domingo, 15 de março de 2026

Sobre preocupar-se com a opinião de outros egos

 


Lembrar-se de Deus não significa que todas as coisas de sua vida entrarão imediatamente em harmonia com o mundo, como um espelho claro da mesma serenidade de pensamentos que irás experimentar. O UCEM não se trata de melhorar o mundo, pois aquilo que não existe não pode deixar de ser uma ilusão. Mas a forma com a qual passarás a enxergar o mundo mudará completamente; ou, melhor dizendo, será recolocada de cabeça para cima. E de tal maneira será assim que a forma com a qual o mundo será reinterpretado para ti terá o efeito de uma redenção; não do mundo, mas em tua mente. A consequência disso é perceber o mundo real.

Os nossos sentimentos “ruins” não devem ser compreendidos como uma forma de punição ou culpa. Tampouco são resultado de uma energia espontânea e autoritária, visando controlar a tua mente. Obviamente, e, no entanto, a impressão que se tem durante tais “crises” é a de que parece ser assim. Parece que estamos sendo tomados por pensamentos e ideias totalmente alheias a nossa vontade, geralmente forcejando sugestões insanas ou ruminando aspectos relegados a uma nova caminhada intragável, uma consequência inevitável, uma queda de valor e amor-próprio etc. Tais ideias tendem a gerar sensações desconfortáveis, que podem tomar a forma de sensações desagradáveis no próprio corpo, bem como na mente; nesta última sob a forma de perturbadoras inquietações.

O amor que salva — e o amor só pode salvar — está sempre disponível, mas pode ser obliterado pela insanidade, ou doença. Por um tempo, enquanto a insanidade for tão valorizada que a única coisa que estiver claudicante como sensação seja o medo ou o terror disso ou daquilo, a ansiedade será reinante. O sujeito de tal experiência pode ter a sensação de que jamais conseguirá sentir-se bem-disposto novamente, em plenitude, e isso pode durar muito tempo. Tal indisponibilidade pode induzir à conclusão equivocada de que se está “condenado irrevogavelmente”, ou que se tenha perdido completamente a capacidade para o bem-estar.

Em casos muito graves, como naquele que se chama de “loucura” neste mundo (refiro-me aqui a loucura de sanatórios), o sujeito da experiência pode se acreditar tão ausente de si mesmo que os seus encantamentos perversos podem tomar a sua mente “por completo”, a ponto de haver um deslocamento da presença do tomador de decisões, entreabrindo a porta para que passem pela brecha resultante quaisquer conteúdos insanos que vigorem em sua mente, caudalosamente, como se jorrassem até sua consciência em um fluxo mal ordenado e contínuo. Uma vez que a consciência se ausente da vigilância ao ponto da suspensão, os conteúdos do inconsciente serão ordenados de acordo com desejos, que podem tomar formas arquetípicas (possessão) ou ainda modelada em contextos os mais diversos, como os apelos sexuais fortemente desordenados, compulsões de todo o tipo, energias vitais voltadas para a pulsão de morte, ou ainda restos de dignidade como uma tentativa malograda de se rever valioso (o louco que conversa com um rei, que se entende como Jesus, que acha que é Napoleão ou o Presidente do Brasil, o marido da princesa, a esposa do Imperador), sensações localizadas no corpo e mente experimentadas como impotência (o mundo que se acabou para ele, a incapacidade de realizar qualquer coisa que preste ou a vontade de acabar com tudo). Quando estas características são projetadas fora, obviamente o mundo não parecerá mais com um lugar de construção, de consecução de seja lá o que for. O mundo parecerá impiedoso e cruel; insano e totalmente voltado contra ele, de tal forma que a aparência irrecuperável da vida aparecerá para si como uma tese firmemente estabelecida pela sua própria existência, embora pouco consiga alcançar em relação ao entendimento são acerca do “como” e “por que” tal tese foi auto estabelecida. Diante de um quadro tão confuso quanto simples de entender, o louco pode se acreditar irrecuperável, mas, vez ou outra, como acontece frequentemente com psiquiatras ou enfermeiras que trabalham em instituições mentais, perceber-se-á neles lapsos de sabedoria, geralmente cifrada em termos simbólicos.  

Óbvia e patologicamente, tal atestação de apenas uma parcela da mente estar disponível é insana. As pessoas que estão do lado de fora das portas de sanatórios também são tomadas pelos mesmos sintomas, em graus menos pronunciados, mas aparentemente existentes e convincentes. Este grupo pode perceber isto: a insanidade é a crença em que se está separado de um todo pleno e amoroso, totalmente compreensivo e estimulante, relacionado ao contexto integral de um estado do ser que aparenta apenas um sonho esquecido de quando ele fora criança ou das ocasiões de indução temporária, quando o sujeito coloca-se à disposição de estados provisórios de êxtase.

Outra forma que a insanidade pode tomar é a preocupação exagerada com as opiniões dos outros egos, ou com a reputação. As pessoas encantadas com a prevalência do ego neste mundo (e em suas próprias mentes) acreditam muito fortemente que a opinião de outros egos podem dizer algo sobre si mesmas. Uma das distorções mais claras acerca disto é a criação equivocada do conceito de fama, ou de alguém famoso. Uma pessoa famosa poderia ter sobre si a opinião mais ilustrada de que um ego é capaz, sendo, portanto, uma ferramenta de poder elevado ao status de cuidado, ou importância. A veneração dos egos, no entanto, é tão flutuante quanto o é instável sua loucura. O “famoso” pode cair em “desuso” para as criações egóicas e se tornar um mero fantoche de projeções insanas, sendo preciso que se consiga dele um pedaço de roupa, um autógrafo, uma foto, alguma coisa material. Certamente, em oposição a tudo isso, falaremos dos professores avançados, mas estes não estão relacionados na lista dos “famosos”, pois suas ideias são estrangeiras ao ego.

O Professor Avançado está no polo oposto do insano. Isso não significa que ele não possa ser sugestionado por seu próprio ego e eventualmente cair em difíceis períodos de confusão, disturbado durante um período muitas vezes sentido como enorme. O UCEM também adverte que “poucos apreciam o poder real da mente e ninguém permanece plenamente ciente dele o tempo todo.” (LT II-VI:9). É possível, portanto, que mesmo um Professor Avançado se veja aparentemente em apuros mentais “contra” seu próprio ego. O processo de despertar é doloroso e acontece mediante uma reversão de valores e perspectivas que realmente não ocorrerá sem alguma dor. Todos os Professores Avançados da história passaram por isso. Mesmo depois de consolidado o despertar, o ego desfeito pode exercer uma tentativa de prevalecer em sua forma múmia. Mas dificilmente, após ter sido experimentado em navegações difíceis, o capitão da embarcação deixará tudo a comando de um marinheiro maluco. Sua apreciação da vida voltar-se-á para ele irremediavelmente, e sua capacidade e clareza estarão disponíveis com retorno certeiro sem que precise para isso fazer grandes esforços, pois o que é verdade não precisa de esforço para ser verdadeiramente Aquilo Que É. Assim, o Professor Avançado mantém sua confiança intacta e esta é uma característica que muitas das vezes reaproxima a cura.

Confiar naquilo que é verdadeiro é a direção máxima da fé. Não como uma instância imaterial e distante com pouca interferência aqui, mas como uma correção. A permissão para a correção vem de uma instância imaterial que não acredita neste mundo, embora possa percebê-lo. Sabemos, então, que falamos aqui do Espírito Santo. Na medida em que Ele não crê na percepção, é-lhe muito fácil percorrer os caminhos que distinguem a ilusão e permitem perceber a ausência de significados de todas as coisas separadas. O Espírito Santo pode conduzir o tomador de decisões a uma nova forma de permitir ver a si mesmo. Assim, sua autoavaliação não precisará mais conferir seu valor por intermédio da positivação de outros egos ou de si mesmo. Ele sabe que seu valor foi estabelecido na Criação pelo próprio Deus. E somente assim ele poderá receber as dádivas de lírios de seus irmãos, por intermédio da comunhão ou Filiação. Ele não precisa de nenhum valor ilusório, embora isso não precise resultar em paralisação. O mundo está aí e existe uma experiência de vida reinante. No entanto, o verdadeiro sábio não espera que sua salvação ou maldição venham deste mundo. Este mundo não pode determinar nada. E como Deus não têm oposto, a Salvação é inevitável. Os Professores Avançados sabem disto e direcionam seus esforços na direção da saúde mental, sem necessariamente desfazer seus desejos legítimos ou seus repertórios salvíficos, para que possam, assim, encurtar tempo.  

segunda-feira, 31 de julho de 2023

A diferença entre imaginação e pensamento.


 

A imaginação é um contexto baseado em imagens, como a própria etimologia da palavra sugere. Uma sequência de imagens gera um contexto imaginário que pode ou não ter relação com a realidade imediata dos acontecimentos. Como tal, a imaginação é o terreno fértil da projeção.

Já o pensamento está baseado em ideias. Uma sequência de ideias produz um sistema, um sistema de pensamento, e sua acepção em forma pode produzir um contexto construtivo e regulador da realidade, como ao se pensar em uma receita de bolo, por exemplo, feita passo a passo, mas que, inadvertidamente, adquire nuances de sabores diferentes, dependendo “da mão de quem faz” o bolo.

O pensamento imaginário não pode ser entendido como uma forma de associar ideias aos seus conteúdos diretos. Explico melhor: uma ideia não é necessariamente uma imagem. Mas na experiência cotidiana dos acontecimentos, a imagem-mundo está totalmente impregnada por nossas ideias e pode ser “continuada” pela imaginação, como em uma fantasia, por exemplo. Com nossa mente errada, podemos apenas imaginar o futuro; e todo o passado é também impregnado pela imaginação.

Imaginar é muito fácil, pois não pede mais que a pronta associação de imagens. É uma perversão do pensamento, por assim dizer. Isso não quer dizer em absoluto que a imaginação seja algo “mau”. Sem imaginação, não haveria parábola, símbolo, metáfora, rito, nem mesmo boa parte da linguagem religiosa. Mas esta questão sugere que a nossa distinção entre realidade e fantasias possa ser dificultada pelo uso imperioso e equivocado da imaginação, principalmente quando estamos confundindo pensamento com imaginação.

Certamente, na experiência cotidiana, a imaginação e pensamento não são faculdades tão separáveis assim. Grande parte do pensamento humano opera com imagens, analogias, cenas, esquemas espaciais, metáforas e simulações. E, do outro lado, a imaginação não é só desfile de figuras: ela pode organizar hipóteses, antecipar possibilidades, explorar relações e até servir ao conhecimento. No entanto, o mais importante para o nosso raciocínio aqui é a ideia de que os pensamentos que julgamos como próprios são na verdade imagens que fizemos, ou imaginações de pensamento. Muitas vezes, quando pensamos que estamos exercendo o pensamento, estamos apenas a imaginar coisas, eventos, situações, contextos etc. A associação entre todos estes elementos imaginários produz uma forma de ver o mundo que é a base da projeção.

Portanto, imaginar não é o mesmo pensar; e pensar corretamente é um aprendizado esquecido por muitas pessoas, que preferiram ouvir ao ego. E o pensamento que produz sistemas também não é contexto de mundo, mas apenas associação de ideias que podem ou não estar certas. O pensamento verdadeiro é o pensamento da mente certa, que surge de uma disponibilidade do pensador em ceder espaço ou ser disponível ao verdadeiro Sistema de Pensamento, que surge do conhecimento. Assim, a única maneira de pensar corretamente é pensar com o Espírito Santo. Como fazemos isso? A resposta é óbvia: entregando nossa mente a Ele.

Certamente, o ego pode muito bem aqui imaginar um certo espírito santo que ele crê verdadeiro, que pode tomar qualquer nome, e assim dar vigor ao seu sistema de pensamento vigente, baseando seus novos pressupostos em diretivas salvíficas, morais ou, por outra, prazerosas e plenas de poder. Assim surgem os líderes de seitas, por exemplo; ou os viciados em transmitir “a mensagem”, ensinar “os conceitos” etc.

Imaginar não é pensar, e fazer ideias também não o é. Produzir construções mentais não equivale ainda a pensar verdadeiramente. Fantasias não são a realidade, e o próprio mundo é uma ilusão de formas, embora a vida aconteça nele e isto seja de fato inegável. Nefelibata é o nome dado aos que vivem nas nuvens. Dizer que o mundo é uma ilusão enquanto não se sabe exatamente o que se quer dizer por ilusão pode ser apenas mais uma ferramenta de imaginação, vã fantasia.

O despertar para a verdadeira natureza do pensamento surge de uma imersão na tática mais inteligente: o óbvio. Já foi dito aqui em outra oportunidade que “inteligência é entrega. Toda conclusão inteligente surge de uma obviedade, pois inteligência é a simplicidade em estado puro. A mente certa é de uma obviedade fantástica. Em breve saberás disto pela tua própria experiência.” E aqui paremos um pouco e façamos um pedido.

A obviedade e a clareza do pensamento certo são patentes para qualquer um que tiver ouvidos para ouvir. O próprio Curso diz, quanto discute sobre a questão do problema e a resposta, que “esse não é um curso sobre o jogo das ideias, mas sobre suas aplicações práticas” (T-11. VIII. 5:3). Então, como nós poderemos observar o mundo real, se tudo o que fazemos é imaginá-lo? Fantasiar sobre o mundo, sobre os pecados cometidos ou injustiças sofridas, sobre sistemas perversos criados por homens loucos dificilmente é um retrato fiel da imagem cristalina que queremos enxergar despertos. No entanto, imaginar é muito mais fácil, ou, melhor dizendo, convence.

O quarto exercício do Livro de Exercícios diz que “estes pensamentos não significam nada”. Depois, atribui os pensamentos ao seu fazedor, ao personificar a ideia com a seguinte construção: “meus pensamentos não significam nada”. Por fim, mas não definitivamente, o Livro de Exercícios apresenta a ideia de que “Meus pensamentos são imagens que fiz”. 

Olha para o mundo sem imaginar o mundo. Os acontecimentos que vemos são neutros, embora todos queiram dar opinião, classificar, imaginar, fantasiar, condenar, julgar. A mente está viciada em julgar, em classificar, em imaginar algo que não existe absolutamente e assim criar mundos particulares. Esta é a meta do ego. E o que é finalmente o perdão, neste contexto? “o perdão diz que os erros que teu irmão (e o mundo) cometeu não são reais”. Isso não quer dizer que você deva acreditar que as coisas feias são bonitas ou que haja certezas sobre quaisquer coisas que tenham sido feitas a ti. "Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido", diz a Bíblia. Para que isto aconteça, tens que saber sobre a realidade das ilusões. Diante disto, o ponto de vista torna-se o ponto da questão (fantasias) e o perdão como ele realmente foi concebido e pensado passa a ser um lugar de apoio para o pensamento certo. 

É claro que não parece fácil, pois não é um contexto moral, mas de natureza. O perdão sempre foi considerado como um problema moral, mas é na verdade um problema de natureza, vindo verdadeiramente da tua própria natureza abstrata. O ser humano tem em suas mãos uma ferramenta poderosíssima chamada consciência, mas não sabe como usá-la. Não sabe o que fazer com sua própria consciência, então o ego surge com uma solução típica: passe seus dias a imaginar. Assim, o sujeito da experiência imagina que pensa, ou pensa que pensa. Chega a conclusões complexas e complicadas e todo o dia quer mais disso, mais de especulações, sendo a principal delas a seguinte: quem sou eu? Há milênios o homem está a se fazer esta pergunta e não houve um sequer para dar a resposta. Será então que já não é hora de perceber que o cenário não muda nem vai mudar? Ilusões servem apenas para criar contextos ilusórios. Você é simplesmente aquele que nada sabe sobre coisa alguma. Assume isto. É um passo importante.

Você nada sabe simplesmente porque não é necessário saber. Quem sou eu? Que tal ter a experiência de Quem És? Não estou falando aqui de viagens à 13ª dimensão ou experiencias extrassensoriais. Tais coisas podem acontecer, não há problema, e podem ser engrandecedoras, mas o que somos está no Céu, este “lugar” ou “estado” que somente pode ser simbolizado pela ideia de algo que está acima de nós todos os dias e nos traz a chuva e o sol, o dia e a noite, a nutrição e o embelezamento; ou o terrível supor da tempestade, o dilúvio e o renascimento. A palavra "Céu" foi um símbolo utilizado para que assim possamos entender algo que está muito além da consciência mesquinha do ego, pois no estado em que nos encontramos como humanidade somente alcançamos entender o que se quer dizer realmente com isto através de símbolos. Mas, na consciência assustada, a experiência direta foi substituída pela imaginação, que sonha com dimensões extraterrestres, a paz mundial, experiências com drogas, enfim, tudo o que pode ser verdadeiro também, em direção à Verdade Última, da qual todas estas coisas, quer você acredite nelas ou não, são recursos valiosos se observadas com perdão. No entanto, a verdadeira experiência de saber o Que se É pode começar com um passo muito mais simples:

“eu não sei o que sou e, portanto, não sei o que estou fazendo, onde estou ou como olhar para o mundo ou para mim mesmo.

Entretanto, é aprendendo isso que nasce a salvação.E o Que tu és te falará de Si Mesmo. (T-31; V. 17:7-9).


domingo, 1 de maio de 2022

A ética do infinito


“O termo ‘sombra’ refere-se à parte da personalidade que foi reprimida em benefício do ego ideal’.

Edward C. Whitmont, em: A busca do Símbolo.

Uma maneira dual de ver o mundo baseia-se no confronto entre seus opostos. Hora se está por cima, hora outra por baixo. Nas vicissitudes da maré observa-se o mesmo. E os pares noite-dia, feminino-masculino são alternâncias arquetípicas emblemáticas deste trânsito entre opostos da forma como se dão na natureza.

Numa sociedade, seus códigos e contextos fornecem aquilo que o homem convenciona como atos corretos e atos errados, e isto tem que se dar assim, pelo menos neste momento da história. No entanto, sabemos quase que por convenção ética que roubar é errado. Que matar não é coisa que se faça e que certos atos tipificados como crime não precisariam sequer estar registrados no código penal. No entanto, ao homem cabe decidir, tomar decisão, escolher.

Diante deste panorama, o contexto social apresenta uma lista categorizada como “atos bons” e outra que é o seu oposto. O homem, em busca de orientação pessoal, procura se enquadrar em uma destas listas, como uma âncora de comportamento; e notadamente elege estar entre aqueles que seguem a lista dos “atos bons”.

Certamente, este homem terá algum conflito entre suas verdades pessoais e aquilo que a sociedade elegeu como bom; e, logo, logo, diante do fato contemporâneo que apregoa que o bom é aquilo que está “certo”, o erro será tido como maldição. Para cada ato errado deste homem poderá haver uma a crença instaurada em seu juízo de que certa responsabilidade punitiva caberá a ele por desobediência civil à tal ética vigente.

Exemplos são aos montes. A discussão de Whitmont sobre o conflito entre o ego ideal e a sombra prova que os atos errados podem ser interpretados como o mal, e não como erros. E o erro vem da falta de confiança. Sem confiança, o homem precisa se apegar às leis comuns de ordem. Mas nisto pode haver a própria desordem, uma vez que dificilmente alguém consegue coincidir os atos certos e errados da sociedade com exatidão, precisão e ainda assim modelá-los à sua própria personalidade sem que com isso tenha relegado algum modo de pensar à uma região sombria. E é justamente disto que o Espírito Santo precisa para libertar o sujeito da experiência de uma vida assustadoramente projetada.

A associação entre mal e erro converge em nossa cultura cristã para uma certa ideia nomeada como pecado. Qualquer conflito que induza à noção de que errar é o mesmo que cometer um mal acende um alerta social que sinaliza: cuidado, tal e tal coisas erradas e, portanto, más (desde que consideradas pelo ponto de vista da sombra).

O mal e o erro são categorias em oposição ao bem e ao acerto, mas nenhum habitante que tenha passado por esta terra soube separar completamente estas duas categorias de forma perfeita, com exceção dos neuróticos. Mesmo o Curso cita que ninguém está ciente do Poder o tempo todo. Se estivesse, não precisaria nem mesmo estar aqui. Diante deste aprendizado, os atos considerados suspeitos são atos culposos, e, portanto, são imperdoáveis; devem ser relegados a uma região sombria (os sete pecados capitais são exemplos arquetípicos desta culpa).

A ética que não se opõe a nada é aquilo que vou chamar aqui de ética do infinito. Não é a ética maniqueísta do bem contra o mal. É a ética da sombra e da personalidade integral, ou aquilo que nos chega através da mente certa em oposição à mente errada, como tais conceitos são definidos no livro Um Curso em Milagres.

A mente certa é pensar com confiança e em Deus. Um pensamento da mente certa muito bem pode estar em oposição direta a certa ética vigente (vide a vida de Jesus Cristo). No entanto, ninguém precisa mais de fazer um sacrifício caso queira seguir nesta direção, pois, de fato, a frase horripilante “Cristo morreu pelos nossos pecados” faz sentido se for entendia como “Cristo, mesmo tendo que passar pela pior das privações, provou que sua ressureição existe e está disponível para todos, pois antes que Abraão existisse, Eu Sou.”

A ética do infinito diz que a parte da mente que não foi aceita pela sociedade não deve ser ultrajada. O ego não será exterminado, mas reinterpretado. E o Espírito Santo espera que lhe entreguemos tudo. Assim será para mim, assim também para meu irmão. A ética do infinito não apregoa culpa, mas perdão. Nem importa as categorias do erro do teu irmão, elas são todas irreais. É óbvio que neste momento da história isso não se dá na civilização de maneira a desconsiderar o código de ética vigente, então convém cuidados. Mas tais cuidados não devem ser entendidos como supressões daquilo que não pode ser aceito (por mim ou pelos outros), mas como aquilo que deve ser compreendido como um ato cometido no mundo (por mim ou pelos outros). O que é errado hoje pode ser certo amanhã e a dança das classificações dos atos humanos na história prova isto. E Deus não tem escolhidos, somente filhos muito amados e muito queridos por Ele. Perdoe a si mesmo e perdoe as projeções vistas lá fora como o “mal”. Assim como diz o Curso, não deves fazer isto por seres “bom e piedoso”, mas porque tais coisas que dançam entre opostos são irreais, e podem mudar de classificação de uma hora para outra, não são confiáveis, ao passo que as ideias da mente certa são eternas, e a elas pode-se dedicar completa confiança. 

O UCEM diz que há apenas uma pergunta e uma resposta. Nada poderia ser mais simples: a pergunta é uma ilusão e a resposta é a expiação; fora do mundo dos opostos não existem alternativas entre isto ou aquilo, pois tudo é um. Quando a mente se alinha com a Mente de Deus, toda a ilusão é revelada, e a culpa não pode mais existir: qualquer escolha entre ilusões é sem significado. Assim surge a completa expiação. No entanto, neste momento da história, poucos são aqueles que se alinharam neste nível, então é preciso alinhar algumas ações com o contexto das ilusões até que se saiba realmente de que se fala quando se fala em ilusão. 

quinta-feira, 21 de abril de 2022

O mundo bom

E sejas tu o meio pelo qual o teu irmão ache a paz
na qual os teus desejos se realizem


O mundo é carente de amor verdadeiro e de relações reais. E tantas são as vezes em que nos queixamos por não presenciar relações assim! Por outro lado, será que esperamos sempre de outros a abertura? Será que não vale a virtude de apresentar-se neste mundo como bom para outros? Não será tal a ausência de misericórdia neste mundo que estejamos sempre culpando aos outros, deixando de incluir a nós mesmos como vetores de um mundo favorável ao despertar?

Todas estas perguntas parecem direcionar para a ideia de que o mundo bom precisa de um começo. Nós precisamos ser este começo. Não basta apenas esperar o amor como algo que vem de fora sem que estejamos dispostos a dar amor. Este é um ponto importante. Para ver o mundo bom, temos que ser o mundo bom para os outros também.

Este pequeno ato de coragem  em ser bom para os outros — precisa ser mais bem explicado. Ser bom não significa que você deva ser o cumpridor ético e moral de todas as virtudes que o mundo prega. Sabemos pela nossa própria experiência que o bom de hoje é o mal de amanhã, pois neste mundo tudo muda o tempo todo. Então não se trata de ser atoleimado neste bem, como fosse para sempre uma mão aberta diante de palmatórias. Palmatórias às mãos abertas são ilusões, e elas podem muito bem ser repreendidas. Não se trata de ser ingênuo neste bom, mas há uma forma de gentileza e de amor ao próximo que está presente em todas as ações, e se forem entregues ao Espírito Santo podem ajudar para que sejamos bons e educados, gentis e generosos, felizes em ver o nosso irmão e alegre em contagiar os encontros com boas vibrações. E não existe uma forma certa de se fazer isso. Mais vale xingar ao teu amigo no sentido contrário que chamá-lo por um elogio diante de uma hipocrisia.

Podes muito bem contemporizar que somente um santo conseguiria se portar desta forma em todas as suas relações. Realmente, neste mundo, em que algo bom pode se transmutar em ruim de uma hora para outra, isso não deixa de ser verdade. Mas deve haver uma predisposição nesta direção: quero ser o mundo bom para as outras pessoas, quero ser gentil, quero ser alguém que traz alegria, e se eu não puder estar neste modo de ser em todos os momentos, quero acreditar que posso me esforçar neste sentido e fazer isto sempre que me for possível.

O mundo bom não pode ser só um mundo no qual eu usufruo de suas benesses, mas é um mundo totalmente bom, tanto na ida quanto na volta. Não pode ser um mundo bom só para mim. Eu preciso fazer minha parte.

Ver o mundo bom é tão alegre e consistente que doar o mundo bom e receber as suas dádivas em bem se tornam valores com o mesmo peso. Tanto é bom dar como receber. É tudo a mesma coisa. Então ver o mundo bom pode muito bem começar com uma intenção em ser o mundo bom para os outros também. Pode ser necessário um esforço nessa direção no início.

Alguém poderia dizer aqui que ser bom para meu irmão e estar bem em relação a ele são ações que demandam autoestima. Convém lembrar o que o Livro Texto cita sobre a autoestima: “a autoestima em termos egóticos não significa nada além de que o ego iludiu a si mesmo a ponto de aceitar a própria realidade e é, portanto, temporariamente menos predatório. Essa “autoestima” é sempre vulnerável à tensão, um termo que se refere a qualquer coisa percebida como ameaça à existência do ego” (T-4, II, 6). Portanto, estar bem para teu irmão não é uma questão de autoestima e trégua. E o Curso define ser caridoso como uma ação em ver ao teu irmão como se ele já estivesse além de suas ações no tempo, que é o mesmo que dizer “olhar para teu irmão com olhar de perdão”. Não precisa de autoestima para se saber perfeito, o que só pode ser desdito pela arrogância. Mas nas flutuações deste mundo em que nós mesmos duvidamos disto, podemos evitar de duvidar da perfeição de nosso irmão em sua existência de além daqui e manifestar isso honrando-o.

Convém lembrar que o encontro é santo porque ambas as partes dele o são. Essa consciência ajuda a estar diante dos outros promovendo o mundo bom, sem medo de não “receber”. Tampouco estamos em busca de barganha. Seja educado, sem ser cerimonioso; seja gentil, sem bajulações; e seja amável e considere bem fazer isso mesmo em silêncio, honrando teu irmão em tua forma de pensar.

 

 

sábado, 9 de abril de 2022

Sobre o esporte

Entrega a Deus

Assim como qualquer coisa deste mundo, o esporte pode encarnar o ídolo. O ídolo sendo, então, algo percebido e dado a si a crença de real, divergindo de tudo o que é verdadeiramente real. Uma vez que não é possível que haja somente a afirmação “a verdade é verdadeira e nada mais é verdadeiro” para quem acredita em ídolos, o esporte pode, como qualquer outra coisa, ser favorável ao despertar, pois muitos milagres acontecem durante atividades esportivas.

É tudo a mesma coisa, mas falemos da crença no impossível apenas por enquanto. Alguns símbolos que as imagens fornecem — bem como as fantasias, as quais chamamos “costumes da civilização” — são todas irreais, tanto quanto a imagem ou fantasia portadora. Contudo, é preciso que seja inserida no rol das esperanças a própria esperança de que o impossível seja vencido, como nas palavras de Jesus. Embora essa ilusão tão convincente — como diz meu amigo Marcos Morgado — tome as vezes a forma de impossível, no esporte ela tende a ser desafiada muito costumeiramente, e a crença em vencer o impossível toma forma, em sua acepção mais contundente.

Não há nada a ser superado. O esporte como encarnação do ídolo possibilita crenças na vitória e na derrota. Essa crença é a base para muitos encantamentos diante da paixão que a crença em uma equipe/atleta vencedor engendra. O vencedor seria um valor em si, uma vantagem, um ato de conquista, e em grande parte o esporte suscita isso com paixão, o que pode vir a ser um tipo de idolatria, uma crença no irreal esportivo.

É comum vermos discussões entre torcedores, muitas vezes com um desenlace bastante inconsequente. Este aspecto da crença em que algo pode vencer outra coisa é uma ilusão. Mas neste momento da história, assim como qualquer outra coisa, o esporte encarna também campo largo para milagres.

Não se trata tampouco dos milagres de superação. Superar algo não é uma meta propriamente dita. Não há que se superar ilusões. “Eu venci o mundo” quer dizer apenas que não se crê mais em ilusões, algo que, neste momento da história, parece ser um feito realmente incrível. Cabe ao Espírito Santo, que olha para as ilusões e não acredita nelas, um julgamento correto sobre o que quer que seja. Assim, alta performance significa alinhamento com o Espírito Santo.

Mas o esporte alarga a medida da fé. Quando vemos um atleta competir como se estivesse entregue a algo “maior do que ele”, podemos entender este efeito. O piloto Ayrton Senna declarava que corria como se fosse “a pista que estivesse vindo”. Parecia-lhe que estivesse apenas a cumprir um ato pronto, dado, e ele era o vetor desta ocorrência que resultava em vitórias. A entrega lhe dava um aspecto de perfeição que o enquadrava entre atletas de alto rendimento.

Assim, pode o esporte permitir uma participação da disponibilidade do atleta em se ver com Deus. Claro está que Deus não tem preferidos, então, se o atleta oponente também estiver em Deus, teremos uma bela partida. E diante de adversários que se abracem, ganha também a torcida, que fica feliz com o espetáculo. 

terça-feira, 20 de abril de 2021

Sobre a mentira

                



             A poeta Cecília Meireles escreveu certa vez em suas Crônicas Sobre Educação (não lembro exatamente em qual texto, pois cito de memória), que no dia em que a criança aprende que pode dizer “não” no lugar de “sim”, instaura-se aí um aprendizado doentio. Não está escrito exatamente assim, tampouco acho que o adjetivo usado por ela tenha sido “doentio” (embora faça todo o sentido), mas a poeta fala no texto do lugar que a mentira ocupa ao substituir a verdade por uma noção crível, além das consequências nefastas de tal ato, que podem ser reconduzidas, segundo ela, pela educação.  

          O mentiroso tenta alocar a todo custo uma interpretação desviada buscando ajustar à força seu pensamento ao mundo e às pessoas ao seu redor . De repente, onde era para dizer “sim”, ele diz “não”, e faz com que o outro acredite em “não”. Mas você não vai conseguir mentir para a verdade de modo algum; sequer manter-se nesta estratégia durante muito tempo, ainda mais se estiver diante daqueles que acreditam na verdade. Uma hora ou outra, você vai começar a passar vergonha, o castelo vai cair, o rei vai tombar e tudo o que foi projetado como mentira será para sempre arruinado ou substituído por uma tentativa de novos ajustamentos, ainda sob a tentativa de tentar fazer prevalecer uma noção particular. No entanto, como você poderia mentir para uma mente única? Isso é completamente impossível, por definição, pois o caminho da verdade prevalece por acatar as premissas de "publicidade" de uma mente única. 

                Uma vez ouvi uma história acerca de certa crença em vigor entre os evangélicos - notadamente entre as camadas mais populares - de que Jesus iria contar (narrar) todos os pecados da pessoa de cima do telhado dela. Não sei qual a fonte desta história, nem mesmo se ela é verdadeira. Mas tomando-a como simbólica, acho que faz todo sentido. Esta história traz consigo a ideia de "publicidade" da mente única. Claro que o contexto atemorizante dela e o ridículo da imagem vêm de uma concepção temerosa acerca da verdade, pois tal advertência, assim colocada, faz pairar sobre o ouvinte a ameaça de um Jesus delator. E a noção de pecado ali presente também faz com que a cena se torne bastante cômica: Jesus, no telhado, relatando os pecados de alguém. Isso não faz nenhum sentido literal.

               Mas tomemos a história como uma referência simbólica para nosso raciocínio sobre mentiras. Jesus seria a Mente Única, o telhado seria a parte superior da sua mente, acima de sua morada (ou da morada de seu corpo, se preferir). Isso significa que tudo o que você fizer não pode ser escondido de Jesus, não porque ele vai dar publicidade ao seu "segredo" de maneira vingativa, mas pelo simples fato de uma mente única ser ciente de tudo. Isso tampouco me parece dizer que tudo o que for feito aqui neste mundo separado virá a público (quem dera todas as falcatruas de corrupção do mundo viessem a público tão facilmente), mas tal história me faz lembrar um ditado bastante conhecido, que diz: "um homem pode até mesmo fugir, mas não pode se esconder". 

             O Curso também fala sobre isso. É dito que "a condição necessária para o instante santo não requer que não tenhas nenhum pensamento que não seja puro. Mas requer que não tenhas nenhum que queiras guardar." (T-15. IV. 9: 1:2). A história de Jesus sobre o telhado dando publicidade de nossos "pecados" representa, embora de maneira um pouco tosca, a natureza totalmente inclusiva e abrangente do instante santo. Quando a conversa for verdadeira, é preciso que haja verdade; e os contatos realmente íntegros com teus irmãos, isto é, os encontros santos, precisam desta disponibilidade. 

            Isso não significa em absoluto que você deveria pegar por si mesmo os seus malfeitos e dar publicidade deles para o mundo. O milagre não cabe a você e não seria certo substituir o papel de Jesus, mesmo em uma história tão ruim como aquela. Ser sincero e transparente tem muito pouco a ver com confissões  pessoais profundas. Tampouco "não querer guardar nada" significa "dar publicidade a tudo". No entanto, acho que podemos entender o sentido claro do que quero dizer com este exemplo: mesmo se Jesus vier em cima do telhado falar das coisas que você fez ou faz, você não se importaria com isso. Pode ser que tal coisa lhe causasse incômodo por algum tempo, mas isso é tudo. Isso é ser transparente. Se o que você fez cabe dentro da moral ou não, isso é outra história e outra discussão. As coisas que se faz no mundo não tem consequências reais, decerto; mas são sentidas no corpo e na existência como se fossem reais. Portanto, mesmo diante de tudo isto, alguma sabedoria de vida pode lhe cair bem.  
    
Moinho de vento
    Contudo, nem toda a sabedoria de vida que o mundo coletou no decorrer dos tempos poderá evitar sua tentativa de adorar ídolos. A adoração de ídolos surge desta acepção da mentira: a percepção pode me satisfazer de alguma forma, e tanto melhor quanto eu puder obter controle dela através de ajustamentos. Neste sentido, ser desmascarado é muito bom. Refaz a confiança em que a verdade sempre prevalece diante de critérios assumidos como valiosos. E quais critérios são estes, senão uma tentativa mais ou menos concludente acerca da nossa vontade como filial ao medo e à tentativa de escapar dele a qualquer custo, ajustando os acontecimentos?

Todos mentimos, se pensarmos neste conceito como uma ilusão voluntária a qual nos entregamos para estar aqui. No entanto, há aqueles que preferem mentir ainda diante da ilusão. Para estes, haverá muito sofrimento arraigado e a correção pode demorar mais a chegar, por conta da mente aturdida e crente em ajustamentos. Por outro lado, é possível a correção diante do abandono das tentativas egóicas de ajustamento. O ego não aceita que as coisas aconteçam confiante na verdade. Ele não aceita que você possa dizer: “o mundo que eu vejo não contém nada do que eu quero”. Assim, surgem os ídolos. E você vai criar ajustamentos para chegar até um ponto determinado pelo ego como aquele que ele acha melhor. Assim, tudo se refaz com um intuito indigno, mas tão ilusório quanto qualquer outro, embora o sofrimento por conta destas coisas seja um adicional dispensável, não é verdade?

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Sobre os sistemas de pensamento, neutralidade e vacinas.


 Um pensamento é uma imagem que a mente faz. A imagem pode ser bastante concreta, como pensar em uma montanha, por exemplo; ou abstrata, tal qual acontece quando se pensa em uma palavra como “democracia”.

Como temos muitos pensamentos, aqueles que são afins tendem a se agrupar na mente e formar um sistema.  Assim, um sistema de pensamento crente em sofrimento vai criar um sistema baseado em sofrimento. Por outro lado, pensamentos de amor se agrupam por afinidade e estendem um mundo amoroso. Portanto, todos os sistemas validam aquilo que valorizam. O melhor modo de associar aquilo que se pensa ao que se quer é estabelecido pela vontade do pensador em valorizar pensamentos certos. Se um pensamento equivocado for sobrevalorizado, certamente ele vai gerar culpa. A culpa projeta medo, e assim forma-se uma engrenagem de disfunção que se estabelece no mundo como miséria, dor e morte. Como dissemos, tais pensamentos podem ser concretos ou não. Então a forma como tais disfunções podem aparecer no mundo também acompanham uma concretude específica ou simbólica.

A nossa única responsabilidade, portanto, vigora em nosso modo de pensar. Qual sistema de pensamento você valoriza? Quais ideias você busca associar entre si? Não é de se espantar que uma mente devotada ao medo tenha arraigado uma aversão ao mundo, geralmente julgando-o como ameaçador. Então, em uma tentativa de ajustamentos, surge uma compulsão em mudar o mundo. E com isso há uma inversão de efeito e causa.

O mundo não é causa de coisa alguma. O mundo é uma conjugação perfeita de seu modo de pensar. Pode ser difícil acreditar que seja assim, pois em uma época de pandemia, por exemplo, parece que a causa das misérias, dores e mortes surge diante de um cenário lá fora, que não tem nada a ver com o meu modo de pensar. No entanto, o mundo é uma projeção coletiva. Uma pandemia é uma oportunidade comum de se perceber a necessidade da própria humanidade em mudar a forma de pensar.

Mesmo assim, pode ser que alguém muito devotado ao sofrimento acredite que cabe a si mesmo promover esta alteração. Isso somente poderia acontecer a um professor de Deus, pois seus próprios pensamentos associariam distinções corretas. Explico melhor: uma pessoa pode acreditar em soluções mágicas e colocar a si mesmo em defesa da vacinação da população. Isto não está associado a nenhum erro, pois já vimos no livro texto que neste momento da história estamos muito crentes em soluções mágicas. No entanto, se você acredita na vacina como uma extensão de seu desejo pela cura, isso pode levar você até mesmo a um trabalho voluntário nesta direção. Mas se você pensa na vacina como um componente político de uma grande conspiração, isso pode fazer com que, para seu mundo, a vacina seja vista como miséria, dor e morte. No entanto, é a mesma coisa, pois a vacina em si mesma é neutra. Mas serve como suporte simbólico para a cura ou para o medo.

Sistemas de pensamento
são totens
Neste mundo, nada é garantia de nada, pois nada que venha de fora pode afetar o Filho de Deus. Isso pode nos levar a seguinte pergunta: posso julgar uma imagem tida para ti como amorosa como sendo de desamor? Ora, quantas confusões não acontecem neste mundo por equívocos de interpretação? E por ingenuidade alguém pode se tornar bastante tolo em certas ocasiões. Isso está escrito no Livro Texto como uma advertência à impossibilidade do julgamento em estabelecer a verdade, pois a verdade não está lá fora. Tudo o que vemos como concreto é na verdade bastante abstrato, mas toma a forma de eventos e situações reais. Tudo é uma ideia, e ideias são abstrações. Para que o mundo mude verdadeiramente, a humanidade precisa aprender a valorizar pensamentos certos, que geram ideias certas e se associam em sistemas de pensamentos certos. Para isso, há ajuda.

O sistema de pensamento da mente certa é dado. Não é preciso fazer nada para ter para si pensamentos corretos. A única coisa que se precisa “fazer” é sair do caminho. Mas por sobrevalorizar ajustamentos, o ego fornece soluções sob a forma de planejamentos. Jesus dizia: seja como o vento, que sopra onde quer e ninguém sabe para onde vai e nem de onde vem. A vida verdadeiramente proveitosa não pode ser uma vida de planejamentos. A única alegria possível nesta vida surge justamente de não saber o que virá. Mas se o sistema de pensamento que você valoriza está sendo dado pela mente certa, certamente um novo critério de proveito virá para ti sob a forma de surpresas felizes.

“Pelos seus frutos, os reconhecereis”. Eis aí uma garantia. Quando valorizas a mente certa, o mundo passa a ser a extensão de um critério de valor verdadeiro, e é feliz. Não quer dizer que isso seja fácil, pois neste momento da história o sacolejo de ideias erradas e pensamentos de ajustamento parecem prevalecer. No entanto, nada pode impedir o Filho de Deus de experimentar a felicidade, caso ele realmente valorize os pensamentos de Deus. Para isso, uma ferramenta excelente é o perdão.

Se nada é garantia de nada neste mundo material, então qual o sentido em julgá-lo? Julgamos porque queremos validar nossos ajustamentos. Uma crença fortemente atribuída a um contexto específico pede por soluções específicas, mesmo que tais soluções sejam insanas. O mundo é neutro, nada pode ser mais específico do que isto. Assim, o perdão surge da consciência de tal neutralidade e da perfeita abstração de tudo, pois tudo, como já dissemos, é uma ideia.

Teu irmão vivendo em um corpo é uma metáfora. Ele pode valorizar pensamentos insanos em certas ocasiões, mas isto ainda assim é uma metáfora do Que ele realmente É. Não perdoamos ao nosso irmão porque somos bonzinhos, perdoamos suas atitudes em corpo porque não são reais. O perdão é a concretização desta verdade: o mundo perceptível não é real. Mas assim como um bom filme feito com atores que interpretam papéis em uma tela de cinema pode te divertir e até mesmo instruir, o teu irmão em sua mente certa pode ser para ti uma dádiva neste filme chamado “tua vida”.

Seria um pouco tolo se durante um filme você julgasse um personagem como um sujeito mal e depois atacasse o ator caso o encontrasse posteriormente em um supermercado. No entanto, tais coisas acontecem com muita frequência. Por que isso é assim? Por falta de compreensão do que é o perdão, pois não importa se você julga seu irmão pelo filme que é a metáfora da vida dele ou pelo filme que ele interpretou no cinema. Tudo está se passando dentro da sua cabeça, por assim dizer, devido a uma forte crença na realidade exterior como não-neutra.

Por isso devemos ser responsáveis por nossos pensamentos. Às vezes um chavão pode conter uma verdade: quer mudar o mundo? Mude sua forma de pensar sobre o mundo. Sozinho não podes. Peça ao Espírito Santo para lhe ajudar e lembre-se desta advertência do Curso: uma mente sem treino nada pode realizar. Sugiro o seguinte treinamento: abra o livro de exercícios no índice e leia em sequência os títulos das cinquentas primeiras lições como se fosse uma oração. Isto certamente vai te ajudar a lembrar melhor. 

domingo, 31 de janeiro de 2021

Sobre a culpa

 


A culpa não advoga por ninguém. Ela somente visa manter preso aquele que aparenta estar em dívida com ilusões. É certo que esse mundo pode te colocar em uma aparência de vida bastante desastrosa e isso pode mesmo vir a ser limitador aqui; mas mesmo que as coisas se deem desta forma, a culpa ainda será um adicional desnecessário.

Mas podes argumentar que não parece ser assim. A culpa, neste mundo, se assemelha a uma espécie de “autojustiça”, a qual um se propõe para dizer que errou e não deveria ter sido assim, nem feito assim, que a memória de tudo pode ser esquecida, mas os atos estarão sempre aí; que de qualquer forma que seja, a reputação de um homem etc. Tudo martírio ao Filho de Deus, pois a culpa não quer saldar a dívida, ela quer eternizar o erro. Um homem pode cometer um crime, pagar seus anos e jamais ter sua mente em paz novamente, caso esteja atrelado à culpa como um miserável pecador, que se viu no erro eterno, na danação sem escapatória, na memória ressaltada do equívoco, e novamente dizemos: etc, pois é tudo a mesma tolice.

Vai lá e paga tua conta, e eis tudo! De que te vale tua reputação em um sonho? Se puderes fazer algo para mexer teu espectro-corpo com honra, faz isso: não te mete com o que não faz sentido, ou seja, anda onde o “se você deixar o coração bater sem medo” haja. É só perceber o que está à tua frente sem medo. Essa imagem-agora que acontece é a única coisa que existe. Tua “honra” em relação ao brilho limpo e imaginário transitando entre estas coisas não passa de uma abstração idiota. Lembra sempre que deserto é lugar para se fugir de lá.

Agora pode ser que alguém esteja a lhe dizer que você não tem valor — você vai fazer o quê? Acreditar? Se for assim, talvez seja importante se perguntar para que realmente você está estudando este Curso. Será que não é suficiente dizer que você é amado por Deus e que até mesmo Ele é incompleto sem ti? E se alguém disser de você um ai de mal querer que seja, você vai perdoar porque ele é um amor de pessoa? Um amor de pessoa que merece o teu bem-querer, mesmo que tu estejas no fundo do poço e tudo o que ele tenha para oferecer seja uma pá? Tu não perdoas porque és "bonzinho", tampouco o perdão seja o clarear de tua indignidade, se acreditando o pior de todos. O perdão é só isso: teu irmão, em um corpo, te julgando e te fazendo qualquer “mal” que seja, não existe. Isso se chama: perdoar ilusões.

(Mas perdoar não é abraçar o assassino e dizer a ele que venha em tua casa jantar o belo e bom que sendo para sempre seja. Perdoar é saber que o assassino, o convite e o jantar são meramente ilusões).

De toda forma, ama ao teu irmão independentemente do ele faz/fez. Embora esteja escrito que "lembrarás de Mim quando vires ao Espírito Santo em teus irmãos santos", pensa que isso não está escrito assim: "teus irmãos são falsas imagens e sombras em um mundo ilusório. Eles nem sequer existem", portanto, não tens que viver com esse triste conceito sobre os outros para evitar tua responsabilidade sobre esse mundo. Realmente, ninguém está aqui; mas ver a todos como "ninguém" é o mesmo que isolar o amor. 

Finalmente, diante deste panorama violento, pode ser ainda que chegues à conclusão lógica de que não precisas aceitar a opinião de qualquer pessoa que seja, vindo com isso a acreditar que teu valor é estabelecido pela opinião que tens sobre ti mesmo. Bem...nesse caso, talvez devesses lembrar a “opinião” real que tens sobre ti mesmo, e poderias rir de qualquer autojulgamento. Pois aqui, neste panorama de imagens que se chama mundo, tu podes dar o nome que quiseres para o que quer que seja que aconteça, inclusive para as coisas que ocorrem contigo. Podes até mesmo podes dar nomes ao teu estar-no-mundo (honrado, honesto, caridoso, boa praça, leal ou, por outro lado, desonrado, mesquinho, vil etc). É por isso que a palavra “separação” é ideal para esta ilusão de uma coisa ali e outra lá, que nunca mais poderão ser a mesma, sendo uma boa e outra má. Esse jogo é tão ridículo quando é percebido que chega quase a ser impossível explicar o quão desproporcional é, em balanço com a verdade.

Olha só: ouve novamente o julgamento final sobre ti: és amado pelo próprio Deus, que É incompleto sem ti. Somente o amor de Deus pode ser suficiente para dizer de ti o que és e como te sentes verdadeiramente. Aqui, nesta ilusão, é possível que um se acredite desprestigiado e desmoralizado, mas como tudo o que faz parte da separação, não pode ser mais que uma fantasia, que, no entanto, como diz o Curso, pode tomar formas graves e convincentes.

Uma coisa é importante se dizer: diante das imagens-mundo, vale mais estar sempre presente e não negar nada. Aceita o que chega até ti como imagem, como se fosse apenas uma imagem, e isso é perdão verdadeiro, pois perdoas apenas ilusões e imagens são ilusões perceptíveis. Não tenta melhorar “tua imagem”, nem penses sobre isso. Quando lembrares quem és e onde verdadeiramente é o teu lugar, tudo não vai passar de uma piada mesmo. E tudo não passa de uma piada; pode crer, pode rir. A separação não faz nenhum sentido fora de seu círculo. Ria mais e não esquente a cabeça com nada. Melhor remédio para tristeza é alegria. Por fim, segue sempre em paz, na certeza de minha companhia e do julgamento amoroso de teu Pai; e lembra de permitir alegria em ti mesmo. Lembra do que está escrito no Texto sobre tua postura quanto à aparente gravidade dos atos deste mundo: “nem esperança, nem desesperança”; e procura o bom caminho, que te libertará. Eu te ajudarei nisto.

terça-feira, 30 de junho de 2020

A verdade é verdadeira e nada mais é verdadeiro.

Império das Luzes - René Magritte


A verdade é verdadeira e nada mais é verdadeiro. A determinação em despertar é um dispositivo prático de conduta. De conduta! Na madrugada de hoje tive um sonho tremendo, cheio de personagens e cenas mirabolantes. Acordei com um sentimento no corpo provocado pelo sonho. O sonho aconteceu dentro da minha cabeça, mas enquanto eu estava lá vivendo aquelas aventuras insanas, tudo parecia constituir um mundo, fora de mim, e eu era literalmente o sonhador daquele sonho.

As personagens sorriam para mim enquanto me traíam, e eu percebi que trouxe para dentro do sonho noturno o relacionamento especial. Eu não conseguia pensar assim durante o sonho, mas agora tomei uma determinação. Toda noite, antes de dormir, vou me concentrar para perceber que tudo aquilo que vier a experenciar no sonho noturno é tão somente fabricação minha, que eu estou “dentro da minha cabeça”, e vou despertar para um sonho lúcido. Vou perceber aquela realidade inventada como um Show de Truman dentro da minha própria mente. Depois, vou transladar esse mesmo propósito para o sonho de vigília, para a vida irreal a que chamamos vida, e vou despertar deste sonho. Eu quero ver. Acima de tudo eu quero ver. E vai funcionar! A verdade é verdadeira e nada mais é verdadeiro.


domingo, 28 de junho de 2020

Sobre os pesadelos e a realidade das imagens




Pergunta:
em relatos sobe EQM (Experiência de Quase Morte) geralmente há considerações do sujeito que passou pela experiência acerca da presença de níveis “baixos” ou "maus" de energia, vivenciados enquanto esteve além do corpo. Em qual medida há algum pressuposto de verdade nestes depoimentos, disposto que aceitamos que ilusões não podem condenar?

Aqui há uma dúvida sincera. Não existem níveis em milagres. Isso acontece porque não existem níveis de ilusões. Uma ilusão é uma ilusão e não há nada mais a se dizer sobre a sua natureza. Por que, então, existem tantos depoimentos que associam uma presença energética, ou superpondo uma consideração de “energia negativa” versus “energia positiva”, diante dos acontecimentos deste mundo, ou mesmo quando este mundo é observado desde uma perspectiva além-corpo? Isso é muito simples de se entender. O mundo como ilusão permite que coisas que não existam pareçam acontecer. A verdade é que nada está acontecendo de verdade, mas parece que sim. Neste sentido, há coisas feitas e coisas criadas. As coisas feitas são as tais baixas energias, simplesmente porque não são criativas e vibram em acordo com o ego, que não tem poder nenhum e tudo o que faz tem pouca luz. Por outro lado, há coisas que são criadas mesmo aqui, estas estão associadas à Filiação e à mente única, sendo, portanto, sustentadas pelo poder da Própria Criação. Estes eventos criam luz. Isso não significa sobremaneira que sejam reais. Apenas são símbolos da Criação, enquanto outras ilusões são símbolos da “feitura”. Não existindo níveis de ilusão, o único remédio para tudo passa a ser o perdão, quando não há critérios de julgamento, pois ninguém em sua sã consciência vai julgar algo que tenha acontecido durante o sonho noturno como um acontecimento real. É claro que pode ocorrer de um sonho noturno entregue ao Espírito Santo divulgar um motivo criativo mesmo aqui, mas quando isso acontece não temos dúvida sobre a realidade daquilo, pois o que é verdadeiro e criativo é verdadeiro e criativo em qualquer lugar. Agora, a pergunta que você tem que se fazer com verdadeira honestidade é esta: acredito que as imagens que geram tal “energia negativa” sejam ilusões?

O Livro Tibetano dos Mortos é um pequeno manual para ser lido ao moribundo na hora de seu desprendimento do corpo ou um pouco após o falecimento. Este ritual dura certo tempo; alguns dias, se não me engano. Não lembro com exatidão a extensão deste período agora, pois cito de memória e já faz um bom tempo desde que li este maravilho documento pela última vez. Nele é possível encontrar instruções a serem lidas com a intenção de orientar o morto ou, segundo nosso currículo, com a intenção orientar a consciência que acabou de abandonar seu instrumento de aprendizado e encontra-se agora em um ambiente que pode lhe ser totalmente esquecido e estranho. No Livro Tibetano dos Mortos, este ambiente no qual a consciência se vê logo após o encerramento do ciclo de seu instrumento de aprendizado é chamado “Bardo”.

Como estou citando de memória, não lembro exatamente tudo, mas sei que um dos critérios desta orientação ao “morto” é sussurrar-lhe à consciência, através de um ritual no qual orientações lhe são passadas, que tudo o que ele estiver presenciando no Bardo como imagens são ilusões, e que ele deve seguir em direção à luz, sem medo. Segundo o livro, neste momento várias imagens tremendas e associadas aos medos mais profundos do recém-transferido podem surgir, e é neste momento que lhe é citado que tudo o que vê como imagens macabras são ilusões. No entanto, há um segundo momento no qual imagens sagradas que foram associadas durante aquela vida como sendo mais celestiais serão apresentadas também à consciência do “morto”, como, por exemplo, a presença de santos e anjos em lugares incríveis e maravilhosos. O Livro Tibetano dos Mortos relata que esta fase do Bardo também deve ser tratada como ilusória pela consciência, embora ela traga a antessala da luz (perceba como isso parece com a noção de “mundo real” ou “mundo perdoado”, presente em nosso currículo. Segundo essa noção, antes do despertar veremos o “mundo perdoado”).  Acaso o medo surgir em qualquer uma dessas fases, é possível (segundo a crença do livro) que várias cenas de copulações surjam como imagens àquela consciência, um momento no qual ela pode se sentir atraída para aquelas imagens, para ser então absorvida por elas, ao que retornaria por meio deste caminho a encarnar em uma “nova vida”, através de alguma concepção. Salvo engano, a mente é advertida também pelo leitor do Livro Tibetano dos Mortos, como um último esforço simbólico, de que as imagens de copulação são igualmente ilusórias (posto que irão conduzi-lo novamente a um mundo de ilusão).

(De toda forma, e igualmente, se há níveis de ilusão que façam com que uma mente que aprendeu um pouco mais possa ver a copulação de extraterrestres, e então aportar em um planeta mais evoluído, e daí nascer por lá, isso não importa. Pois, de qualquer maneira, nascer em um corpo que precisa de matéria é ilusão e ponto final).

Portanto, imagens vistas em sonho são ilusórias e pertencem ao repertório fantasiado que aquela mente percorreu por aqui, enquanto acreditava habitar um corpo. Essas serão as imagens que fornecerão o escopo de sua experiência em sonhos noturnos, por exemplo. Durante a noite, imagens associadas ao seu modo de ser podem ser direcionadas a fazer com que o sujeito da experiência sinta “satisfação”. Por outro lado, acaso o sujeito da experiência esteja tão iludido de que está afastado de sua realidade e é um sofredor, imagens de terror poderão surgir diante daquilo que ele nomeia pesadelo.

Pergunta: a teoria junguiana diz que os sonhos podem ter efeitos compensatórios. Uma pessoa que sonha com extrema pobreza pode ter uma atitude consciente de esbanjamento. Isto faz algum sentido?

Em um mundo de opostos, o equilíbrio é uma tendência diante das eventualidades de uma característica própria de vai-e-vem (vicissitudes), ou seja, se há trânsito pelos opostos, uma hora este trânsito passará pelo meio-termo entre A e Z. A noção de compensação visa fazer com que o indivíduo possa ater ao seu pressuposto básico uma consideração sobre si mesmo mais apropriada ao que ele realmente é. Em outras palavras, pode ser um chamado à mente certa pela exposição demasiada à mente errada. A cura disto seria corretamente empreendida por alguém que olhasse para as imagens à sua frente e escolhesse questionar sua validade, sabendo que não são reais. Assim, ele perdoa, e pode mais facilmente considerar sua opção pelo oposto sofredor (mente errada) diante de uma nova alternativa (mente certa). Mas para isso é preciso que o sonhador noturno também seja considerado irreal, como é citado no Texto, ou ele vai acreditar que sonhos (noturnos) influenciam sonhos (de vigília), e isso não quer dizer nada verdadeiramente. São estratégias de adiamento do ego e não têm valor real para o despertar. Isso vale também para a noção de uma experiência de quase morte ou extra-corpórea. O mundo real é abstrato. 

domingo, 17 de maio de 2020

Carta aberta de um aprendiz feliz

Fé!



Muitas vezes eu gosto de apresentar ensinamentos sob a forma de curtas sentenças, colocadas em sequência, e com isto busco atingir uma maneira apropriada para fortalecer na mente do estudante o sistema de pensamento que aprecio e sigo. Acredito que esta seja uma característica importante para um professor honesto. Um professor deve ensinar bem o que aprende, mas deve acreditar naquilo que ensina para que ele mesmo possa aprender melhor, como diz o Livro Texto. Acho que algo parecido pode ser encontrado naquela famosa frase do magnifico escritor João Guimarães Rosa: “mestre não é quem ensina, mas quem, de repente, aprende”. Isso não significa, no entanto, que um professor seja perfeito naquilo que ensina ou aprende. O professor que acredita estar acima ou melhor que seus alunos está incorrendo em especialismo para consigo mesmo. De toda forma, o melhor método de ensino é o amor, mas o erro também pode convencer pelo contraste.

Assim, venho dar um relato pessoal diante do panorama que quero desenvolver para minha vida, que é este: ser um trabalhador em milagres em meu cotidiano e um professor de Deus diante do UCEM. Isso não significa que eu não vá cometer erro algum. Como bem diz o Livro Texto, isso apenas significa que não há nenhum deles que eu queira manter privadamente ou conduzindo minha vida para um efeito de culpabilidade, diante de um contexto paralisante.

Isso tampouco quer dizer que vou divulgar meus erros literalmente em um edital. Não se trata disto e não recomendo a ninguém que o faça, a não ser que queira, como disse outro mestre, o psicanalista Carl Jung, atrair para si a ruína moral. No entanto, não quero esconder meus erros mantendo-os sem entregá-los todos para a correção do Único que pode fazer a correção verdadeira de minha percepção equivocada. Em outras palavras, quero entregar tudo ao Espírito Santo para que Ele possa fazer o que é melhor para mim diante do fato cada vez mais claro de que eu nada sei.

E quanto mais percebo esse “não-saber”, mais feliz eu fico e melhor aprendiz me torno. É um paradoxo para o ego dizer que “não-saber” é “saber”, mas tal afirmação está sendo promulgada neste mundo desde os tempos de Sócrates e se consolida cada vez mais em tempos de despertar como uma consideração válida. Tal pressuposição não se perpetuaria por tanto tempo na história se fosse apenas um slogan. E por falar em slogan, gosto de falar que não sou muito favorável a slogans. Afirmações do tipo: “somos todos um”, “nossa mãe terra” ou “precisamos viver em harmonia” não passam de palavras vazias, se não houver repercussão em nossa vida prática.

Demorei para entender que o UCEM é a vida prática. O mais importante é viver os ensinamentos para que eles possam surtir efeito real, mesmo que para isso você tenha que parecer em alguns momentos um tipo desagradável e irritante. Crianças gritam quando lhe tiram uma tesoura que lhes poderia machucar ou quando lhe alertam sobre algum ponto de vista para o qual ainda não estão preparadas para perceber como saudável. Isso acontece comigo também, muitas vezes, por isso é preciso estar vigilante. De toda forma, e ainda diante disto, é importante se ater ao fato de que não sabemos de tudo. Portando, não nos cabe querer dar uma de herói e buscar regular o mundo. Eu sou uma criança também e não entendo nada, como diz a música de Erasmo. Mas já aprendi que cair de um precipício é muito ruim e que não dá para desistir no meio da queda. E não vai adiantar gritar slogans do tipo: “o amor me ama!”, para se salvar.

Meu ensino é duro porque minha vida foi marcada pela dureza. Lidei com isso convertendo este rigor em disciplina, pois tudo o que pude alcançar nesta vida me veio através do estudo. Assim, para mim, um bom estudante é aquele que estuda o conteúdo e não fica apenas preso a considerações intuitivas. Eu não sou perfeito neste tópico também; tampouco acredito que a intuição não tenha imenso valor e não é isso que estou querendo dizer, absolutamente! Mas se há um livro, um texto e um método, eu quero ler o texto para bem aprender o método.

E se eu aprender a ponto de professar, quero professar o método, diante de seu valor e sua consistência. O texto do UCEM é bastante consistente e eu não tenho como me ater a ele sem divulgar sua mensagem. Assim, tudo que faço acredito, e peço ao Espírito Santo que corrija minhas crenças quando estiverem equivocadas.

Finalmente, gostaria de terminar exaltando o valor do estudo para a consolidação do aprendizado. Acho que aprender é estar vivo, mas um apoio “teórico” cai muito bem. Algumas pessoas aprendem o conteúdo do UCEM muito facilmente e eu acredito que isso esteja ligado de alguma forma a uma questão do estabelecimento da crença pela abertura à fé. Existem outras, no entanto, que tem muita dificuldade e precisam de ajuda. Eu ajudo para que eu possa viver melhor e me ajudar também. Eu procuro fazer como faz aquele rio, que é o Milton Nascimento, quando diz: “eu tenho esses peixes e dou — de coração”. Não sou perfeito, mas sou perfeito como Deus me criou e é para lá que tenho que olhar junto com meus irmãos. Obrigado e bom final deste dia!

terça-feira, 30 de julho de 2019

Os Companheiros Escuros

Bouguereau - "lição difícil", novamente.


Os companheiros escuros são os consoladores que estão em busca de equívocos como forma de associação. Buscam relacionamentos especiais ao invés das companhias graciosas de Deus, e não podem ver a luz do sol. 

Os companheiros escuros são vistos como são, e não são “as pessoas”. O teu irmão não pode ser um companheiro escuro. O que nele não é como tu, é parte de sua mente errada, e deve ser visto como é: um erro a ser corrigido, e não um mal a ser punido. Mas não serás acolhido no céu enquanto mantiveres em tua mente ideias que não pertencem ao ceu, pois no céu somente pode entrar aquilo que lhe é igual, o mesmo. Aquilo que não é como o céu, nem mesmo existe. 

Apenas a alegria faz parte dos encontros santos. O que pesa e desarma como função escura é erro, e pedido de ajuda. Tu não tens que te acreditar culpado se não podes ajudar um irmão à tua maneira. Ao Espírito Santo cabe a Expiação. Mas o pacote curativo deriva também de apoio que é recebido, no tempo, por qualquer um que tenha a crença de que é possível ver de forma diferente, pois a crença, como diz o Curso, produz a aceitação da existência; no caso, a crença em outra maneira de ver produz a aceitação da existência de uma alternativa. 

Peçamos outra maneira de ver aos nossos companheiros escuros, e rala pé de lá.

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segunda-feira, 10 de junho de 2019

Sobre ver o erro



"O plano do ego é fazer com que vejas, em primeiro lugar, o erro com clareza e depois não o vejas. Mas como é possível não veres aquilo que fizeste com que fosse real? Vendo-o com clareza, tu fizeste com que fosse real e não podes deixar de vê-lo. É aqui que o ego é forçado a apelar para "mistérios", insistindo que precisas aceitar o que não tem significado para salvar-te." (T-9. IV. 4: 2-6).

O que são os mistérios aos quais o ego apelaria por?

Uma condição nova, apropriada pelo ego como novidade, pode ser a velha forma de enxergar o mundo falsamente renovada. O ego dança com as imagens do mundo como se fosse um com elas, em separação ordenada, julgando tudo o que vê como se fosse dono e juiz. Sendo um com tudo o que vê, mas no formato “dono”, o ego apregoa que o medo de Deus faz todo sentido, pois ver a fonte da "Ameaça" é para ele o mesmo que a morte. Portanto — ainda segundo o ego —, é altamente recomendável ter sempre novas ideias sobre o mundo, com a finalidade de "renovar" a separação.

Já quanto a cura, a benção e o perdão, haverá uma série de mistérios dificultando seu entendimento, pois o ego fará com que penses que é tudo muito difícil de ser entendido, que não é para você, deve ser algo para pessoas especiais e inteligentes, diferentes de você, melhores que você e mais tolices deste tipo, que o ego consegue oferecer com muita habilidade de convencimento. Portanto, é preciso pensar muito bem antes de dar qualquer passo em favor da mente certa, segundo o ego. Seu pressuposto básico é este: cada dia deve julgar o dia anterior, e prosseguir temendo o futuro de acordo com os acontecimentos passados. Para o ego, este é o uso favorável do tempo.

Da mesma forma, para o sistema de pensamento que usa, o medo deve estar sempre dirigindo os atos mais corriqueiros do teu dia, sob a égide da perda. Vivendo em escassez perene, o ego adverte para a necessidade de preservação. Uma forma de fazer isso é dar ao seu fazedor um instinto de reação imediata, provocando um rápido afastamento de tudo aquilo que o Filho de Deus acreditaria correto e justo para se investir.

Assim, o medo surge neste contexto como um sucedâneo para o pensamento construído diante deste erro. Se o medo faz mistérios, diante de uma ocorrência anódina — pois para ele tudo será ameaçador —, o medo também estará propondo uma série de ameaças misteriosas, que divulgam para aquele que visa aplicar o perdão verdadeiro, ou seja, aquele que perdoa meramente vendo o visto, sem antes julgar para só então, depois, perdoar, pois aquele que busca apenas ver o visto, a esse é dito que o medo deve ser percebido como um sinal da interferência correta de teu irmão sobre tua vida. Ele é maravilhoso, sim; um Filho de Deus, sim; tem direito ao Amor? Claro que sim! Mas com reservas, nunca se sabe o que pode vir no futuro. Como podemos confiar em alguém que não etc.


Esse discurso é um velho conhecido. Todos de alguma maneira se engalfinharam nele. É misterioso simplesmente como é misterioso algo que não existe. É muito sedutor falar em termos ficcionais de um planeta ou de outra dimensão, porque para a mente isto tudo se torna muito misterioso. Um irmão pecador é, para o Espírito Santo, um grande mistério, pois isso é algo que Ele nunca viu. Isto está escrito sob a forma de piada, pois o pecado, e, consequentemente, um irmão pecador, não existem de forma alguma. O ego apela para o mistério da existência de pecados mortais, infernos desastrosos, medos inenarráveis, traições e outros termos que sabemos somente existir sob a égide do medo, e o medo é um estado que não existe.

A solução é perdoar o visto, vendo o visto, sem antes julgar para, então, perdoar. Este é o plano do ego, que busca entender o “mistério da vida”. Não há nenhum mistério. Simplesmente, o corpo não existe, esse mundo foi feito para tentar fazer verdadeiro um estado no qual a mente estaria separada em partes e que tudo estaria fora do teu alcance, não fosse as parcas percepções que o corpo provê. Tudo isso parece muito misterioso, assim como é complexo e misterioso tentar tornar uma mentira verdadeira. Tudo que o ego diz sobre o mundo e sobre teu irmão é uma ficção daquilo que ele é. E geralmente é uma ficção bem construída, pois o ego é muito competente em arguir e responder. Ele não teria capacidade para fazer como fazemos aqui, pois ele não defende estas ideias nem as consequências para as quais estas palavras dirigem, mas ele te diz exatamente o que pensar sobre o mundo, sobre teus irmãos, e onde deves investir teu comprometimento, pois há um mistério de punição e medo rondando todo o seu sistema errado de pensamento. Assim, para o ego, perdoar é primeiro ver o erro, e depois tentar não o ver mais. Segundo ele, isso será possível. Faz algum sentido para ti? Uma vez marcado, o teu irmão torna-se pecador. É possível tornar o pecado real e depois perdoá-lo?

Isso daria ao ego o poder de um Deus. Por isso o julgamento é tão importante para ele. É uma ferramenta imprescindível para o aprendizado ao qual o sistema de pensamento da mente errada te dirige.

Mais uma vez: perdoar é ver o visto, e só. Não há mistérios nas coisas de Deus, pois Deus é abundância e dádiva. Acredita nisto e verás novamente.

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terça-feira, 7 de maio de 2019

Sobre a crença em superioridade e inferioridade.



“O teu valor não é estabelecido pelo ensino ou pelo aprendizado. O teu valor é estabelecido por Deus. Enquanto contestares isso, tudo o que fizeres será amedrontador, particularmente qualquer situação que se preste à crença na superioridade e na inferioridade (T-4. I. 7:1-3)”.

Portanto, nosso valor não se depõe em aprender algo sobre nós mesmos, mas na forma em que dispendemos nossa fé. Deus nos ama e isso tem que ser crível no teu coração, de verdade. A disponibilidade para esta crença poderá nos ensinar mais do que qualquer coisa que se tenha “decorado” ou “aprendido”. Memorizar Um Curso em Milagres inteiro pode não oferecer sequer “um grão de amor”, enquanto um exercício feito com fé (portanto, sem decorá-lo), pode ser um provedor do desfazer que o milagre anuncia em nossa imagem mundo, geralmente condizente de maneira indiscutível com o conteúdo do exercício praticado. 

Qual nosso valor, então, diante de um milagre assim? Poderíamos começar pensando sobre nossa mania em querer entender as coisas. No livro “O Idiota” (um ótimo título!), Dostoievsky apresenta esta fala quando o personagem Gánia Ardaliónovitch tentar explicar ao General Ivan Fiódorovitch certa circunstância sobre uma foto que trazia, mediante uma série de especulações que supunha certas. O General tentava dizer-lhe que pensar sobre uma circunstância qualquer pode ser presunçoso. Esta parte não faz parte do enredo do livro, mas podemos entender que o General sabia — intuitivamente ao menos — que uma compreensão geral das coisas foge a nosso propósito, e cabe somente ao Espírito Santo, que sabe tudo sobre nós mesmos e tem ciência do Plano Geral, julgar. Quem pode ter a presunção de acreditar deter para si o futuro sem projetá-lo? O verdadeiro entendimento é dado.   

Mas para receber é preciso que se saiba aonde se quer chegar. A tentativa de Gánia Ardaliónovitch em entender certo acontecimento no enredo do livro, apenas por meio de inferências, mostra-nos que o personagem acreditava no poder da compreensão enviesada que temos diante daquilo que chamamos de livre arbítrio. 

O livre arbítrio permite que o tomador de decisão possa optar por seguir o sistema de pensamento da mente errada quando ele bem entender. Não precisamos sentirmo-nos culpados quanto a isso, simplesmente porque não sabemos distinguir bem entre progresso e retrocesso, como o Livro Texto indica. Se soubéssemos, nunca escolheríamos ser o vetor pelo qual o pensamento do ego engendra neste mundo a aparência de realidade que transparece muito palpável em coisas como a doença e a morte, por exemplo.  Mas até mesmo a famigerada morte não pode ser real, a não ser em um mundo no qual todas as coisas parecem estar separadas umas das outras, inclusive a vida da morte. Como diz muito bem o curso: isso não precisa ser assim. 

Mas para o tomador de decisões parece ser muito sedutora tal aparência de poder que lhe dá a volição, pois tal critério é capaz de fornecer a ilusão de pensar diferentemente de Deus. Sim, aqui nesta pedra, girando em torno de um espaço infinito, podemos escolher pensar diferentemente de Deus. Temos o livre arbítrio a nos dispor para isso. E se você acreditar que pode usar isso a seu favor acionando o modo bel-prazer, saiba que você pode se atrasar o quanto quiser. Mas não esqueça que, ao escolher assim, será preciso lembrar a si mesmo que nos atrasamos somente pelo uso excessivo do sistema de pensamento da mente errada (o Livro Texto afirma que o tempo serve apenas para aprendermos a distinguir bem).  Vou ajudar com uma imagem: tente pensar no domínio consciente que você teve de sua vida até aqui. Resulta em um extenso e constante corredor ou em um labirinto? 

Espero que esteja acompanhando. Para isso, é só não fazer como Gánia Ardaliónovitch, que tentava entender. Basta seguir. Estou seguramente te direcionando através do sistema de pensamento da mente certa, simplesmente porque escolhi assim, pois, ainda segundo o Livro Texto, “o poder de decisão é a única liberdade que te restou como prisioneiro desse mundo (T-12. VII. 9:1).” Nossa liberdade reside em nos livramos da indecisão e escolhermos bem. Mas nossa capacidade de escolha tem sido obnubilada pelo véu do desejo em controlar, entender, sem saber ainda distinguir. Esse era o plano, lembra? Pois é, aparentemente não deu muito certo... 

...aparentemente, pois a boa notícia é que não foi real. E agora podemos sair daqui. Certa vez Jesus disse a Helen Schucman (a escriba de Um Curso em Milagres) que a única coisa a se fazer em um deserto é fugir. Ter fé é simplesmente escolher subir na caravana. 

O meio mais rápido está disponível no teu irmão. Sinto muito te desapontar, mas está nele. Qual deles? Todos. Sinto muito te desapontar outra vez. Neste momento da história parece mesmo muito difícil acreditar em uma afirmação deste tipo, mas muito desta desconfiança surge devido ao que chamarei aqui de espelho ego, ou, segundo nosso currículo, nossa ênfase na projeção. Uma crença em corpos separados com identidades separadas tem necessariamente que hierarquizar o mundo inteiro, dentro de uma noção de divisão, na qual as partes não são iguais, a começar pelo corpo de cada um e dos pensamentos privados que cada um supõe possuir. A crença em nossos irmãos separados tem criado neste mundo todo o tipo de disposição que envolva superioridade ou inferioridade, como já foi dito, pois tais polos surgem diante do medo da Filiação, ou seja, do medo da amorosa unidade que encontramos abundantemente disponível em nossos irmãos santos. 
Ver diferente disso seria reduzir demais a teus irmãos e se colocar em um patamar de inferioridade e/ou superioridade. Não é preciso dizer o quanto isto é cansativo. O que chamo aqui de “espelho ego”, por falta de um nome melhor, é nosso irmão visto ao contrário do que ele realmente é. O espelho ego é a antítese do instante santo, e podemos dizer, repetindo este bordão que tanto gosto de usar (neste momento da história), que no século XXI boa parte dos encontros entre o que chamaremos aqui de seres humanos ocorrem sob o modo espelho ego. 

Nossa esperança pode ser reforçada mediante este lembrete constante no Livro Texto: isto não é assim. As imagens podem auxiliar bastante, e foi apenas devido a isso que viemos por aquele caminho. Pois bem, é isto que temos que nos esforçar em ver em nosso irmão: luz; em qualquer circunstância em que ele surgir, pois ele tem que ser tão santo quanto nós somos, caso queiramos mesmo escapar do deserto. Isso se faz através do perdão. 

Para que isso seja assim, temos que confiar em nosso irmão com total disponibilidade. Basta lembrarmo-nos disto: somos totalmente inocentes. Fomos enlouquecidos pela culpa e agora não queremos mais isso. Temos que nos aproximar de nossos irmãos em completa inocência e confiança, em total certeza, sem relutância alguma, pois “a inocência não é um atributo parcial. Não é real enquanto não é total. Os que são parcialmente inocentes estão aptos a ser bastante tolos, às vezes. Enquanto a sua inocência não se torna um ponto de vista de aplicação universal, não chega a ser sabedoria. A percepção inocente ou verdadeira significa que tu nunca percebes de forma errada e sempre vês verdadeiramente. Em termos mais simples, significa que nunca vês o que não existe e sempre vês o que existe (T-3. II. 2)”.

Nosso irmão só existe para nós se nos apresentarmos diante dele em completa inocência, em total disponibilidade. Isto parece muito difícil, mas o curso garante que somente este primeiro passo é por nossa conta (“para ter, dá tudo a todos”), e mesmo nisto teremos ajuda: 

“esse é um passo muito preliminar e o único que tens que dar por conta própria. Não é nem mesmo necessário que completes esse passo por ti mesmo, mas é necessário que te voltes nesta direção. Tendo escolhido ir por esse caminho, te colocas no comando da jornada onde tu e somente tu tens que permanecer. Esse passo pode aparentar exacerbar o conflito ao invés de resolvê-lo, porque é o passo inicial para reverter a tua percepção e virá-Ia de cabeça para cima. Isso entra em conflito com a percepção invertida que ainda não abandonaste, ou não teria sido necessária a mudança de direção. Algumas pessoas permanecem nesse ponto durante um longo tempo, experimentando um conflito muito agudo. A essa altura, podem tentar aceitar o conflito ao invés de dar o próximo passo para a sua resolução. Tendo dado o primeiro passo, porém, serão ajudadas. Uma vez tendo escolhido o que não podem completar sozinhas, não estão mais sozinhas (T-6. V. A. 6)”.

Pois bem, agora é a hora da mudança de direção do currículo, de uma tentativa de mudança em se exercer em volição e/ou julgamento para uma presença inteira diante de nossos amados irmãos. Eles estão aí e não te decepcionarão. Ao lado d’Eles estão os anjos, que vieram afinal. Se eles pedirem amor, você dá. Se eles derem, você também dá. Esse é o único resultado de soma zero, quando o mundo neutro deixa o amor se estender, pois a matéria não tem poder para coisa alguma (“nada do que vejo tem significado”). 

Por fim, já que começamos falando sobre diferenças, como podemos medir a nós mesmos em relação aos outros? Já dissemos que medir a si mesmo diante de qualquer outro é tomar-se em hierarquias.  Logo, nosso valor unitário somente pode ser definido por Deus, e não por nós mesmos, pois no pensamento separado provido pela mente errada sempre tomamos nosso irmão como um corpo diferente; e se ele é diferente, tal distinção em contraste tem que ser dada em algum grau, ou nível. Este grau ou nível pode ser de ordem familiar, de afinidades (amigos, colegas de trabalho ou partilhas de comunhão em ideais), pode ser que te ocorra que algumas pessoas sejam mais benvindas que outras, e aqui não quero dizer que tal tipo de preferência deveria ser necessariamente negligenciada. Mas a Filiação está em todos e em cada um, pois todo mundo responde por ser “o mesmo”, não existe especialismo de família, classe, raça ou crença para Deus. Tenha fé em todos. Sobre isso, são do escritor argentino Jorge Luís Borges estas palavras: “a preferência pode muito bem ser uma superstição”. 

Ame indistintamente e o mundo será um lugar de puro amor. Antes de despertar, é preciso ver o mundo real. Vamos nos esforçar para isso.