segunda-feira, 4 de março de 2013

A defesa como culto à morte



               O amor é a verdade que te libertará. É Ele Que traz as boas novas! A culpa estabeleceu por muito tempo no teu coração um terreno arenoso, no qual podias ver as imagens do mundo sem se preocupar com tua responsabilidade acerca delas, mas ao custo de uma vida totalmente inserida nos contextos tortuosos que a irresponsabilidade traz consigo. A culpa possui em si uma forte inclinação ao desleixo, pois ela insere o filho de Deus no contexto da isenção em relação ao próprio desleixo, definindo a ti mesmo como sempre merecedor de punição, eternamente devotado à defesa, para reorganizar as coisas.

               Defender-se é, em última instância, apropriar-se indevidamente do amor. Acreditas que o amor próprio, assim entendido, é valioso como “instinto de preservação”. Tal “instinto”, definido obviamente pelo ego no decorrer de tua “maturidade” como necessário, procura envolver uma decisão meritória de tua vontade mediante uma correção dos teus atos, a fim de associar ao teu comportamento uma disponibilidade ao certo, segundo o ponto de vista do ego. No entanto, ele te diz o que é certo, e empenha-se em fazer-te defender-se disto com toda força que puder, para que tu te detenhas em guarda contra este ou aquele comportamento; ou das pessoas que, segundo o julgamento do ego, são portadores de algum maligno modo de ser. No entanto, como convém ao relacionamento especial de amor, o próprio certo será visto como errado, e o errado como insano, e não há perdão em relações assim.

               A defesa surge em guarda contra o amor. Apenas isso. No UCEM está dito que as defesas trazem uma miniatura do sistema ao qual querem te resguardar. Isso é bem verdade. A defesa monta uma estrutura em defesa de si mesma, pois ela precisa “ir lá fora” como julgamento para “voltar” como defesa. É uma única coisa, dividida em duas para pressupor diferenças e, assim, polaridades de “certo” e “errado”. A liberalidade não é a correção disto, tampouco a anarquia, pois seriam a tendência ao outro pólo que todo empenho devotado à miséria demanda. Dissemos “empenho”, pois um grande esforço em aderir em relação a si mesmo um propósito santo, trará como pressuposto, se tal proposta for apenas em verniz comportamental, um grande investimento na bagunça, sob a forma de “correção”.

               A santidade não é postiça. Tampouco precisa de defesas contra o que quer que seja, pois o fato da santidade ser inviolável e incólume pressupõe prescindir de quaisquer defesas.  De quê poderia o invencível se defender? O santo em defesa é um santo em comportamento. Não pode manter-se sempre incólume. O UCEM é claro neste ponto: “os que são parcialmente inocentes estão aptos a ser bastante tolos, às vezes (T-3. II. 2:2)”.  

               O empenho em correção surge na entrega verdadeira. Ser devotado ao comportamento, ou a uma causa, é um embuste que apenas pode atrasar. O mundo está cheio de causas, e os opostos destas causas precisam ser reforçados para que elas mesmas possam existir. “Quando um não quer, os dois não fazem tempestade em copo d’água”. Até onde é possível saber, o empenho da defesa só é possível na crença em ataque. Seria possível se defender sem a crença no ataque?

               Portanto, a principal arma da defesa é a crença em beligerância. Não há nada a se conquistar aqui, mas isso não podes saber enquanto deres ouvido ao ego. Não há nada fora de ti que possa te ferir. O teu consentimento em sofrer fez de ti um “pecador”, pois estás a ver que “aqui se faz, aqui se paga”. Não há garantia sequer nas citações: hora podem te apoiar, hora não, pois és tu quem as escreve e divulga. A tristeza vem de um apagar das verdadeiras emoções, em trabalho devotado aos inversos, pois teimas em crer ainda na injustiça.

               Não existe injustiça para o espírito! Tudo o que ele vê é o céu e o amor entre iguais. O igual prescinde de oposições. Assim, as defesas são desnecessárias e o amor pode ser a si mesmo, sem temor algum. A defesa surge do medo, tão claramente como o amor surge do perdão. O perdão ocorre mediante uma total entrega às imagens sem negar-lhes responsabilidade. “Meus pensamentos são imagens que tenho feito!”. Por favor! Lembra-te que vieste para a salvação do mundo, não para embirrar-te dele, ou contra ele. Ele não existe! Como podes ter raiva do que não existe?

               No entanto, para ti, neste modo de pensar, “parece” que existe um mundo. É bem uma mágica mesmo, “uma vasta ilusão”, realizada em teu sonhar humano — mas que são lindos em forma de humanos, isso é sentimentalismo! O corpo não é o que tu és, mas ele pode transparecer beleza em etéreas formas, pelo que evoca, e não em si mesmo, pois em si mesmo ele envelhece e murcha e morre, mas tu nunca podes morrer, pois a morte não existe!

               Quem morre, então? Quem teme a morte? Se a morte é o fim inevitável, ao qual devemos nos devotar em esperança de “demorar um pouco mais”, então é justo te defenderes tanto, não é mesmo? Percebes, então, que a defesa é uma crença na morte? A defesa é uma total disponibilidade na crença doente e maléfica em poderes morrer com teu corpo. Ela pede tua aliança em nome do ego, enquanto o ego acreditar que ele mesmo és tu, e que o corpo são vocês dois; pelo que, se morreres tu e o teu corpo, sobraria apenas ele mesmo, separado de tudo. Esse raciocínio está pautado nisto: é possível separar-se absolutamente de Deus e vencê-Lo! Obviamente, através da morte do corpo e do assassínio do filho de Deus. Quando te defendes, é a isso que veneras. Queres mesmo continuar com isso? Achas que esta meta está “certa”?

               Quando te defendes, chamas pela morte. Se chegarem a ti imagens terríveis, tu não te entregas a elas em inocência parcial. Enquanto não estiveres disposto a uma entrega total, obviamente surgirão para ti, nisto que chamas “mundo”, imagens de ataque. Mas tu não te defendes. Tu as perdoas, vês nela o amor, ou o pedido de ajuda, e assim te libertarás, dando de volta a tua própria ajuda! “Tu amas a ti mesmo assim como amas a teu irmão” quer dizer isto. Mas se te devotas a consertar o erro ou a defender-se do errado, atrasa a ti mesmo em opostos, caindo no zelo e na ganância voluptuosa do “querer mais”.

                “Isso não é possível sem alguma dor (suplementos)”. Mas para a criança, como bem é ilustrado no Curso, para a criança, tirar-lhe fora a faca, ou o brinquedo que machuca, parece ser uma coisa terrível em seu julgamento confuso de criança. Parece doer em si. No entanto, aos poucos, a própria criança passa a entender que algumas coisas não são úteis, e pode brincar de novo, com a responsabilidade que viu e aprendeu. Não foi a dor quem a ensinou, mas o amor, pelo que a dor significou em si a teima. Enquanto teimas em te sentir separado, sentes a dor da separação. Se não estás consciente desta dor, chamas de prazer e “maturidade”. Se estiveres consciente dela, percebes que estás apenas “soltando”, “deixando para lá”. Decerto, quando percebes o denso do corpo em si e a natureza das imagens como culpa, o peso destas coisas destacando-se de ti soa e forceja como uma tira em largo velcro, despregando-se em resistência, quando poderia ser o mero zíper, ou apenas o afrouxar dos botões em camisa leve, em Casa Larga.

               Amado irmão. Querido e amado em disponibilidade, aprende isto: defender-te é atacar a ti mesmo. A melhor defesa é nenhuma defesa. Não podes perder, se te assumes honesta e humildemente como Filho de Deus, pois assim sabes que és invencível, e o invencível não se defende, pois não há para ele vitória ou triunfo a cumprir. Ele é, em si mesmo, “o princípio, o fim e o meio”.

               Pai, viemos ainda e novamente em emoção, para destacarmo-nos de tudo o que nos anima ainda em corpo, e sabermos o que é a Verdade em Ti, Meu Pai. Pela natureza inquestionável de Tua Revelação, esperamos; em humildade, assumindo sermos Teu Amado Filho, pelo que nossa vontade é lembrar-se de Ti. Não nos defenderemos, pois sabemos que em Ti somos mais que invencíveis, além das categorias, pois descansaremos em Ti. Abandonaremos o ataque e o ódio, pois já sabemos da natureza amorosa do que é verdadeiramente nosso, ainda antes da Revelação, nesta ilusão de tempo, a qual eu mesmo criei e não mais a quero, mas perdoo as imagens que criei em meus irmãos. Salva-nos a todos, Pai, nosso, amado, MEU PAI, TEU FILHO Te chama. Amém.


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domingo, 3 de março de 2013

A cura da culpa através do amor




                A cura da culpa, então, ocorre através do Amor. É Ele quem a desfaz. Como poderás amar a ti mesmo se te vês solitário e desvalido. E, assim, pressuposto em escassez, como conseguirás atingir em ti mesmo uma reconciliação com o amável?
               Já vimos ontem a questão da culpa como geradora das imagens conforme as vês. Remetemo-nos à complexidade do tema em questão, de certo modo satisfatoriamente. No entanto, a revelação metafísica está além do aprendizado, e preferimos ficar naquilo que é o trabalho palpável, no dia a dia de nossa ilusão em separados, para alcançarmos a meta de modo prático. Muita metanoia pode causar especulação em assombros, e parecer fornecer atos desvendáveis daquilo que está óbvio, mas não vês. Portanto, hoje, ao invés de tentarmos simplificar a “dificuldade” do simples, vamos aprender sobre a simplicidade mesma do amor.
               És o Filho Amado de Deus. Nisso já confias um pouco. No entanto, amar é, para ti, ainda uma atividade passível de certa esquiva, pois ainda temes o amor. Decerto, a culpa fornece para ti pressupostos em imaginação, e aderes muito facilmente a eles, pois são o atestado da separação que ainda valorizas. Se não a valorizaste, como não a valorizaste? Se ainda acreditas que alguém ou alguma situação é temerária? Tens medo de te revelar amável por conta da fragilidade que isto mostraria. Achas mesmo que a tua força é frágil?
               O amor parece que te deixará sem saída, pois todos poderão se aproveitar de tua inocência e te atravessar o coração indefeso em baixa guarda. Irmão, somente se estiveres em guarda surge o ataque. Tu não serás atacado por ninguém, se não tiveres tu mesmo pensamentos de ataque. Isto é o que tu acreditas ser o teu “direito de resposta”. É mesmo um raciocínio bem circular!  Acreditas que, se amares alguém, este alguém verá que tu és frágil e bobo tonto, capaz de receber todos os tipos de pedradas devotadas aos mártires, pois é bem verdade, em teu raciocínio perturbado, que o martírio parece favorável aos amáveis, e para ti, que és um amável temeroso, o caminho do mártir parece desejável.  
               O ego, então, em seu perceber de tua dedicação aos inversos, te diz, sorrateiramente, “pois é melhor ficar aqui, se defender; sempre é possível encontrar alguém amável”, mas “esse alguém” a quem ele se reporta é uma criatura no futuro, nunca sendo aquela que está a sua frente, pois para o ego, mesmo no agora do teu corpo, as pessoas são só a tela de muita projeção de ódio, ou relacionamentos especiais de amor. Passemos disto com este simples aprendizado e com uma devoção em coragem: baixa a tua guarda! Não precisa ser todo o tempo, mas tenta, de agora em diante, em circunstâncias menos comezinhas, a pedir ajuda em disponibilidade. Joga-te, assim como quem fosse pular no mar, e diz: “irmão, vamos juntos, tu e eu”, que é o caminho da Canção da Oração. Grande belo mergulho será, com visão de Netuno e Glauco, pelo que, nas metáforas mitológicas, advogamos a separação em um instante, para dizer da segurança que são os deuses do mar.
        
Não há deuses além Dele, decerto. Para quê, senão em amor, julgaríamos? Quando dissermos um nome, não temas isto, mas antes ames a isto, e a correção virá imediatamente, pelo próprio amor. Isso é o que se chama segurança. O amor traz a segurança da verdadeira guarda, que são os anjos de Deus, dezenas de milhares de miríades, todos em teu favor, demonstrando, em ato, que quando não vês amor, estás a ver um pedido de ajuda. E assim poderás dar ajuda e receber!

Se te mantiveres em guarda, darás mais de guarda, e porrada! Mas isto na matéria não te é possível, já tens ao menos a sanidade de evitar o corpo ao ponto da arma. Mas a porrada surge em ato nas mil formas do ataque, em separação. A única maneira de veres amor e o pedido de amor é disponibilizares a ti mesmo à Ajuda, abandonando tuas defesas. Quem não guarda defesa, não tem culpa.

            

                 Portanto, o que serão as imagens vistas por aquele que se redimiu da culpa? Serão apenas as imagens do amor, em esforço algumas vezes, deveras, pois ainda vês o amor como uma dificuldade. Mas mediante a disponibilidade em apenas amar e dar amor, terás de volta, seguramente, a responsabilidade do mundo em tuas mãos. Assim, aceitarás “a vida como ela é”, verdadeiramente. 



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sábado, 2 de março de 2013

A culpa como formadora das imagens




               As imagens que vês na separação são o fundamento do teu pensamento condensado em matéria. Por isso se diz que há “acasos significativos”. Na verdade, acasos são impossíveis, pois tudo o que ocorre está dentro da tua mente, conforme o UCEM diz ser óbvio. Não é óbvio para ti, pois para manteres a dualidade culpa-pecado é deveras importante que as imagens pareçam exteriores, distantes e, principalmente, independentes.
               Um objeto que se vê e dele se diz algo, como um tipo de ferramenta ou uma chave, tem em lugar de seu pressuposto imediatamente imagético (características de cor, tamanho, densidade etc) uma definição. Portanto, em lugar da “coisa” vê-se a “coisa em potência”, a utilidade ou o juízo daquilo conforme a experiência do observador. Isto é a superfície do problema. Realmente, uma paisagem bela a qual se reporta a ti como sendo unicamente visível, sem utilitarismo, geralmente é passível de ser contemplada serenamente, se apenas vires o visto, pois ali não há elementos projetivos diretores de tua experiência passada. Obviamente, é possível te perturbares mesmo em frente a mais bela paisagem do mundo, mas pensa em como a utilidade das coisas tem um elemento tangível, que as condiciona em juízo, diferentemente daquelas as quais observas com certa isenção.
Seria impossível asserir que um determinado objeto esteja dentro de outro, pois as imagens não se sobrepõem, e para isso serve um mundo tridimensional. Uma imagem — e dizemos por “imagem” qualquer coisa — uma imagem dentro de outra, ocupando o mesmo espaço, fere um dos princípios básicos dos estudos da mecânica da separação. Quando vês uma bicicleta na frente de uma árvore, estás a ver dois objetos separados, um atrás do outro. No entanto, se quiseres te ater a um exercício discriminativo, pensa nos dois como sendo a “mesma imagem”. As coisas que são vistas separadas são uma só, ocupando diferentes “perspectivas” que devotam ao observador a separação das imagens em profundidade e altura. Isto ainda é uma espécie mecânica da observação das imagens como unitárias, pois elas em si são uma só, indiferentemente. Quando uma pressuposição de imagens alcança aquilo que se vê através das definições, temos as “imagens úteis”. Quando existe uma devoção meramente contemplativa às imagens, elas se tornam abstratas, e a realidade “além de seus usos” pode ser revelada para ti. Tal revelação não pode ser descrita, pois o que dissemos acerca do fato de todas as coisas comporem apenas uma imagem é uma metáfora muito pobre perto do que é a experiência da unidade do pensamento.
 No entanto, mesmo as imagens mais discriminativas são meramente simbólicas. Teu pensamento não é a imagem que vês de forma diretiva. Por isso se diz que as imagens não são ocorrências diretas de tua mente. Se vires a chuva, não significa que “está chovendo em ti”. A chuva que vês pode muito bem ser o tempo bom ao agricultor, conforme seja teu pensamento em abundância, ou o mero ato de lavar; e mesmo o dilúvio é a metáfora do recomeço, conforme guarde-se os pares — o mesmo mundo, lavado.
Podes ver a cura de tua mente em atos e imagens que teu ego discorda como sendo razoáveis e aprazíveis. Para ele, o amor não pode vir de forma alguma, a não ser em propósito de discórdia. Tal propósito é atraente para ele, e sempre vem a ser pintado com cores mágicas, geralmente embotados em muito sentimentalismo, agregando valores diretivos às situações escolhidas por ele como “belas”. Não é verdade que parece merecido que fulano sofra, pois ele tanto fez que mereceu? E se vires seu sofrimento, não é agora culpa dele, e tu mesmo não estás com nada a ver com isso em juízo? Esse é o propósito do ego nas imagens. Julgá-las para definir o que vale e o que é descartável. Descartável é tudo o que é pacífico.
Claro que ele não te deixará em turbilhão de ameaças, pois ele sabe que precisas de descanso, ou apelarias para “O Inimigo” com a devoção genuína e geralmente disponibilizada pelos desesperados em ato imediato e grave. Não é esse o caminho do UCEM. Nosso aprendizado é gentil. O objetivo do UCEM em relação às imagens é que as vejas no “mundo real”, que é o mundo no qual as imagens refletem os pensamentos da tua mente certa. Esse mundo, no qual a gentileza predomina, é o cenário ideal para que te seja dada a revelação da verdadeira natureza das imagens, sem nenhuma gravidade ou temor.
Em última instância, a culpa é o princípio formador das imagens como as vês.  Parece não haver lógica em tal afirmação, mas é a culpa que não te permite olhar para as imagens em abstração. Ela assere que o juízo em relação as coisas deve ser tal que catalogue todas elas   em teu repertório, de tal forma que adiciones a cada imagem vista um conceito, imediatamente, pondo “cada coisa em seu lugar”. Isso é tido como inteligência pelo mundo. Um homem que sabe diferenciar e discernir as imagens por seus usos é um sujeito polivalente.  No entanto, polivalência é separação, pois os pedaços do mesmo não são significativos.
Por outro lado, inconscientemente, tudo isso ocorre mediante uma total disponibilidade tua aos inversos, tanto quanto inconsciente, enquanto dormes teu sono de Adão. As coisas que vês são o véu, em imagem, do qual o teu pensamento se reveste para não se reencontrar contigo mesmo. O medo deste “reencontro”, que não é um reencontro em absoluto, mas uma lembrança, o medo disto vem de tua indisponibilidade em te livrar da culpa, pois é mais fácil construir um mundo entre tu e Tu Mesmo do que assumires que não podes ter medo de Deus.
Assim, surgiram os corpos, as coisas, a natureza, e toda a separação ocorreu em um mil de minuto em que dissestes: não sou o Que Sou. Então, precisastes pensar o que eras, a maçã vem pela serpente no mito bíblico como uma tentação, apenas porque representa uma imagem em desobediência ao mesmo. Não foi preciso que Eva comesse a maçã, mas apenas pensar em maçã fez da serpente uma surpresa, e todo um mundo surgiu em dois: maçã e serpente — as coisas e o ego.
De quem é a culpa? Essa é até para a gente se rir um pouco! Não há culpa, irmãozinho, pois a culpa é o fundamento da separação. Se Eva dissesse: “não quero a maçã que não quero”, toda a separação se desfaria, pois esta dupla negação afirma a inculpabilidade de Eva e desfaz qualquer argumento em favor disto. Mas se Eva pensa: “ a maçã é” então a serpente completa para si pensamento. As imagens surgem como um pressuposto completivo, uma adição ao pensamento. Entre pensamento e a neutralidade do próprio pensamento aí estão as imagens e todo um mundo para brincares de solidão, separação etc.
Já foi muito bem dito que, além da culpa de Eva, que se projeta e se faz imagem, há a culpa em Adão, que “falava com Deus”. Ademais, isto está correto apenas segundo este ponto de vista: Adão e Eva sentiram-se culpados e se separam do paraíso em imagens. Isto está simbolizado em precisarem vestir-se para esconder suas “vergonhas”. A culpa é a nutriz da vergonha.
Assim, livrar-se da culpa é passo primordial para lembrar-se do perdão. A culpa congela tudo, e é bem um artifício que afirma o mundo em separação. Somente o passado pode gerar culpa. Arrepender-se vem na direção de “dizer para trás, sentir, pesar”. O arrependimento é arrogância, pois és livre em Deus. Mesmo o maior criminoso é livre em Deus, embora precises ter cuidado com teu ego aqui, pois as imagens de restrição surgem em um contexto de alto investimento em escassez.
Tu, que estás muito longe disto, pois chegastes até este ponto da leitura, bem sabes que o amor é o teu propósito, único e inequívoco. É o amor que vai te lembrar da liberdade em Deus. A natureza das imagens pode ser apenas experimentada. Elas serão reveladas para ti como são em si. No entanto, é necessário um total desnudar-se de culpabilidades quaisquer, pois ela é o maior entrave em teu caminho. O maior medo de Adão, assim como o era o do Filho Pródigo, é o de voltar para casa, ou lembrar-se de Deus. Esse terror não existe, e se quiseres realmente abandonar de vez as tuas culpas, mediante um esforço diretivo e em Ajuda verdadeira, poderá se revelar o que está previsto para ti no UCEM, acerca daquilo que está por trás do véu das imagens:

“Deus pode levar-te ate lá, se estiveres disposto a seguir o Espírito Santo através de aparente terror, confiando em que Ele não te abandonará e não te deixará lá. Pois não é o Seu propósito amedrontar-te, mas apenas o teu. Tu és profundamente tentado a abandoná-Lo no primeiro círculo do medo, mas Ele quer conduzir-te em segurança através disso e muito além.
 “O círculo do medo está exatamente abaixo do nível que o corpo vê e parece ser todo o fundamento no qual o mundo se baseia. Aqui estão todas as ilusões, todos os pensamentos distorcidos, todos os ataques insanos, a fúria, a vingança e a traição que foram feitos para manter a culpa no lugar de forma que o mundo pudesse surgir dela e mantê-la oculta. (T-18. IX. [3:7-9] e [4:1-2])”.

Lembremo-nos aqui do medo infundado de Adão e do Filho Pródigo. Assim, receberemos a revelação da natureza das imagens mediante nossa coragem em amor próprio verdadeiro, que é lembrar-se da inculpabilidade do Filho de Deus. Recomenda-se fortemente, em esforço e empenho, a leitura imediata da seção IX do capítulo 18 do UCEM, que será compreendido mais facilmente diante das ilustrações expostas acima. Não leve teu ego a dizer que é trabalho demais, pois o mais importante está lá!

Obrigado por leres até aqui. És bem vindo aqui. Te amo.


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sexta-feira, 1 de março de 2013

Sobre a culpa




               A culpa é uma falha no pensamento certo. Aqueles que se sentem culpados estão em arrogância, ao acreditarem que o pecado pode lhes dar direção. O pecado, não existindo, não pode ter efeitos, mas o julgamento de si mesmo pode ser atribuído à imagem de “pecador”. A decorrência disto é um efeito ilusório na mente do filho de Deus dormindo, pois ele ainda pode acreditar em escassez.
               Nada falta ao Filho de Deus. Isso não pode deixar de ser lembrado; tampouco pode ser atribuído a um espaço físico ou a um evento no tempo. Nada falta ao filho de Deus, mesmo se o sonho a que chama “vida” lhe apresentar dificuldades, pois o sonho é simbólico, e as suas ocorrências em escassez são eventos do aprendizado em tolerância ao espaçamento físico, pois o que é diretivo e parece real não é nada.  Queremos dizer que o surgimento de um evento no espaço ao qual chamas “momento” é uma direção de tua mente, reformulada em matéria. A isso chamas imagens ou “a vida real”.
               Nas imagens do mundo, que é para onde vão as tuas projeções, não existe um “alvo”. É preciso bem entender isto. As projeções, no entendimento do insano, surgem através de um estímulo exterior, ao qual se dá uma resposta. Essa resposta pode ser uma projeção, na medida em que julgas o que vês “lá fora” com o conteúdo de tua própria mente. A sanidade, diante desta perspectiva, viria da análise do exterior perante tua razão. Portanto, as imagens são apresentadas como estímulo, o indivíduo as julga, e depois lida com elas. Diante deste cenário, sanidade é julgar bem.
               Nosso aprendizado é diferente; não há o que julgar nas imagens. Podes contemporizar que, se não julgares o que vês, não projetarás, mas também não terás elementos suficientes para tomar nenhuma decisão. No entanto, reforçando ainda a perspectiva de nosso aprendizado, lembremo-nos do que lemos no Texto, quando é dito que tu não precisas fazer nada. O julgamento pertence ao único Avaliador. A abstração é a verdadeira natureza da mente. Se acreditares que a abstração pode ser julgada, então não entendes bem o que é a abstração.
               A abstração surge de um evento na natureza do qual ele é o mesmo: indutor e observador. Eles não são a mesma imagem, mas são uma coisa só. Não há nenhum referente para se reportar, neste caso. Vês a imagem e não podes dizer o que aquela imagem é. Isso é disponibilidade. Neste mesmo instante, o Portador da razão dirá o que é significativo, e pode não ter muito a ver com a imagem que vês. No entanto, será sempre em teu favor, sempre amoroso, os efeitos são a alegria e a sensação beatífica de paz interior e completude plena, pois neste instante “não estarás fazendo nada”.
               Voltemos ao exemplo da xícara. Uma xícara como palavra é uma abstração, pois não há nenhuma xícara a se reportar quando dizemos: xícara; pois podes pensar em diversos tipos de xícaras. No entanto, sempre estarás muito próximo ao universo simbólico de “continente, algo que contém”. No entanto, se vires a xícara, não pensarás assim. Lembrarás de teu passado em experiências com xícaras, das xícaras que vistes, que serve “para beber líquidos” ou “para aferir medidas” e de todas as outras coisas que aprendestes sobre xícaras. Assim, a xícara é um “alvo” ao qual te referes em termos de sentido. Mas o significado da xícara não tem absolutamente nada a ver com seu sentido. Todas as coisas que vês ao teu redor ganharam sentido através da elaboração mental que o teu “amadurecimento” proveu. No entanto, qual o verdadeiro significado de uma xícara “por fora” do que pensas dela? A xícara em si, conforme Kant, é impossível. Mas o sentido da xícara parece possível na separação.
               No entanto, o significado da xícara está em abstração, não é passível de ser elencado de um repertório dos adjetivos aos quais podes “xicarizar” o que vês. A xícara reporta-se em abstração a noções derivadas de “continente”, pois pode muito bem estar relacionada a uma série de fatores que tua mente evocou como xícara. Daqui, nos perderemos facilmente, pois estamos a discutir o sentido do significado, e isso é impossível. No entanto, podemos “fazer” imagens significativas:
               A xícara com a qual bebes teu café da manhã é o teu despertar em sonho de vigília, no qual “amanhece o dia”. A xícara que mede a quantidade evoca em tua mente a partição necessária para “dar certo”. A xícara em porcelana chinesa que decora tua cozinha evoca beleza em forma. A xícara que detalha em seis unidades o espaçamento de uma mesa retangular evoca espaço e destinatários. E por aí se vai ao infinito, mas nunca saberemos o significado destas coisas, pois a mesma evocação da xícara do café da manhã pode ser atribuída à sensação de “manter acordado à força”.
               Demanda grande coragem efetivar tal processo.
               Mas coragem em “agir com”.
               Grande boa fortuna.
               A abstração, portanto, não pode ser associada a nada a que se reporte anteriormente como “experiência”. Entregar-se ao instante em que se vê a xícara sem nenhuma expectativa ou planejamento é sinal de sanidade, mas o ego acredita que isto é a loucura, pois como as coisas iriam “acontecer”, se assim? Como se daria a “ação”? Seu principal aliado é aquilo à que chama “razão”, pois ao que ele atribui sentidos, desfaz o significado, mas justifica em atos e reações mecânicas. Por isso dissemos anteriormente que a mecânica do instante santo ainda julga o instante, mas já é um começo, pois como diz o curso, estamos a desfazer o ego usando ainda o ego como referência. No entanto, parcelas de abstração já foram evocadas se conseguistes ler até aqui, mesmo que não entendas, pois o significado tem muito pouco a ver com o entendimento percebido. O significado está completamente imerso no conhecimento, conforme o Curso concebe essa expressão: “Certeza não requer ação. Quando dizes que estás a agir com base no conhecimento, estás realmente a confundir conhecimento com percepção (prefácio)”. Assim, o conhecimento associa o que vê ao que é a Real Vontade de Deus, e não valida as imagens em sentido ou em significado. Por isso é dito que nada que vês possui significado algum, pois não vês ainda em abstração, já que “meus pensamentos são imagens que tenho feito”.
               A única forma de ver o mundo real, o mundo sem projeções, o mundo no qual as imagens que vês são reflexos da gentileza de teus pensamentos, é abandonares o passo mecânico para atingires a união em Um. Isso somente pode ocorrer se te livrares da culpa. Como podes perdoar se te sentires culpado? Não estás perdoando se quiseres meramente “se arrepender”. O espírito não se arrepende, pois ele não tem passado. Nada foi realizado aqui, apenas a tua mente guarda as imagens que ocorreram a dois segundos atrás e as reverte em repertório para construir a “tua vida” ou a “tua história”. Não existe a tua história, pois o filho de Deus não é um mito, uma “história de vida”. Mas se julgas alguém de acordo com o erro ou o teu arrependimento, então perdoas para destruir, pois estás a encontrar no outro o sentido do erro.
               Numa discussão pela razão em determinado assunto, a competição surge como um elemento da separação em diferenças. A abstração não discute, ela evoca o planejamento e, depois, ensina; de acordo com a razão real. É quase impossível falar destas coisas se quiseres entender com tua mente em sentido o que ser quer reportar em significado. Às vezes lês trechos do Curso e não entendes nada, ou fazes dez lições sem entender inteiramente o que está escrito ali, mas percebes os efeitos. São apenas evocações da abstração em ato, mas ainda segundo pressupostos mecânicos, que podem muito bem ajudar a liberar a mente para a abstração, se tal mecânica for conduzida pela mente certa.
               Assim, definimos a culpa como a tentativa de teorizares a ti mesmo. Crias um conceito de ti como “pecador” ou “um sujeito errado”. Daí, em caso de acreditares que és passível de dar o perdão, podes bloqueá-lo ao rememorar no teu “repertório de vida” um elemento altamente significativo baseado em teu sentido de ti mesmo que te impeça de perdoar, pois és um “miserável pecador”. O raciocínio circular aqui não é evidente? Tu te tornas teoria de ti mesmo. Se pensares que a meta do ego é o isolamento, entenderás isto como a xícara: tu passas a ser a memória das tuas experiências, a medida na qual “pode dar certo” etc. E o significado de tua vida se perde nas ascensões devotadas ao sentido. Queres, a toda força, fazer sentido.
               Irmão: o ego não tem sentido e tu não és o ego. Ele não abrange atos significativos, pois é sempre autorreferente. Seu domínio é circular e a abstração é terrível para ele, pois ela não se refere a conceitos como “em cima, em baixo, para frente e para trás”. A abstração está para o sentido assim como a revelação está para o significado. Quando reduzes o significado ao ato de entender, tudo perde o seu real significado. Por isso é dito no primeiro exercício que: nada que vês tem significado. E, realmente, “um mundo sem significado gera medo”.       
               A culpa abole o significado. Ela faz com que te armes em defesa de um significado em escassez. Irmão: não fizestes nada, pois o passado não existe. Os repertórios que teus irmãos mostraram são ilusões, e eles não os mostrarão de novo, se a tua mente se dispuser a evitar a projeção de seus caminhos, pois nenhum pensamento teu, estendido em matéria como imagem, pode assegurar garantias em significação se não entregares a tua mente a Aquele que pensa por Deus. Ele sabe o real significado das imagens que vês. No entanto, não esqueça: se vires um evento mal no mundo, não quer dizer que tu sejas mal. As imagens são simbólicas, passíveis de interpretações variadas e tu não és o intérprete de ti mesmo. Diante deste primeiro passo sobre a mecânica das imagens, resuma-se a isto: não julgues o que vês segundo o teu repertório e entenderás sobre a natureza conciliatória da abstração. 

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