Muito me desagrada ouvir pessoas
desatentas comentarem sua desatenção como uma sentença. Certo dia desses, disseram-me
de Zé Ramalho que suas músicas pareciam búzios, jogo de Búzios, sendo a
desordem. “Não dá pra entender quase nada do que ele diz.” Realmente, curioso
é: como então tanto êxito? E há tanto tempo? Não pode ser apenas o nada; ou, em
melhor hipótese, talvez seja mesmo por isso. Portanto, sendo tal “nada”
meramente simbólico, diremos dele coisas capazes de aproximar.
Na verdade, se estiveres a ler até
aqui, pode ser que já alcances entender a música de Zé Ramalho, pois não fostes
embora ainda. De toda forma, emprego mal o verbo “entender”, pois não é este o
caso, embora seja exatamente este o engano: não se pode alcançar entender — na
acepção que se compreende algo como sendo o exato igual — as composições do
poeta místico Zé Ramalho. Em suas músicas nada corresponde ao exato igual. Uma
pedra pode ser tudo, mas nunca deixará de ser fundamento. Portanto, é nas
imagens que reside o sagrado “segredo” das mensagens de Zé Ramalho. Tentaremos esboçar
aqui uma aproximação a algumas delas.
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Em “A Peleja do Diabo com o Dono
do Céu” o embate dos opostos é clarificado desde o título. Nosso apego em
imaginar o mundo como sendo o simulacro do céu, numa espécie benevolente de
platonismo, é desfigurado pelo ‘diabo’ da música com argumentos em favor da
relatividade do bem e do mal. Certo é que a leitura unilateral do platonismo
como o bem “bonzinho” desfigurou a sociedade a tal ponto que a neurose coletiva
hoje em dia parece residir na crença em que o acerto pode vir a ser o errado
acertado, ou a correção pela culpa, ou ainda a crucificação pela vida afora, no
que se afirma como algo natural e justo que “cada um carregue sua cruz”. Nisto,
nenhuma moral nos valha. Já sabemos pelos ensinamentos do UCEM que não há motivo
para se carregar nem cruz nem culpa. Mas gostaríamos que a cruz (ou o medo) fosse
o paraíso. Entanto, adverte o artista:
“Com tanto
dinheiro girando no mundo,
quem tem pede
muito, quem não tem: pede mais.
Cobiçam a
terra e toda a riqueza
do reino dos
homens e dos animais.
Cobiçam até a
planície dos sonhos,
lugares
eternos para descansar,
a terra do
verde que foi prometido,
até que se
canse de tanto esperar,
que eu não
vim de longe para me enganar”.
E na terra o homem vem a cobiçar
até “a planície dos sonhos / lugares eternos para descansar”. Bem, se o intuito
do homem é se enganar com o platonismo de bonzinho, vá lá! Mas aqueles que não
vieram “de longe” para se enganar sabem que a cruz de bonzinho é o mesmo que a
cruz de culpa e mal, sendo ambas engodo e ilusão, nada tendo nada a oferecer a
não ser artifícios que apontam na direção ora de um, ora de outro. Nisto, o
mundo gira, eternamente, neste embate de opostos. Então, na cobiça por riqueza “no
reino dos homens e dos animais”, os homens buscam “lugares eternos para descansar”.
Terra “do verde” prometida como sendo um lugar físico ou espiritual que se compra,
com dinheiro ou com barganha de bonzinho. E o dinheiro é símbolo capital
daquilo que se diz: “quem tem pede muito, quem não tem: pede mais”.
No entanto, é no rio que se vê o
restolho destes embates. Basta ver a poluição de qualquer rio que corta uma
cidade. No rio, pode-se ver a correnteza a arrastar de tudo: desde os peixes
que deslizam suaves nas profundezas aos troncos e outras coisas flutuantes que passam
acima, na superfície. O psicólogo suíço Carl Jung falava que no rio próximo a
sua casa de infância era comum aparecerem corpos de afogados, desavisadamente. Mas,
dizendo simplesmente, o rio nada tem a ver com o que é jogado nele. Como julgaríamos
o rio, então? O rio é bom ou mal? Na verdade, nada podemos dizer a respeito do
rio. Portanto:
"A nau
que flutua no leito do rio,
conduz à
velhice, conduz à moral.
Assim como Deus, parabéns o mal”.
Pois que, no rio de tempo, que é
a vida, tanto faz o deus de bonzinho, de dono do céu, como o deus do mal de malzinho.
É tudo a mesma brincadeira, os tais “jogos de enganar”. Podemos até rir disto
tudo, se quisermos. Aliás, no UCEM se diz que "na eternidade, onde tudo é um, introduziu-se uma ideia diminuta e louca, da qual o Filho de Deus não se lembrou de rir. Em seu esquecimento, esse pensamento passou a ser uma ideia séria, capaz de ser realizada e de ter efeitos reais" (Texto: Cap. 27, VIII, 6:2-3). Portanto, trabalharemos, cumpriremos nossos compromissos, caso
queiramos, sem jamais carregar nenhuma cruz. Não há nenhuma necessidade disso.
Finalmente, mesmo sobre este texto podemos dizer que
“O tom da
conversa que ouço me criva
de setas, e
facas, e favos de mel:
é a peleja do
diabo com o dono do céu”.
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Adicionalmente, a tradição do
trabalho de Zé Ramalho se faz pela linha simbolista que por vezes encontra pontos
de contato em Raul Seixas, mas não tão notadamente simbolista como naquele, pois com Raul Seixas se aprende muito sobre a “lei”
e a “doutrina”, mas com Zé Ramalho vai-se à “liturgia”.
Faço aqui meu voto de gratidão ao trabalho e de admiração à obra deste
admirável artista brasileiro, da Paraíba, o Senhor Zé Ramalho. Salve, nosso querido
Zé!