, pois não fostes embora ainda. De toda forma, emprego mal o verbo “entender”, pois não é este o caso, embora seja exatamente este o engano: não se pode alcançar entender — na acepção que se compreende algo como sendo o exato igual — as composições do poeta místico Zé Ramalho. Em suas músicas nada corresponde ao exato igual. Uma pedra pode ser tudo, mas nunca deixará de ser fundamento. Portanto, é nas imagens que reside o sagrado “segredo” das mensagens de Zé Ramalho. Tentaremos esboçar aqui uma aproximação a algumas delas.

               As músicas de Zé Ramalho sugerem as imagens em potência estética capazes de traduzir para a consciência mensagens de alta importância para o indivíduo. Quando se diz, por exemplo: “se eu disser que é meio sabido / você diz que é meio pior”, no meio de uma canção que trata de um homem e seu avô-pai (Avohai), percebe-se claramente uma acepção plausível nas conversas entre homens, onde o “sabido” é desfeito no meio de uma conversa sincera. Você diz a bobagem de sabido e o amigo demonstra amavelmente o erro e já emenda no acerto. Geralmente, disso se ri, pois percebe igualmente a si mesmo como um “planeta quando perde o girassol”, isto é, como alguém que saiu da órbita do sol, que perdeu a linha, saiu do foco etc, ou como diz o UCEM: “aquele que for o mais são no momento em que a ameaça é percebida, deve lembrar-se de quanto é profundo o seu débito para com o outro e de quanta gratidão lhe é devida e deve alegrar-se por poder pagar a sua dívida trazendo felicidade a ambos" (Texto: Cap 18, V, 7:1).

               Em “A Peleja do Diabo com o Dono do Céu” o embate dos opostos é clarificado desde o título. Nosso apego em imaginar o mundo como sendo o simulacro do céu, numa espécie benevolente de platonismo, é desfigurado pelo ‘diabo’ da música com argumentos em favor da relatividade do bem e do mal. Certo é que a leitura unilateral do platonismo como o bem “bonzinho” desfigurou a sociedade a tal ponto que a neurose coletiva hoje em dia parece residir na crença em que o acerto pode vir a ser o errado acertado, ou a correção pela culpa, ou ainda a crucificação pela vida afora, no que se afirma como algo natural e justo que “cada um carregue sua cruz”. Nisto, nenhuma moral nos valha. Já sabemos pelos ensinamentos do UCEM que não há motivo para se carregar nem cruz nem culpa. Mas gostaríamos que a cruz (ou o medo) fosse o paraíso. Entanto, adverte o artista:


“Com tanto dinheiro girando no mundo,
quem tem pede muito, quem não tem: pede mais.
Cobiçam a terra e toda a riqueza
do reino dos homens e dos animais.
Cobiçam até a planície dos sonhos,
lugares eternos para descansar,
a terra do verde que foi prometido,
até que se canse de tanto esperar,
que eu não vim de longe para me enganar”.

            E na terra o homem vem a cobiçar até “a planície dos sonhos / lugares eternos para descansar”. Bem, se o intuito do homem é se enganar com o platonismo de bonzinho, vá lá! Mas aqueles que não vieram “de longe” para se enganar sabem que a cruz de bonzinho é o mesmo que a cruz de culpa e mal, sendo ambas engodo e ilusão, nada tendo nada a oferecer a não ser artifícios que apontam na direção ora de um, ora de outro. Nisto, o mundo gira, eternamente, neste embate de opostos. Então, na cobiça por riqueza “no reino dos homens e dos animais”, os homens buscam “lugares eternos para descansar”. Terra “do verde” prometida como sendo um lugar físico ou espiritual que se compra, com dinheiro ou com barganha de bonzinho. E o dinheiro é símbolo capital daquilo que se diz: “quem tem pede muito, quem não tem: pede mais”.

               No entanto, é no rio que se vê o restolho destes embates. Basta ver a poluição de qualquer rio que corta uma cidade. No rio, pode-se ver a correnteza a arrastar de tudo: desde os peixes que deslizam suaves nas profundezas aos troncos e outras coisas flutuantes que passam acima, na superfície. O psicólogo suíço Carl Jung falava que no rio próximo a sua casa de infância era comum aparecerem corpos de afogados, desavisadamente. Mas, dizendo simplesmente, o rio nada tem a ver com o que é jogado nele. Como julgaríamos o rio, então? O rio é bom ou mal? Na verdade, nada podemos dizer a respeito do rio. Portanto:

"A nau que flutua no leito do rio,
conduz à velhice, conduz à moral.
Assim como Deus, parabéns o mal”.

               Pois que, no rio de tempo, que é a vida, tanto faz o deus de bonzinho, de dono do céu, como o deus do mal de malzinho. É tudo a mesma brincadeira, os tais “jogos de enganar”. Podemos até rir disto tudo, se quisermos. Aliás, no UCEM se diz que "na eternidade, onde tudo é um, introduziu-se uma ideia diminuta e louca, da qual o Filho de Deus não se lembrou de rir. Em seu esquecimento, esse pensamento passou a ser uma ideia séria, capaz de ser realizada e de ter efeitos reais" (Texto: Cap. 27, VIII, 6:2-3). Portanto, trabalharemos, cumpriremos nossos compromissos, caso queiramos, sem jamais carregar nenhuma cruz. Não há nenhuma necessidade disso.


Finalmente, mesmo sobre este texto podemos dizer que

“O tom da conversa que ouço me criva
de setas, e facas, e favos de mel:
é a peleja do diabo com o dono do céu”.

               Traçamos aqui um panorama ilustrado utilizando pequenos trechos de duas músicas de Zé Ramalho (“Avohai” e “A Peleja do Diabo com o Dono do Céu”), já por si capazes de demonstrar a riqueza simbólica que se vê por toda sua obra. Utilizamos no início do texto a palavra “sagrado” em relação às músicas de Zé Ramalho, mas tal coisa não se deu por conta da sagração àquilo que se devota em altares, pois lugar santo de Zé Ramalho é função, é palco e festa. No entanto, agradecemos à arte e seu cumprimento em desfazer nossas doiduras. Um pintor pode encontrar no Livro do Apocalipse imagens capazes de extasiar quaisquer de seus afetos, desde que ele mesmo as compreenda e tenha talento para traduzir. Nisto, pode ser que seu quadro ilustre uma igreja. A arte aponta em direção a uma compreensão imediata, se realizada com perfeição. Perfeição não se trata de uma técnica perfeita ou de um ponto fechado ao qual se chega. Todo artista sabe que a perfeição estética é impossível. Mas o verdadeiro artista igualmente percebe quando “vibrou a corda da poesia”, no dizer do Poeta Adélia Prado. Nisto, pode-se dizer que o artista realizou uma obra de arte.

               Adicionalmente, a tradição do trabalho de Zé Ramalho se faz pela linha simbolista que por vezes encontra pontos de contato em Raul Seixas, mas não tão notadamente simbolista como naquele, pois com Raul Seixas se aprende muito sobre a “lei” e a “doutrina”, mas com Zé Ramalho vai-se à “liturgia”.

Faço aqui meu voto de gratidão ao trabalho e de admiração à obra deste admirável artista brasileiro, da Paraíba, o Senhor Zé Ramalho. Salve, nosso querido Zé!

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sábado, 6 de setembro de 2014

Sobre os animais

         
          Os animais não estão diferenciados na separação como “indivíduos” em pressuposto consciente. Entretanto, vemos que são capazes de encontrar sua comida, reconhecer seus donos, bem como amam e retornam o amor dado, são igualmente capazes de sair e reencontrar suas casas, além de saber que a casa é sua e perceberem a si mesmo através de nomes. Ainda assim, embora saibam destas e de muitas outras coisas, eles não “sabem que sabem”, isto é, não possuem a consciência conforme esta é concebida nos seres humanos.
  
                Portanto, uma vontade predeterminada nos animais não lhes fornece o pressuposto básico consciente que determina o ideal ou o objetivo de uma ação, isto é, eles realmente não sabem o que fazem. Isto não quer dizer que estejam errados ou certos. Paralelamente, percebemos que a ação humana é corretamente dirigida quando é afim à mente certa. Pode o animal, então, reconhecer a mente certa?

               No caso dos animais domésticos a ocorrência calma do amor está estabelecida em uma ação conviva, realizada na relação amistosa entre os reconhecíveis para o animal, sendo o amor capaz de aumento, quando, por exemplo, há visitas em casa ou em caso de presenças frequentes de parentes, amigos etc. Nos animais ditos selvagens, as ocorrências de amor surgem mais frequentemente em pressupostos determinados em suas proles e clãs, embora haja muitos casos em que animais ditos selvagens foram domesticados ou adestrados e expressaram seu amor de modo muito expansivo para além de seu nicho reconhecível.

               Cada espécie representa uma simbologia da separação. A separação trouxe consigo a criação da vida, e assim o ato de criar fez com que o nada pudesse viver. Tal ato em criação realiza tanto o criar quanto o fazer nas espécies. O Filho de Deus criou a vida para poder escolher diferentemente. Com isso, demorou-se até conseguir reconhecer o que fez. Tal possibilidade alcançou extensão no homem. A vida em torno do homem deveria ser dominada e protegida por essa consciência. No entanto, neste momento da história, o homem integral ainda não existe, ou seja, a humanidade ainda não está totalmente guiada pela mente certa, para que o reconhecimento do meio ambiente como um todo possa ser realizado. Por enquanto, ainda acredita-se que adaptar-se ao meio ambiente é dominá-lo pela força e violência determinadas pelo ego. Assim, a escassez em ato será suprida pela natureza em suas formas e meios, transmutadas em alimentos, roupas, materiais etc. A vida removida para o uso do material que encarnava a vida é ainda assassinato, mas não é ainda percebida assim neste momento da história, e o material morto pode ser comido ou vestido, sendo ainda para o ego símbolos do suprimento da escassez em fome ou frio. Claro que um ideal pretederminado em medo não pode ser divulgado como erro enquanto as mentes que assim o fazem crêem nisto como “tradicional” ou “consequente”; tampouco se pode exigir saltos na evolução. A vida como um todo integrado ainda é uma suposição filosófica neste momento histórico.

Alegria é Universal
               Assim, dizemos que a vida como um todo não pode ser determinada como uma ocorrência separada em animais diferentes. O homem não é a realização de Deus, mas nele se manifesta a consciência reconhecendo a si mesma, e apenas nele esta consciência é passível de compreensão. A mente certa não é a mente do homem, mas a mente humana guiada pela Mente de Deus. A mente humana realiza-se através de ideias, mas a Mente de Deus É. O Espírito Santo não age como ideia, mas pode realizar o amor através de ideias, se assim for necessário. O amor nos animais também é inspirado pela Mente de Deus, mas não está condicionado pela consciência, como no caso homem. Ele está presente diretamente e depende da disponibilidade deste em relação ao seu meio. Para o animal, a participação mística (participation mystique) é uma realidade direta. Isto quer dizer que, embora o animal  veja o mundo como uma unidade consigo mesmo, não alcança diferenciar-se ainda, ao ponto de perceber-se separado, para assim desenvolver a consciência da distinção, necessária à consciência do retorno. No entanto, a maioria dos animais já são capazes de perceber a dualidade (fome e saciedade, amor e medo, ausência ou presença de dor etc), embora ainda não alcancem distinguir. O medo nos animais pode ser terrível, pois a eles pode parecer que o próprio mundo é o medo em si, então a defesa dos animais é muito agressiva quanto ao que percebem como medo, pois não podem ainda racionalizar em distinção que aquilo é um símbolo de seu próprio medo.

               Nos já admitimos esses símbolos em nossa própria espécie como “o ladrão”, “o assassino”, “o inimigo” etc. Nas outras espécies isto é percebido como “selvagem”, “indomável”, “ameaçador” etc. Pode-se perguntar se um artrópode como o escorpião pode ser tido como amável. Respondemos dizendo que o amor ainda não deve ser estabelecido como uma noção de compartimentos da vida, pois realmente a criação do filho em equívoco ainda está a “amansar-se” neste mundo. No entanto, a vida em escorpião já salvou muitas vidas, pela sua contenção em tamanho. Certa vez, caminhando com meu amigo João Silvério, vimos um cãozinho da raça pinscher. Esta é uma raça pequenina, mas muito conhecida por conta do temperamento tanto agressivo quanto medroso. Então João presenteou-me com esse esclarecimento: "Deus sabe o que faz. Imagine se o temperamento do pinscher estivesse no Pit Bull." E rimos.

               O homem cabe em si todas as suas selvagerias, mas a vida ainda se estabelece em diversas fases. No entanto, o núcleo criador do princípio vital não é o homem ou a vida humana, mas a vida mesma. Por isso se diz no UCEM que “tudo é realizado através da vida e a vida é da mente e está na mente. O corpo nem vive nem morre, porque não pode conter a ti, que és vida. (Cap. 6, V-A, 1:3,4) ” Portanto, a vida real não está no corpos dos animais,  humanos ou outros. Mesmo se há vida extraterrestre, se estiver contida na esfera da separação (O Universo), ainda assim não pode ser a vida real, que não precisa de um meio material para existir. Isso não pode ser compreendido neste momento da história a não ser através de símbolos.

Os animais e as formas de vida não-humanas são, portanto, o símbolo da vida em estado semi-consciente. Sua ocorrência visa o equilíbrio exato da vida no planeta. Já dissemos aqui que a presença do escorpião na terra pode evitar algum assassinato entre os homens, assim como a existência da barata perdoa muita feiura. Aquele que puder entender, ouça e clarifique.

           Paz entre os vivos, amém.



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