quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Sobre a alteridade, a criança e a educação


"Este é um Curso em Milagres"


Não podes perguntar como aconteceu o impossível. Isso já foi explicado no Manual de Professores. O que é a separação? A separação não existe. Não faz sentido perguntar o que é aquilo que não existe. Portanto, a separação é um silêncio em termos de assunto. O Curso em Milagres não trata em nenhum momento da separação em si. Ele retrata a “dinâmica” da ilusão em termos fáceis de identificares, e assim a desfaz em tua mente, na qual é possível ser dada como real, pois a mente pode sonhar e imaginar.

            A noção de alteridade é um engenho prodigioso, no qual o teu estado dividido é atestado em imagem. Obviamente, isto não parece fácil, pois uma imagem parece poder machucar outra. Duas pessoas conversando são dois. Os elementos vistos deste modo estão separados, e teu irmão e tu são esses dois, divididos e recriados em partes. Como cada um fez para si um ego, o amor não pode ser compartido como uma unidade em comportamento. Assim, surgem duas personalidades. Soma-se a isso as diferenças de cor, raça, credo, aparência, etc e a distância entre dois indivíduos vistos em corpos parece abranger o infinito. E dizer que somos um, criados neste mesmo Um, e que todos são Um contigo, na tua observação diária, parece algo facilmente refutável, e sem nenhum sentido.

            A primeira noção de alteridade surgiu da criação de um ego. Dissemos “criação”, mas seria melhor redizer “feitura”, pois o ego não é criado, ele é feito, conforme estas duas acepções são diferenciadas na metodologia do Curso. Portanto, fizeste um ego para ti. Esse ego é o elemento precursor da noção de alteridade. Isso é óbvio, não há dificuldade nenhuma aqui. Quando um recém-separado começa a observar o mundo em separado, em sua nova alteração, ele passa a perceber que há diferenciações possíveis. Assim, uma criança precisa aprender a contar, a separar o um do dois, e assim criar o três e o resto. A partir de então, aparecem-lhe figuras as quais pode chamar de mãe, pai, tio, irmão, qualquer alguém, enfim. Ele percebe aos poucos que possui um nome, e que esse é o nome pelo qual o separam. Assim, todos os outros também possuem um nome, e estão separados de si, “recuperados” pelo ato da linguagem. No entanto, a linguagem surge para ele como um som vindo de outra boca, que não é a boca de seu corpo, e depois aprender a ler palavras em papéis “fora dele”. Depois que dois se tornam três, ou quatro ou mais, de um corpo se visa dois, de um papel se visam mil palavras, da boca são tantos sons, e de família em amigos surgem os outros, e aos poucos a separação torna-se palpável, real e passível de planejamento.

            A maioria de nós, no entanto, associa a infância a um período mágico, em que tudo é ouro.  No entanto, Jesus nos diz no Curso que “a infância do teu corpo e aquele lugar que o abrigava, é agora uma memória tão distorcida que apenas seguras um retrato de um passado que nunca aconteceu” (Lição 182). Obviamente, mesmos alguns "separados" menos inclinados ao despertar pensam  assim, mas muitas vezes isso está projetado em muito rancor e ancorado na elaboração do passado como existente e mau. A infância nunca existiu, simplesmente porque a separação não ocorreu. As metáforas paradisíacas sobre a infância estão associadas a um período no qual o ego não possuía total controle sobre ti em relação ao Espírito Santo, e Sua Voz ainda poderia ser ouvida ou percebida. Mas mesmo na infância, o próprio predomínio do nome e do sofrimento das doenças do corpo são reiterações para ela de que a separação é a realidade. No entanto, como tudo para ela é novo, o caráter predominante é a empolgação, e realmente a vida também é um brinquedo. Mas o fato de brincar com o irreal não o torna real. O irreal é uma acepção da verdade como uma fantasia. Na infância, as fantasias estão associadas diretamente ao prazer de maneira muito mais intensa, pois o vício em se pensar que se está habitando um corpo ainda é muito novo.

            Por outro lado, em caso muito pouco lembrado pelos nostálgicos pensamentos, o ego possui na infância grande liberdade para dirigir sua insana vontade. Se diz que as crianças são os anjos, mas também se diz, no popular: “menino, trem do diabo”. Essa oposição está associada ainda a uma disposição da vontade em fazer e criar. Dizem que as crianças são muito criativas, e realmente elas dispõem-se a afrouxar os julgamentos de uma maneira que ainda não foi atoleimada pelo ego. No entanto, grande parte da educação das crianças está associada ao fazer, e a tentativa em dirigi-las com finalidade à maturidade futura. Toda a educação infantil está dirigida para fora, pois surgem em oposição ao ato de uma infância paradisíaca um juízo oposto, e deste juízo apresenta-se um formato no ego “adulto” que impossibilita ver a criança como um irmão. Então, enquanto tenta-se educar e deixar a criança “pronta para o mundo”, o caráter dos opostos em sua transição, isto é, o ego ganhando terreno, argumenta mais e mais em favor de sua “personalidade” para a manutenção dele, e o ponto alto da personalidade virá como a adolescência e seu total comprometimento com a “liberdade”.

            A criança não está totalmente disposta a uma associação egótica total. Muitos devem lembrar-se de experiências de elevação do ser na infância, ou mesmo de “alguma coisa” que gostariam de “ter de volta”. Assim, surge a idolatria da infância, ou um sonho de passado, uma recordação favorável ou um atraso lindo. Em verdade, “ser como as criancinhas” significa associar a si a disposição em não julgar, tal qual as crianças muitas vezes conseguem. Percebe-se nelas predisposição verdadeira à inocência e ao perdão. Mas isso é contraposto em educação através da noção da comparatividade ressaltada pelos adultos em atos forçosos de “seguir o exemplo”, sendo este “exemplo” um outro, uma divisão, uma noção de alteridade e uma evocação ao especialismo.

            As experiências beatíficas da infância foram passageiras, quando associadas à percepção.  Aquelas que foram duradouras são eternas. Portanto, não pertencem ao tempo, isto é, não precisas voltar lá para buscá-las. O caráter da revelação não está marcado pela idade do teu corpo. E a infância se desfaz se queres ser de novo como as criancinhas, e não queres mais julgar a teus irmãos.

            Portanto, a alteridade como vista no mundo, é uma construção adequada à educação do "separado", confundido em ser um nome, ou uma profissão, ou uma tarja de especialismo. Decerto, a função que vieste para exercer é a única certeza na qual podes encontrar em ti mesmo o que precisas em termos de forma. Somente assim o curso usa o termo "especial", quando diz que tens uma "função especial" mesmo aqui. Mas esta não é necessariamente a função que os pais querem que os filhos sigam, e surge novamente a dificuldade em separar o irmão em idades.

            Educar uma criança não será fácil, mas é possível manter a mente certa em sua evocação do mesmo, pelos atos de amor e pelo real exemplo, que é seguires a única coisa que queres, que é a Tua Real Vontade. A alegria real vem de compartilhar com Aquele Que sabe o que é a união em todos como uma referência pedagógica válida. Enquanto isso não ocorrer, a separação seguirá como uma ferramenta de aprendizado invertida, associando o que se precisa a uma vontade feita, isto é, ao ego.

“Confio em meus irmãos, que são um comigo." (lição 181)

Não acredites, portanto, que o Espírito Santo tenha que evoluir junto com as criancinhas. Em todos, Ele está atento em caráter infalível quanto à disposição daquele. Todos são importantes à salvação. Sequer os atos das crianças podem ser julgados. Devem ser corrigidos, quando são perigosos para elas. Mas lembra que o plano de Deus é completo, e isto se atesta no próprio Curso, pois uma criança correndo alvoroçada que esbarra em um adulto é tida como exemplo de uma possibilidade de um encontro santo no Manual de Professores (Seção 3, “quais os níveis de ensino?”). Certamente, todos encontram a ajuda de que necessitam.

            Assim, o amor estendido como uma falta não pode ser realmente estendido. Não podes ver a teu irmão como uma criança a quem falta algo. Decerto, precisamos de cuidado aqui, pois teu ego pode adquirir vantagens em atoleimar os conceitos segundo sua falta de visão. Lembra que as crianças santas de Deus são todos, e que o tempo somente existe para diferenciar o que é o ego e o que é certo. Na medida em que isso é realizado, a verdade aparece como uma certeza e uma constância. Não há dívidas quanto ao que é certo, pois o certo divulga a si mesmo, e não há contas a acertar com a infância. O amor por tuas crianças é tudo o que elas esperam de ti, e é tudo o que realmente podes dar para que elas sejam encaminhadas no sentido do amor. Mas não as diferencies como não santas, pois são tuas irmãs, assim como tu és irmão para com elas. Finalmente, os pais são diferentes dos filhos apenas no tempo,  pois “os pais dão à luz as crianças, mas as crianças não dão à luz aos pais. Contudo eles dão à luz as suas crianças e assim dão à luz como os seus pais. (T-7, I -1)”. Até nisto eles são o mesmo, ainda que disfarçados no tempo, entre pai-irmão-filho.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Sobre o perdão





           O perdão não possui diretivas que fomentem a regularidade de sua ação conforme seria aposto mediante um “uso” ou uma “ação”. O perdão, na verdade, não atua. É um total “não atuar”. Diferentemente do que se diz no Tao Te Ching, não atuar significa que não existe uma predisposição do sujeito em estar atento ao que se diz ação conforme o que ele mesmo julga como sendo a atenção. Não podes definir a atenção. A atenção é uma entrega total ao ato de não atuar. Assim, não atuar significa unicamente estar atento, pois esta é a maneira pela qual a atuação ocorre.

            O perdão realmente está associado a “ver o visto”, conforme já entendeste. No entanto, perdoar pode ser definido simplesmente como um ato de facilitar os milagres. Quando perdoas para destruir, conforme vê-se nos suplementos, encontras formas diretivas de assumir para ti o perdão. Não podes ser dono do perdão. O perdão acontece, é uma ilusão, mas é dado. Parece que tens que fazer um esforço para perdoar, mas não precisas fazer nada, conforme diz o Curso. “Perdoar é esquecer”, mas não é apenas isso, pois esquecer implica em dizer que certa vez estivestes em rancor, pois o rancor é a permanência da falta de amor no tempo. Esquecer em vez de perdoar implica em dizer que apagastes de tua memória uma falta que viste em alguém. Mas a memória pode ser evocada, e o perdão associado à memória é falho, ou deteriorado por uma circunstância qualquer que relembre o ato como estando novamente em vigor. Dizes: “isto é errado”, mas acontece o erro e não perdoas novamente, pois não poderias perdoar o erro em si. Assim, perdoar é não ver o que está além da associação entre teu entendimento e o propósito de tuas necessidades no tempo. 

            O perdão é simples, pois ele simplesmente acontece. No entanto, quem pode angariar para si o que o perdão concebe sem antecipar o ato da ação ao julgamento? “Daqui pra frente vou perdoar todos aqueles que fizerem isto ou aquilo”, ora! Isto não é perdão, pois o perdão não precisa de planejamento. Queres te livrar de teu mau amor em termos que adiantariam o pecado? Achas mesmo que o perdão anda com uma corda no pescoço de cada um, esperando por ti para tirá-la? É isso que pensas? Pois é assim que o perdão é lido pelo mundo, e  todos os que pisam o chão desse mundo acreditam que precisam perdoar o próprio pé. Como escapar de uma proposição destas? Em que a premissa é a própria ação? Neste caso, atuar seria, comparativamente, como uma ferramenta de não-perdão. Portanto, como o tempo sucede às imagens, cada tic-tac em seus mutantes segundos apresentará diferenças na ação. O que conseguirás fazer com um perdão mutante? Terás que mudar a forma de perdoar a cada minuto que passa?

            Convém lembrar que o perdão conforme concebes é um resquício de um pensamento julgador, que entende a si mesmo como o juiz do que é certo e do que é errado. Portanto, mesmo o que julga como “certo” está associado a uma definição antecipada, a uma forma de perdão que diz que alguém é certo, é feliz, é “gente-boa”. Isto não pode ser um elogio! É muita projeção em cima de um julgamento baseado no relacionamento especial de amor. A falta de perdão sempre formará um relacionamento especial.

            Portanto, perdoar não torna uma pessoa perdoada “melhor”. A redenção é um ato de coragem em ater a si apenas as imagens que evocas sem expectativa de retorno! Não há um julgamento sobre as imagens, e assim o homem se redimiu das imagens que criou. Não houve realmente um arrependimento. Isto implica em dizer que algum dia escolhestes o pecado, mas o pecado não existe, e eis novamente o mesmo demonstrado.

            Parece muito difícil falar sobre o verdadeiro perdão, pois não consegues desvinculá-lo do perdão que inventastes. No entanto, perdoar é a coisa mais simples deste mundo, e dentre as suas ilusões, é a única que é macia e leve como um aceno calmo e gentil a uma criança. Claro que terás medo de perdoar, pois até agora falamos apenas do perdão para destruir, o perdão julgador. Mas não te deixaremos sem respostas. Falemos então do verdadeiro perdão.

            O perdão não é um julgamento. Quando vês a teu irmão, como podes vê-lo, se ele não está aqui? O que vês, então? Vês o amor em andamento, e assim perdoas. Vês o amor errando? Então não vês o amor, mas podes ver o teu irmão pedindo ajuda. A alegoria da ajuda pode ser material, mas a verdadeira ajuda vem de Deus, através de ti, por intermédio Daquele Que fala por Ele. Então, não julgas a forma da ajuda. Simplesmente ouves ao teu Professor. O perdão surge da confiança nisto. Não podes perdoar julgando o que perdoas. Tu amas e simultaneamente perdoas. Não existe nenhum intervalo entre essas duas ações. Dizemos “ações”, pois elas estão muito próximas ao tempo, visto o perdão ser também uma ilusão, conforme vimos no UCEM. No entanto, o perdão está muito próximo ao “agora” conforme o concebes como “um momento tendendo a zero segundos”. É claro que não perceberás isso como fácil enquanto escolheres escalar os teus irmãos dentro de uma faixa de valores. Qualquer que seja esta faixa, econômica, social, religiosa, estética, seja o que for, é um envelope no qual queres colocar o teu irmão e endereçá-lo ao esquecimento. É triste, mas não pode ser demorado por ser irreal. Podes perdoar inteiramente em apenas um instante, se quiseres abrir mão dos teus “valores”. Onde encontrastes uma corrente, como diz o curso, deixaste lá a chave. Não é o teu irmão quem a esconde de ti, filho. Perdoa a teu irmão. Ele nada te fez. Ele nem pode fazer. Ele é tão  santo quanto tu mesmo o és. Mas não diga nada a ele, pois ele não pode ser julgado. Resgate nele a dignidade apenas tratando-o como digno de ser um Embaixador do Céu. E assim ele será para ti.

            Não perdoas o que vês. Perdoas o que não sabes. Perdoas o ato de existir neste mundo. Parece radical? É radical conforme tua forma ensimesmada em ver este mundo com seus duplos como verdadeiramente real. Se vês no teu irmão o erro, ou se ele te causa medo, ele traz para ti a bandeira do perdão hasteada para veres, pois se nada puderes aceitar dele como sendo teu, ele já está limpo! Não precisas lavá-lo. Só vês a extensão do Que És ou daquilo que pensas que és. Se vês um mundo mal, lembra então que és amado pelo próprio Deus. Se vês um mundo triste, lembra que a alegria é tua herança. Se vês um mundo temível, lembra que somente podes estar disposto ao que é santo. E se gostas de teu irmão como a um irmão, lembra que és santo como Deus te criou, e que és assim, e que serás sempre assim. Teu Irmão É como Deus Nos Criou. Teu irmão É, e antes de seres confundido em ego, Eram Um.

            Por um tempo ainda verás o teu irmão “diferente”. Mas o mesmo não demora a se revelar para ti, pois se vires ao óbvio, não deixarás de ver o que é real, e serás apenas um verificador do  mesmo, e isso só pode ser experienciado, não pode ser descrito.

            Te amo, em ti, a teus irmãos, por ti — pois te amo.  Ama a teus irmão com coragem em não querer amá-los como uma motivação. Vê a teu irmão em si, ele não vai revidar como se fosse te matar. Mas caso ele não esteja em si e tenha medo, aprenderás a ajudá-lo e a curar teu próprio medo. Não temas ao teu irmão. Não temas.

            Pai, quem sabe de Teus Filhos És Tu mesmo. Pedimos a revelação do mesmo, pois queremos ver a face de Cristo em nosso irmão. Queremos revê-los como São, segundo a nossa saudade Deles e de Ti. Precisamos de nossos irmãos santos, conforme o amor nos dá o sentido deles. Pai, revela para Teu Filho Santo o sentido do amor. Ele ama a seus irmãos e quer ater-se como amigo e santo, em Tua Vontade, dispondo amor para Rever-Te e Vê-los, conforme sejam para sempre amados, Nosso Irmão, em Cristo, pedimos. Amém.


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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Sobre a responsabilidade.


         


            O que significa “assumir a responsabilidade por este mundo?”


            Assumir a responsabilidade por este mundo aparenta ser algo muito difícil, pois visaria compartilhar de deveres que não são teus. Assim, o que compartilhares terá que retornar a ti mesmo como recusa, pois o que é de outro não é assunto teu, a não ser através de procuração, piedade ou alguma forma de assunção que faça o teu irmão passar a ser dirigido por ti. Essa é a responsabilidade segundo o mundo a toma; e acredita que assim, dirigida para fora, pode ser real.

            As relações sociais são apenas atributos que devotam ao sonho a noção de “caminhar”. Tua responsabilidade em relação às “ficções sociais” estão associadas às tuas necessidades de criar, estender. O conhecimento não é uma ficção ou um símbolo utilitário. Obviamente, podes argumentar com muita facilidade em favor da atribuição disto ou daquilo como um óbvio valor da “humanidade”, e uma “conquista”. Pensas, portanto, que o mundo que fizeste está “crescendo”, e este valor assume o caráter temporal da expansão, ou criação, de forma equivocada, pois o princípio que estabelece este raciocínio está totalmente comprometido com reter o mundo conforme sua noção de conforto. É tão circular em seu raciocínio que acredita que a história pararia por aqui, e não lembra da queda dos impérios, das transições das eras e o óbvio recrudescimento da matéria, conforme é o caos do universo que criou.

            Não há realidade no mundo, e a responsabilidade pelo mundo não é uma averbação ou uma dedicação voluntária às suas formas. Isso pode parecer cruel e devastador, pois assim é, quando projetas a tua responsabilidade em uma ONG, uma forma de poder ou uma causa séria a se defender. Quando é dito no UCEM que o mundo é o contrário do Céu, quer-se dizer que fazer sentido não é real. O real tem a ver com o significado. O significado santo das coisas sempre parecerá loucura para o mundo, pois o mundo, sendo insano, vê a sanidade como o seu oposto segundo sua ótica. É tão verdadeiro que, no mundo, pode-se argumentar em matar em favor de uma causa justa, ou em punição como instrumento de aprendizado.

            O contrario disto é tão óbvio e triste que não falaremos aqui. Falaremos então da REAL acepção da responsabilidade.

            Quando acreditas que um homem pode dirigir a sua própria vida segundo uma vontade alheia à Vontade de Deus, ocorre uma divisão entre a sua mente e a mente certa, surgindo o que o UCEM denomina “mente errada”. A mente, então, passa a ser dirigida por um propósito totalmente alheio ao que é, diferente de si mesma, e assumindo sobrecargas. Uma vontade dividida passa a ser a sua concepção de mundo, pois, embora ele pense que está sob direção exclusiva de “sua vontade”, o Espírito Santo “concorre” em favor de Deus, ganhando sempre. A sensação de “perda”, advinda de uma óbvia duplicação de si, favorece ao sujeito pensante um memorial recorrente, ao que chama “história de vida”, e é a esse memorial que ele recorre quando precisa “acertar as contas” com suas “derrotas”. Seu pedido de ajuda, no entanto, é recebido e cumprido, conforme sua necessidade é vista por Aquele Que Sabe o que faz. Então, surgem duas vozes na mente do devastado: a sua construção infantil e gloriosa, mediante o empenho em ser alguma coisa e o destaque nisto, e a Voz Que fala por Deus, que fica abafada, pois não pode invadir a mente do Filho de Deus sem a sua permissão para que possa falar com a gentileza e amor esquecidos por ele. O ego acredita, portanto, que uma vez construído, feito, ele tenha sido criado, e que nasceu neste mundo. Ao corpo que foi dado o nome, se empreende “construir este nome”, até a maturidade e a possibilidade final de seres “responsável”. Para o mundo, este é o pensamento responsável. No céu, caso fosse possível, isto seria percebido como uma espécie de anarquia.
           
            O amor de Deus pelos Seus Filhos está além de tudo o que ele possa pensar sobre si mesmo. Sua agonia em deter-se e esperar em sua fonte construída é totalmente delusória, e a verdadeira responsabilidade ele não gostaria de assumir, pois implicaria em primeira instância em assumir que estava errado. Disso, o ego não gosta; e ele, identificado com o nome que recebeu e se deu, acredita que é uma vontade apenas...o Filho de Deus acredita agora que foi reduzido a um impulso.

            A responsabilidade verdadeira, que virá de uma completa deteminação em ver a si mesmo sem medo, não está atrelada ao que é nomeado como “virtude”. Para o mundo, a virtude está em acepção errônea, associada ao comportamento. Não podes dar vazão ao comportamento, disso já passamos, mas o que a responsabilidade real traz é uma associação entre o que o indivíduo aceita como seu e o que é realmente seu transitando no mundo como formas de amor. Isso parece difícil de entender, mas é muito claro, e para tal daremos um exemplo:

            Digamos que quisesses pescar um peixe. Então terias que ter disponíveis linha, anzol, ou uma rede, mais a isca, a fonte dos peixes: o mar, um rio etc. Depois de tudo pronto, acreditas que estás pronto para pescar o peixe. Mas então, pedes sorte, ou procuras um “bom lugar” para pescar. Tudo isso justifica o sonho e parece ser um razoável planejamento. Afinal de contas, não podes chegar à beira do mar e dizer: saia peixe! Pois isso seria mágica para ti. Pois eu te digo: mágica é preparar tudo com o intuito de associar o que és ao teu trabalho, sem antes quereres verdadeiramente o peixe. O sonho, portanto, é capturar o peixe, e não ter o peixe para si. Obviamente, pescar não pode ser tido como um “ato mal”. Mas contratar o peixe é como ater o que se quer ao que precisas, e isso é muito difícil de se falar sem decorrer em sérios julgamento egóicos contrários e temerosos.

            Esse exemplo é uma fábula, uma história da carochinha, não pode ser entendido literalmente. O trabalho acontece na vida de uma pessoa neste mundo com a necessidade que sua linguagem contém. Foi necessário muito trabalho para que Um Curso em Milagres viesse à publico, e um grupo pequeno de pessoas se esforçou às duras para que acontecesse. Sua responsabilidade estava no que sentiram e perceberam quando estiveram presentes ao mundo como guias e professores do Curso.
           
            Portanto, assumir a responsabilidade por este mundo não pode ser um encontro com o mundo em suas formas literais. A responsabilidade de que fala o UCEM vem de entenderes que a metáfora “mundo” implica em dizeres que um sonho em imagens está proposto, e não tens nada a ver com isso. Passas então a nutrir o mundo, a partir do momento em que dás e não quando buscar receber. O perdão passa a ser o veículo de nutrição que permite a ti perceber o mundo como uma nova tendência de teu ser, associada a uma maneira singular de apresentar a ti mesmo como Outro, mas sendo este Outro o teu verdadeiro Ser, que em nada se parece com aquele que visavas construir. O Ser, a revelação, é uma redescoberta. E tudo que vem dela é dado, não pode ser construído.  A responsabilidade verdadeira está em assumires as imagens do mundo como sendo a tua fabricação do mundo. Não podes consertá-las, mas podes dar de ti para elas, conforme sejam atribuídas a ti, serás “recompensado”.

            Uma forma real de assumires a responsabilidade por este mundo é saberes que uma ideia não pode ser associada a nada que não pertença a si mesma. Assim, Deus é uma ideia e as associações de Sua Vontade neste mundo também são partes de Sua Ideia. Por isso se fala no Curso em "estender". A Mente de Deus é uma acepção holográfica, a qual este mundo não está associada, pois o mundo não pode ser envolvido com a Mente de Deus. Os “fatos” que ocorrem no mundo são meras associações de vontades desenvolvidas em sequencia para atestar o tempo como co-autor do mundo. O verdadeiro autor do mundo é o Filho de Deus que acreditou estar capaz de separar-se, conforme já vimos. No entanto, a Mente de Deus abrange a REALIDADE de Seu Filho, assim, as criações do Filho no mundo são as únicas coisas passíveis de estender o amor aqui.
           
            Assumir a responsabilidade pelo mundo é também criar. Precisa dar para poder criar. Não há como reter o teu potencial criativo e “fazer um nome”, sem que isso tenha a ver com a falta de responsabilidade. Ser responsável é assumir consigo mesmo o comprometimento verdadeiro de olhar apenas na direção de Deus. Para isso, precisas entender que “és responsável por aquilo que cativas” e mais. Pois o sentimento sozinho não é capaz de dirigir com sabedoria tua certeza. Precisas entender que o teu “mundo”, a que deste nome, pelo qual te chamas e que chama por ti, não existe, mas precisas estender o amor a isto, se quiseres escapar, assumindo assim a responsabilidade verdadeira, que não vem de ti. No entanto, diante de uma total discriminação de teu ser perante uma vontade alheia, pode ser "destituída" por uma verdade fabricada, que não é compatível com o que és, e fica borbulhando em tua mente como uma certeza desprovida de amor.

            Responsabilidade é amar e “ver o visto”. Ao vê-lo, não o julgas, e ama-o. Apenas assim se está sendo sincero com o que se é. Apenas assim poderás fazer o que o mundo precisa para ser melhor.
           
            Pai, estamos assustados com o que escrevemos, e pedimos ajuda para que possamos entender verdadeiramente, durante a vida, o que é ser responsável. Queremos amar, meu Pai. Estamos saudosos de nossos irmãos. Teu Filho Santo é teu amado, e pede que veles por ele, e responda à sua ansiedade em reencontrar a Ti, Amém.



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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O que significa "ser uma ideia"?





Gostaria de saber:

            1.      Por que é dito que somos uma ideia;
            2.       Como se faz a escolha correta.

Quem sabe o que significa a escolha correta não precisará desta resposta. Portanto, tu que perguntas, o que buscas entender? De que queres te aproximar? Será que uma resposta conseguirá aplacar tua total comoção mediante os significados? Será que há algum tipo de suficiência para ti neste mundo separado, algo como uma resposta, ou “a resposta”?
Se for isso que estás buscando, procuras a resposta errada no lugar certo, e isso é uma confusão de termos e dos meios. Não há um lugar certo ou uma resposta exata para o que és. Se perguntas, é porque não sabes. E isso é a única coisa que agora pode ser dita com certeza.
Como se faz, então, a experiência de entrega total. Mediante um completo entregar-se ao que é, como se diz no Curso e em todas as palavras sábias derivadas Deste ou de Outro meio santo. Entregar-se é apenas estar em si, sob os aspectos não discutíveis da graça. Quem encontra em si algum tipo de morte ou domínio apostólico derivado do sonho de dominar, alcança meramente um formato que surpreende pela sua força na mente daquele que sonha com estas coisas. A “entrega” a este tipo de “dominação” somente pode ocorrer mediante o medo, pois o medo traz para o espectador do sonho uma “lógica” na qual o ataque passa a ser a vontade de entrega. Isso é loucura, obviamente.
Não é possível que tenhas sobre ti mesmo algum controle que não te seja “dado”. Assim, mesmo que penses que estás no comando, que estás dirigindo, estás apenas “entregando” teu meio corpóreo Àquele Que te conduz à Deus ou ao teu ego, conforme construístes para este fim, este, divulgando em sua epidemia de satisfações uma possibilidade sempre fugidia, tal qual fosse o ego o mesmo que Tântalo, embora seja ainda mais insano, pois o isolamento de Tântalo não se repudiava aos outros através do ataque.
Quem é então que faz a entrega; que permite a entrega? Esta pergunta, em si mesma, já é um paradoxo. Portanto, se perguntas o que é a entrega, ou como se a faz, perguntas o que apenas pode ser respondido por um paradoxo, como o mito de Tântalo ou de acordo com o que pensas sobre não seres o que és, o que é outro paradoxo; embora neste último estejas imbricado e precisando de ajuda para sair dele.
A entrega se faz mediante a graça, e sobre a graça não podemos falar, posto não haja palavras para isto. “Palavras são símbolos de símbolos”, e possuem em si o poder mágico de inferir. A linguagem em si não tem significado na graça, pois ela “some” ou desfaz-se. Englobando a mensagem em envelopes, posto ser limitada, a linguagem é em si mesmo este limite, e se perguntas através das palavras como se faz a entrega, isto é um erro, pois buscas através do meio insuficiente o exame do suficiente. Isto é impossível.
No entanto, a entrega pode ser auxiliada pela linguagem através do fornecimento dos meios. Veja bem: a linguagem não pode ser o meio em si, mas através dela pode ser divulgado o meio para se atingir o estado ao qual permites que a graça venha, e para isto não precisas de nada; basta estudares o Curso e praticar os exercícios, ainda mais em conformidade com o teu empenho genuíno em estares pronto e divulgado, sendo a si mesmo por inteiro, nas experiências, conforme seja o lugar ideal para entenderes a tua pergunta.
Se vires a um irmão, seja tu irmão deste irmão. É muito simples, mas no começo parece difícil. A entrega virá para ti que não julgas. Não desejas nada de teu irmão: nem sua palavra, nem seu empenho, nem seu corpo; o que queres do teu irmão é apenas o que Ele É contigo, conforme foram criados, e isto é reconhecimento. Assim, esta resposta é satisfeita.
Sobre seres uma ideia, esta é uma imagem simples de um fenômeno que criastes, mas não te lembras. O mundo, quando foi criado, estava imerso em uma fenomenologia típica, na qual suas imagens não poderiam “tri dimensionar-se”. A evolução da consciência ao fenômeno da dimensão criou o tempo, e assim, a separação criou os intervalos entre os corpos e os corpos se submeteram à separação, à contagem e ao tempo. Desde então, a Resposta dada tem sido paulatinamente aceita, visto que será sempre aceita, pois foi dada por Deus. O que se acredita ser “evolução” das ideias é meramente o desejo de compreender através da própria consciência que ela foi um erro, um equívoco, e que é possível ser corrigida e retornar ao estado natural, abstrato, conforme se diz no Curso.
O que a consciência então? É meramente o instrumento que inventaste para dirigir “para fora” as tuas ideias de separação. Com ela, podes “jogar” com as ilusões, compreendendo-as, dando-lhes os nomes que criastes, formulando temas e adequando outras formas, as quais imaginas que, pelo séculos que sofres, estás “evoluindo-as”. Tudo tolice. Não há evolução nas ideias, apenas manipulação das formas, e se achas que um computador é uma grande evolução desde as pedras, apenas te ativeste à noção de conforto como prerrogativa básica de tua prisão. Assim, agora podes dizer: “está melhor que antes”; e isto é um limite, e não uma evolução, embora o mundo jamais aceite uma opinião assim.
Obviamente, o mundo é o contrário do Céu. O Céu não evolui. Tudo lá já é perfeito, e se pensas que este mundo caminha para o “estado de Céu” através da evolução das suas formas, estás totalmente enganado. Se pensas, no entanto, conforme gostarias, que as palavras de Hermes Trismegistos sobre o que está em cima ser como o que está embaixo estão associadas à forma, estás enganado. O que está acima (a luz) é como o que está embaixo (a escuridão). A luz, portanto, trazida às trevas, revela apenas o que está obscurecido (a essência), mas são ambas ilusões. No entanto, jamais conseguirás levar escuridão à luz.
Luz e trevas são metáforas, figuras de linguagem, ambos se elidem na presença da luz, que é o único elemento verdadeiro a permitir a graça. Porém, além da luz e da escuridão, está o Céu, donde a ideia de luz e escuridão é inconcebível.
Então, quem é André Sena? Essa coisa monstruosa a que deste nome não pode ser além do que és. No entanto, tu és amado, e mesmo conforme identificado neste corpo, serás amado pelo reconhecimento do que és. A ideia de um nascimento, vida e morte é um conto da carochinha, um mito, uma historia que criastes! Como não te identificares com isto sem acreditares que és irreal? Passas a ser uma historia, uma lenda, e para forçar a tua noção de existência, precisas de coisas, de mais, para provar que a historia continua, mas ela não existe, filho Meu.
Assim, quando é dito para ti que és uma ideia, o que se quer dizer é que uma ideia não pode abranger a si mesma. A ideia é meramente um uso, uma “apropriação” que fazes de teu ser enquanto um “tema”, e te aproprias disto para teres uma ilusão de existência. Quem é a ideia? Esta resposta também é impossível, e a pergunta também é um paradoxo.
Uma ideia não pode ter forma. Ela não está de modo algum associada a alguma forma. Ela pode ser projetada, mas não pode ser “lançada fora”. Portanto, na mente de Deus, há a ideia de tua criação conforme és. Isto é tudo o que pode ser dito sem trazer ainda mais confusão à tua mente. Mesmo porque não há segredos sobre isto, mais palavras apenas confundirão a tua mente aturdida e preocupada com respostas.
Então, para que em breve possas compreender através da experiência o que perguntas, lembra que és amor, e que somente podes ensinar amor, pois isto é o que tu és. A ideia do amor não pode ser apreendida, nem mesmo suposta através de comparações. Mas podes simplesmente atrair o amor a Si Mesmo através do ato de amar, e entenderás que uma ideia não precisa de formas para Ser.



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