quarta-feira, 20 de junho de 2018

Sobre a raiva





A raiva é um atraso na comunicação. Ela propicia um senso de justiça baseada na separação e na teimosia em se sentir sempre correto quanto ao seu próprio propósito, ou seja, a raiva é certeza desviada de propósito verdadeiro. Sempre que estás com raiva, estás defendendo uma ideia que não é verdadeira.

A primeira das ideias defendidas pela raiva é a sujeição. Na medida em que não consegues destacar a ti mesmo da raiva que sentes, como se fosses um com ela, torna-tes sujeito à raiva que sentes, como se fosses um “escravo” de teu modo de sentir. No entanto, já vimos que todos os processos da separação são efeitos, e não causas. Portanto, tu mesmo produziste o efeito “raiva” e agora parece que ela é quem te domina. Existe um engodo neste processo que seria bom que escrutinássemos.

Observa que a raiva traduz uma certa visão de mundo, um ponto de vista, no qual estás “certo”. Ela garante que, diante de uma imutabilidade teimosa, você poderá “ganhar” alguma coisa. O que tal coisa seja, nunca se sabe exatamente, ou pode ser qualquer coisa. Qualquer pessoa que já teve a oportunidade de discutir com uma pessoa irascível sabe muito bem dos caprichos dos propósitos defendidos pelo argumento raivoso, que nunca parecem realmente estar em busca de satisfação. E se pensarmos que a raiva é um instinto primário, muito parecido com uma pulsão irracional, veremos que não existe nenhuma contraposição racional capaz de justificar um fim para a raiva de modo completo, pois a raiva é uma forma de medo e não se pode discutir racionalmente com o medo.

O Livro Texto diz que a relação entre raiva e ataque é óbvia, mas a relação entre raiva e medo não é tão direta. Na raiva, o aspecto voluntarioso em se ter “razão” está em sua máxima aplicação, e o medo de se estar “errado” produz o efeito desejado “raiva”, que argumenta em favor da insanidade de uma razão sem apoio real.

A raiva é sempre um refúgio. Uma tentativa de estabelecer a segurança em favor de um pensamento valorizado como certo e incontestável. Todos já experimentaram a irracionalidade em se discutir com alguém tomado pela raiva. Para o raivoso, portanto, a única alternativa parece ser esperar o tempo passar, ou rezar, pedir ajuda a Deus, meditar, se contrapor a si mesmo, através de autoargumentações muitas vezes inócuas, propiciando no mais das vezes culpa. Como o sujeito não suporta a culpa gerada por algo do qual a raiva diz que “se tinha razão”, a alternativa para tal processo insano é ficar com medo de tudo, posto que, se a raiva é a crença no ataque, obviamente o ataque virá de algum lugar, como represália, de tal maneira que este processo advoga que a única maneira então de conseguir se defender é produzir mais raiva, e manter-se em tal estado de prontidão em relação ao que vem de fora.

Tudo isso é visto como muito engraçado para quem observa o processo, ou mesmo para o próprio raivoso, quando em intervalo são. Geralmente, constitui a base para o famoso “um dia a gente ainda vai rir disso”, posto que se baseia naquela ideia da qual “o filho de Deus esqueceu de rir”.

Embora não pareça assim tão fácil para o separado — uma vez que esteja tomado pelo equívoco “raiva” — ver a si mesmo como advogando por um estado ridículo, muitas vezes tomando partido por situações tolas, quando não degradantes, há uma alternativa para o processo que é infalível. Parece loucura de início, mas acompanhe até o final e veremos como o ridículo pode se tornar consciente (já que a raiva é um sentimento primário, como dissemos; quase um instinto, decalcado de alguma arremedo de razão).

Quando você sentir raiva de alguém ou de alguma coisa, procure, se for possível, reservar um tempo para fazer o que vamos sugerir agora: preferencialmente de modo silencioso, coloque toda a culpa daquilo que aparentemente está lhe causando raiva em Deus, no Espírito Santo ou em qualquer outra entidade que você julgue sagrada. Permaneça livre nas formas que tal expressão venha a se dar, não tenha nenhuma restrição quanto a isso. Você pode, por exemplo, xingar a Deus ou ao Espírito Santo neste processo (pode ficar tranquilo, Ele está consciente disso). Coloque a culpa de tudo que estiver lhe fornecendo argumento para raiva em Deus ou em Seus Representantes Reais, preferencialmente naqueles que para ti ainda pareçam abstratos (como o Espírito Santo, Cristo, Buda etc). Assim, estaremos retornando toda raiva ao seu ao motivo original: o medo de Deus, o medo da alegria e o medo da felicidade em não se precisar de qualquer razão para ser feliz. Com esse processo, se feito com bastante honestidade, poderemos perceber o quanto de nossa raiva surge a partir da Grande Projeção, Na Qual lançamos aos personagens “fora de nós” a nossa grande raiva primeira: o medo da retaliação de Deus, uma vez que deixamos Sua Casa (vide neste processo a similaridade com a parábola do Filho Pródigo, que tinha muito medo de seu pai).

Pois bem, para acelerar o processo em se perceber a raiva como inócua e totalmente insana, apelamos neste processo para uma conscientização do primeiro processo de projeção, que foi atribuído à Deus, no momento da separação, já que o medo de Deus é também o medo do Amor, que obviamente não é compatível com a raiva. Assim, ao retornar honestamente sua raiva à Origem que parece fazer sentido, podemos nos tornar conscientes da insanidade de todo o processo da raiva em sua origem, e torná-lo sem qualquer efeito, uma vez que você pode tentar atacar Deus o quanto quiser, pois Ele não compreende o ataque. Assim, a ferramenta que visa contextualizar o medo da punição em todas as formas, torna-se totalmente conscientizada diante do fenômeno perdão, e poderemos perceber o medo da Grande Retaliação por parte do sagrado como um erro de percepção, e a raiva se vai.

Caso tal processo lhe pareça muito radical — visto a compreensão dada pelos homens a Deus neste momento da história —, é possível também pedir a Deus que lhe ajude a desfazer a raiva através da oração. Este é um segundo processo, caso não lhe convenha o primeiro. A busca da amenização ou sublevação da raiva através da oração verdadeira é sentida quase que imediatamente, e tende a aumentar mais e mais, até que a raiva se torne algo totalmente sem sentido, geralmente acompanhada de uma mediação pacífica, como uma benção totalmente aplicada ao sagrado através de nossa verdadeira forma de ser.

Pois bem, falamos aqui de dois processos: o primeiro deles visa conscientizar — de uma forma que pode ser vista como radical e que deve ser realizada com muitas reservas nas primeiras tentativas, em caso de insucesso — o primeiro processo visa conscientizar o sujeito da experiência que toda a raiva é, em sua fonte, medo da retaliação de Deus, uma forma insana de proteção que, em última instância, é projetada na vingança Dele, ou seja, na defesa contra Ele. A causa disso é a culpa original, causada pela separação. Com isso, poderemos perceber também que a imagem “Deus castiga” é um erro na percepção. O segundo processo, baseado na oração (meditação, ho’oponopono, recitação de mantras etc), visa trazer a tua consciência para mais perto de Sua Origem , evitando o imenso desgaste de energia que a raiva desprende, na medida em que a constituição original da raiva é falsa, não criativa, e precisa de todo o teu empenho para fazer com que o estado raivoso aconteça. A raiva não é criada, é feita; precisa consumir uma grande parte de tua energia para acontecer. E a ressaca da raiva toma a forma de culpa. No entanto, nada disso faz parte do teu escopo, e, portanto, não é coisa tua, e podes ainda utilizar este argumento moral como um terceiro modo de se livrar deste apenas incômodo.

Pai, pedimos aqui que nos ajude a perceber a raiva como insanidade, diante de Tua Presença amorosa em todas as coisas. Nos ajude a perceber nossa verdadeira Visão diante de nossos olhos e de nossa percepção amorosa do mundo, ao que podemos ver em todas as coisas a Tua Presença generosa, dando-nos consistência em nossa caminhada, auxiliando-nos a perceber que não existe culpa em nós e nem crueldade em Ti. Assim, Pai, pedimos serenidade neste dia e sempre, Amém.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Em estado de Graça




Após um evento no qual mergulhaste na luz e durante alguns dias estiveste em estado de graça e depois pensou que se foi — como assim se foi? Se a graça é eterna, como pode ter-se ido? A não ser que a escolha em deixar ir não fosse tua. Mas sabemos que estavas querendo demais voltar, para assim aderir novamente teus vícios.

Tição queima; quando vê, corrobora o mundo. E o mundo volta de com força, para pegar de volta o que era teu: um sistema de pensamento distorcido, em busca de fazer valer o irreal, custe o que custar.
Como proceder diante da aparente invencibilidade do irreal? É certo que alguma coisa se diz quando se pede para voltar, quando se sabe que há um lugar muito melhor. Se nada irreal existe, e nada real pode ser ameaçado, qual é o princípio da entrega, senão abrir mão das ilusões?

Ah! Mas eis que então surge o verdadeiro motivo: o vício em mundo. O mundo é vício. E não dizemos aqui o mundano em adjetivo de perfídias que atraem; dizemos o mundo mesmo, com suas imagens e mágicas, truques de convencer. De repente, tudo é muito verdadeiro, e a atenção volta-se para fora com o sentido de agarrar o princípio do mundo, que é sobreviver. A sobrevivência, diante de estratégias em pensamento.

Assim, o mundo se torna o projeto em pensá-lo. Adiar a guarda de um estado interior parece ser justo, diante da impossibilidade em se querer demais de tanta coisa que está aí, disponível. Melhor então divagar pelos pensamentos, tarântulas de discernimento, teias gigantes nas quais o pensamento tece enquanto pesa, mede, quantifica, e prende, ao que dita as regras entre dois e dois.

Dois é o nascimento do oposto. Entre o um e o dois, nada existe. O três atrai a atenção ao tempo, quando dirá
1. Começo
2. Meio e
3. Fim
certamente, o quatro divulga o retorno de algo, uma quadrimensão voltada para as ferramentas de ensino que não estão divulgadas nem em opostos, nem em narrativas do tempo. Quatro é o recurso que te revela o retorno. Olhas para ali (1), no tempo (2) pensas uma coisa e outra (3) e apenas se abrires mão destes três passos tristes, verás o (4).

Lembra que está dentro de ti. Que não existe para fora de ti. Que a projeção faz a percepção. Lembrar o que te faz feliz, independente de fatos, é (4).

No final das contas, o pensamento quer dominar a vida, ao dizer o que cada coisa é. Kant já previu que a coisa em si não é possível. Tudo é uma projeção. Então dizer que o mundo é um mundo de ideias é o mesmo que trazer para nossa vivência um conceito sobre as próprias ideias, mas adicionando o fundamento da noção de ideia como base para tudo que conhecemos.

O dia-a-dia favorece diversas ideias diferentes, traduzindo assim o mundo exterior como uma recorrência, isto é, algo que precisa ser analisado para ser entendido. Mas tu criastes o mundo como vês, não precisas de nenhuma ideia para entendê-lo, e sim de uma ideia totalmente nova que o refaça (4).

Estar em si mesmo significa entender que o processo de desfazer é uma entrega voluntária ao Espírito Santo, mediante uma total disponibilidade em deixar que Ele atue. Não existe nenhum tipo de conhecimento que possa ser adquirido e desenvolvido senão por intermédio Dele, que sabe ao que cabe tua experiência. Uma vontade mal dirigida pode ser humilhante, mas nenhum tipo de determinação em contrário à Dele prevalecerá.

Reza. “Enquanto houver percepção há lugar para oração”. Rezar com petição em salvar-se, apenas, sem pedir por coisas específicas, pois tudo te será dado se isto for realizado. Esta é a única realização necessária.

Pai, pedimos a lembrança do Reino e da alegria em compartilhar o Reino conscientemente. Queremos fazer de Tua paz a realidade de vida. Pedimos que lembre de nossa vontade que é a Tua, para que possamos lembrar da alegria em estar permanentemente em Tua Companhia feliz, amém.

.

domingo, 22 de abril de 2018

Sobre a rendição





A vida não pode ser vivida como uma teoria. A entrega ao princípio organizador da vida pode ser compreendida como um advento da noção espiritual dentro de um sistema completamente integrado ao consciente, sem mistérios envolvidos. A noção misteriosa de uma revelação oculta e difícil está na origem da complicação de muitas associações equivocadas.

Estar imerso em sua própria vida não significa perder os vínculos irreais que te deste. O Curso diz que não quer acabar com teus relacionamentos especiais, apenas santificá-los. Saber de si mesmo como uma emancipação arquetípica, ou seja, saber que o Espírito Santo está no comando e que uma entrega total ao seu dispositivo de vida está em realização não quer dizer que é preciso compreender este processo de modo cognitivo. Aliás, isto é impossível.

A natureza das imagens é um comunicado diferente, mas ainda está atrelado ao princípio reinante das ideias (tudo é uma ideia). A única saída é treinar a tua mente em favor das ideias certas. Também é preciso crer nas ideias certas que te destes. Tens o Curso em Milagres e Seus exercícios a teu favor, para direcionar teu pensamento em uma direção ordenada. Não poderia ser diferente, caso estivéssemos querendo outra coisa, pois a direção da salvação é inequívoca e tal coisa seria em breve desmascarada como falsa, ou equívoco.

A direção do acerto de determinado equívoco não é a punição, mas a correção. A punição sugere a culpa, de tal forma que mesmo após passado o efeito da punição, a culpa pode permanecer sub-repticiamente, deixando o sujeito da experiência a crer que o melhor corretivo para si diante de erros é ser punido, pois a culpa passa a ser para ele um modo de se ver no mundo, de tal forma que sua crença em punição trará para si a tônica das relações. Tal estado de coisas somente pode fazer o sujeito viver morrendo de medo de tudo.

Isto é insanidade. Ao Filho de Deus somente o amor pode suprir, e é apenas isso que ele merece. Amor derivado de nenhuma causa, amor puro, sem objeto, sem precisão de qualquer forma que seja para se manifestar; de tal maneira abrangente que toda forma pode ser por ele amada. Se alguém está em grave erro, a correção vem no sentido de um resgate, que pode ter consigo noções difíceis de ser totalmente gentis neste momento da história, mas no afeto se garante o retorno de um Jedi. “Até o mais desandado / dá um tempo na função / quando percebe que é amado” (Criolo).

Quantos são aqueles que precisam lembrar-se do amor? Quantos estão à espera de algo no mundo que possa finalmente lhes trazer a felicidade? Quantos conseguiram? As respostas para estas três perguntas deveriam ser suficientes para se saber que o amor não é uma conquista da forma. Não há esperança de que algo externo possa lhe trazer felicidade duradoura. Mesmo um estado interior pode ser interpretado como uma ferramenta projetada como uma conquista. Noções abstratas como a paz de espírito, iluminação, salvação ou beatitude ganham corpo como objetivos materiais, algo palpável que possa ser considerado pelo ego como bom ou “a felicidade” que algum dia, mediante algum investimento futuro, chegará.

Não chegará. Já está aqui. A rendição total é a única saída. Rendição total, sem reservas. Toda doença é curada, todo o mal é visto como irreal e toda vida será honrada como é. Isso não pode ser realizado em um estado de profundo medo. Medo evoca culpa, e culpa pede punição. Naturalmente, tal estado de coisas sugere o inferno para quem os vive. Mas lembremos da lição 39 do Livro de Exercícios, que pergunta: “se a culpa é o inferno, qual é o seu oposto?”. Há uma relutância em se responder a essa questão simples: “se a culpa é o inferno, qual é o seu oposto?” Tal relutância não se dá por conta de sua dificuldade intelectual — já que o título do exercício é “a minha santidade é a minha salvação” —, mas por conta de tua crença, pois no mundo louco e separado, quase ninguém consegue acreditar que a culpa é o inferno. A culpa parece ser o estado natural. Neste caso, seria muito difícil responder àquela questão, pois a culpa é o maior recurso de manutenção deste mundo, e para os que acreditam neste mundo, a culpa é o normal; e o perdão, diante de tal conclusão insana, seria o inferno. A relutância em uma resposta direta surge de nossa indisponibilidade em perceber a culpa como o inferno, pois a culpa é supervalorizada como a versão da justiça diante dos arrependimentos.

A saída é se render. Se render e se calar. Não sair aos quatro ventos a dizer disto e daquilo, quem o erro e qual acerto, como o juiz das causas perdidas. O mundo é uma causa perdida, que pode ser vivido calmamente, para quem pretende se mostrar completamente, sem temores, no instante presente, totalmente responsável pelo mundo que vê. Assumir a responsabilidade por este mundo se trata apenas disto. Se depois você quiser mudar o mundo, tudo bem. A ilusão toma muitas formas e certamente existem formas que favorecem o caminhar do irmão perdido. No entanto, quem pode julgar a perdição de um ou de outro?

Julgar é condenar. Se tal estado de coisas te parece impossível de ser germinado, na medida em que será necessário divulgar estas palavras agora no facebook, então o que queres é uma resposta diante de uma miséria de atividades completamente devotadas ao prazer sensual de receberes likes. Como é tolo o jogo egótico! Como faz rir.

De toda forma, apoia este instante. Apoia-o completamente. Não o futuro da sociedade ou os erros e acertos do mundo. Mas este instante, sem grandiosidades ilusórias. Aceita-o completamente. Sinta-se responsável por este mundo a partir desta sensação. Respira. Não queira nada. Não tens nada a perder ou ganhar. O mundo é uma vasta ilusão. Sorria para esta certeza e lembre-se de que nada real pode ser ameaçado.


.

domingo, 25 de março de 2018

Sobre a Expiação como defesa



A Expiação é uma defesa na medida em que pode integrar. Parece um contrassenso dizer que algo defensivo possa capacitar a integração do quer que seja, mas a Expiação integra justamente porque desfaz. A Expiação desfaz um a um os equívocos colecionados pelo ego, como se fossem várias camadas de uma cebola, até alcançar o bulbo, onde, no templo chamado corpo, estaria o altar. O desfazer das camadas permite a comunicação com o altar, e assim defende a comunicação própria. 

Pergunta: de qualquer maneira, o altar não pode ser destruído. Então, como assim defendê-lo? Porque algo que não pode ser ameaçado precisaria de uma defesa como a Expiação?
A Expiação é uma defesa que atrai o altar mais para perto da consciência, e apenas por conta disto possui tal designação. Não se pode chamar de defesa algo que revela, mas no caso da Expiação, podemos enxergar que a verdade se torna patente diante de nossa experiência. Assim, a cada vez que a defesa exercida pela Expiação atua, ela desfaz um conceito equivocado, e revela mais e mais aquilo que é verdadeiro. No entanto, é uma defesa, pois atua como segurança. A Expiação defende tua capacidade em lembrar. E como a lembrança é uma atividade relativamente passiva, a Expiação é uma defesa que não pode atacar.
 As defesas do mundo atacam ou contra-atacam. Existe até um famoso ditado sobre isso: a melhor defesa é o ataque. Mas, como diz o Livro, isso não precisa ser assim.

Pergunta: você poderia dar um exemplo deste tipo de defesa que chama de Expiação?
Certamente. Quando alguém lembra a você acerca de uma característica da verdade, através de um milagre de comunicação ou meramente desmontando sua argumentação através de qualquer coisa que mostre a impossibilidade da atuação em “sabido”, tudo é trazido para uma atmosfera de revelação. Por outra: a Expiação pode ser uma digna promessa feita a alguém e posteriormente quebrada, pois não estava de acordo com a vida de quem a fez. No entanto, nesta medida, somente o que pode garantir a certeza da defesa correta é o complexo de certeza, que se manifesta diante de um ato tido como revelador. São aqueles momentos em que a única atitude possível seja calar, diante de um fato óbvio e esclarecedor. No entanto, o significado do fato em si não deve ser interpretado, pois o ego adora desenvolver “teorias”.

Pergunta: e estas teorias todas?
Nada que está aqui representado difere d’Aquilo que está no Livro.
“Representar a vida” é o mesmo que estar em acordo contínuo com uma entidade separada e desesperada por autonomia. O teatro do mundo, para tal entidade, advoga todos os pressupostos da separação: medo e seus derivados. A única maneira de se reintegrar é a Expiação. Expiar é revelar a si mesmo à consciência. O medo sempre aparece no início deste processo como um sucedâneo para o que parecia ser o conforto em estar separado: as ideias próprias, a razão sobre o mundo, as opiniões e certezas etc. O medo sempre esteve por trás destas coisas. A Expiação “revela” o medo, na mesma medida em que revela mais e mais as camadas de interpretação egoica que sustentam tal medo. Por isso é dito no livro que “expiar é desfazer”.

Pergunta: como você interpreta a sequência que diz: a expiação é o princípio, o milagre é o meio e a cura é o resultado?
A cura é o final do processo. Quando a Expiação está completa, o Filho de Deus é são. Expiar é desfazer. O milagre te capacita a perceber que a separação é irreal. A cada vez que for preciso te fazer ver que a separação é irreal, um milagre te será dado. A cura será o resultado. Mas o princípio da Expiação vem da tua vontade em ter de volta para si a responsabilidade sobre este mundo. Para isso, basta querer fazer parte da Expiação, quando todos os erros serão corrigidos por ti, com auxílio de milagres.