sábado, 2 de abril de 2016

Sobre o perdão das ilusões



            PERGUNTA:
Por que é dito no UCEM que uma das maiores dificuldades para achar um perdão genuíno é que ainda acredita-se ter que perdoar a verdade, e não ilusões?

 RESPOSTA:
A ilusão não pode ser perdoada verdadeiramente, simplesmente por não existir nada de real nas imagens da ilusão no formato mundo. No entanto, quando as ideias que configuram no mundo sua “aparência de existência” vigoram na suposição de que existe  algo real a se perdoar aqui, damos realidade ao erro. Assim, surge através do perdão dado deste modo uma espécie de justificação da condenação, pois agora o erro é real, e se o erro é real, podemos inclusive nomeá-lo “pecado”. O perdão que admite a realidade do erro visa conceber um pecador.

A contradição presente nestes termos divulga, por oposição, a sinceridade presente no perdão que se dá independentemente do ato a ser perdoado. O perdão que não julga, ele não vê o erro como um pressuposto para doar bondade. Por outro lado, o perdão associado ao conceito de erro como algo ilusório é uma verdade por conta da característica permissiva de correção por parte de algo errado, passível de correção, e que não é nenhum pecado. Já a contra-parte do perdão que visa incorporar a culpa ou uma condenação expiatória ao erro, visa demonstrar a superioridade daquele que perdoa “até mesmo isso”.

Isso não é perdão — é doença. Por isso se demonstra claramente que perdoar não é ver o erro como condenável, para depois “desculpar”. Jesus nos adverte: “observa a trave no teu olho antes de ver o argueiro no olho de teu irmão”.

A consciência do erro não visa ater condenação perpétua associada a um tipo de perdão. Não existem vários tipos de perdão. A palavra perdão não pode admitir plural. Perdoa-se apenas de um modo, pois existe apenas uma escolha a se fazer.

Vejamos: cada vez que na perspectiva da ilusão alguém adverte um caminho correto, procura-se distinguir o erro do acerto. Para finalmente respondermos à pergunta, dizemos que o perdão segundo nosso currículo associa uma total disponibilidade em não validar nenhum ato no mundo como real ao contexto plenamente divulgado de que o mundo é uma ilusão. Portanto, há apenas um tipo de perdão: o perdão das ilusões. Neste caso, poderíamos até chegar ao ponto de dizer que podes perdoar inclusive as coisas boas que são feitas a ti, mas isso seria um pouco radical, visto que não há porque se ater ao conceito de amor uma necessidade de perdão, pois o que vigora aqui como simbolo de amor não precisa de perdão, pois é a presença da sanidade se revelando em símbolos. Mas poderíamos associar ao claro estigma da ferocidade da paixão de Cristo, conforme apresentada nos filmes mais recentes, como uma associação em medo daquilo que fora apenas Jesus sabendo do perdão em seu próprio corpo, não associando ao ato da Paixão nenhum tipo de julgamento. Sendo assim, Ele não poderia crer que estava sendo levado para ser morto, pois tudo ali era perdoado e estava-lhe sendo revelada a clareza das ilusões. Notadamente, isto somente poderia ser realizado por alguém altamente presente. Nisto, podemos verificar igualmente que não houve real sacrifício, pois ninguém morreu naquela ocasião. E por demonstrar que não existe morte, Jesus também nos adverte que o ato da crucificação não precisa de ser repetido, pois sua mensagem é a ressurreição.

Portanto, a verdadeira ação do perdão reside no pleno poder de associar à ilusão a característica ilusória que a define. O perdão é a consciência da irrealidade da forma. Exercitar o perdão vigora na não validação das formas do mundo, conforme disse-me certa vez meu amigo Marcos Morgado. Por isso também se adverte no UCEM para que se perceba o perdão tal como é. O perdão não é barganha, tampouco visa condenar afirmando o erro. O perdão livra a forma de qualquer tipo de condenação, por associar ao erro sua característica de irrealidade. Convém se possuir ética para uma vida calma, e honestidade para solidez da mansidão, mas nenhuma virtude pode ser associada à verdade como barganha. Vide para isto a história do Bom Ladrão.

Perdoe e ame.

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domingo, 13 de março de 2016

Sobre a mudança de caráter



                O caráter não visa confundir o próposito da salvação. Ninguém será condenado por conta de seu caráter, pois apenas o pecado é condenação, mas o pecado não existe. Um caráter “pecaminoso”, portanto, é impossível. O fato é que o caráter é uma ideia, e se a ideia deste caráter for condenável, o autojulgamento forçosamente tende a gerar culpa dando forma à ideia. A culpa, na verdade, é o fiel da balança do caráter.

Você pode ter um caráter cristalino em sua concepção, mas isto não deterá o ego de invocar o medo.  Por outro lado, alguém pode ter sua formação fortemente associada à uma série de pensamentos forjados em alguma base cujo propósito é obter vantagens conforme o mundo advoga isto (tomar para ganhar, dar para perder). Se o caráter foi formado em uma base de muito medo, o conceito de vantagem pode surgir como um modo de escapar da punição, a qualquer preço.

O mundo tem regras que cabem bem nele, parafraseando o UCEM. Quando alguém encontra um “caminho fácil” ou a “porta larga” de que fala Jesus na Bíblia, referindo-se aos modos fáceis de se receber gratificações imediatas próprias do ego, uma acepção de controle se estabelece no seio da confusão, advertindo ao portador das ideias que forjam seu pensamento de que existe uma saída mais fácil, que pode ser inventada agora, e trazendo uma resposta muito imediata.

A salvação também é imediata, sua pronta resposta não vigora em termos do mundo e pode inclusive ser recebida neste instante. Mas o instante santo não possui nenhum oposto. No entanto, a imediatez do ego possui um oposto, que é a clareza. Neste mundo, possuir clareza é garantir ajuda na formação do caráter, pois para o ego não importam os meios; e os fins para ele também não existem, sendo então o caráter egótico voltado para a confusão de pensamento, o caos na ação e a gratificação imediata.

Não existe ego saudável. O ego é loucura e medo. O “caráter” vigora junto ao sistema de pensamento que a pessoa fundou no ínicio de sua concepção de mundo conforme suas ideias. Se forem ideias de julgamento em escassez, pode um caráter temeroso se apropriar de tal sistema de pansamento, e as soluções de vida que tal caráter virá a produzir serão tão e mais baseadas no medo que dificilmente deixarão de se mostrar insalubres e equivocadas.

O Curso em Milagres não visa alterar o caráter de ninguém, pois a forma como a pessoa compõe um mundo em ideias são inteiramente claras para ela, embora na realidade sejam uma verdadeira confusão de conceitos, que ora estão em harmonia, ora estão em conflito. Uma miríade de pensamentos estão à disposição da mente, o caráter mostra à pessoa qual tipo de pensamento ela mais valoriza e isto provoca uma ilusão de escolha baseada em um julgamento tão viciado que se torna quase uma pronta-resposta. Se alguém se acredita merecedor de punição, pode forcejar a crença em que a melhor escolha diante de uma situação é ser punido, então tomará decisões baseadas na culpa por ter feito isso ou aquilo. Se seu investimento de mundo estiver fortemente baseado na escassez, ele pode acreditar melhor sofrer uma punição imposta por si mesmo, através de seus pensamentos, que esperar que Deus venha e lhe faça justiça. Isto está bem mais esclarecido no UCEM quando diz que “o ego acredita que punindo-se vai atenuar a punição de Deus. Entretanto, mesmo nisso ele é arrogante. Atribui a Deus uma intenção de punir e então toma essa intenção como sua própria prerrogativa. Tenta usurpar todas as funções de Deus como as percebe porque reconhece que só a aliança total pode ser confiável.” (UCEM, Texto, Cap 05, V, §5 - 6:9).

O valor que o ego dá ao caráter é de uma aleatoriedade tamanha — já que não sabe o que busca — que nunca poderá haver mudanças, pois seu sistema de valores está arraigado em um sistema de pensamento que valorizou o erro. Mas a mudança de caráter significa acepção de valores novos a partir da alteração no sistema de pensamento que toma a decisão. Assim, uma decisão acertada que é compreendida pela mente como um valor verdadeiro, pode substituir uma decisão errada em favor da mente certa. É aceitável pensar que uma mudança de todo um sistema de pensamento baseado em uma alteração de cada ideia errada por outra aceitável levaria duas vidas para se concretizar; mas lembre que este blog fala de um Curso em Milagres, e se te empenhares em Seus Exercícios, teu sistema de pensamento será corrigido por um Professor Que conhece o erro, mas não o valoriza.


Portanto, mudar o caráter (o sistema de valores do sistema de pensamentos) é uma tarefa que demanda disponibilidade real em abrir teu sistema de pensamentos para o Espírito Santo. Eis a real expiação. O perdão é a concretude da disponibilidade. Solta tuas ideias, elas não trouxeram nada em seu rastro. Na mesma medida em que perdoas, te aproximas de um conceito de ti mesmo que é favorável às escolhas certas, e verás que a mudança de caráter será uma translação de um valor errado para as ideias de Deus. E toda decisão tua é só disponibilizar-te a isso. Tenha fé que podes, e pratique os exercícios. 


Bem vindo aqui. Te amo.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Uma nota sobre homossexualismo

               



             O homossexualismo pode ser compreendido como especialismo para alguns, que se viram como “diferentes”. Do mesmo modo, aqueles que são heterossexuais podem se contrapor aos homossexuais e acreditar que são “diferentes”, pois são “normais”. Na verdade, a ideia de contraposição, na qual alguém se crê diferente e se percebe em luta para ser igual ou defender-se fundamenta todo tipo de ódio e separação.

               O Curso em Milagres não é moralista, não fundamenta um comportamento único no qual a certeza da salvação estaria garantida na forma. Na verdade, diz que a forma não existe em si, algo já descoberto há muitos anos pela filosofia de Kant e por pensadores como Platão e Diógenes; mas nem mesmo essas ideias, que fundamentaram a existência de ideias e, portanto, de livros, podem ser compreendidas sem uma base, mesmo rudimentar, de aplicação. Neste sentido, o UCEM fornece uma via nova, com o Livro de Exercícios. Nele é possível encontrar um modo de treinar a mente em direção à compreensão de que a mente superior, ou a mente certa, não está divulgando caminhos diretivos na forma. Ninguém está certo ou errado. No entanto, quando alguém procura “forçar” uma certeza, numa aplicação totalizadora, como no intuito em se dizer que todos são homossexuais ou todos são heterossexuais, há produção de diretivas em forma de defesa. Ou seja, cada um gostaria que a “sua verdade” fosse a verdade de todos, para assim justificá-la. Somente alguém que busca justificativas para seu posicionamento precisa forçar verdades, e forçar verdades é totalitarismo. Já vi declarações de gays que diziam não gostar da parada do orgulho gay, pois não é preciso ter orgulho do que se é realmente; e também já vi declarações de heterossexuais que diziam nunca ter se preocupado muito com esse assunto.

               Não é preciso forçar a verdade para que ela seja tal como é. Nem há garantias de que exista uma propaganda capaz de dignificar o ser humano em tendência justa, isto é, sendo como ele é na verdade. Chico Science dizia que “não há mistério em se descobrir, o que você tem, e o que você gosta”. E é bem verdade que a própria natureza apresenta formas diferentes de ser que nada tem a ver com comportamentos diretivos.


               O perdão não é a busca por certezas, mas a certeza de que tudo que é buscado já tem em si o código de algum erro. Ame seu irmão, estando certo ou errado em sua composição de vida, e você sempre será benefícios. Deus é amor e é só isso que Ele tem para dar através de todos nós.

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terça-feira, 21 de julho de 2015

Sobre a continuidade entre o passado e o futuro


“Lembra-te que a ênfase que ele [o ego] coloca na culpa
lhe permite assegurar a própria continuidade,
fazendo com que o futuro seja como o passado
e assim evitando o presente.”
(Texto: Cap. 13 , IV , 4:3)


               Pergunta: Por que é dito no UCEM que o ego quer que o passado seja igual ao futuro?

               Resposta: porque a experiência do presente para ele é insuportável. Ele quer que o próprio tempo se estenda como um contínuo que não revela nenhuma forma de instante, a não ser que possa ser entendido como um momento em que se tem alguma sensação ou percepção envolvendo o corpo. Sendo desta forma, o tempo será o que ele quer fazer dele, estando preferencialmente atrelado a algum tipo de empenho no sucesso ou fracasso. Certamente, não haverá diferenças entre passado e futuro, pois o que é contínuo não pode conter nenhum intervalo, a não ser que o corpo queira alternar-se como bem ou mal sucedido em relação ao futuro ou ao passado.


               Por outro lado, o instante santo não é um intervalo. Ele não está atrelado à percepção e por conta disso é invariável. Ele é o mesmo, e o futuro aparece no instante santo como o mesmo instante sempre, estendido a partir do presente. Para o ego, há este instante e instantes subsequentes, onde as imagens se sucedem em intervalos regulares a que chamas tempo. No instante santo, o tempo é suprimido em favor da sabedoria, e não é percebido como uma dinâmica que favorece a continuidade das imagens. Por isso se diz que, às vésperas da revelação, um período de certa desorientação pode de fato acontecer. Mas também se diz que não ficarás sem um quadro de referências. O UCEM relembra que sem o ego, tudo seria amor.