PERGUNTA:
Por que é dito
no UCEM que uma das maiores dificuldades para achar um perdão genuíno é que
ainda acredita-se ter que perdoar a verdade, e não ilusões?
A ilusão não
pode ser perdoada verdadeiramente, simplesmente por não existir nada de real
nas imagens da ilusão no formato mundo. No entanto, quando as ideias que
configuram no mundo sua “aparência de existência” vigoram na suposição de que
existe algo real a se perdoar aqui, damos
realidade ao erro. Assim, surge através do perdão dado deste modo uma espécie
de justificação da condenação, pois agora o erro é real, e se o erro é real,
podemos inclusive nomeá-lo “pecado”. O perdão que admite a realidade do erro
visa conceber um pecador.
A contradição
presente nestes termos divulga, por oposição, a sinceridade presente no perdão
que se dá independentemente do ato a ser perdoado. O perdão que não julga, ele
não vê o erro como um pressuposto para doar bondade. Por outro lado, o perdão
associado ao conceito de erro como algo ilusório é uma verdade por conta da
característica permissiva de correção por parte de algo errado, passível de
correção, e que não é nenhum pecado. Já a contra-parte do perdão que visa
incorporar a culpa ou uma condenação expiatória ao erro, visa demonstrar a
superioridade daquele que perdoa “até mesmo isso”.
Isso não é
perdão — é doença. Por isso se demonstra claramente que perdoar não é ver o
erro como condenável, para depois “desculpar”. Jesus nos adverte: “observa a
trave no teu olho antes de ver o argueiro no olho de teu irmão”.
A consciência
do erro não visa ater condenação perpétua associada a um tipo de perdão. Não
existem vários tipos de perdão. A palavra perdão não pode admitir plural.
Perdoa-se apenas de um modo, pois existe apenas uma escolha a se fazer.
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Portanto, a
verdadeira ação do perdão reside no pleno poder de associar à ilusão a
característica ilusória que a define. O perdão é a consciência da irrealidade
da forma. Exercitar o perdão vigora na não validação das formas do mundo,
conforme disse-me certa vez meu amigo Marcos Morgado. Por isso também se adverte
no UCEM para que se perceba o perdão tal como é. O perdão não é barganha,
tampouco visa condenar afirmando o erro. O perdão livra a forma de qualquer
tipo de condenação, por associar ao erro sua característica de irrealidade.
Convém se possuir ética para uma vida calma, e honestidade para solidez da
mansidão, mas nenhuma virtude pode ser associada à verdade como barganha. Vide
para isto a história do Bom Ladrão.
Perdoe e ame.
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