domingo, 22 de março de 2015

Sobre a beleza



A beleza em si não é uma ferramenta do despertar. Ela aparenta harmonizar e estruturar uma obra de arte, por exemplo, em verdadeiros símbolos harmônicos, mas estes podem ou não apontar para o real. Não são garantias da dissolução do pensamento errado. Podem, inclusive, ser mal interpretadas em favor do ego. No entanto, a beleza em si pode ser corretamente compreendida, de acordo com a mente certa, e assim pode ser apreciada como um símbolo da unidade.

Isto foi escrito com a intenção de destacar do contexto da idolatria o fenômeno da beleza, pois a beleza também deve ser compreendida como um nível dentre outros neste mundo separado. A própria necessidade de apreciação da beleza aponta para a necessidade de distinguir entre aquilo que é belo daquilo que não o é. Assim, os níveis são julgados como separados, quando algo precisa ser apontado como belo ou não.

Decerto, tudo que vem de Deus é belo. Mas a beleza neste mundo ainda não pode ser apreciada sem a correta acepção da própria beleza pela consciência. Por outra: uma mente aturdida pode acreditar que o belo está em qualquer lugar, simplesmente porque isto foi dito em alguma teoria sobre arte. Claro que a mente corrigida vê a beleza de Deus em todo lugar, mas a beleza artística, que provê o auxílio, não está determinada em uma única forma de apreciar tudo, como se tudo fosse “o belo” em si.

Há, na verdade, muita feiúra no mundo. Poucas coisas aqui apontam para o belo sem precisão de alguma educação para tal acepção. Mesmo a natureza pode ser obliterada por pensamentos, e o mais belo pôr do sol pode evocar sentimentos melancólicos visivelmente projetados, seja em um amor perdido, seja no cair da noite.

Mas como a beleza pode influenciar a mente certa no sentido de sua educação? Isso é possível? Na verdade, a mente certa é em Deus, ela não precisa ser educada, mas relembrada pela consciência. Portanto, uma obra de arte, como qualquer fenômeno entregue ao Espírito Santo, pode transmitir uma mensagem que te fará lembrar de ti mesmo. Essa mensagem não é exatamente um “recado”, no sentido de algo que seja diretivo, mas uma possibilidade de felicidade implícita no irrevogável sentimento de prazer estético que vigora além do corpo; um êxtase contemplativo, talvez um indício arrebatador, que inclui nisto um fenômeno catártico que o corpo pode perceber.


Tal disponibilidade é favorecida por obras cujo empenho em se dispor para sua feitura ocorreu em consonância com a mente certa, isto é, obras nas quais a disponibilização do artista prevaleceu. Muitas destas obras não são compreendidas à altura da vida do artista, ou não podem ser reconhecidas de imediato, pois o próprio artista pode não estar em condições de responder por elas. Embora tenha disponibilidade para a realização da obra, ele mesmo teme a mente certa, e projeta a beleza que está nele “para fora”, numa “obra de arte”, e muitas vezes o artista é tido como excêntrico, ou misantropo. Isto porque o medo pode ser muito grande em certos tipos de artistas, mesmo os de grande talento, para quem o anonimato é preferível e isto realmente pode favorecer bastante sua caminhada.

Em outros dos tantos casos possíveis, um artista pode ter consciência que sua arte faz parte de sua caminhada, isto é, que sua arte é parte de sua função aqui. Neste caso, desde que ele não esteja iludido nisto, sua obra será apreciada e o próprio Espírito Santo poderá auxiliá-lo no sentido de ele poder responder por sua obra.

Talvez, em um sentido mais amplo, a beleza artística, bem como a beleza que há nos atos do mundo, ou em seus panoramas e paisagens, não seja de todo um fenômeno “de valor”. Aprendemos que não existem escalas ou graus de ilusão. Não adianta “trazer uma ilusão a outra” para tentar resolver o conflito da existência. Em outras palavras, a idolatria da arte também não pode te salvar, embora ela seja sobrevalorizada neste mundo pelo seu claro valor de disponibilização. Há muitas obras de arte que foram realizadas em consonância direta com a mente certa. Mesmo assim, enquanto ainda forem compreendidas como coisas separadas, não podem atestar o mesmo, embora possam favorecer caminhos simbólicos favoráveis. Insisto, porém, no seguinte: mesmo a mais bela obra de arte realizada neste mundo, ainda é como uma parte desorganizada do todo que procurou simbolizar — na beleza ou verdade que contém — um segmento destacado daquilo que o Livro Texto diz ser “a capacidade da memória em lembrar o agora”; ou ainda um simples recordar daquilo que é realmente bom. A verdadeira obra de arte é sempre compreendida, não precisa ser explicada.

Mas a beleza, neste contexto, pode ser como qualquer outra coisa que é disponibilizada para o Espírito Santo. Isto precisa ser dito em favor da sanidade, pois a idolatria envolve muito medo em acontecer um evento favorável, e pode querer encontrar caminhos nos quais a disponibilidade estaria “garantida”.

A única garantia favorável ao despertar é estar em disponibilidade ao Espírito Santo. É ser sem defesas, é aceitar a Sua Voz como a de um verdadeiro Amigo, é amar como sendo o mesmo amor, sem apreciar ou desdenhar, pois o amor não julga. A beleza estará sempre presente nestas coisas, estejam elas desempenhando em obras de arte ou em abstrato, conforme é sua real natureza, da qual a obra de arte, bem como qualquer coisa separada, não faz parte, embora possa compreender desta linguagem.

Por fim, a beleza não está neste mundo. Ele surge aqui como símbolo e vigora em volatização, pois bem sabes que a apreciação de uma obra de arte, ou as sensações evocadas por ela, estão condicionadas a uma série de fatores mutáveis, mas a verdade é eterna. Um pode passar por uma ópera sendo executada no saguão do metrô e nem se dar conta, e outro pode ter uma arrebatação. Neste caso, a disponibilidade para perceber a beleza foi o fator preponderante. Mas se todo o dia tal fato ocorresse, poderia haver o caso de o artista tornar-se indisposto.

A arte universal demanda atributos universalizantes. O que achamos verdadeiramente bom é boa arte. 

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Sobre o exercício 14 "meus pensamentos são imagens que fiz"



Por que é dito que “meus pensamentos são imagens que fiz?”.

Os pensamentos são imagens imateriais. Todo pensamento é imagem ou gera imagem. Mesmo o pensamento abstrato é imagem, em termos acertados do que garante perceptivelmente. Assim: se o pensamento sobre democracia não gera imagem direta, pois o conceito de democracia é em si abstrato, por outro lado, o conceito em si perdura na mente em forma de estrutura passível de “imaginar”, no que se refere a: o povo, os eleitos, a partilha, a divisão, a justiça, a fome, a saciedade, a igualitariedade, o mesmo. Neste último exemplo, a elisão e a verdadeira democracia. Portanto, em abstrato, tal termo [democracia] alcança vigência em pressuposto imagético de outras abstrações ou termos que o significam. De certa forma, tudo são imagens em extensão. Ao pensar em democracia um roteiro simples e possível é pensar em igualdade — justiça — harmonia — felicidade — uma flor.

               No entanto, nem todos são poetas e não digo que as coisas no mundo se resolvam assim. Como seria então o mundo uma significação explícita de teus pensamentos se não fossem estes mesmo os diretores do teu mundo? Especulação metafísica não vai gerar muito entendimento. Portanto, vejamos os pressupostos do espírito como uma ferramenta de significação do mundo, sem medo de compreender somente por que é “diferente”. Aquilo que vem “de igual” para ti, na bagunça que virge em tua vida, nunca foi democrático.

               Vamos à prática: esse relógio que está a tua frente, ele é um pensamento?
               r- Não parece ser.

               Pois bem, o que ele é, então?
               r- Ele é um objeto útil. Eu posso pegar nele, mas não posso pegar em um pensamento. Um pensamento também não me dá as horas.

               Certo. Ele é um símbolo, então?
               r- Pode ser. Mas não me parece ser um “pensamento”.

               Mas existe o pensamento sobre horas, sobre o tempo,  e eis um relógio a tua frente. O que podes dizer sobre isso, levando em consideração o Curso?
               r- Ele é o símbolo de meu pensamento sobre tempo?

               Ou sobre correias, ou ataduras, ou ainda sobre estéticas e atavios, ou ser for um relógio caro, sobre status e por aí podemos dizer então que ele simboliza muitas coisas além da simples marcação das horas, não é mesmo?
               r- Sim. Certamente. Então não posso dizer quase nada sobre ele?

               Na verdade, não. No entanto, em todas essas figuras a que chamas objetos destes nomes e considerasses como sendo verdadeiro e que o nome que deste era certo. Adão nomeou todos os animais por desígnio de Deus, pois o poder criativo de Adão, em unidade, era o mesmo poder Dele. Depois da separação, o homem passou a projetar nomes. A abstração, que era o estado da unidade, são os pensamentos abstratos. Eles representam em ato a abstração no mundo, como a ocorrência de um Estado Democrático, o Amor Romântico, o Livre Arbítrio etc. Mesmo assim, essas coisas se conjugam como imagens muito facilmente, pois o estado democrático, por exemplo, precisa de “representantes”.

               As imagens que vês não devem ser temidas nem veneradas. Pessoas são imagens e símbolos de seus egos ou da mente certa. O que vês depende deles? É claro que eles podem representar o equívoco de suas mentes, mas a prontidão é de Cristo, portanto, não julgues e tudo o que surgirá serão imagens certas. Isso pode mesmo te levar ao medo, como diz o Curso, mas não será assim por muito tempo. Quanto aos objetos (como, por exemplo, um gato ronronando, uma flor dançando ao vento, um carro colidindo com outro etc) isto é, a dinâmica dos objetos, não há culpa no que vês. Se o que vês é terrível isto não significa que constelastes o terror, mas que estás a ver terror com muita dúvida. Vemos que isso é assim pois, em momento terrível, queres mesmo é te livrar do terror. A não ser quando acontece com “os outros”. Neste caso, pode ser que um pare o carro no trânsito para ver cadáveres. Isto significa que viram sua própria morte? Sabes que não é assim. Portanto, não existe associação direta entre os símbolos e seus significados, mas podes ter certeza de que os pensamentos são imagens que fiz. E o mundo é pensamento.

               Se quiseres harmonizar as imagens de “teu mundo” basta não interpretar nada e, ausente de todas as defesas, siga a vida. O que te aparecer à frente é responsabilidade tua, pois são teus pensamentos de volta, mas isso não significa que a sua aparição imediata é uma “leitura” de tua mente. O mundo não é oráculo. Se fores a bater em termos de “bom” ou “mal” decerto julgaràs errado em muitas ocasiões, pois a correção do pensamento pode apresentar necessidades de correção do mundo não apenas em comportamento, mas em atos graves nos quais as constelações, isto é, as várias combinações de símbolos possíveis podem aparecer hora como grave ocorrência, hora como evento aprazível, mas nunca há um “fim” nas imagens, uma imagem decisiva, que aponte certa crise como “finada”. O que acontece é que, de repente, o nó se desata, e eis tudo. O navegador busca o porto, apenas isso. A ocorrência das marés ele pode prever, mas não pode controlar os fenômenos que partem de contextos dos quais ele mesmo não está consciente. Neste caso, o melhor a fazer é prosseguir navegando nos termos mais práticos possíveis, pois se, por capricho, um comandante quiser encerrar a navegação para tentar "entender" o simbolismo da tempestade, pode acabar encontrando uma referência em naufrágio, pois todo pensamento gera imagens em algum nível, e toda dúvida é emergência. Melhor será, sempre, trabalhar firme, com fé em Deus; relembrando aqui que Deus é a força na qual confio. Não se pode ler o mundo como símbolo sem medo, a não ser com a ajuda do Espírito Santo, que interpreta sempre corretamente.


               Portanto, medo é falta de responsabilidade. O covarde é, de certo modo, um irresponsável, pois está a não assumir diante de si seus pensamentos. Esteja aberto a tudo que vês. Aberto não significa estar atento ao que vês como se tudo fosse favorável. Aberto é assumir responsabilidade sobre o mundo como ele é, com suas tristezas e alegrias, como se tudo de certa forma favorecesse. Não há meios de categorizar o tempo em suas ocorrências em conceitos e objetos e dizer com garantias: isso é bom, aquilo é ruim; pois o tempo transita virando ao avesso essas categorias de modo muito frequente, postos estarmos sempre a mudar nossos pensamentos inquietos. Amar “o que é” é amar "como é", até que mudes definitivamente tua maneira de pensar. O medo dos pensamentos livres produz um mundo acorrentado. Ausência de defesas é a chave para o relacionamento acertado com o mundo.


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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Sobre a sensação de estar sendo advertido



Por que sinto sempre a sensação de “estar sendo advertido” nas entrelinhas do que vejo e ouço?

R: A advertência visa corrigir ou educar no sentido de um melhoramento, ao menos assim supõe aquele que adverte. Quem tem garantias do que adverte? O que se pode advertir que não esteja ligado ao futuro? Poderemos responder estas questões simplesmente, com uma única resposta. Para isso, vejamos algo sobre os relacionamentos especiais.

Especialismo é idolatria também. Há pressuposição de níveis no especialismo. Com tempo de estudo, podemos adquirir a crença de que o especialismo está restrito aos relacionamentos. Contudo, não é apenas neste nível que ocorre especialismo. Acontece que, entre nossos irmãos, o especialismo ocorre de modo mais ou menos explícito, pois vemos que há “hierarquias sociais” (familiares, profissionais, de afinidade etc) que nos colocam em bom termo para julgar os outros, para o ‘bem’ ou para o ‘mal’. Decerto, o especialismo entre nós e nossos irmãos trará o importante conceito do relacionamento especial, que vimos abranger os conceitos de amor e ódio especiais. Tudo isso para cumprir o teatro do mundo. Ver o irmão em igualdade, sem ressignificá-lo socialmente, é um contexto da lição que diz: “hoje quero ver meu irmão como a mim mesmo”.

Dois juízos não podem ocupar dois irmãos unidos em um.  Portanto, eles terão que desfazer-se de seus juízos durante o instante santo. Já dissemos que o instante santo é um conceito aproximado à noção de agora, pois o agora é o instante, e se ele é um instante disposto ao Espírito Santo, tal instante só pode ser santo. O agora santo, o instante santo, o tempo santificado. Isso pode ser percebido e sentido muito literalmente, como diz o Curso. Claro que ter medo de teus irmãos é um investimento bom para o ego. O medo sempre especializa o que percebe. Ele precisa de categorias, pois só vais elevar tuas defesas contra outras categorias. O que é visto como o mesmo não pode gerar temor, pois é a mesma coisa, e pode-se confiar em algo que é o mesmo. Mas cada ator no teatro do mundo é um ego “diferente”, visto em uma personalidade “diferente”. Como ter confiança em um cenário assim?

Realmente, parece impossível. A intuição do mesmo não é suficiente, nem a teorização da mesmidade. É preciso confiança em que não há dois irmãos ocupando o mesmo espaço em espírito. Não há dois. O número dois causou a separação porque trouxe consigo o conceito de opostos. Tu acreditas em duas — ou mais — coisas quando vês com tua visão física. Há, por exemplo, uma caneta ali, um lápis acolá, mais a frente uma mesa etc. Mas tudo é uma imagem só. Isso pode ser compreendido facilmente, mas não será de grande utilidade se visto com os olhos do corpo, pois será apenas a confirmação erudita de uma solicitação em espírito. Podes ser um erudito espiritual e logo estarás apto a ser rotulado dentro dos “graus”. Decerto, o próprio Curso fala em professores avançados, e aqui no mundo isso ainda é visto assim. No entanto, quem alcança o “avançar” sabe que regressa na medida em que avança, como diz o Curso. Todo paradoxo alimenta o desfazimento da lógica especial. Não adianta saber os conceitos do Curso. Nem mesmo todo o papel legítimo de ensinar está atribuído a uma erudição. Tudo o que precisa ser ensinado está disponível através do Espírito Santo. Ele está em todos. Ninguém precisa estudar para ser professor de amor.

Mas pode ser que sejas iludido de tal forma que para ti a busca pela tua herança natural se torne significativa. Neste caso, precisas aprender a desfazer o que aprendeste erradamente. Este é o papel do professor. Ele apenas desfaz o que não é necessário. O professor avançado é, na verdade, uma pessoa que já desfez o tanto que o capacita a ajudar melhor. Ele não é especial de forma alguma, já não mais aceita para si diferenças que inflam egos. Ele nem divulga o que não é perguntado ou mesmo não se atina apenas a terminologias específicas, pois aprendeu sobre especialismo para lembrar-se do amor, e aprendeu sobre o perdão para lembrar-se do amor, e aprendeu sobre para lembrar-se do amor.

Quando te sentes advertido, parece que o significado do mundo trouxe para ti uma reprimenda. Mas quem é o responsável por significar o mundo? Quem se entrega ao martírio da perene correção? Já dissemos aqui que o professor avançado aprendeu a seguir em direção do retorno. Isso pode ser ilustrado por uma viagem de volta. Na viagem de volta, o caminho passa a ser mais fácil, pois na medida em que chegas mais perto de casa, a estrada passa a ser relembrada com bastante familiaridade. Nem precisas mais ficar procurando placas ou sinais para achar o caminho, pois o caminho agora é novamente claro para ti, quando voltas.

Se estás a te sentir advertido pelos “sinais”, lembra-te do caráter simbólico do mundo. Não há garantias nos símbolos, não sabes ainda ver a harmonia diretamente. Quando julgas os símbolos, perdestes todo o mana, isto é, a energia vital daquela espécie de “informação”. Será que ainda crês que o Espírito Santo gostaria de te advertir com punição? Certamente, o Curso diz que as crianças choram quando lhe retiram um canivete ou uma tesoura. Não sabes o que são tesouras no mundo dos símbolos. O que pode te ferir? Será que sabes? Se soubesses, não precisarias de Um Curso em Milagres.

Os milagres são respostas claras a necessidades específicas. Eles são percebidos de modo muito claro por aqueles que deles participam. Podem não ser conscientes em algumas ocasiões, como muito bem diz o curso. Não sabes quando estás operando milagre. Ao falar banalidades aparentes em alguma espécie de brincadeira, podes estar a emitir algo muito importante para alguém, mas não sabes disto. Às vezes, nem a pessoa que ouviu percebe, mas há nele Alguém Que sabe. Por isso é tão necessário que disponibilizes também por fora da gravidade. O ato grave, da imposição de um milagre, não é possível em atos temerosos. Quando é assim, o sujeito que participa da experiência pode ter graves dificuldades em se recuperar, e tudo o que não precisamos é de aumentar o medo em pessoa nenhuma.

Portanto, a advertência que percebes vem de uma necessidade tua em “procurar milagres”. Existe por parte do ego uma ganância por experiências, digamos, espirituais. Ele precisa de tua disponibilidade em achar o maravilhoso, o fantástico, para nisso dispor novos significados. O mago, o guru, o médium, o santo, o professor avançado, o estudante, o revelador, o profeta, tudo são especialismos espirituais daqueles que entendem os “segredos do mundo” e estão atentos às suas mensagens. Ora, se o mundo é uma fabricação tua  e se estás a ler até aqui de alguma forma sabes disto  então o mundo pode trazer para ti sinais de ti mesmo. Se estiveres temporariamente obliterado pela mente errada, receberás respostas indignas. Se a mente errada “joga contra ti”, então o mundo parecerá sempre contrário, te advertindo sobre erros e punições, geralmente sem apontar nenhuma forma de desfazê-las ou, pior, insuflando formas ultrajantes. 

Por isso Jesus nos diz no UCEM que somente podes estar seguro quando estás “completamente despreocupado com a tua prontidão, mas manténs uma confiança consistente na minha”. A prontidão do ego para garimpar milagres é pífia e totalmente obliterada pelo medo. O que ele sai a procurar são fragmentos do fantástico, por vezes muito atraentes, como na malícia que há por trás dos truques de mágica. Se fores a se dizer responsável por todo tipo de predição, certamente assumes um poder mágico para guiar tua vida.

Tudo que o Espirito Santo transmite é fácil, seguro e amoroso. Ele não quer jogar xadrez contigo, nem pretende que montes um quebra-cabeça de dez mil peças para saber o que é o mundo. Muito menos vai a fabricar um "especialismo espiritual" para as imagens. Mais à frente vai se dizer no mesmo texto citado acima, do UCEM, que tua dificuldade em trabalhar em milagres está associada ao teu não aceitar da Expiação. Não precisas mudar o teu comportamento, já falamos aqui sobre a ilusão de bonzinho. Educação não é cerimônia, isto é certo, mas não tens que amar o mundo em comportamento, pois o comportamento é da personalidade e a personalidade é máscara e ego. A individualidade do espírito na união em instante santo mostra que mesmo duas personalidades muito diferentes, com opiniões bastante divergentes, parecem estar sempre de acordo, pois estes são amados e percebem a si mesmo como disponíveis. Isso é a elisão da personalidade em espírito. Não podes “fazer” isso em comportamento.


Quanto às perguntas iniciais, sobre advertência acerca do futuro e garantias de certeza, podemos dizer que já respondemos ao dizer que a prontidão é de Jesus, e não do ego, que busca construir um reino fantástico e enigmático. Podem ocorrer no teu dia coisas maravilhosas e realmente miraculosas, mas essas são sempre totalmente amorosas e seus significados são tão claros e imediatos que nem se precisa pensar sobre elas. Tudo que é enigmático é do ego. Tudo o que visa confundir não ajuda. 

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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

UCEM e a Arte - (Zé Ramalho)

      

            Muito me desagrada ouvir pessoas desatentas comentarem sua desatenção como uma sentença. Certo dia desses, disseram-me de Zé Ramalho que suas músicas pareciam búzios, jogo de Búzios, sendo a desordem. “Não dá pra entender quase nada do que ele diz.” Realmente, curioso é: como então tanto êxito? E há tanto tempo? Não pode ser apenas o nada; ou, em melhor hipótese, talvez seja mesmo por isso. Portanto, sendo tal “nada” meramente simbólico, diremos dele coisas capazes de aproximar.

               Na verdade, se estiveres a ler até aqui, pode ser que já alcances entender a música de Zé Ramalho, pois não fostes embora ainda. De toda forma, emprego mal o verbo “entender”, pois não é este o caso, embora seja exatamente este o engano: não se pode alcançar entender — na acepção que se compreende algo como sendo o exato igual — as composições do poeta místico Zé Ramalho. Em suas músicas nada corresponde ao exato igual. Uma pedra pode ser tudo, mas nunca deixará de ser fundamento. Portanto, é nas imagens que reside o sagrado “segredo” das mensagens de Zé Ramalho. Tentaremos esboçar aqui uma aproximação a algumas delas.

               As músicas de Zé Ramalho sugerem as imagens em potência estética capazes de traduzir para a consciência mensagens de alta importância para o indivíduo. Quando se diz, por exemplo: “se eu disser que é meio sabido / você diz que é meio pior”, no meio de uma canção que trata de um homem e seu avô-pai (Avohai), percebe-se claramente uma acepção plausível nas conversas entre homens, onde o “sabido” é desfeito no meio de uma conversa sincera. Você diz a bobagem de sabido e o amigo demonstra amavelmente o erro e já emenda no acerto. Geralmente, disso se ri, pois percebe igualmente a si mesmo como um “planeta quando perde o girassol”, isto é, como alguém que saiu da órbita do sol, que perdeu a linha, saiu do foco etc, ou como diz o UCEM: “aquele que for o mais são no momento em que a ameaça é percebida, deve lembrar-se de quanto é profundo o seu débito para com o outro e de quanta gratidão lhe é devida e deve alegrar-se por poder pagar a sua dívida trazendo felicidade a ambos" (Texto: Cap 18, V, 7:1).

               Em “A Peleja do Diabo com o Dono do Céu” o embate dos opostos é clarificado desde o título. Nosso apego em imaginar o mundo como sendo o simulacro do céu, numa espécie benevolente de platonismo, é desfigurado pelo ‘diabo’ da música com argumentos em favor da relatividade do bem e do mal. Certo é que a leitura unilateral do platonismo como o bem “bonzinho” desfigurou a sociedade a tal ponto que a neurose coletiva hoje em dia parece residir na crença em que o acerto pode vir a ser o errado acertado, ou a correção pela culpa, ou ainda a crucificação pela vida afora, no que se afirma como algo natural e justo que “cada um carregue sua cruz”. Nisto, nenhuma moral nos valha. Já sabemos pelos ensinamentos do UCEM que não há motivo para se carregar nem cruz nem culpa. Mas gostaríamos que a cruz (ou o medo) fosse o paraíso. Entanto, adverte o artista:


“Com tanto dinheiro girando no mundo,
quem tem pede muito, quem não tem: pede mais.
Cobiçam a terra e toda a riqueza
do reino dos homens e dos animais.
Cobiçam até a planície dos sonhos,
lugares eternos para descansar,
a terra do verde que foi prometido,
até que se canse de tanto esperar,
que eu não vim de longe para me enganar”.

            E na terra o homem vem a cobiçar até “a planície dos sonhos / lugares eternos para descansar”. Bem, se o intuito do homem é se enganar com o platonismo de bonzinho, vá lá! Mas aqueles que não vieram “de longe” para se enganar sabem que a cruz de bonzinho é o mesmo que a cruz de culpa e mal, sendo ambas engodo e ilusão, nada tendo nada a oferecer a não ser artifícios que apontam na direção ora de um, ora de outro. Nisto, o mundo gira, eternamente, neste embate de opostos. Então, na cobiça por riqueza “no reino dos homens e dos animais”, os homens buscam “lugares eternos para descansar”. Terra “do verde” prometida como sendo um lugar físico ou espiritual que se compra, com dinheiro ou com barganha de bonzinho. E o dinheiro é símbolo capital daquilo que se diz: “quem tem pede muito, quem não tem: pede mais”.

               No entanto, é no rio que se vê o restolho destes embates. Basta ver a poluição de qualquer rio que corta uma cidade. No rio, pode-se ver a correnteza a arrastar de tudo: desde os peixes que deslizam suaves nas profundezas aos troncos e outras coisas flutuantes que passam acima, na superfície. O psicólogo suíço Carl Jung falava que no rio próximo a sua casa de infância era comum aparecerem corpos de afogados, desavisadamente. Mas, dizendo simplesmente, o rio nada tem a ver com o que é jogado nele. Como julgaríamos o rio, então? O rio é bom ou mal? Na verdade, nada podemos dizer a respeito do rio. Portanto:

"A nau que flutua no leito do rio,
conduz à velhice, conduz à moral.
Assim como Deus, parabéns o mal”.

               Pois que, no rio de tempo, que é a vida, tanto faz o deus de bonzinho, de dono do céu, como o deus do mal de malzinho. É tudo a mesma brincadeira, os tais “jogos de enganar”. Podemos até rir disto tudo, se quisermos. Aliás, no UCEM se diz que "na eternidade, onde tudo é um, introduziu-se uma ideia diminuta e louca, da qual o Filho de Deus não se lembrou de rir. Em seu esquecimento, esse pensamento passou a ser uma ideia séria, capaz de ser realizada e de ter efeitos reais" (Texto: Cap. 27, VIII, 6:2-3). Portanto, trabalharemos, cumpriremos nossos compromissos, caso queiramos, sem jamais carregar nenhuma cruz. Não há nenhuma necessidade disso.


Finalmente, mesmo sobre este texto podemos dizer que

“O tom da conversa que ouço me criva
de setas, e facas, e favos de mel:
é a peleja do diabo com o dono do céu”.

               Traçamos aqui um panorama ilustrado utilizando pequenos trechos de duas músicas de Zé Ramalho (“Avohai” e “A Peleja do Diabo com o Dono do Céu”), já por si capazes de demonstrar a riqueza simbólica que se vê por toda sua obra. Utilizamos no início do texto a palavra “sagrado” em relação às músicas de Zé Ramalho, mas tal coisa não se deu por conta da sagração àquilo que se devota em altares, pois lugar santo de Zé Ramalho é função, é palco e festa. No entanto, agradecemos à arte e seu cumprimento em desfazer nossas doiduras. Um pintor pode encontrar no Livro do Apocalipse imagens capazes de extasiar quaisquer de seus afetos, desde que ele mesmo as compreenda e tenha talento para traduzir. Nisto, pode ser que seu quadro ilustre uma igreja. A arte aponta em direção a uma compreensão imediata, se realizada com perfeição. Perfeição não se trata de uma técnica perfeita ou de um ponto fechado ao qual se chega. Todo artista sabe que a perfeição estética é impossível. Mas o verdadeiro artista igualmente percebe quando “vibrou a corda da poesia”, no dizer do Poeta Adélia Prado. Nisto, pode-se dizer que o artista realizou uma obra de arte.

               Adicionalmente, a tradição do trabalho de Zé Ramalho se faz pela linha simbolista que por vezes encontra pontos de contato em Raul Seixas, mas não tão notadamente simbolista como naquele, pois com Raul Seixas se aprende muito sobre a “lei” e a “doutrina”, mas com Zé Ramalho vai-se à “liturgia”.

Faço aqui meu voto de gratidão ao trabalho e de admiração à obra deste admirável artista brasileiro, da Paraíba, o Senhor Zé Ramalho. Salve, nosso querido Zé!

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